Segundo o estudo “A Saúde dos Portugueses: Um BI em Nome Próprio” do projeto Saúdes (da Médis), 18% dos jovens entre 18 e 24 anos sofrem de uma doença mental diagnosticada – quase o dobro do valor registado em 2021.  Além disso, 31% sentem que fatores psicológicos afetam o seu controlo sobre a saúde, e 56% relatam ter experienciado problemas de saúde mental nos últimos dois anos.

O fenómeno está longe de ser português. A Organização Mundial de Saúde (OMS) revela o mesmo quadro preocupante: entre 2018 e 2022, o sofrimento mental entre os jovens intensificou-se, com um aumento alarmante nos relatos de nervosismo, irritação, tristeza e medo, além do crescimento de 19,6% para 24,6% nos comportamentos auto lesivos.

Mas o que torna os jovens tão vulneráveis aos temas de saúde mental?

Vivemos tempos incertos. Desigualdade social, conflitos armados e a crise climática – com a crescente “eco-ansiedade” que lhe está associada – geram um clima de apreensão constante. Some-se a isso a pressão familiar e escolar, muitas vezes exacerbada por expectativas irreais, e a dificuldade em aceder ao mercado de trabalho e à habitação. O resultado é uma geração sobrecarregada, a braços com níveis alarmantes de ansiedade e instabilidade emocional.

Dito de outra forma, uma juventude despojada de juventude, no sentido de ausência de muitas das coisas – como a alegria, a leveza, a liberdade, a “irresponsabilidade”, o experimentalismo… – tão necessárias, que tanto caracterizavam esta fase da vida, preparando-a para as seguintes.

(Re)Agir é, sem dúvida, imperativo.

Precisamos, por um lado, de programas de apoio psicológico acessíveis nas escolas, de campanhas de sensibilização que combatam o estigma, e de políticas públicas que priorizem a saúde mental dos jovens. Por outro lado, precisamos de estar atentos ao risco – identificado por diversos especialistas – do autodiagnóstico e da automedicação nos temas de saúde mental, especialmente entre jovens, que procuram respostas rápidas na internet em vez de procurarem ajuda profissional qualificada.

Investir na saúde mental dos jovens é investir no futuro da nossa sociedade, sem dúvida.

Mas olhemos o problema pela perspetiva do copo meio cheio. No sofrimento dos jovens há, também, um enorme sinal de esperança.

Quando, segundo dados do mesmo BI da Saúde, apenas 16% dos jovens com 18-24 anos assume ser muito saudável no que toca à saúde mental, enquanto nos acima de 65 anos a percentagem é de 28%, tal também denuncia que a geração mais velha tem, dos temas de saúde mental, uma visão muito redutora e simplista, considerando serem questões e/ou problemas apenas quando as capacidades cognitivas (raciocínio, compreensão ou a memória) estão afetadas ou comprometidas. Ora, como sabemos, a saúde mental vai muito além destes.

Os mais jovens, por seu turno, ecoam com força sentimentos antes (e ainda pelos mais velhos) envergonhados, sussurrados ou calados, como ansiedade, a solidão e os distúrbios do sono.

É muito por força desta geração – jovem – que no mundo pós pandemia o tema da saúde mental se amplificou, deixou de ser o tabu que era e ocupou, finalmente, o espaço que merece nas discussões públicas.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) e com o Hospital da Luz e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

Uma parceria com:

Fundação Luso-Americana Para o Desenvolvimento Hospital da Luz

Com a colaboração de:

Ordem dos Médicos Ordem dos Psicólogos