Existe na sociedade um contrato que vale pela sua existência, mas que se encontra em incumprimento – o do passado com o futuro. O seu pressuposto, que vale como garante da sua sobrevivência, é o da relação fiduciária entre esses dois tempos. Por sua vez, é a solidariedade que atua como elo, providenciando a coerência interna ao acordo que permite a construção do projeto permanente que chamamos de comunidade.

Longas são as noites e duros são os dias para um futuro que não consegue construir família e que sucumbe às turbulências da incerteza – derivadas do já aludido incumprimento – e assim, vai resistindo o futuro por solidariedade do passado. Ora, na presente crise, onde existe dificuldade na atribuição de culpas e em que o passado não pode ser identificado como exclusivo causador, o Governo instaura uma narrativa e dissemina um perigoso discurso de ódio: a culpa das cadeias de transmissão do Covid-19 recai sobre as novas gerações – sobre o futuro que sucessivamente amparou e amorteceu os incumprimentos do passado.

É neste sentido, e de uma forma sub-reptícia, que o Governo passa leis e inflama discursos contra a minha geração. Sugere correlações absurdas entre o consumo de álcool e a pandemia. Cria normas anti contágio exclusivamente para uma classe etária. Embrutece as forças coercivas de quem já detém por si o monopólio da força. Instala um aparelho à la Santa Inquisição promovendo queimadas públicas dos meus pares.

Paradoxalmente, estamos a falar do país das 27.500 pessoas em Portimão, das 16.500 pessoas no Avante, das centenas de comícios políticos, das dezenas de manifestações, dos escritórios encafuados, dos transportes públicos não ventilados e das grandes superfícies comerciais abertas. Como bem sabemos, o vírus nestas situações é suspenso e só retoma a sua atividade nos jantares de 7 pessoas, nas cervejas inocentes na alameda dum parque, nas conversas informais em átrios, nas duas ou três festas “ilegais” que tiveram adesão e nas atividades subversivas propaladas nas bombas de gasolina depois das 23h. Mais ainda, não nos podemos esquecer que o grande catalisor pandémico é a noite em que 3 colegas de faculdade ocupam uma mesa no bar local.

Onde está a proporcionalidade, a justiça, a igualdade e a solidariedade?

O que o Governo se esquece é que são nessas mesas do bar que a taxa de depressão, ansiedade e suicídio decrescem. O que o Governo se esquece é que é nessas mesas do bar que muitas vezes a nossa Academia se vai alimentar no futuro. Mais ainda, o que o Governo se esquece é que é nessas mesas do bar que nascem as próximas grandes startups e os próximos grandes projetos. Na verdade, o que o Governo não sabe (ou finge não saber) é que as mesas de bar não são focos de vírus, mas antes focos de emprego, felicidade, intercâmbio de conhecimento, riqueza e comunidade – é o paradoxo das grandezas dos nossos governantes: desconhecem que a grandeza do país está na individualidade das coisas pequenas, nas pequenas mesas de bar.

Resta-nos a razão desta classe política ter elencado a minha geração como a culpada. Creio que a questão se resume à conquista e manutenção do poder: não votamos (ou por idade, ou porque as mesas de bar contribuem mais para a nossa vida do que as urnas), logo não temos, nem guarida eleitoral, nem interesse eleitoral – somos o bode expiatório sem repercussão pública.

Mas, e por não termos um direito de resposta, afirmo: não fomos nós, nunca fomos nós e não podemos deixar que o Governo dissemine essa ideia. Da pandemia não há culpados — da sua gestão esse será outro tema.

É deste modo, numa breve insurreição escrita (porque é esta que os tempos exigem), que não irei permitir que o Governo de todos cultive o ódio contra alguns no meu próprio jardim. Essa semente constitui um perigo incalculável porque corrói a solidariedade e confiança entre gerações que norteiam o nosso sentido de comunidade – essa semente pode muito bem ser o legado negro de António Costa.