Mariana Mortágua tinha o condão de irritar a direita. Mordaz, cáustica e acompanhada de uma boa dose de altivez, arrogância e sobranceria com que defendia posições sectárias, económica e financeiramente inconsequentes, Mortágua conseguia exasperar a pessoa mais tranquila da Terra. As últimas eleições remeteram-na para uma posição politicamente debilitada, mas o seu modelo fez escola e deixou sucessores.

A partir do momento em que a esquerda deixou de ser política e culturalmente dominante, não surpreende que o seu estilo mais histriónico tenha sido apropriado pela nova direita populista. E como na política não são só os estilos e as ideias que contam, mas também as pessoas (ou personagens), os modos e maneiras de Mortágua foram acolhidos por alguém que, no lado oposto da Assembleia da República, reflecte a mesma astúcia.

Sempre pronta para alimentar qualquer polémica que a promova, Rita Matias condenou o salário de 16 mil euros que Catarina Furtado aufere todos os meses da RTP. Fê-lo depois de Catarina Furtado a ter acusado de opinar sobre as demolições em Loures sem saber do que falava. A resposta da deputada do Chega foi imediata e dura, tal como nos habituámos com Mariana Mortágua. Mas o mais curioso não foi a semelhança no modo da resposta. Foi, acima de tudo, o conteúdo dessa mesma resposta.

Rita Matias criticou o salário demasiado elevado de Catarina Furtado, que é pago por nós, contribuintes, pois a apresentadora da TV trabalha para a RTP. À semelhança de Mortágua, a tónica da crítica centrou-se no valor do salário como modo de descredibilizar e diminuir a opinião de alguém. À semelhança de Mortágua, Matias considera normal e adequado que um político tenha uma palavra a dizer sobre o ordenado de um jornalista ou profissional de televisão. À semelhança de Mariana Mortágua, não passa pela cabeça de Rita Matias a possibilidade de a RTP ser uma estação privada de televisão e o ordenado de Catarina Furtado deixar de ser um tema público e político. À semelhança de Mortágua, Rita Matias usa para benefício do seu discurso político o mau uso de dinheiros públicos ao mesmo tempo que promove as causas que lhe dá origem.

Durante anos ignoraram-se as preocupações do cidadão comum que vive longe das bolhas cultural e política. Foi um erro indesculpável e é justo que se pague caro por ele. Mas é também um erro fazer de conta que são diferentes pessoas que têm mentalidades iguais, apesar de terem sido separadas à nascença.