Compreendo quem critique o seu discurso vago e relutância em assumir posições, algo patente na ausência de propostas concretas e na falta de demonstração de convicções políticas firmes ao longo destas eleições.
Compreendo também quem recorde a sua proximidade a Guterres e o seu apoio a Sócrates, que hoje procura afastar, ao mesmo tempo que tenta colher os benefícios da disciplina orçamental de Passos Coelho sem assumir os respetivos custos políticos.
Compreendo ainda quem aponte a sua liderança pouco assertiva e carismática, como revela o seu legado à frente da oposição, que acabou por não ser mais do que um período de transição num PS marcado por profundas divisões internas.
Mas nenhuma destas considerações explica, para mim, a razão fundamental pela qual é impensável votar em António José Seguro no dia 8.
Seguro pode não representar o PS mais extremado de António Costa ou de Pedro Nuno Santos. Pode até não ser o pior do PS. Mas Seguro é o PS: nele milita ininterruptamente desde os 18 anos e foi seu deputado, líder parlamentar e secretário-geral. E a herança do PS é conhecida: estatismo e clientelismo, indisciplina orçamental e endividamento, impostos elevados e dependência crónica de fundos europeus, empobrecimento de famílias e jovens, inúmeros casos de polícia e de abuso de poder e, mais recentemente, uma política de imigração em massa sem critérios de entrada, cujos efeitos nocivos estão apenas a começar a manifestar-se.
Por outro lado, tenho desacordos profundos com a forma de fazer política e com as propostas económicas contraditórias e demagógicas de André Ventura, as quais já explorei neste espaço. Tenho também reservas quanto aos efeitos de uma hipotética presidência sua sobre a governabilidade do país. Acredito, contudo, que a democracia me concede a liberdade de entender que o seu campo político está mais próximo das reformas estruturais que o país necessita – em matéria de fiscalidade, habitação, saúde, Administração Pública, entre outras – do que o do candidato socialista. Contudo, não é por aí que quero seguir hoje.
O que importa sublinhar é que as condições desta eleição são excecionais. Seguro tem uma verdadeira passadeira vermelha estendida à sua frente. Estaria a escrever exatamente o mesmo se tivesse passado em segundo lugar, vários pontos percentuais atrás de Ventura. A atual taxa de rejeição de André Ventura é inequívoca e inviabiliza a vitória numa eleição a duas voltas. É aritmeticamente impossível inverter esse cenário. E não, não há risco de que excesso de confiança do eleitorado de Seguro leve a uma desmobilização de uma magnitude que comprometa o resultado final. A vitória de Seguro está garantida pelo eleitorado de centro e de centro-direita que já optou, de forma explícita ou tácita, pela transferência de voto. Os votos seguintes não mudam o desfecho, só a escala do triunfo. A partir daí, um voto em Seguro é um voto no empoderamento do PS. Basta ver a análise sociológica enganadora que circula comparando mapas políticos das legislativas do ano passado com os das presidenciais – como se fossem eleições comparáveis -, já com o país totalmente pintado de cor-de-rosa. Um resultado esmagador dará ao partido um novo ímpeto e capital político, que se manifestará de forma decisiva nas reivindicações para o Orçamento do Estado para 2027. Cabe a quem não deseja ver o socialismo reerguer-se com uma suposta legitimidade popular reforçada assegurar que esta eleição seja o mais renhida possível.
Portanto, a minha mensagem para os eleitores indecisos de Cotrim de Figueiredo, Gouveia e Melo e Marques Mendes que não se revêem no manifesto dos “não-socialistas” e receiam ver o seu voto diluído numa ampla geringonça contra-natura, é simples: ninguém vos pode obrigar a colocar a vossa cruz na mesma caixa onde a colocarão bloquistas e comunistas. A esquerda que impõe hipocritamente linhas vermelhas à direita não é moralmente imaculada, nem detém qualquer superioridade ética. Aliás, sabem quem não teve linhas vermelhas? António José Seguro. Ou melhor, teve-as apenas enquanto lhe foram politicamente convenientes. Abandonou-as sem hesitação ao aceitar o apoio dos candidatos das extremas-esquerdas marxista-leninista e woke e dos respetivos aparelhos partidários. Para quem faz desta segunda volta uma cruzada pelos valores democráticos, é no mínimo irónico.
No domingo, o eleitorado dito “atrasado mental” (Sérgio Sousa Pinto, sic) que não quer o regresso de um modelo socialista de governação ao centro do poder político em Portugal e não se aceita submeter à vergonhosa campanha de escrutínio moral a que assistimos, pode fingir neutralidade ou pode votar contrariado, mas não pode lavar as mãos. Deve rejeitar o candidato do PS nas urnas.