Os estudantes universitários estão a reclamar, sem intervalo aparente, sobre as propinas elevadas. Fá-lo-ão por convicção moral ou por preguiça intelectual? Acho que sobretudo por falta de noção da inflação e pela ingratidão perante a mesma: será a propina atualmente (até mesmo no privado) uma das pouquíssimas coisas que a inflação não ‘atingiu’. Em 2001 pagávamos mais propina mensal do que atualmente, na universidade pública.
Se o pão, o azeite, as castanhas e quase tudo, em Portugal, subiu ao cume do euro, então a educação académica superior ficou protegida. Diria, até, empobrecida. A pretexto das propinas universitárias, que muitos classificam de “excessivas”, brotam textos inflamados sobre a alegada elitização do ensino superior público. Ora, a verdade é outra, e menos cómoda: as propinas estão praticamente congeladas, então, há mais de duas décadas, e a universidade pública, em termos reais, nunca foi tão acessível.
O discurso da desigualdade, pelo menos neste domínio, tornou-se um dogma conveniente — repete-se sem exame, e consome-se sem digestão. Tudo isto não é mais do que inauguro como o “síndrome Lisboa”– não é o síndrome de Estocolmo (em que o refém ou vítima passam a vincular-se e a ‘apaixonar-se pelo raptor ou refém) que é bem conhecido – mas é mesmo um novo síndrome: os portugueses estão reféns da tristeza saliente que vem da noção de uma vida custosa (e injusta) face ao que auferem mensalmente e que sobretudo Lisboa impõe. Mas, ao mesmo tempo, Lisboa conseguiu fazer dos seus reféns e vítimas (portugueses e não os turistas!) também os amantes da sua causa: considerar que tudo é muito caro e então também a Educação Superior o é. Uma mistura sem nexo, como o amor cego que se desenvolve pelo seu agressor (neste caso o capitalismo em devaneio que se vive na capital portuguesa, já considerada uma das mais caras do mundo – para quem nela vive como nativo ou imigrante).
É curioso, porém, como poucos olham para os factos. Não é o preço da universidade que separa classes, mas a persistência, o esforço e a capacidade de cada um em vencer as suas circunstâncias. Paupérrimo não é quem paga propinas; é quem as paga e não se esforça por as fazer valer (estudando e não faltando). É quem, desde os seis anos não tinha os lápis e os recursos todos dentro da mochila, mas mesmo assim enfrentou dificuldades e não fez beicinho. Eu própria o fiz — e, contra as probabilidades, fui das melhores alunas em todos os momentos de escola e sobretudo na universidade. Porque sabia eu e sabem muitos outros portugueses estudantes que a única sobra para nós é: estudar para ser o melhor (num plural bendito) e chegar à vitória. Fracassar nunca me foi permitido (ninguém me orientou) como sequer uma opção. A pobreza, percebo hoje, não me definiu; apenas me testou. É daí que vem a riqueza, não só a financeira, mas a moral e a ética. E nem sempre se tem de emigrar, não ouçam o sequestro lisboeta.
E, sobre a riqueza moral (a qual nem sempre cresce com a nossa riqueza na conta bancária), é uma ‘história barata’. A distorção moral começa cedo — nota-se já nos recreios do pré-escolar — e é amplificada por uma comunicação social que dramatiza o quotidiano com zelo quase apocalíptico. Veja-se: é muito caro estar na universidade pública, assim consideram, mas ter o último iphone é algo ‘necessário’? É que o preço dele é maior que a propina de um ano completo. Mas, estes reféns do ‘Síndrome Lisboa’ andam a gravar as suas queixas sobre as propinas em ecrãs iphone, de última geração. Lisboa é tão atraente quanto sequestradora, afinal.