Morreu um rapaz de 22 anos. Chamava-se Manuel Trindade. Tinha sonhos, corpo jovem, futuro aberto. Morreu no Campo Pequeno, colhido por um touro. Até aqui, uma tragédia. A morte de alguém tão novo é sempre uma brutalidade, uma violência contra o futuro.

Mas o que veio depois não foi menos perturbador. Uma multidão de anões morais celebrou a desgraça. Aplaudiram no teclado, gargalharam em emojis, brindaram com a morte como se fosse um triunfo civilizacional. Não festejaram o fim de uma tourada: festejaram o fim de uma vida.

E aqui já não estamos a discutir touradas. Esse é outro palco, outro debate.

É possível ser contra touradas sem perder a decência elementar. Mas o radical não discute, não pondera, não duvida: cega-se. É a cegueira moral que transforma convicções em ódio, militância em seita, diferença de opinião em sentença de morte simbólica.

Mais inquietante ainda é perceber como a causa animal, legítima no seu princípio, é tantas vezes usada como pretexto para construir palanques de superioridade moral. Invocam a compaixão, mas apenas quando lhes serve. Erguem a bandeira do respeito pela vida, mas esquecem-se da vida humana quando ela se cruza com os seus dogmas. A defesa dos animais, nobre quando sincera, torna-se grotesca quando usada como arma para humilhar, silenciar ou aplaudir a morte de alguém. Aí deixa de ser compaixão, é apenas ideologia travestida de virtude.

O caso de Manuel não foi apenas um acidente trágico numa arena. Foi um espelho. E o reflexo que devolveu é devastador: mostra-nos uma sociedade corroída pelo fanatismo, pela polarização e pelo prazer obsceno de odiar. Uma sociedade doente, que perdeu a medida da compaixão e já não distingue ética de hipocrisia.

No fim, fica a memória de Manuel: de jaqueta vestida, mas de coração aberto. Um rapaz que adorava animais, que sorria com os amigos, que viveu intensamente os seus vinte e dois anos. Caiu na arena, mas ergueu-se na morte, maior do que muitos vivos — porque ao doar os seus órgãos, ofereceu futuro a sete desconhecidos. Que o recordemos assim: não como o alvo de chacotas digitais, nem como um rótulo numa guerra ideológica, mas como um jovem generoso que, mesmo na despedida, foi capaz de multiplicar vidas.