É bastante fácil identificar um lugar para estacionar: é o espaço entre outros carros. Sou crescida e consigo estacionar o meu carro sem ajuda. Já o faço há quase trinta anos.

Nas cidades portuguesas, porém, há sempre um arrumador que me quer indicar o óbvio, acenando para onde estão os espaços entre os carros e mostrando-me como fazer para estacionar.

Às vezes, encontro um lugar por mim própria, porque ele está distraído a chatear outros condutores, e estaciono o carro antes de ele chegar. Mas eis que ele repara, e logo corre para mim, para me ajudar no último centímetro. Depois, fica à espera da moeda. Às vezes, a uma distância respeitosa. Às vezes, não. Quer me tenha ou não ajudado.

arrumador

Os arrumadores irritam-me solenemente. Não suporto pessoas a darem-me instruções, mas mais do que isso, é o facto de se permitirem cobrar pelo que fazem. Há umas semanas, escrevi sobre a minha ambivalência quanto a pedintes. Sobre arrumadores, porém, não sou ambivalente nem tenho dúvidas. Os arrumadores pedem dinheiro com uma atitude ameaçadora, e isso é detestável.

Nunca um arrumador me disse abertamente “dê-me uma moeda, ou alguma coisa pode acontecer ao seu carro”, mas não precisam de dizer. Eles separam-me facilmente da minha tranquilidade mental.

Os arrumadores ao pé da minha casa agem como se a rua fosse o seu feudo pessoal, com uma hierarquia só deles. Mantêm um ar de importância a que falta só uma farda oficial, e correm assim rua acima e rua abaixo, como se tivessem muitas responsabilidades.

Frequentemente, há um polícia ao pé, a vigiar o trânsito. Nunca faz nada para dissuadir os arrumadores. Perguntei a um destes polícias porquê.

“Não estão a fazer nada de ilegal. Estão só a pedir, oficialmente. Não podemos fazer nada, mas sim, eles irritam toda a gente e a nós também”.

Ah, bom.

Para qualquer pessoa, a não ser que seja um tipo gigante e musculado, ou um óbvio mafioso, um arrumador tem qualquer coisa de ameaçador. É pior se for de noite. E é pior ainda quando somos uma mulher e estamos sozinhas. E se nos acontece estar numa rua escusa, onde não há mais ninguém? Será seguro recusar-lhe uma moeda, depois da não-ajuda que deu?

Por vezes, quando me sinto mais teimosa e tenho tempo, finjo que estou ocupada num telefonema, até o arrumador se aborrecer de esperar, ou finjo que tenho de tomar uma nota urgente. A tática mais divertida é pôr um “ar esquisito”. Não é preciso ter um “ar muito esquisito” para confundir a maior parte dos arrumadores.

Normalmente, porém, não tenho o tempo para isso. Tenho de aguentar a confrontação com um “não” zangado ou dar-lhe uns cêntimos, apenas para não ter de pensar no assunto, enquanto, cá por dentro, estou a gritar “vá-se lixar! como atreve!?”

Se de um dia para outro, todas, mas todas as pessoas no país deixassem de dar um tostão aos arrumadores, talvez eles desaparecessem ao fim de uma semana. Mas, infelizmente, isso não acontecerá. Portugal vive de pequenos medos sobre um bicho-papão que é o criminoso, e o arrumador é um bicho-papão que nos pode atacar (queira ou não).

Pessoalmente, vou pedir a um tipo gigante e musculado para andar comigo no carro cada vez que preciso de estacionar na rua. Soluções práticas.

Are you afraid of arrumadores?

A parking space is quite easily identifiable. It is the space between other cars. It’s not hard.

I am a big girl and I can find my own parking space, and I can even park in it without help. I’ve been parking my own car for almost thirty years. I’m quite good at it, already.

However, in the cities, there’s usually an arrumador to point out the obvious for me, waving at me to show me where the spaces between cars are. If I accept his parking space, he (or she, but usually he) will guide me into it.

I might even find my own parking space, as he is busy waving and guiding other people, and I might even park in it myself without help, but he will still run across the road, waving and guiding to help me finish parking the last centimetre. Then, there he stands, waiting for his coin. Sometimes at a respectful distance. Sometimes, not. Whether he helped me or not.

Arrumadores bug the hell out of me. I cannot stand being told what to do and I can’t stand back seat drivers (which, for all intents and purposes they are, just externally), but more than that, they are begging. I wrote a few weeks ago about my ambivalence about begging. About this kind of begging, though, I am entirely single-minded. This is begging with menace and it is loathsome.

No arrumador has ever openly said to me “give me a coin and I’ll look after your car” but they don’t need to. They place themselves squarely between me and my peace of mind.

The arrumadores near my street act as though it is their very own fiefdom, with a hierarchy all their own. They give themselves an air of importance that just lacks a uniform as if they are performing a real job, running up and down the street as if they are doing something important.

Often, there is a policeman nearby, overseeing the traffic while there are roadworks or construction going on, and he will just stand there and let it happen. I asked a policeman, the other day, why he just stood there while the arrumadores carried on brazenly in front of him.

“They’re not doing anything illegal. Officially, it’s just begging. We’re not allowed to do anything, but yeah, it bugs the hell out of us too.”

Oh great.

To anyone, apart from a huge muscly guy or an obvious mobster, an arrumador can be a threatening thing. Worse if it’s dark. Worse if you are a woman on your own. What if you are in a backstreet where there is no one but you and the arrumador? Are you happy declining to give them a coin that they claim to deserve having non-helped you to park your car?

Sometimes, if I am feeling sufficiently bloody-minded and have time, I use the tactic of receiving a phantom phone call just as they arrive to get their coin, and I will stay talking to the phantom phone caller until the arrumador gets bored and goes away. Sometimes, I start drawing in my notebook as if I have parked to do some urgent drawing. Sometimes, I just look a bit weird and happily, it doesn’t take much to weird out an arrumador.

Usually, though, I don’t have time to be weird, and I have to have the arrumador confrontation. There are occasions when I say, angrily, that I have nothing to give them, there are other times when I stick a few cents in their hand, just so I can get away and not worry, while every fibre of my body is screaming “screw you!! how dare you?”

If from one day to the next, every single person in the country refused to pay arrumadores, then we would be free of them after one week. Sadly, that won’t happen. Portugal thrives on fear of the bogeyman, and the arrumador is just one more of the bogeymen who are out to get us.

Instead, I’m going to enlist the help of a big muscly guy who looks like a mobster to be my passenger every time I need to park. Practical solutions.