Em Portugal, ser empresário, trabalhador liberal e alcançar sucesso tornou-se quase um pecado capital para quem segue uma carreira política. O alarido em torno da antiga empresa do primeiro-ministro é um exemplo disso. A julgar pelos comentários, o mérito parece não ter qualquer importância, mas sim o “pecado” de ter tido vida antes de ser primeiro-ministro, e provavelmente querer continuar a tê-la depois. Para quem está de fora, o que realmente parece que conta é o facto de ele não ter sido funcionário público e de ter ganho acima do salário médio.

É certo que num país onde o salário médio ronda os 1.600 euros por mês, uma avença de 4.500 euros pode parecer excessiva, especialmente para quem nunca teve de recorrer a advogados. Mas quem já o fez sabe que não é.

Esta tendência para nivelar por baixo não é nova. Está presente no dia a dia de muitos portugueses e empresas, onde impera uma cultura que valoriza a mediocridade, o suficiente e o “poucochinho”. O próprio Marques Mendes, vem cultivar esta mentalidade, quando comunica algo que devia ser óbvio, que vai pagar a campanha do seu bolso e que para isso se vai endividar. Estes anos todos num dos maiores escritórios de advogados do país trouxe-lhe certamente rendimentos suficientes para pagar a campanha, mas preferiu fingir que não e continuar a apoiar e a cultivar esta mentalidade do poupadinho.

Eu pago a minha campanha do meu bolso e não vou pactuar com esta filosofia, que perpetua os mesmos de sempre no poder.

Essa mentalidade é que tem dificultado a implementação de um verdadeiro sistema de mérito, onde se valoriza quem se esforça, quem arrisca e quem realmente acrescenta valor. É muito bonito querer bons políticos, mas como é que os encontramos se continuamos a escolhê-los apenas nos sítios do costume? Na função pública, ou entre quem nunca teve outro emprego além de cargos de nomeação partidária.

Se nada mudar, arriscamo-nos a que, dentro de alguns anos, ninguém queira assumir estas responsabilidades. E então, teremos de nos contentar com gente que anda a “gamar” malas nos aeroportos. No fim de contas, quem alimenta esta cultura de mediocridade acabará por ter exatamente o que merece.