Não é por falta de tecnologia nem de talento que ainda estamos atrasados. Se a Ucrânia, em plena guerra, conseguiu lançar uma plataforma digital ao serviço de milhões de pessoas, então Portugal, em paz, com acesso a fundos europeus e com profissionais altamente qualificados, não tem desculpa.

Na Ucrânia apesar da invasão russa, foi possível criar uma aplicação chamada Diia, que dá acesso a mais de 130 serviços públicos. Desde licenças de condução a registos de casamento ou pagamento de impostos, tudo pode ser feito num só portal. É um exemplo claro do que se pode fazer quando há visão, vontade e coragem para agir.

Em Portugal, a burocracia continua a travar o crescimento do país. Cada papel desnecessário, cada assinatura obrigatória em presença, cada sistema que não comunica com o outro, é tempo perdido. E tempo, para quem quer criar, investir ou inovar, é dinheiro, é talento que se vai embora e é uma boa ideia que pode nunca chegar a sair do papel.

Imagine-se o que seria termos um “Diia português”: abrir uma empresa em poucos minutos, entregar os impostos sem dores de cabeça, tratar do registo de um imóvel sem filas ou pedir uma licença através de um clique, e numa só plataforma. Um Estado assim serve melhor as pessoas e torna-se também mais competitivo para atrair investimento. Os investidores procuram eficiência, clareza e rapidez. Temos tudo para sermos um destino de excelência, com o nosso clima e com as nossas capacidades reconhecidas cá e lá fora. Falta-nos apenas um Estado que acompanhe.

Em Portugal, há sinais de que algo pode mudar. A criação do novo Ministério da Reforma do Estado, liderado por Gonçalo Matias, é uma oportunidade que não devemos desperdiçar. Este ministério conta com dois secretários de Estado vindos dos altos quadros da Google, Bernardo Correia na Digitalização e Paulo Magro da Luz, na Simplificação, que podem trazer uma nova forma de pensar e de fazer.

A desburocratização não pode ser apenas mais um projeto-piloto nem servir só para conferências e anúncios. Tem de ser um compromisso real, acima de governos e de legislaturas. É preciso criar uma base sólida de comunicação entre serviços, como fez a Ucrânia, garantindo segurança, privacidade e inclusão digital para todos.

Se for dada prioridade à desburocratização e à digitalização dos serviços, podemos mesmo transformar o funcionamento do Estado. Não se trata de inventar a roda, mas sim de pôr a roda a andar.