Faz amanhã uma semana que o caso extra-conjugal de um CEO e da sua directora de Recursos Humanos foi revelado durante um concerto dos Coldplay. É impossível dizer com exactidão a quantidade de memes que já foram feitos sobre esse momento. Ninguém consegue contar tantos memes sem adormecer.

Achei que a Astronomer, a firma do casal apanhado em flagrante, era uma empresa de criação de conteúdos online. É que o eles conseguiram, com um filme de 15 segundos, alcançar o que milhares de influencers, youtubers, publicitários e humoristas andam há anos à procura: a fórmula mágica para tornar um vídeo viral. Horas de brainstorms inúteis, tentativas falhadas, ideias geniais que não funcionam e, afinal, bastava esta traição revelada. O segredo era, justamente, o segredo. Filmem qualquer coisa que não querem que se saiba e toda a gente vai correr a ver. Só que tiktokers insistem em publicar coisas de que se orgulham, em vez de intimidades de que se envergonham.

Mas o negócio da Astronomer não é esse e por isso, em vez de promovidos, Andy Byron e Kristin Cabot foram despedidos. Mas não foram os únicos. Eles podem ter perdido o emprego, mas houve quem ficasse sem profissão: desde esse dia, acabou-se o trabalho para milhares de detectives privados contratados por esposos desconfiados dos seus parceiros. Para quê pagar a um investigador para espiolhar um cônjuge, quando basta abrir o Twitter e consultar as trends?

Qual a probabilidade de Andy Byron e Kristin Cabot serem filmados pela câmara num concerto com 70 mil pessoas no preciso momento em que estavam agarradinhos? Não sei, mas é de certeza maior do que a probabilidade de nunca terem sido apanhados antes. É que são, muito provavelmente, os piores amantes da história mundial da traição conjugal. Com aquela reacção, admitiram imediatamente a culpa. É óbvio que a mulher de Andy Byron nunca lhe deve ter perguntado: “A que horas chegas logo, querido?” É certinho que Byron confessava logo tudo: “Descobriste-me! Ia chegar depois do jantar, pois tenho uma amante”. Gostava muito de conhecer Andy Byron, só para lhe perguntar duas coisas: “Onde é que tinhas a cabeça?” e “Às 4as feiras tenho um jogo de Poker com os meus amigos, não queres entrar?” Não deve haver muitos bluffs tão maus no mundo inteiro. Os filhos de Byron podem estar tristes, mas não devem estar surpreendidos: eram os únicos miúdos da escola que em Setembro já sabiam o que iam receber no Natal.

Este concerto bateu um recorde de outro espectáculo dos Coldplay que, curiosamente, teve lugar em Portugal. No concerto de Coimbra, em Maio de 2023, as dificuldades de trânsito à saída foram de tal ordem que houve espectadores que demoraram mais de 12 horas a chegar a casa. Agora esse recorde foi ultrapassado: ao fim de 7 dias, há um espectador que ainda não regressou ao lar. Quando por fim voltar, Andy Byron é capaz de ficar a conhecer o ditado ainda não popular, pois inventei-o agora mesmo: ou tens cara de pau, ou levas com um pau na cara.

Por uma daquelas coincidências cósmicas com que, de vez em quando, sou agraciado, ao mesmo tempo que Andy Byron deitava tudo a perder por não saber ser sonso, em Portugal, José Sócrates continuava a sua epopeia de negação de factos que, não tendo sido apanhados pelo cameraman de um concerto, foram repetidamente tornados públicos desde há vários anos. Sócrates é o Anti-Andy Byron, alguém que nunca se deixaria apanhar pela realidade. Se o ex-PM fosse filmado num concerto a trair a sua mulher, faria um fixe à câmara, apalparia a namorada e depois trataria de espetar linguadões a todas as raparigas num raio de cinquenta metros. No fim, ao ser confrontado pela comunicação social, reagiria com um daqueles esgares de nojo com que responde a todas as ofensas, desde “o almoço hoje é iscas” a “quem lhe paga os advogados?”, enquanto rosnava: “Amante num concerto dos Coldplay, eu? Como se atreve a fazer-me perguntas dessas?”