Estamos a atravessar uma transformação digital. Os modelos de negócio do passado são frágeis. Podemos comparar o impacto do digital com a revolução industrial em 1800. Qualquer indústria será mais ou menos forçada a pensar em inovar o seu modelo de negócio hoje em dia, devido ao efeito da transformação digital e da economia da partilha. Muitas indústrias perceberam que a internet das coisas, os grandes volumes de dados e as novas normas sociais tornam os atuais modelos de negócio obsoletos no futuro próximo. Por exemplo, os produtores de automóveis começaram a alterar os seus modelos de negócio para se tornarem fornecedores de mobilidade em vez de produtores de automóveis. É disso exemplo o serviço cargo da Daimler, que é uma plataforma global de partilha de automóveis. Além disso, as empresas da indústria energética, que até agora dependeram da produção centralizada de energia, precisam de inovar os seus modelos de negócio para se prepararem para uma produção energética mais descentralizada e para pequenas comunidades energéticas. Na realidade, num futuro não muito distante, poderemos vir a comprar a nossa energia a partir do painel solar do nosso vizinho e não da EDP. E, em áreas onde pode nem suspeitar, os modelos de negócio estão a mudar rapidamente. Por exemplo, no setor financeiro: a revolucionária tecnologia blockchain [1] permite transações financeiras diretas e pode vir a substituir o papel dos bancos tradicionais como intermediários. Um estudo que realizámos na CATÓLICA-LISBON sobre o setor financeiro mostrou que as empresas Fintech já começaram a desestabilizar o mercado, enquanto os bancos tradicionais lutam por reconfigurar os seus modelos de negócio.

Muitas empresas são afetadas pela transformação digital. Contudo, os desafios para as empresas variam de setor para setor e conforme as suas atividades principais. As empresas cujas atividades se focam maioritariamente em profissões relativamente rotineiras precisam de estar alerta, pois o que quer que possa ser estandardizado vai ser automatizado no futuro através de algoritmos inteligentes de adaptação. As empresas que operam em ambientes complexos e não estandardizáveis vão, pelo menos para já, ser menos afetadas pela digitalização.

Independentemente disso, há três pontos que vão ser fundamentais para que as empresas se mantenham competitivas na era digital. Primeiro, precisam de criar uma visão digital e aumentar a sua intensidade digital. Um estudo recente da Capgemini e do MIT mostrou que as chamadas ‘Digirati’, empresas que têm uma visão transformadora e que investiram em serviços digitais avançados, criaram mais 9% de receita, aumentaram a rentabilidade em 26% e tiveram uma avaliação de mercado superior a 12%. Segundo, vai ser fundamental conceber serviços com os quais os clientes se identifiquem. Sugiro sempre que se assuma uma perspetiva de ‘trabalho a realizar’ e que se fale com os clientes. É sabido há já bastante tempo que os clientes não querem apenas produtos, mas sim a satisfação de necessidades. Por último, faz sentido em muitas situações testar novos modelos de negócio em unidades organizacionais autónomas, nas quais as equipas tenham suficiente liberdade para desenvolver e aprender sem estarem constrangidas pelo pensamento tradicional. A tendência para as incubadoras de empresas ou para os laboratórios experimentais nas empresas reforça este ponto.

Uma coisa é certa: a mudança vai permanecer como a única constante nas empresas, hoje e no futuro. Abraçar o digital nos modelos de negócio pode ser apenas o início.

PhD, Assistant Professor for Strategy and Innovation and the Director of the Smart City Innovation Lab at CATÓLICA-LISBON

[1] (Nota da tradutora) Tecnologia que está por detrás da moeda bitcoin e através da qual ficam registados todos os passos das transações virtuais.