Eu trabalho no hospital mais mediático do país. O que aparece nos media de forma mais frequente e, maioritariamente, pelas piores razões.

Desde as longas e inaceitáveis horas de espera no Serviço de Urgência, aos conflitos internos e fraturantes da equipa cirúrgica, à demissão do diretor do Serviço de Urgência, às cartas públicas dos médicos internos de cirurgia, à intervenção da Ordem dos Médicos a retirar idoneidade formativa, e, por fim, ao Conselho de Administração que renunciou ao cargo. Estas são apenas algumas das muitas notícias em que todos nós, hospital e profissionais, fomos tema diariamente na comunicação social ao longo dos últimos dias/semanas/meses. Um hospital, aparentemente, em estado de ebulição.

Um hospital com uma área de influência que abrange cerca de 600.000 habitantes, numa malha populacional com profundas dificuldades sociais e económicas e com a maior densidade de população imigrante do país. Às determinantes sociais de saúde, sobejamente conhecidas, acresce que esta área geográfica tem das maiores carências de médicos nos cuidados primários de saúde do país. Como agravante, o espaço físico e camas de internamento está preparado para menos de metade da população que serve, e o número de profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, técnicos, etc.) está sistematicamente abaixo do que encontramos noutros hospitais da mesma região ou do país.

Pelas razões enumeradas, este hospital e esta ULS deveriam exigir não só o direito como o imprescindível dever de uma especial atenção/diferenciação positiva por parte da tutela. A população, socialmente frágil e dependente de cuidados de saúde públicos, mereceria essa diligência, e os profissionais desta casa, que diariamente se esforçam e dão o seu melhor nas condições adversas em que trabalham também (e neste grupo incluo todos os grupos profissionais, bem como o Conselho de administração).

Contudo, a tudo isto, sucessivos ministérios da saúde têm sido incapazes de responder com uma intervenção dirigida, individualizada e adequada às características específicas desta unidade hospitalar/ULS.

Perante mais uma crise institucional, e esta sobejamente mediática, a Sra. Ministra da Saúde, Dra. Ana Paula Martins, achou por bem remeter todas as responsabilidades para os dirigentes da ULS, e fazer as seguintes declarações no Parlamento no passado dia 6 de Fevereiro, as quais tive oportunidade de ouvir e visualizar na televisão:

1º ) relativamente ao serviço de Cirurgia “não foi uma vez nem duas vezes que falámos com o Conselho de Administração e lhes demos todas as possibilidades para tentar recuperar esta situação”.

2º ) “Era um hospital organizado, que tinha urgências que nunca fechavam, sem listas de espera, construído para dar respostas numa zona problemática”, e agora “temos um hospital que se degradou,  urgências que têm macas ao longo dos corredores”.

Uma vez que a Exma. Sra. Ministra fez estas declarações públicas venho também publicamente solicitar os melhores esclarecimentos na medida em que a informação interna que detenho não se coaduna com as mesmas, pelo que urge efetivamente averiguar.

Em primeiro lugar, gostaria de questionar a Sra. Ministra quando vai resolver a situação do Serviço de Cirurgia, sobre o qual afirmou que já teria dado antecipadamente a solução ao CA, mas que este, subentenda-se que por negligência, incompetência ou eventualmente pura má fé, não quis proceder em conformidade. Agora que o CA se demitiu, para não obstaculizar a vossa ação ministerial, aguardamos que a Sra. Ministra proceda diligentemente às medidas resolutivas da situação, de forma a repor a capacidade de resposta cirúrgica da instituição em termos clínicos e formativos. Contudo, de acordo com as notícias veiculadas na reunião com a Ordem dos Médicos, no dia 10 de fevereiro, a Sra. Ministra “ percebeu que havia um problema e vai desenvolver um plano”. Para quem já sabia, há meses, o que fazer digamos que, no mínimo, fica muito aquém das expectativas.

Em segundo lugar, e na qualidade de médica, diretora de um Serviço deste hospital desde há mais de 12 anos, venho remeter a V. Exa., uma correção da informação que veiculou, presumo que inadvertidamente, mas a qual urge corrigir. Assim, relativamente à questão de que éramos “um hospital organizado “, posso garantir, com conhecimento de causa, que continuamos a sê-lo e a prestar os cuidados aos doentes de forma organizada e adequada, mesmo perante todas as dificuldades e insuficiências já referidas.

Relativamente a não termos, no passado, listas de espera nem urgências que nunca fechavam. Estamos em 2025, pelo que presumo que tenha ocorrido um súbito declínio nemésico de V. Exa., num país em que assistimos, de norte a sul, a encerramentos diários de urgências, desde a Urgência geral, à Pediatria e Obstetrícia. Confirmo que tínhamos e continuamos a ter listas de espera de consultas e de cirurgias bem como urgências fechadas, estas últimas, supostamente sempre de acordo com indicações da tutela.

No que respeita a termos um “hospital que se degradou” estou completamente de acordo, e agradeço que o tenha destacado publicamente. Temos, efetivamente, um hospital que não garante ao momento atual, condições estruturais adequadas ou modernas de funcionamento, nomeadamente com chuva/inundações nos corredores do hospital, insuficiências do sistema de ventilação/climatização, ausência de número adequado de gabinetes para consultas e de camas para internamento, com quartos triplos/quádruplos/sêxtuplos completamente desadequados da modernidade necessária nas instalações hospitalares. Penso que seria esta temática à qual se referia, quando elencou este ponto no Parlamento. Poderia eu também discorrer sobre outros temas, como sejam as dificuldades dos serviços farmacêuticos e de logística de responderem às exigências de uma das maiores ULS do país com tão poucos recursos humanos, mas talvez fique para outra oportunidade.

Relativamente ao facto de termos macas nos corredores das urgências, fiquei incrédula com a indignação da Sra. Ministra no Parlamento. “Macas nas urgências?!…” Durante alguns segundos questionei-me se ambas residiríamos no mesmo país. Refletindo um pouco, conclui que eu devo frequentar um meio social diferente da Sra. Ministra. Os hospitais públicos que eu frequento, e o meu em particular, têm macas nos corredores das urgências ou nas enfermarias, se for essa a decisão (como alguns CA que V. Exa. deve conhecer) porque não têm camas de internamento suficientes. Ah!.. Esqueci-me de um pormenor de não somenos importância!… Quantas e quantas vezes ao longo destes 30 anos de SNS, já vi serem “mobilizadas” dezenas de macas dos Serviços de Urgência previamente às visitas dos governantes. Um êxodo de macas e de doentes das salas e dos corredores de forma a libertar visualmente o Serviço de urgência para ministros e televisões! Caricaturalmente, da mesma forma com que se limpa a casa, varrendo o pó para debaixo do tapete, antes das visitas chegarem, existem administrações muito simpáticas e prestáveis (felizmente que não é o caso da minha, atualmente demissionária) que também o fazem, para que V. Exa e outras entidades altamente respeitáveis não sintam, visualizem ou cheirem os constrangimentos de espaço das pessoas doentes nos serviços de urgência dos hospitais do SNS no nosso país. São “constrangimentos” que apenas nós, os extraordinários e dedicados profissionais da saúde, temos o benefício, em exclusivo, de usufruir.