A Maria trabalhava num hotel. No final de Junho foi identificada como contacto de alto risco de um dos hóspedes. Ficou em isolamento domiciliário. Nunca teve sintomas e após 14 dias teve indicação para retomar a vida normal “pois estava tudo bem”. Não fez teste de rastreio pois foi sempre assintomática.

Na casa da Maria vivem 7 pessoas, ela, o marido que trabalha num supermercado, a filha que frequenta o ATL, a sogra que está em casa, a irmã que trabalha num café e os dois sobrinhos que estão na creche. Durante essas duas semanas a Maria tentou cumprir as regras. Apesar da casa ser pequena, lá se foram arranjando. Como nunca esteve doente ia ajudando no que podia, que uma casa tem sempre muito por fazer. Foi um grande alívio quando lhe foi dada autorização para voltar ao normal. A partir desse dia puderam voltar a jantar em família e foi bom poder voltar a abraçá-los sem receio.

Porque a Maria estava grávida e se aproximava a data do parto foi ao hospital. Como parte das rotinas pré-parto a Maria realizou o rastreio. Foi confirmada a infeção por SARS-CoV-2 em Julho, apenas 2 dias após terminar o seu período de isolamento.

Agora está novamente em isolamento, no seu quarto, desta vez já acompanhada do seu recém-nascido que nasceu saudável e não infetado. Os restantes membros da família foram então colocados em isolamento mas nenhum foi testado porque estavam assintomáticos. Estão todos em casa, em vigilância pelas autoridades de saúde. A sogra que sofre de hipertensão e diabetes começou ontem com tosse e falta de ar, parece que se anda a cansar mais…

A história da Maria reflete o modelo tradicional de gestão de surtos em Saúde Publica, que a DGS aplica. Muitas publicações científicas e muitos peritos recomendam outra metodologia. Numa recente publicação do New England Journal of Medicine, uma das mais prestigiadas revistas científicas, a ausência de rastreio dos assintomáticos foi justamente denominada o “Calcanhar de Aquiles” da estratégia de controlo da epidemia. A infecção por SARS-CoV-2 é muitas vezes assintomática. As pessoas infetadas, apesar de não terem sintomas, podem transmitir a doença. Já não restam dúvidas sobre este facto. Ao persistir numa estratégia de só testar os contactos de alto risco que desenvolvam sintomas, perde-se uma oportunidade valiosa de bloquear cadeias de transmissão.

Voltemos à Maria, que está hoje muito angustiada. A sogra afinal estava mais doente do que parecia e foi ventilada logo que chegou ao hospital, está nos Cuidados Intensivos. Há agora um surto no supermercado onde o marido trabalha. O ATL da filha fechou, porque a auxiliar estava infetada. No café onde a irmã trabalha os clientes tiveram medo e deixaram de aparecer. O que poderia ter sido feito de diferente? A Maria após ter sido identificada como contacto de alto risco de um hóspede do hotel deveria ter sido isolada e testada. Se o teste de rastreio tivesse sido realizado, saberíamos que a Maria apesar de estar assintomática estava infetada. Se assim fosse todos os membros da família teriam sido isolados de forma atempada evitando o que aconteceu: transmissões secundárias de infeção na família e posteriormente na comunidade. Bloquear as cadeias de transmissão significa agir rapidamente. Isolar e testar os contactos.

O importante não são os números diários de doentes positivos para SARS-CoV-2. O importante é mantermos a transmissão comunitária controlada, em níveis suficientemente baixos, de molde a que todo país possa funcionar, estruturas de saúde e economia. Numa primeira fase, os números até podem aumentar mas posteriormente teremos melhores resultados. É preciso uma visão a longo prazo que infelizmente nos tem escapado.

Na ausência de vacina ou tratamento, uma estratégia de testagem clara, bem estruturada é uma das ferramentas essenciais e que permite que a economia do país retome a sua atividade. Leia-se a este propósito o documento da OCDE “Testing for Covid-19: A way to lift confinement restrictions”. Na Saúde precisamos de dar resposta aos doentes não Covid. É imprescindível retomar a atividade de consultas, tratamentos e cirurgias, sob pena de assistirmos a um agravamento da morbilidade/mortalidade, por todas as outras causas. Na economia é fundamental desenvolver a confiança e retomar as atividades. As escolas têm de voltar a funcionar em regime presencial de forma segura e não devem estar sujeitas a ciclos de encerramentos sucessivos por casos de Covid.

Defendo que precisamos de testar os assintomáticos que sejam contactos de risco. Nem sequer é algo inovador. A norma recentemente publicada é ambígua e deixa à consideração de cada autoridade de saúde, testar ou não os contactos de alto risco, co-habitantes ou contactos profissionais. Não pode haver “estados de humor” nesta matéria.

Chega a ser incongruente um país, que pretende rastrear passageiros que chegam de países de alta incidência da doença, na chegada ao aeroporto, mas que não rastreia as pessoas que são contactos de alto risco dentro das suas próprias fronteiras. Fará sentido obrigar doentes oncológicos a rastreios prévios a cada ciclo de quimioterapia, muitas vezes de forma quinzenal, sem ter em consideração se se encontram em regiões com baixa ou elevada prevalência de Covid e não rastrear os contactos de alto risco de doentes Covid? Fará sentido aplicar rastreios de forma generalizada em alguns locais apenas porque a pressão mediática/política assim o exige? Ou seja, rastreamos muito em Portugal, mas não rastreamos muitos dos que deveríamos efetivamente rastrear.

Como profissional de saúde, como mãe e como cidadã devo exigir um planeamento e uma resposta robusta e sem ambiguidades. Não serve de desculpa que isto é um problema mundial e que é uma grande fatalidade: há muitos países que se estão a comportar muitíssimo bem e outros nem por isso. Poderemos estar nos mais capazes.