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A liberdade é a escravatura. A ignorância é a força. (George Orwell, 1984)

 A cultura é fundamental, é condição da liberdade, dizia Epicuro e reitero eu essa evidência. E do desenvolvimento, da democracia, da dignidade. “Mas se cultura é dar dinheiro para “engolidores de fogo”, peças do “vamos matar os fascistas”, “vamos queimar o Ventura” e artes duvidosas, etc., é para rir [ou chorar]”, escreveu o meu Amigo João Brás.                                           .

Quarenta e dois milhões para tudo o que não se sabe o que é, mas 600 mil euros para o sector do livro. E 600 mil para quem, com que critério? Receio que será o mesmo adoptado no apoio à comunicação social – “pode-se tirar o tigre da selva, mas não a selva do tigre”, dizia o nosso Calvin.

Para as editoras, para a leitura e o livro – e para o país crescer – julgo que já seria muito bom uma política fiscal adequada. Portugal morre por extorsão fiscal (instituído pela Senhora Doutora Manuela Ferreira Leite, o “pagamento especial por conta” é disso um exemplo, metáfora hiperbólica de uma sociedade da desconfiança e de um Estado que a alimenta). E pela falta de uma escola a sério.

Hipermercados e FNAC podem vender jornais (percebe-se…) e discos, mas livros não podiam, só depois da intervenção do PR passaram a poder.  E não podiam porquê? Para não fazerem concorrência desleal às livrarias fechadas, diziam. Mas manuais e livros de apoio ao estudo (Leya e Porto Editora) podiam ser vendidos (ainda bem), isto é, a venda desses livros, que obriga “toda a gente” a ir comprar, não contagiava. E, como sempre, as historietas circulantes, como, por exemplo, a de um livreiro, dito “muito amigo” da ministra da Cultura, que à abertura das livrarias parece preferir o encerramento. Ou a do director  da APEL (do Grupo Leya) à frente do processo de diálogo com a Drª Temido da Cultura, que terá afirmado, ingénuo e inocente, que a SONAE deixará de vender livros depois da pandemia.

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E mais um primeiro lugar no ranking da desgraça: Portugal é o único país da Europa com proibição de abertura de livrarias. E outro: os números do Eurostat colocam-nos na cauda do índice de leitura, atrás de nós só a Turquia e a Roménia de entre os países inquiridos. Como bem disse Francisco José Viegas, “a proibição da venda de livros é desde o início uma grande tolice”, outra evidência da miséria e da teimosia de um  Governo que nunca ouve quem devia.

No panorama pós-pandemia, o que restará do sector editorial e livreiro? De editoras de livros a sério, que miúdos e graúdos devem ler, restarão quantas editoras? E ainda bem que restará alguma coisa, digo eu, esperando que sejam lúcidos e altruístas os fortes que restarem. Na distribuição circence do bolo que anuncia, irá ter o Governo um critério que tenha noção da pluralidade a preservar?

Quanto à escola, o afastamento dos alunos da leitura, com a substituição do livro por quilos de manuais escolares e produtos afins ilegíveis, ainda para mais exigindo-se que sejam veículos de ideologia e idiotização, parece ter sido um processo programado.

Um inquérito realizado por Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada* revelava que Cosmos**, de Carl Sagan,  era um dos cinco livros mais citados pelos alunos nos anos 90. Hoje, são raros os professores que leram essa obra-prima, também de… educação para a cidadania. Pergunte-se hoje a alunos e professores que livros, que autores lêem. No secundário ou no universitário.

A propósito de Cosmos deixo um fragamento expressivo**:

“Os livros quebram as cadeias do tempo, provam que os seres humanos são capazes de fazer magia. (…) A escrita cuneiforme, o antecessor do nosso alfabeto ocidental, foi inventada no Médio Oriente há cerca de 5.000 anos. Durante milhares de anos, a escrita foi cinzelada em barro e pedra, riscada sobre cera, casca de árvore ou couro; pintada em bambú, papiro ou seda – mas sempre uma cópia de cada vez e com excepção das inscrições em monumentos, sempre para um pequeno número de leitores.

(…)  Foi então que na China  entre o século II e o século VI, se inventaram a tinta e a impressão em blocos de madeira gravada. O que permitia fazerem-se e distribuirem-se muitas cópias do mesmo trabalho ao mesmo tempo. A ideia demorou 1.000 anos a chegar à Europa remota e atrasada. Depois, de repente, os livros começaram a ser impressos por todo o mundo. Exactamente antes da invenção dos caracteres móveis, cerca de 1450, não havia mais do que algumas dezenas de milhares de livros em toda a Europa, todos manuscritos; apenas tantos quantos havia na China 100 a.C. E um décimo dos existentes  na grande Biblioteca de Alexandria. Cinquenta anos mais tarde, cerca de 1500, havia dez milhões de livros impressos. A cultura  ficava ao dispor de quem quer que soubesse ler. A magia estava por toda a parte.”

Não desistam da magia, não desistam da liberdade.

Os Jovens e a Leitura, Caminho, 1994.
** Cosmos, “A persistência da memória”. Gradiva.