Nos últimos 50 anos, Portugal transformou-se de forma verdadeiramente extraordinária. Construímos uma democracia formal estável, abrimos a economia e a sociedade ao exterior, integrámos a coligação de povos e Estados mais bem-sucedida na História da Europa (a União Europeia), e, nos anos mais recentes, deixámos de ser um ilustre desconhecido para passarmos a ser o destino de eleição de muitos franceses, ingleses, norte-americanos, italianos, alemães, belgas, suecos, canadianos, entre muitos. Há alguns anos escondíamos a etiqueta Made in Portugal, agora exibimo-la.

Nem sempre temos consciência desta mudança radical operada em meio século e é importante assinalar este progresso, embora com plena consciência de que não há futuro sem exigência.

Para atingir o crescimento qualificado, é essencial que Portugal aposte em estratégias de desenvolvimento mais assertivas, desde logo promovendo uma fiscalidade justa e competitiva como motor de desenvolvimento económico e social. Para que se possam aumentar salários, os impostos sobre a atividade das empresas têm de diminuir. Tal permitiria, ainda, aumentar a competitividade na captação de investimentos nacionais e internacionais.

O processo de modernização do país também deve pensar o território, reduzindo as desigualdades entre regiões e potenciando as suas especificidades. Não obstante a evolução das últimas décadas, continua a ser premente aproximar mais o interior do litoral e o Norte do Sul, com novas infraestruturas com capacidade para dar resposta às necessidades das pessoas que ali vivem e dos que as querem visitar.

Nesse sentido, o investimento na recuperação dos territórios e do seu património é fundamental para fazer estender a capacidade do setor do Turismo a todo o país, promovendo uma reabilitação económica coesa. Portugal tem um vasto património edificado e paisagístico espalhado pelo país e uma herança cultural rica a par de valências que podem – e devem – ser aproveitados, valorizados e divulgados.

Isso também permitiria retirar pressão turística aos principais centros urbanos, que se consolidaram como destino de eleição de um número crescente de pessoas vindas de todo o mundo. E dentro das cidades, devem ser criados novos focos de centralidade, aliviando o peso exercido sobre os centros históricos e beneficiando outros bairros, outras entidades e outras populações.

Uma política de segurança pública que possibilite uma vivência comunitária tranquila e o bem-estar das populações residentes e das que nos visitam tem, naturalmente, de ser pano de fundo de tudo isto. Portugal não pode perder a imagem de um país seguro que dá confiança a quem cá vive, trabalha, ou que quer vir a viver e, muito importante, investir.

Para conseguirmos aproveitar todo o potencial do país, é este o momento de valorizar o nosso património cultural e a criação artística contemporânea nas artes plásticas, literatura, artes performativas, cinema e arquitetura – área na qual Portugal é uma referência internacional.

Como tal, temos de apostar na promoção da cultura (tão rica!) do nosso país e, assim, disseminar conhecimento, promover mais abertura à diferença, e incentivar a criatividade. Isso não pode acontecer sem um reforço orçamental do Estado de estímulo ao setor e sem um estatuto de mecenato mais atrativo, que leve mais empresas e particulares a realizar apoios de forma crescentemente convicta (e com mais retorno) à criação e divulgação artística.  Suportar, por esta via, as entidades culturais mais empenhadas nesta fulcral missão, é absolutamente essencial.

A par do inequívoco valor per se da Cultura, há ainda o impacto que esta tem na sustentabilidade económica, social e ambiental promovendo a coesão, a mobilidade social ascendente e a sensibilização para temáticas fundamentais, das quais se destaca a emergência climática e proteção do planeta onde vivemos.

Neste contexto, impõe-se uma intervenção integrada que inclua um trabalho de proximidade das instituições do Estado central e local, juntamente com diversas entidades sem fins lucrativos, que se regem pelo interesse público.

Há, no entanto, um fator que tem de estar na base de todas estas apostas: a Educação. Uma juventude mais educada é o alicerce de uma população mais informada, com espírito crítico para fazer escolhas mais conscientes, reforçando o sentimento de identidade cultural em todas as suas dimensões e capaz de contribuir para que Portugal tenha um amanhã melhorado.

Um plano de ação que, partindo destas linhas, tenha como objetivo criar um país moderno que, ao mesmo tempo, respeita a sua herança histórica e cultural, tem de ser desenhado agora, para vir a ser aplicado na próxima década. O tempo é este. Porque um país com futuro exige um rasgo ambicioso, que a arte e a cultura podem ajudar a abrir. É essa, aliás, a sua função: realizar o que agora parece impossível.

Ana Pinho é licenciada em Economia e trabalhou na banca de investimentos. Passou pela Christie’s Education London e pelo Sotheby’s Institute London, antes de assumir a presidência do Conselho de Administração da Fundação de Serralves — onde é atualmente presidente do Conselho de Fundadores. É membro do Clube dos 52, uma iniciativa no âmbito do décimo aniversário do Observador, na qual desafiamos 52 personalidades da sociedade portuguesa a refletir sobre o futuro de Portugal e o país que podemos ambicionar na próxima década.