19 de Maio 2020

Regresso a St Andrews para a semana: tenho canalizador, homem do gás, jardineira (verdadeira “Dama da Noite” tal a inebriante fragrância!), alguém a substituir a porta da garagem, reuniões urgentes no R&A, etc.

Fico com pena de deixar o Porto, mas sente-se bad breath (acho a expressão sem finesse, aqui diz-se mau hálito) vindo do sul, exalado por um ramalhete da gente rosada que manda em Lisboa. Tem no meio uma flor encarnadíssima, variedade em que até as pétalas parecem ter feitio de foice, umas, e martelos, outras. Nem se entende como os botânicos do horto do Rato, muitos deles gente de qualidade, conseguiram tal híbrido. Este anda de Porsche, dizem que canta o Avanti Populi ou a Internacional aos gritos pela janela do bólide, tem péssimas maneiras, fala alto e injuria, não tem afinidades com nenhuns Santos, mas é esse o nome que usa, talvez para disfarçar. O homem é Ministro, o tal que quer o povo (incluindo eu) a mandar na TAP, mas depois não atina com o que lhe sai da boca na euforia quase sexual de mandar, sem que o calem. Estas arruaças cheiram-me a sinal de grande fraqueza, um frágil.

O Guardian, um jornal inglês que eu sei que o Hans aprecia (esquerda, volver!), nem encostado às cordas pede ou aceita libras de Downing Street (nem o meu Scotsman, pode crer!). Pois aqui na Lusitânia isto, em matéria de jornais e TVs, assobia tudo mais fino (I love esta expressão!). E é fácil: os que dizem Amen ao Johnson cá do sítio (o Costa) e, claro, ao tal Santos do Porsche, vão pedir e levam umas boas massas para afinarem a voz “à moda” e não perderem a linha de canto. Outros, que não obedecem aos rosados (nem sei por que não lhes chamo vermelhos…), levam uns cents, e que se calem, se possível para sempre. Desta gente que agora manda aqui, alguns, com esses favoritismos, fazem lembrar a dupla propagandista Goebbels/Riefenstahl, desculpe lá Hans, estar a recordar esses nomes horrendos. E também, tal como nos tempos do Stalin, fazem photoshop, retocando tudo o que nos media não cumpre com o manual e com os soldos que dão a empochar (francesismo, sorry…).

E o Estado e os que lá mandam ao “dar” dinheiros esquecem que não é deles: é dos lusitanos, e só e apenas dos lusitanos. Não se pode nunca esquecer que o Estado não tem outra fonte que não seja o dinheiro do bolsinho de cada família, que é o que os lusitanos ganham! O que o Estado quer gastar vai buscar “emprestado” às poupanças de cada um, a mais nenhum sítio! Não adianta pensar que é “alguém” abstrato que paga! Quem paga é muito concretamente cada portuguesinho! Essa coisa de “dinheiro público” não existe! Existe só e apenas dinheiro que é o que cada um tem no banco, muito ou pouco. A responsabilidade moral daqueles que mandam ao gastar os biliões de euros que os lusitanos emprestam ao Estado é colossal. Olhe, Hans, isto parece conversa à moda da Thatcher, mas, ou fazem-no sabiamente, ou então, bolas! Os rosados ao gastar da despensa que não é deles, mas sim da casa cuja gerência apenas temporariamente lhes foi contratada, deviam ter tino em não a esvaziar. Se o Hans não controlasse as contas da Woschiems, o que seria da sua empresa! Se a sua mulher gastasse aquilo que você não ganha, já pensou? Ora ir buscar o dinheiro aos portugueses (ou a Bruxelas, que é igual!) para o dar, sim dar, aos media que lhes tiram retrato à medida, um pouco fosca por causa das coisas, e mandando às malvas os outros que tiram o retrato nítido que não lhes convém, francamente, isso é abrir uma auto-estrada à ditadura nazi, soviética, tudo farinha do mesmo saco! E tem alguma coisa a ver com uma economia de emergência bem gerida? Nada! É pagar propaganda para conseguir photoshop como eles querem.

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Apesar de tudo, vou daqui para St Andrews com sonhos e esperanças, a reflectir no que tenho falhado, e no que me é possível fazer melhor…

Tudo isso me faz saudades da minha Escócia, onde é difícil abalar tradições. Mas repare que até o CV19 o consegue! O meu club de golf, fundado como sabe em 1754 (eu convidei o Hans em 2004 para os 250 anos, não se esqueça!), em 266 anos só viu um capitão servir dois mandatos, e foi em 1835 e 1836. Pois acabo de saber que o capitão actual, um velho amigo de Wallton on Thames, o Clive Edington, vai repetir mandato em 2021! Uma verdadeira comoção no mundo do golf, fique sabendo.

Kindest regards,

22 de Maio de 2020

Temos pelo menos dois estadistas aqui na União (?) Europeia (do William, já não é!) que merecem esse nome: a minha Merkel, e o Macron, homem com frescura. Apareceram com €500 biliões para dar, sim, não é emprestar, é dar!!!, às economias mais afectadas e fragilizadas, como a da querida Lusitânia, por toda esta hecatombe a cair em cima de nós tipo dominó.

O William e eu, que nos estamos sempre a lembrar do nosso paraíso à beira mar plantado, devemos ficar com esperança: ao menos assim deu-lhes à Costa uma bóia de salvação. Esperemos funcione, e que o sabotador desse Santos do Porsche de que você fala não estrague tudo, e que todos os 25 da UE que resta aprovarem, concordem e digam Amen! Se não o fizerem, aí é que a porca torce o rabo! (onde terei ido buscar esta metáfora porcina tão saborosa? Adivinhe caro William!).

Mas suspeito que Karlsruhe vai achar que, com isso, os tratados não vão ser cumpridos, e possam chumbar a ideia. Os políticos são uns comediantes mais ou menos talentosos que, tal como todos que vemos nos teatros, gostam de criar suspense nos enredos que representam, e cortinas de fumo, umas atrás das outras. Um é a favor da Europa Federal, o outro não. Mas fazem uma mise en scène a ver se conseguem avançar, o Macron a fazer de conta que influencia os alemães, e a Merkel para mostrar que depois ela é que manda. Mas faltam os austríacos (esses, de federalismo? t’arrenego!), os holandeses (idem), etc. Enfim, um berbicacho! (nem os brasileiros entendem essa palavra! E o William?)

E aquilo do meu Tribunal Constitucional de Karlsruhe foi um tiro que se desmultiplicou para atingir a linha de água de três porta-aviões, Tribunal Europeu, Banco Central Europeu, e até o Maneken Pis que ficou à beira da impotência e da incontinência! Estou em crer que o nosso comum e prestigiadíssimo amigo lusitano, competente como poucos, o José Luís Vilaça, que até à pouco tempo deu forma e conteúdo àquele tribunal europeu como seu Juiz, e deixou lá pegada de dinossauro di calitá, possa estar decepcionado e não concordar com nada disto…

Para aliviar esta minha conversa (desculpe, mas a sua carta, francamente, pareceu-me caceteira!), vou-lhe recordar que sou um furioso fã dos Beatles desde os 11 anos precoces. Falo nisto pois a família (meus primos) da fotógrafa deles, a Astrid Kirchherr, telefonou há dias de Hamburgo com a triste notícia da partida dela para os verdes prados. E no meio das minhas condolências, contou-me que essa autêntica Walkiria saída das profundezas do meu Rhein, quando passou a ser fotógrafa dos Beatles, tinha um namorado, o Klaus Voorman, que é quem antes usava o famoso penteado, mas só e apenas para esconder as orelhas enormes que o desfeavam e envergonhavam. E repare agora como o Klaus foi importante.

Primeiro, foi ele que convenceu a Astrid Kirchherr a entrar no Kaiserkeller na Reeperbahn em 1960 em Hamburgo, momento em que se apaixonou instantaneamente pelos Beatles (todos, mas em especial pelo homem da vida dela, o Sutcliff, que morreria aos 21 anos!) e pela música libertadora que desde tão cedo mexeu com o homenzinho em que eu me estava a transformar.Depois foi ela que convenceu o Paul McCartney, o Lennon, o George Harrison e o Ringo Starr (todos também in love com ela) a usar o cabelo em esfregona como o Klaus Voorman. Este Klaus foi assim quem a levou ao paraíso, para ser depois deitado injustamente às malvas (estou a usar esta sua expressão: é divertida!).

Além de influenciar o cabelo desses Mozart dos anos 60, ela também foi decisiva para a forma original de vestir que adoptaram. Tanto o cabelo em esfregona como as roupagens, moda espalhada à velocidade do CV19, tudo era para os Beatles aparecerem bem nas fabulosas fotografias da Astrid, que ficaram históricas e a fizeram famosa, imagens temperamentais, a preto e branco, com um tom intrigante.

E assim, a vida da Astrid, que era muito atraente e sexy à moda dos anos 60, virou-se do avesso de um minuto para o outro. E, além das fotografias geniais, obtinha-lhes o Preludin -proibidíssimo, uma droga que nunca provei -, mas que os aguentava 4 sessões seguidas por noite no Kaiserkeller . As imagens da minha prima Astrid, parecendo à la diable, na verdade eram obras de arte. Foi a única a fotografar as filmagens do Hard Day’s Night.

Sobre os Beatles eu poderia escrever um poema quase tão épico como os Lusíadas. Nesse tipo de melodia e de lírica, tudo é um flash de vida, momento, paisagem, olhar, gesto, rebentar de onda do mar, amor passageiro, ou uma paixão nunca esquecida. E dessa época há muitos mais que quase lhes chegam aos calcanhares. Sabe? beleza, é ao que a grande música nos transporta, seja o Mestre Mozart, os Beatles, a poesia do Vinicius, o Elton John, seja o Sabat Mater do Pergolesi. Oiço a boa música com a saudade da Beleza a que ela me faz sempre, sempre, regressar.

Olé!, e que maravilha é divagar assim, e não estar a pensar na Woschiems AG. Vielen danke William, por gostar de ler estas minhas cartas, e pelas suas!

Mit freundlische abraços

PS: Não cheguei a ir para Tokyo. E não estou com vontade genug para lhe contar porquê!

Palavras Cruzadas é o título de uma série de cartas íntimas trocadas entre dois amigos. Um é alemão (Hans Hoffmann), residente em Krefeld, perto de Dusseldorf, e outro escocês (William Archibald), residente em St Andrews, na Escócia, mas ambos com casa em Portugal, país que os apaixonou. A correspondência tende a revelar um Portugal e um mundo vistos por Hoffmann na perspectiva da floresta, mas mais como árvore nas cartas de Archibald. Misturam nessa correspondência acontecimentos políticos, sociais culturais e económicos tanto portugueses como internacionais, revelando o seu cosmopolitismo. Usam de ocasional ironia em factos por vezes semi-ficcionados.