Texto originalmente publicado pelo portal dos Jesuítas em Portugal, Ponto SJ.

Team strada: até há uns dias atrás era um fenómeno desconhecido para muitos de nós. Hoje, ler as notícias sobre este tema talvez nos deixe pasmados e embaraçados. Como é que isto pôde chegar tão longe? Como é que pôde mobilizar tantos milhares de adolescentes, ser validado em rádios e televisões e entrar por escolas adentro sem que os alarmes familiares e sociais tivessem soado? Como é que acontecendo à vista de todos permaneceu invisível para tantos? Num tempo tão propenso à indignação, como é que isto foi possível?

Temo não ter uma única resposta convincente. Temo não poder culpar ninguém sem que me culpe a mim também por tão ingénua cegueira. Mas há uma pergunta que não consigo deixar de fazer: o que procuram os adolescentes em grupos como o Team strada?
Vou soar a velho. Procuram o de sempre: afeto, segurança e um projeto que possa dar significado e adrenalina aos seus dias.
Afeto, sentido, segurança: são sedes humanas, vazios sempre por preencher. E a fama, o reconhecimento, o brilho das luzes, os gritos histéricos e as palmas, os subscritores e os seguidores, os eventos e as idas à televisão são “a coca-cola no deserto” pronta a resolver estas sedes tão dramaticamente vividas durante a adolescência.

Não vale a pena o lamento: ai que lá se vão os valores… Os valores continuam a ser transmitidos. Mas reduzidos a ideias, ideologias sem carne nem realidade, são conceitos que não tocam a vida. São frases feitas que dizemos sem que acreditemos nelas, sem estarmos disponíveis a sofrer por elas.
Como adultos temos medo (eu tenho) de assumir o óbvio: é preciso educar os afetos. Sem educar os afetos nenhum valor ganha raízes, toda a fama e todas as luzes se tornam aditivas confundindo-se com a fonte. E, no entanto, no fim do dia, quando a glória é buscada pela glória, todos os adolescentes sabem que nenhum elogio é suficiente e basta que a alguém tenham batido mais palmas para que o vírus da comparação possa minar a autoestima de um ego alimentado a coca-cola. Nenhum refrigerante resolve a sede, apenas a ilude e alastra. Sem horizonte, sem um fim que os transcenda, os afetos ficam dobrados sobre si mesmos, colados ao chão.

Sem educar os afetos nenhum valor ganha raízes, toda a fama e todas as luzes se tornam aditivas confundindo-se com a fonte.

Santo Inácio de Loiola experimentou na pele a urgência da conversão dos afetos e da sensibilidade. Compreendeu que os afetos se transformam tocando a imaginação. E por isso, nos Exercícios Espirituais, propõe várias meditações sob a forma de parábolas. Uma delas é a meditação das duas bandeiras. Nessa meditação somos confrontados com a necessidade de escolher uma de duas bandeiras: ou a do inimigo da natureza humana que tem como insígnias a riqueza, o prestígio e o poder (altivez); ou a de Jesus que tem como insígnias a pobreza, a humildade e o serviço.

O que implicam as insígnias de Jesus para que seja sensato escolher a Sua bandeira?

Ser pobre não é desejar a miséria que nega a humanidade. Ser pobre não é ‘não ter’, é não ser tido pelos bens. É não nos agarramos às coisas como se delas dependesse o que somos, como se a marca dos sapatos nos desse estatuto e importância. É descobrir que os afetos não se compram, nem se vendem. São de graça e não se confundem com nenhum “like”.

Ser humilde não é ter medo de se olhar ao espelho, desprezar e desvalorizar o que se é. Ser humilde é agradecer o que se é como um dom. Aceitar limites e reconhecer talentos sabendo que uns e outros são caminho para sair de mim, para me dar e abrir aos outros.  Ser humilde é colocar-se no lugar, cortar o nariz e desfazer o olhar altivo, de rei na barriga, cheio de certezas e falsas seguranças.

Servir não é apenas pegar na esfregona para limpar o chão. Limpar o chão só é verdadeiro serviço se é feito para bem da comunidade. Servir é compreender que não existimos para nós próprios, mas para os outros, para com os outros colocar a vida ao serviço de um mundo mais justo, em que cada pessoa possa experimentar-se amada e receber o que lhe permite viver com dignidade.

A pobreza permite-nos acolher e comunicar afeto. A humildade coloca a nossa confiança no lugar certo. O serviço faz-nos encontrar sentido para a vida. Soa a coisa bafienta, a conversa de sacristia? Talvez! Mas não promete falsas vitórias e desfaz a ilusão de toda a fama que não nos mata a sede. É uma outra estrada limpidamente descrita por Samuel Úria:

“O caminho é estreito demais para o meu ego,
Mas para me tornar numa criança
Eu tenho que ser sério.
Não é a estrada que se alarga,
Sou eu que me apequeno.
A passo de bebé eu vou marchar pelo Império.”