Conheci por estes dias uma menina já no final da infância, que se demora legalmente até aos 18 anos, mas que em cada um, é conforme. Às vezes extinta logo na primeira. Outras nunca. Em permanência. A fazer dos adultos lugares mais felizes e encatatórios.

A menina tinha de diferente das outras, entre muitas outras coisas, uma condição que a todos perplexa, porque neste nosso país, é ainda nova. Uma espécie de rebento. Verdinho-fresquinho-vulnerável e ao mesmo tempo super-alimento.

Esta menina-fim-da-infância tinha isso tudo. O que a distingue de todas as outras, nesta sua peculiaridade, é o facto de nunca ter frequentado a escola. Nos seus desígnios tradicionais-modernos. (Atenção que entretanto já estamos na era pós-moderna).

A menina é portuguesa (embora a perfeição do seu inglês possa fazer duvidar), produto nacional, do interior, do Alentejo. De uma família aparentemente normal. Mas que o não poderá obviamente ser. Porque senão a menina-fim-da-infância não teria esta história para contar. Mas sim a de todos nós. Que foi a de nos tornarmos pessoas passando por esse lugar transbordante e impregnante, que é a escola. Os pais disseram que ela não era uma menina típica de escola. E não era mesmo. Que tinha interesses um pouco fora do comum. Ou pelo menos o fora do comum fora da sua casa. Já que me parece que na sua casa, mãe, pai, avós, fossem pessoas normais, mas não necessariamente comuns.

O que os distingue, entre outras coisas, foi o facto de perante esta circunstância, terem decidido fazer qualquer coisa. E fizeram. Descobriram o ensino doméstico muitos anos antes de se tornar novidade, notícia, fonte de oscilações temperamentais entre o amor apaixonado e o ódio visceral (que é, porém, outra forma de amor). A menina cresceu assim. Tendo por base de aprendizagem a sua casa. O seu centro. O seu(céu) núcleo afectivo. Afinal, há muito que por aí se diz que é da relação. Da relação e do significado que nasce o conhecimento. Que se enraiza e expande a aprendizagem. Uma relação pedagógica, é uma relação de afecto.

A menina-fim-da-infância é tímida. Como qualquer menina-fim-da-infância da mesma idade e que se foi habituando à estranheza da sua normalidade. Apesar disso, não se atrapalha na língua. As palavras desaguam soltas, leves, ora em português ora em inglês. Nós todos em silêncio. E ela no centro. No epicentro. A contar da sua singularidade.

O mais deslumbrante, entre outras coisas, foi a constatação da naturalidade com que tudo se desenrola. Mas e os amigos, os pares, a socialização? A menina sorri. Um sorriso de quem já ouviu sequências numéricas incontáveis esta pergunta. Revela. E rimo-nos todos um pouco. Pelo óbvio. Na verdade, nunca gostei assim tanto de estar com muitas pessoas. Actually, I was always ok having just a few friends to be with. E nem precisavam de ser da mesma idade. Desde que fossem pessoas. E a deixassem ser assim.

Há pessoas que são assim. Não precisam assim de tantos amigos. E isso não é problema em si. É problema quando a pessoa se sente triste. Quando deseja essa proximidade. Quando sente que não faz parte, que não encaixa. Que é estranha. E que a estranheza se constitui como distúrbio. A menina-fim-da-infância está bem assim.

E os horários? Como é que organizas(vas) o teu dia, sem as disciplinas, as aulas, os tempos, os professores? Lançam-lhe. E ela recebe. Outro sorriso. Vê-se que há um certo divertimento infantil em explicar aos adultos que não a viram crescer na sua singularidade. Um dia a pensar sobre isso, reflecte, percebi que produzia muito mais quando estava em férias. E então decidi, olha, vou estar sempre de férias.

Nota-se que é uma menina-fim-da-infância habituada a pensar. A pensar-se. A observar os seus movimentos. Que não se atrapalha perante a evidência e que na sua presença, de evidências, toma decisões. Experimenta. Testa. Agora, acrescenta, decidi que quero voltar a ter um horário. Vamos ver como corre.

Ah. Que simplicidade. Regressamos ao mundo da socialização. Já sabemos que muitas das aprendizagens da menina, acontecem através do computador. Que assiste, ainda no seu território de menina-fim-da-infância, a aulas de matemática do MIT, aquele lugar mágico onde vão parar pessoas sem medo de pensar e maioritariamente indianas. A menina, esta, não é da Índia.

Alguém lhe pergunta sobre os perigos da internet. O ciberbyllying. E ela responde. Não se atrapalha. Olhos-nos-olhos. Nós a sentirmo-nos, cada um de nós, mais criança do que ela. Então, explica, estou atenta. Consigo sentir que às vezes não devo continuar por ali. Não é sempre fácil de perceber. Mas isso também acontece com as pessoas reais. Que às vezes parecem amigas. Que às vezes confiamos. E afinal não eram de confiança. A prática também ajuda. Claro! Aguça o sentir. O crescimento. A experiência cumulativa. Não é muito diferente.  A menina tem razão. Concordamos num aceno colectivo, como que hipnotizados.

Eu, dentro do meu núcleo a tentar sentir como é que se sente uma pessoa a quem os adultos cuidadores permitiram ir alimentando, sem muitos obstáculos, os seus interesses. A acelerar centrípeta em direcção à minha infância. À minha experiência enquanto criança-aluna. As coisas que eu queria tanto fazer mas que não podia. Porque na escola moderna o tempo já estava todo organizado e depois não sobrava tempo nenhum. Eu queria escrever. Mas era hora de físico-química. Queria escrever mais. Mas era hora de jogar corfbol (a sério?! Ao que sei continuam a insistir nisto). Queria fazer experiência e descobrir os elementos químicos, mas era hora de ir dissecar poemas, aniquilando assim completamente a intenção do poeta. Queria ouvir histórias, do mundo, do pensamento, mas era muito cedo para ter filosofia. E queria escrever.  Mas não, agora não podia ser. Temas livres. Mas não podia. Os temas deixaram de ser livres e passou a ser “fazer um resumo” (que não é menos importante de saber fazer, mas que é outra coisa, completamente diferente). O tempo para a escrita era concentrado nas ferias do verão. Encomendas de textos copiados a fazer recuar os tentáculos da imaginação.

Ora bolas. Nesse tempo de fronteiras ginastica olímpica. E então preciso rapidamente de resolver o assunto, uma inflamação intelectual sem precedentes. Que a menina-fim-da-infância NÃO PODE SER NORMAL. Tem de ser super. Sobre. Above and beyond. Agora deixa ver como se sai!

Menina-fim-da-infância (digo-lhe eu) era bom, também, que as famílias que pensam nestas modalidades a vissem acontecer em pessoas normais, em vez de extraordinárias (ou será que se fez assim extraordinária como produto desta experiência, em particular?)

A menina-fim-da-infância não se atrapalha. Esclarece que é óbvio que há diferenças qualitativas e quantitativas de inteligência. De vários tipos de inteligência. Que há uma hierarquia de valores do conhecimento. O MIT está lá no topo, bem sabido. Se ela fosse uma exímia trapezista, não causava o arrepio que causa ouvi-la na sua condição de menina-fim-da-infância, que se aborrece com os programas das faculdades dos primeiros anos. Que sabe interligar como se fosse criação sua, matemática e filosofia. A menina não se atrapalha. E depois diz também, ou ainda, ou sobretudo, que na observação panorâmica da sua janela-quase-fim-da-infância, emerge um padrão. Que quase todas as suas curiosidades foram levadas a sério. Que os seus desejos intelectuais, os seus projectos de criança na infância plena, sem resquício nenhum de outro tempo existencial, foram apoiados, scaffolded. A família, nesta sua extraordinária decisão de escolher que esta menina não estaria bem no contexto da escola moderna (referir novamente que estamos já na era pós-moderna), foi assim irrigando os pequenos rebentos. Sem lhe fazer métricas e juízos de valor. Sabemos-lhe da matemática e da filosofia. Mas não sabemos dos outros todos. Que foram incentivados, permitidos. Deixados acontecer. Para depois, talvez, seguir viagem. Sem aquela janela permanentemente em corrente-de-ar, que é a dos sonhos que foram ficando para trás. O sonhos desperdiçados. Mais do que tudo o que agora é, tudo o que vai ainda ser, é esse detalhe que para mim, talvez para ela também, mais lhe transforma a menina-fim-da-infância.

Regresso a casa em silêncio. Hoje de manhã a televisão do café mostrava um mar de lixo. De plástico. Os miúdos aos gritos. Impressionados. Educar para a sustentabilidade não é só substituir o plástico por frascos de vidro na despensa. Não é só acabar com as palhinhas. As fraldas descartáveis. O papel para assoar o ranho. Educar para a sustentabilidade, da pessoa, da criança, é não deixar que os seus sonhos se transformem num mar de lixo. Inútil. Uma janela em permanente corrente de ar. Com o que poderia ter sido. Essa missão dificilmente se consegue na escola moderna. É impossível numa ideia constante de comparação. Uns com (contra) os outros. Que exista diversidade. Nas várias possibilidades. De certeza que nem todas as meninas-fim-de infância que cresceram fora da escola são assim pessoas tão interessantes. Mas esta é. E devíamos todos ser capazes de ir olhando para as nossas crianças, ficando um pouco para trás. Mas sem empurrar. Sem apressar. Sem diminuir e diferenciar as sua obsessões em úteis, se forem por matérias clássicas e de boas famílias, ou inúteis, se forem por outras menos delicadas, por assim dizer. Devíamos ser capazes de arriscar. De acreditar que não é preciso passar-se por uma carrada de trabalhos, de limites, de negações, de dificuldades, para ver chegar por fim um belíssimo nascer do sol. Que do cuidado, da atenção, da paciência, da valorização, da conversa franca, honesta, do respeito, do não necessário, porque há nãos que o são, é assim, é muito mais provável fazer nascer pessoas zerowaste. Tanto em plástico. Como em sonhos.

Investigadora no ISCTE, Centro de Investigação e Intervenção Social; Doutorada em Psicologia do Desenvolvimento; Vice-presidente da Associação Movimento Educação Livre (MEL), mãe de três espécimes ainda em infância absoluta.