Nos últimos dias, um estudo da Goldman Sachs gerou manchetes alarmantes: “Quase 80% dos empregos das mulheres estão em risco devido à IA generativa.” Esta afirmação levanta uma questão fundamental: estarão, de facto, as trabalhadoras mundiais em risco devido à inteligência artificial?
A inteligência artificial está, sem dúvida, a transformar o mercado de trabalho. No entanto, a narrativa de que esta tecnologia representa uma ameaça desproporcional para as mulheres carece de um olhar mais crítico. É essencial avaliar o impacto da IA de forma abrangente, sem cair em conclusões precipitadas que alimentam o medo, mas que pouco contribuem para a construção de soluções.
Um primeiro ponto a analisar é a própria origem deste estudo. A Goldman Sachs é uma das instituições que mais investe em inteligência artificial. Como tal, não deixa de ser curioso que uma empresa tão envolvida na promoção desta tecnologia seja também aquela que lança um estudo que poderia, em teoria, desencorajar esse investimento. Seja por estratégia de mercado, por uma tentativa de condicionar concorrentes ou até por uma leitura enviesada dos dados, a mensagem transmitida pelo estudo não parece assentar numa análise rigorosa da transformação do mercado de trabalho. A desinformação tornou-se um dos grandes desafios da atualidade, e não seria surpreendente que este estudo se enquadrasse nesse fenómeno por, por exemplo, sensacionalismo mediático.
Se olharmos para a evolução histórica da tecnologia, vemos que previsões alarmistas sempre acompanharam grandes inovações. Durante a Revolução Industrial, previu-se que a mecanização levaria ao colapso do emprego. O mesmo aconteceu com a digitalização. No entanto, a realidade mostrou que as transformações tecnológicas não eliminam empregos – redefinem-nos.
A IA generativa não é uma simples ferramenta de substituição de empregos, mas sim um catalisador de mudança. Tal como aconteceu em revoluções tecnológicas anteriores, algumas funções deixarão de existir, mas outras novas serão criadas. É verdade que tarefas repetitivas e previsíveis são as mais suscetíveis de serem automatizadas. No entanto, a história mostra que, sempre que um conjunto de funções se tornou obsoleto, novas profissões emergiram.
Podemos olhar para um exemplo prático: no passado, existiam pessoas cujo trabalho era acordar outras de manhã. Com a invenção dos despertadores, essa profissão desapareceu, mas ninguém argumentou que isso seria uma catástrofe para o mercado de trabalho. O mesmo acontece hoje com a IA generativa – algumas tarefas deixarão de ser feitas manualmente, mas muitas outras surgirão.
Mais do que uma ameaça, a IA generativa pode ser um motor de inovação e eficiência. A automação de tarefas rotineiras pode permitir que profissionais dediquem mais tempo a funções estratégicas e criativas. Muitas dessas funções são tradicionalmente desempenhadas por mulheres, o que significa que a IA pode, na verdade, facilitar a progressão de carreira feminina em vez de a prejudicar.
Outro ponto fundamental é que a tecnologia não substitui empregos de forma linear. Mesmo em setores mais suscetíveis à automação, a necessidade de supervisão, ajuste e melhoria das soluções tecnológicas abre portas para novas oportunidades. Além disso, um dos desafios atuais do mercado de trabalho não é a falta de emprego, mas sim a falta de talento qualificado. Mesmo hoje, há um défice significativo de profissionais em áreas tecnológicas. A IA vai exigir requalificação, mas isso não significa que milhões de empregos vão simplesmente desaparecer.
O argumento de que a IA afeta desproporcionalmente as mulheres carece de fundamento sólido. A transformação do mercado de trabalho será uma realidade para todos, independentemente do género. Se, por algum motivo, algumas funções ocupadas maioritariamente por mulheres forem afetadas pela automação, isso significará apenas que essas profissionais precisarão de se adaptar. No entanto, este é um processo natural em qualquer mudança tecnológica e aplica-se tanto a homens como a mulheres. A adaptação ao novo mercado de trabalho não é uma questão de género, mas sim de capacitação e desenvolvimento de competências. Nos últimos anos, ficou claro que as mulheres, tal como os homens, possuem uma enorme capacidade de adaptação. A pandemia da COVID-19 foi um excelente exemplo disso: a forma como as equipas se ajustaram ao teletrabalho e ao uso de novas ferramentas tecnológicas demonstrou que a resistência à mudança é um mito.
A IA generativa poderá, até, beneficiar mais mulheres do que homens. Se a automação incidir mais em setores onde as mulheres estão sobre-representadas, isso significa que serão elas as mais beneficiadas pelo aumento de produtividade e pela possibilidade de transição para funções mais estratégicas. O foco do debate não deve ser o género, mas sim como preparar a força de trabalho para um futuro onde a IA desempenha um papel central.
Ao invés de espalhar medo, a prioridade deve ser criar estratégias para capacitar os trabalhadores para esta nova realidade. É necessário investir em programas de formação que ajudem os profissionais a adquirir competências tecnológicas, incentivar as empresas a encararem a IA como uma ferramenta para aumentar a eficiência e não como um substituto de postos de trabalho, e promover políticas públicas de apoio à requalificação. Para que essa transição seja bem-sucedida, a comunicação sobre IA deve ser baseada em dados e não em alarmismo, pois estudos sensacionalistas apenas geram receio e dificultam a adaptação ao futuro.
O estudo da Goldman Sachs encaixa-se num padrão recorrente de previsões exageradas sobre o impacto da tecnologia no emprego. O problema não é a tecnologia em si, mas a forma como a sociedade se prepara para estas transformações. Mais do que um risco, a IA generativa representa uma oportunidade para transformar a forma como trabalhamos. O segredo está na adaptação e na forma como se investe na capacitação dos trabalhadores.
Não devemos perpetuar a ideia de que as mulheres vão perder os seus empregos, mas devemos, sim, concentrar-nos em garantir que todas as pessoas – independentemente do género – estão preparadas para aproveitar as novas oportunidades que esta revolução tecnológica oferece. É tempo de deixar o exagero de lado e focarmo-nos no que realmente importa: como podemos utilizar a IA para criar mais e melhores empregos para todos.