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6 de Maio de 2020

Nos meus anos da City em Londres, a Portuguese Chamber of Commerce in UK funcionava vá que não vá… Mas agora, com o novo Presidente, Abreu, creio que é o apelido dele, aquilo está um verdadeiro violino Stradivarius. Até se lembraram de por estes dias apoiar uma ideia de um tal Michael Naylor, que reside em Portugal como NHR (Non Habitual Resident) e que acaba de criar uma associação entre esses residentes não habituais que me parece uma ideia admirável, e para a qual o Hans, desculpe que lhe diga, vai ter de abrir os cordões à sua bolsa. Olhe, e para encurtar razões e o animar até lhe dou o site: https://www.nhrcompassion.org.

O nosso cherished Portugal está a passar um mau bocado com o CV19 e há centenas de milhar de pessoas que me parece que nem têm dinheiro para comer, quanto mais para pagar a renda da casa, a luz e a água. O Michael Naylor soube desse verdadeiro case study que é o Banco Alimentar, obra de que muitos me têm falado. E resolveu procurar abordar os 40.000 não residentes habituais em Portugal para os encorajar a dar uma ajuda ao Banco Alimentar. Eu percebo o Naylor: estes franceses, ingleses, brasileiros, turcos, etc, que estão a viver aqui pelo menos dez anos, não só estão reconhecidos pela simpatia que recebem do coração dos nossos queridos portugueses (que o Hans e eu tanto apreciamos!), como pela amabilidade com que são tratados pelo fisco de cá. Até eu, pensando bem, um dia destes vou investir mais e fazer-me NHR aqui neste belo Porto!

Mas oiça meu caro Hans, eu sei que você tem em Portugal duas importantes fábricas e não sei quantos mil empregados a quem paga bem, e que não estão nem em lay off nem despedidos. Mas o Hans está careca de saber que há outros com bem menos sorte: um milhão de portugueses com menos de €250 por mês, e dois milhões com €450 mensais, ou menos. E agora o Hans, que não está confinado como eu, e anda aí pelas Américas, não viu na TVI uma notável campanha para apoiar a Rede de Emergência Alimentar! Nessa televisão perceberam que no Banco de Alimentos, em menos de três semanas, tinham aparecido mais 12.000 famílias que, da manhã para noite, se viram sem trabalho e sem alimento. E fizeram tudo para os ajudar: notável Vá lá, Hans, desembrulhe em força a sua tradicional generosidade e compassion, como NHR aqui da Lusitânia que é: isto merece!

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Por aqui os politics são desalentadores. Anda tudo a bater num tal Santos de que lhe falei na semana passada, e que parece que está quase a sair de Ministro. O homem, sempre muito zangado com tudo e todos, mais parece sovieticamente datado de 1917 e só não traz a foice e martelo em punho pois tem que guiar bons carros. De facto, onde ele parece que quer ter mesmo as mãos é em bólides capitalistas. Coitado, como a treta não diz com a careta, achou por bem vender há tempos um Porsche 997 S Cabrio, com que se passeava todo contente na marginal até Cascais. Só espero tenha feito bom negócio, para perceber que não é pecado ganhar e dar a ganhar dinheiro. É o tal que quer que gente do povo, como eu, fique dono da TAP, imagine o desastre de tal ideia!

Aqui no Porto, há muita coisa que me faz lembrar a minha Escócia, nomeadamente o muguet, uma das flores mais femininas que conheço. Tem tradições fortes em França e também, graças à amizade dos da Écosse pela França (em vez de Scotland – sim, há mil carros a circular com a palavra  Écosse na placa identificadora, por baixo da nossa bandeira azul com a Cruz branca do Santo André) o muguet também cresce com mil cuidados no meu jardim de St Andrews.  Como isso me faz saudades, num destes dias luminosos que houve, fui para o magnífico Jardim Botânico aqui do Porto (parece que foi, há muitos anos, casa da família de uma poetisa lusitana incontornável, a Sophia Mello Breyner Andresen) que estava glorioso, com muguet, claro, e enriquecido pelas sombras entremeadas por brilhantes manchas de sol que se espalhavam pelos espaços verdejantes. E por ali esvoaçava a passarada lá residente, como as lavandiscas, no seu passinho de mesuras, num ballet elegante a erguer o bico tentando captar os insectos que pairavam entre raios brilhantes do sol matinal. E, entre tantos passarinhos, os melhores de todos, eram os melros, negros de azeviche brilhante, com bico amarelo alaranjado, que também saltitam, sempre com pressa, sabe-se lá para quê, com um piar claro e transparente. Uma autêntica poesia da Sophia! Um Porto glorioso!

Quantas vezes nos temos encontrado em espectáculos memoráveis de ópera, no Met aí em New York, em Londres em Covent Garden, na Wiener Staatsoper, e na sua Berlin Staatsoper? Eu sei que está a trabalhar como um mouro (nunca percebi esta expressão para significar que se trabalha imenso, sei lá, deve ter sido o D. Afonso Henriques e o D, Dinis que os obrigavam a mourejar: mas o Hans não acha que os mouros são uns calões?). Mas se tiver um par de horas para pensar noutra coisa que não seja a Woschiems, vá na sexta feira ou no sábado à net deliciar-se com a Violeta na Traviata do Verdi que transmitem da Royal Opera House em Londres a partir das 19 horas, hora de Londres no YouTube. Também lhe deixo aqui o site, quem é amigo?: https://www.roh.org.uk/tickets-and-events/la-traviata-stream-details . Cultivemo-nos!

Kindest abraços do

9 de Maio de 2020

Cultivemo-nos, diz você: não goze comigo, por favor! Como se não chegasse a cultura do magnífico latim que aprendi na Hochshule (ou Gymnasium, ou Liceu, como quiser), e que continua a ser obrigatório na Alemanha. E digo Got sei dank, graças a Deus, por que o latim é tão bom como a matemática para nos fazer ginástica à pinha! Sim, por que o Cícero, o Virgílio (deste, ainda sei de cor a primeira estrofe da Eneida que começa “arma virumque cano”, como o Camões), e tantos outros levaram-me a agilizar os neurónios e a gostar de ópera, de música, de ler, de viajar, e de ficar a saber gerir empresas globais como a Woschiems!

Espero regressar amanhã à Alemanha, de onde conto já lhe escrever no meu papel de carta, caramba! Tive uma semana exaustiva na Califórnia, entre Sillicon Valley e Los Angeles, e continuo a trabalhar 14 horas seguidas, e a dormir mal e pouco.

Venho aqui para o Hotel St Regis na Rua 55 com a 5ª Avenida em NY há muitos anos: continua imbatível! Tem mais de 100 anos e foi no bar deste hotel, o King Cole Bar, com um ambiente novayorquino sem par, onde, dizem, foi inventado em 1934 (!) uma das bebidas que mais gosto, o Bloody Mary, e onde servem uns hamburguerzinhos miniatura de chorar por mais! E daqui não saio. E numa sala que amavelmente me cedem (é natural, sou cliente frequentíssimo há tanto tempo!) tenho reuniões seguidas com tudo o que são sócios, investidores e bancos, todos de máscara e a prudente distância, desinfectando as mãos logo à entrada, disso não se livram.

Não se impressione com os salários bilionários daqui, é a América, vírus ou não virus, Os ricaços aqui de Manhatan tanto estão a jantar no Masa aqui em Columbus Circle (três estrelas Michelin, US$500 por bico…) com amigos e Família, como ao mesmo tempo andam diariamente a fazer voluntariado em shelters (são às dezenas esses abrigos na Big Apple) para os sem abrigo em desespero. Conheço uma banqueira aqui de New York que faz isso três vezes por semana! O William fala-me dessa obra admirável na Lusitânia que é o Banco Alimentar, e também do NHR Compassion, para quem obviamente já contribuí: muito obrigado pelo link. Mas fique sabendo que o conceito dos Food Banks nasceu aqui na América. E o Bezos, da Amazon, em Abril doou US$100 milhões (é verdade, e foi criticado por acharem pouco) aos Food Banks americanos. No outro extremo da riqueza, estão os que ganham uma milésima parte do que ganha o Bezos, ou seja uma média de US$11.200 por ano: fique sabendo que 22% deles dão US$110 por ano. Os mais ricos dão cerca de 2% do que ganham, e os mais pobres 1,7%. Na Lusitânia é tudo muito diferente, mas os nossos amigos daí são de uma generosidade sem limites, e por pouco que tenham, dão todos sem excepção ao Banco Alimentar, pelo menos duas vezes por ano. Olhe que ouvi isto da Presidenta, num Conselho Consultivo numa das grandes empresas portuguesas onde há seis meses fui fazer uma palestra. Mas aqui nos USA o problema não é menor: sabe quantos desempregados há neste momento? Chegou-se esta semana aos 34 milhões!!!! Pensar que há dois meses havia pleno emprego…

No meu regresso à Europa, eu estava a pensar pedir ao meu comandante para parar no aeroporto de Monte Real, aí em Portugal. Eles deixam, pois sabem que aproveito para ir dali à Pucariça, onde emprego tanta gente da região. Mas desta vez era para eu dar uma saltada a Fátima de 12 para 13 de Maio e ir rezar à Nossa Senhora de Fátima pelo futuro dos milhares de empregados da Woschiems, sem esquecer o seu, caro William, o da minha querida Família que está lá em Krefeld, e o de todos os lusitanos. Mas quando o Cäsar Breisky, que é o meu Flugzeugkapitän, comandante, começou a preparar o plano de vôo para sairmos de La Guardia aqui em NY, veio dizer-me que Fátima estava fechada no dia das Aparições, muito espantado pois tinham permitido as multidões a virem de longe para se juntarem no 1º de Maio em Lisboa, violando todas as leis. Eu disse para ele se acalmar, pois sei dos livros que quando quem manda no Estado lusitano é gente como o tal Santos que se junta ao simpático malabarista Costa, e àquele amável velhinho vindo das estepes russas a quem chamam Jerónimo, a Igreja Católica é sempre perseguida. Foi sempre assim. Se callhar então vou aterrar na Portela, e aproveito para almoçar com o Costa, que mora mesmo ao lado da minha casa na Calçada da Estrela. Não lhe falo de política nem de religião, e apenas do investimento de €200 milhões que tenho na forja para, se ele não acabar de vez com a indústria privada, eu levar para a frente na Lusitânia.

Grüsse und freundliche abraços,

Palavras Cruzadas é o título de uma série de cartas íntimas trocadas entre dois amigos. Um é alemão (Hans Hoffmann), residente em Krefeld, perto de Dusseldorf, e outro escocês (William Archibald), residente em St Andrews, na Escócia, mas ambos com casa em Portugal, país que os apaixonou. A correspondência tende a revelar um Portugal e um mundo vistos por Hoffmann na perspectiva da floresta, mas mais como árvore nas cartas de Archibald. Misturam nessa correspondência acontecimentos políticos, sociais culturais e económicos tanto portugueses como internacionais, revelando o seu cosmopolitismo. Usam de ocasional ironia em factos por vezes semi-ficcionados.