Faltam menos de 48 horas para André Ventura se tornar, provavelmente, no novo líder da oposição. O líder do Chega sucede assim a Álvaro Cunhal como o primeiro líder da oposição que não é do PS nem do PSD. É quase inédito em 51 anos de democracia e só tinha mesmo acontecido uma vez, quando o Governo de Bloco Central empurrou a liderança da oposição para o PCP. Mas Ventura terá muito mais força e influência: Cunhal era líder da oposição a um bloco maioritário que tinha 176 deputados em 250, o que dispensava grandes conversas com a oposição.
André Ventura será o líder da oposição a um governo apoiado por dois partidos (PSD e CDS) que, juntos, devem ter pouco mais do que 90 deputados em 230. Além disso PSD e PS, juntos, não têm dois terços do Parlamento, o que obriga Luís Montenegro como chefe de Governo a ter de ouvir o presidente do Chega como líder da oposição.
Ainda há muito pouco tempo Luís Montenegro ouviu Pedro Nuno Santos para ativar a cláusula de salvaguarda para investimento em Defesa (que permite que determinados gastos nesta área não contem para o défice). Ora, se a questão surgisse agora, André Ventura teria de ser ouvido, mesmo que houvesse a cortesia da AD em ouvir também o PS. Como responderia Ventura? Da mesma forma que Pedro Nuno Santos.
Recuando mais atrás, a 2011, há outro exemplo claro do poder das oposições na definição dos destinos do país. Para libertar o dinheiro que permitiu que o Estado português não entrasse num completo shutdown que conduzisse à bancarrota, a troika exigiu a concordância do líder da oposição. Passos Coelho disse presente. O que diria o Ventura de hoje? É difícil dizer, mas é provável (por mais impopular que fosse) que aceitasse os termos, como fez Passos.
A esmagadora maioria das decisões não passará por Ventura. Mas nas grandes decisões, e nas estruturais (incluindo infraestruturas como o Novo Aeroporto ou TGV), será de bom tom ser ouvido. A certa altura pode até ser a Europa a exigi-lo. A entrada na decisão de vários altos cargos do Estado e a participação em decisões (cuja influência poderá ser Luís Montenegro a dosear) vai tornar André Ventura parte central do sistema que tem criticado.
André Ventura sabe, porque é tudo menos chalupa, que o “sistema” não é controlado pelo Priorado do Sião, financiado pelo Soros nem pulverizado com chemtrails. O sistema, o regime democrático, é, na verdade, o resultado de uma negociação entre os partidos que têm votos para influenciar essas mesmas decisões. A prova da democraticidade do sistema é que o partido de Ventura, crítico do regime, está a conseguir alcançá-lo. O Chega ganhou força para ter mais força do que o PS em muitas dessas decisões. Isso tem, no entanto, outra face da moeda: o Chega terá mais responsabilidade do que o PS em algumas dessas decisões.
A dúvida é se André Ventura aproveita o estatuto de líder da oposição para influenciar, de facto, as decisões do Governo. Ou se, por outro, continua a ter como combustível a via mais populista e mais simples, misturando planos. Pode haver a tentação do Chega de fazer exigências do género — isto projetando um plano ficcional, mas verosímil: só damos aval a acordo de fundos europeus, se houver prisão perpétua; ou, só votamos a favor do orçamento se expulsarem 300 mil imigrantes; ou só votamos a favor de um presidente da AR que aceite um projeto de castração química.
Porém, o mais provável é que André Ventura, principalmente em matérias de Estado, mostre um lado menos conhecido: de responsabilidade, de sentido de Estado. O líder do Chega poderia perder alguns votos por acharem que estava mais manso (ou “mariquinhas”, no léxico que o próprio prefere), mas contaria ganhar muito mais em provar que está pronto para ser primeiro-ministro. A ideia de um governo-sombra tem aliás dois objetivos imediatos: impor-se como alternativa mais forte à AD e provar que tem quadros preparados para o caso de um dia ser Governo.
Mas, mais importante do que os ministros-sombra, é provar que ele próprio, André Ventura, não é apenas a voz que fala mais alto, mas que está preparado para liderar um Governo. Ventura tem possibilidade de fazê-lo, pela primeira vez, a partir de dentro do sistema e com um palco como nunca teve. O desafio de Ventura é, como dizia o célebre e histórico slogan do Turismo de Portugal, ir para fora [do sistema] lá dentro. O sucesso que terá nesta tarefa será essencial para definir o teto até onde pode chegar.
Pela forma como construiu o partido, fórmula que o trouxe até aqui, Ventura terá sempre dificuldade em encontrar qualquer outro partido que lhe segure um Governo. Mesmo o PSD, que até podia aceitar o suporte do Chega (numa versão Pedro Passos), nunca aceitaria suportar um Governo liderado pelo Chega (sob pena de morrer). Não há grandes dúvidas que haveria uma mega-coligação em caso de vitória do Chega por uma margem mais ou menos tangencial. Isso leva André Ventura a ter uma única forma de um dia chegar lá e governar: atingir 116 deputados, o que exige no mínimo ter 41/42% dos votos (o Chega teve 22,6% a 18 de maio). Ou seja: uma maioria absoluta. Isso só se consegue com uma parte do centro político, que ainda vale 3,3 milhões de votos. Daí que o futuro passe agora por ser menos o André e ser mais o dr. Ventura. Às vezes, pela forma como celebra, pode não parecer, mas os números dizem que 77% dos eleitores não votaram no Chega. Ventura precisa de convencer, pelo menos, um terço desses para atingir o seu sonho final: ser primeiro-ministro.