Não há como negar o sucesso eleitoral do Chega, que confirma um percurso de crescimento: de deputado único para doze, depois cinquenta, depois sessenta. É hoje o segundo maior partido em Portugal.
Muitos apressaram-se a culpar António Costa e Augusto Santos Silva, que desde 2019, numa estratégia para esvaziar o PSD, deram demasiado palco a André Ventura.
Contudo, o Chega não cresceu só com tempo de antena — cresceu à custa de ressentimentos populares fora da bolha política.
Com o PS incapaz de fazer oposição a Montenegro, o Chega assumiu esse papel, primeiro no parlamento, depois nas urnas. E agora diz-se que ocupou o “espaço do PS”. Mas que espaço, exatamente?
Os resultados eleitorais demonstram claramente uma transferência massiva de votos do Partido Socialista para o Chega. Ainda assim, Ventura seguiu o guião populista de culpar “outros” — os ciganos, os imigrantes, os corruptos – pelos males do país. Não se pode dizer que tenha roubado este posicionamento ideológico ao PS.
O Chega ocupou o espaço dos votos, não (ainda) o espaço ideológico do PS.
Mas Ventura podia ter feito um takeover às causas esquerdistas tradicionais, como fez a direita populista nalguns países europeus. Lá fora, perceberam que é no abandono social que está o sucesso eleitoral.
Foi o playbook da AfD na Alemanha de Leste, que capitalizou a perceção de abandono social. Meloni fez o discurso dos ‘esquecidos’. Le Pen reaproveita causas sociais com laivos nacionalistas.
A crítica à imigração descontrolada continua central nesses partidos – mas souberam ancorar o seu sucesso num mal-estar mais profundo: o desamparo face ao Estado, sobretudo ao Estado Social.
Retórica de direita, políticas de esquerda, populismo a sério.
Ventura não soube capitalizar. Imaginem só que Ventura tinha dirigido o discurso “isto é tudo uma bandalheira” para as listas de espera, as escolas inseguras, as pensões de miséria, a precariedade laboral, os transportes parados, a habitação inacessível, o custo de vida.
Faltou a Ventura transformar a frustração social num plano para tomar o poder. Teve uma oportunidade de disputar o governo — e desperdiçou-a.
Salvou-nos a impreparação do Chega. Mas o cenário pode mudar.
Bastará um episódio que inflame os ânimos. Por exemplo, os recentes casos de abusos no SNS. O Chega pode denunciá-los, para logo o comentário dizer que o abuso do Estado Social não é tema para exageros. E conceder aos populistas a narrativa da roubalheira de um sistema corrupto contra o povo esquecido.
Se o país continuar a ignorar os problemas das pessoas – salários indignos, serviços públicos fracos, vida sem perspectivas – o populismo demagógico triunfará.
O Governo tem agora uma responsabilidade decisiva. Ou reforma o Estado – coisa que não fará, porque o PSD há muito que perdeu veia reformista – ou entregará o país ao populismo puro e duro.