Saíram umas “peças” sobre a dureza dos cursos superiores, sobre o burnout dos alunos e o consumo de mais de 50% deles de medicamentos sejam ansiolíticos ou antidepressivos. As “soluções” e as “análises” propostas por alunos e por profissionais da saúde vão no sentido facilitador, menos carga lectiva, menos exames por semana, menos trabalhos individuais. O exemplo exposto num programa foi o do curso de arquitectura, onde as poucas horas de sono e as muitas de trabalho, para a produção dos trabalhos / projectos, amplificam as queixas.

Há muitos anos, talvez em 1976, num encontro em que estive com outros jovens da minha idade, de “iniciação à política”, para não dizer de “formação política”, as mentes excitadas (dos jovens) com o momento revolucionário, mesmo na “direita”, propuseram a simplificação do ensino, nomeadamente acabar com os exames (como veem a ideia não nasceu hoje). O “formador” presente na altura, o eng. Cruz Abecassis, explicou para que serviam os exames, que não serviam para chatear os alunos, nem (só) para ver se tinham aprendido a matéria, mas sobretudo para os treinar para a vida real, onde os exames são uma constante. Que todo os dias teríamos exames, por vezes vários por dia. Importava saber dar resposta, debaixo de stress, em tempo útil.

Pertenço a uma geração em que os pais não levavam os filhos à escola (a ida e a vinda eram, aliás, os melhores momentos do dia), não inscreviam os filhos nas universidades, a maioria não sabia sequer a localização da Universidade do filho. Na época pagavam-se propinas, mesmo no “secundário”, em selos fiscais, que os alunos, não os pais, iam comprar à papelaria do costume, com a folha de 25 linhas e lá se inscreviam Também não iam à escola protestar notas dos filhos, ou amedrontar os professores. Os filhos autonomizavam-se cedo. Como ainda hoje acontece em vários países, de que se destaca o Japão.

O companheirismo, em todo o percurso escolar, era uma constante. Os pais não se stressavam se o filho não fosse o melhor. O mundo dessa época era baseado em regras. Os alunos sabiam as regras e cumpriam-nas. As regras davam segurança, confiança, como sabem os miliares desde sempre.

Às regras podíamos chamar educação. Desde a primeira classe, no tão apregoado ensino público, onde todos “trajávamos” de igual, de bata branca, sabíamos que tínhamos que nos levantar sempre que entrava um adulto na sala, como o nosso professor. No liceu já não havia “farda”, mas o professor falava e os alunos escutavam.

Exames, testes, com e sem pré-aviso, serviam, serviram, de preparação para todos nós para a etapa seguinte da vida.

Nas universidades os colegas, pelo menos os meus, entreajudavam-se. Todos assumíamos com naturalidade a “dureza” do(s) curso(s). Sim, tínhamos por vezes vários testes na mesma semana, sim, chumbávamos por vezes, mas voltávamos ao ponto de partida e recomeçávamos de novo.

Quando chegámos à vida “real”, creio que estávamos preparados. Quer “cientificamente” quer para o impacto das horas de trabalho, quer para a dureza dos chefes ou patrões. Sou engenheiro civil, passei ao longo da vida, como os arquitectos com quem projectava, muitas noites de muito trabalho e poucas horas de sono, com prazos de entrega curtos. Com multas se não cumpríssemos os prazos, não me lembro de alguém se queixar. C´est la vie diríamos.

Finalmente, na vida não há notas, nem dispensa da oral e sobretudo não se pode faltar ao exame (diário). Ou se acerta, ou se acerta. Os erros não são admitidos, ou as construções caem, ou os doentes morrem, se considerarmos apenas 2 exemplos.

A vida mudou, dizem. Eu acho que os ministérios que deixaram de ser da educação e passaram a ser do ensino apenas, foram simplificando, os alunos deixaram de “chumbar”. Toda a falha é desculpada, o caos nas salas de aula passou, em muitas escolas a ser o novo normal. Por muita manta que pintem não há expulsões. Cientes disso os alunos atacam os professores tornam as aulas impossíveis. Se os pais são chamados à escola, acabam a defender os filhos da incompreensão, dos professores, da sociedade. Disciplinas há em que querem que as crianças ponham em causa o seu sexo. Tudo são dúvidas. Poucas certezas.

Confunde-se ensino com educação, como o fazem com o valor e o preço.

Há trabalho de casa? Os pais fazem.

Paradigmático o caso do anúncio no Expresso de uma professora da “Nova” a dizer que não responderia aos emails dos pais!

O omnipresente telemóvel, desde a mais tenra idade, faz com que à mínima contrariedade, ao mais pequeno contratempo, os pais sejam chamados a resolver o problema.

A consequência? Bem as consequências estão à vista. As escolas e famílias produziram personagens inseguros, impreparados para um curso superior e menos ainda para a vida “real”. A solução encontrada são horas de psicoterapia e químicos, muitos.

As recrutas, na “tropa” são momentos também duros. Nas “tropas especiais” ainda mais duros, consta que os números de baixas nas nossas “tropas especiais” durante a guerra colonial foram quase inexistentes. Estavam treinados, preparados, a dureza tinha um objectivo.

Cá fora a vida é uma guerra, ou se preparam os futuros combatentes, ou o número de baixas continuará a aumentar. A solução não é baixar a exigência ou fazer desaparecer as regras, é exactamente o contrário. Hoje competimos com os melhores do mundo, nesta globalização, com os quinhentos mil engenheiros que a India forma a cada ano, com os técnicos chineses, ou de qualquer outro país.

A dureza para obter resultados é transversal, não é apenas no ensino. Por acaso alguém acha que o Cristiano Ronaldo chegou onde chegou com a mãe a pedir aos treinadores para o “passarem”, ou para serem menos exigentes com ele? Ou que tinha telemóvel para se queixar à mãe?

Se o Estado precisa de uma reforma, o Ensino precisa de uma revolução. E para que aconteça há que começar ontem e pelas famílias, há que lhes dizer que não têm razão. Que para ensinar os filhos os professores tiveram 18 ou 19 anos seguidos de estudos e preparação e que genericamente têm razão. A estes é preciso tirar-lhes o medo. É preciso rever os rácios, uma escola não é boa por passar todos os alunos, é boa se os alunos aprenderem. E poderemos constatar se é mesmo boa talvez só muitos anos depois.

Se os actuais estudantes acham que um curso feito aos 20 é duro, imaginem como será para os que os fazem aos 40, em regime noturno, a trabalhar, com família.

Andamos há tempo demais a infantilizar os jovens. Filhos de famílias de fracos recursos têm menor capital de queixa, estão habituados às dificuldades da vida.

A vida é uma enorme curva de gauss, não somos todos iguais. Felizmente, mas o sistema público nivela por baixo, pelos 5% de baixo e ignora olimpicamente os 5% de cima.

Se começarmos hoje, no jardim escola, talvez daqui a 18 anos haja menos queixas.