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Hora de pegar nas malas e vamos a isto, a uma nova viagem pelos cinco continentes aqui na Rádio Observador. Eu sou o João Costa e Silva, comigo está o José Rafael Lopes e como sempre contamos com a preciosa ajuda do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, sê muito bem-vindo mais uma vez. Como é que estás por aí em Washington?
Tudo bem. Entretanto, o tempo mais fresco regressou aqui, acho que aí por Lisboa está melhor desta vez.
Está mais floreng.
Uma boa notícia para os portugueses.
Olá, Bruno, como estás? Tudo bem?
Olá, tudo bem.
Espero que sim. Bruno, temos muitos temas em agenda esta semana. Vamos começar na Ucrânia para olhar para a dimensão marítima da guerra e também do cessar-fogo. Que importância é que tem para o conflito?
Tem uma grande importância, até na própria origem do conflito. Já falámos aqui disso algumas vezes, mas eu acho que se calhar não o suficiente, desta dimensão mais marítima. A Rússia realmente é um enorme país, é o maior país do mundo, tem 17 milhões de quilômetros quadrados, tem uma costa enorme, mas como temos discutido várias vezes, basicamente a costa está voltada para o lado errado, ou pelo menos estará voltada para o lado errado até haver um nível de gelo tal que altera completamente as coisas, mas basicamente é uma costa voltada para o Ártico. E portanto, desde o tempo da reconstituição do Estado russo, com os czares como o Pedro Grande ou a Catarina a Grande, no final do século XVII, depois durante o século XVIII, a grande prioridade da Rússia foi conquistar acesso ao que eles chamam mares quentes, ou seja, mares que estão acessíveis durante todo o ano, ao que nós damos como normal, por exemplo, em Portugal, mas no fundo, conseguir acesso ao Báltico e conseguir acesso ao Mar Negro. Aí a Crimeia, convido os ouvintes a olhar para o mapa do Mar Negro, a Crimeia tem realmente uma posição absolutamente excepcional, central. O porto de Sebastopol projeta-se completamente quase para o meio do Mar Negro e é realmente ideal para controlar em termos militares e em termos também econômicos, mas militares, esse mar. Isso realmente é um tema recorrente na geoestratégia russa, é um tema recorrente na história russa, portanto, os grandes avanços para Sul, a criação da chamada Nova Rússia pela Catarina a Grande, a fundação de Odessa, de Sebastopol, tudo isso são também aspectos que são muito importantes para o nacionalismo russo e que são muito evocados por Vladimir Putin. Muitas vezes nas fotografias, Putin aparece com uma estátua no Kremlin ou do czar o Pedro Grande ou até da Catarina a Grande. Realmente isso é claramente muito importante e ele muitas vezes referiu isso também como uma espécie de justificação histórica para esta invasão. Ora, eu como historiador valorizo muito a história, mas não ao ponto de achar que ela se sobrepõe à vontade dos povos hoje em dia. Não é pelo fato do Brasil ou de Angola terem uma ligação histórica muito grande a Portugal. Luanda foi portuguesa durante mais tempo, não só fundada pelos portugueses, mas foi portuguesa mais tempo do que Sebastopol foi russa, é só desde o final do século XVIII. Mas a verdade é que realmente para Putin essas coisas contam muito, para os seus apoiantes. E em termos do conflito, realmente, esta questão também era crucial, porque uma das grandes apostas da Rússia era avançar no Sul, criar uma ponte terrestre, uma língua de terreno controlada por eles entre a Crimeia, que eles já ocupavam desde 2014, e o resto do território russo, e avançar em direção ao resto da costa ucraniana, ocupar o resto da costa sul da Ucrânia, até Odessa, no fundo, acabar com o acesso da Ucrânia ao mar. Ora, um Estado encravado, um Estado que depende de outros para ter acesso ao mar, é um Estado que tem muito menos independência real, muito menos autonomia estratégica, muito mais dependência em relação a quem lhe permite esse acesso do que um Estado que não esteja encravado. E portanto, claramente isso também fazia parte da estratégia russa. Agora, correu mal. E o último ponto a sublinhar é que esta é uma área em que a Ucrânia conseguiu uma grande vantagem que ninguém poderia prever. A Ucrânia basicamente não só perdeu a Crimeia em 2014, mas perdeu a sua frota. Boa parte dela estava baseada também na Crimeia portanto não tinha uma frota convencional. Agora, graças à utilização muito inteligente ou desenvolvimento até de drones aéreos, drones navais, conseguiu realmente basicamente inutilizar um quarto da frota russa do Mar Negro. A Rússia não consegue reforçar essa frota, porque a Turquia controla não só de fato, mas também de direito os estreitos, portanto o acesso entre o Mediterrâneo, o resto do mundo do espaço marítimo global e o Mar Negro. E portanto, conseguiu forçar a frota do Mar Negro a sair da Crimeia, porque estava demasiado vulnerável, e conseguiu, graças ao apoio dos países ocidentais, desenhar rotas muito encostadas aos países da NATO que fazem fronteira com a Ucrânia, nomeadamente a Romênia e a Bulgária, portanto, conseguiu reabrir os seus portos, começar a exportar e a Rússia não consegue fazer isso. Esta é claramente uma questão absolutamente central para a Rússia. Faz parte deste padrão de cessar-fogos muito parciais, que mal merecem esse nome e que acabam por favorecer mais a Rússia, ou seja, são em áreas em que a Rússia está em mais desvantagem, embora também não queira dizer que se a Ucrânia conseguir que os seus portos deixem de ser atacados, bombardeados, que isso também não seja importante para a Ucrânia. Mas é claramente uma área em que a Rússia está em desvantagem e procura compensar isto com este cessar-fogo.
E Bruno, continuamos no mesmo tema, mas vamos até Paris, porque houve um encontro entre 30 países para discutir a situação na Ucrânia, precisamente. Saíram novos pacotes de apoio e o desejo de manter as sanções à Rússia. Bruno, a minha pergunta é se a Europa está a tentar substituir os Estados Unidos no apoio a Zelenskyy e também outra dimensão, se vai realmente conseguir.
A Europa não quer fazer isso, preferia não fazer isso. E vamos ser muito claros, será sempre difícil. Há certas áreas em que isso é muito complicado acontecer. Por exemplo, a questão dos sistemas Patriot, não poderão ser mantidos sem o abastecimento regulado de munições, por exemplo, que só os americanos é que fazem. Mas há outros sistemas antiaéreos, o Iris-T e vários outros que falamos aqui, e portanto, é possível, eventualmente, reforçando esses sistemas, tentar compensar um pouco isso. Nunca será exatamente a mesma coisa, mas há, de fato, alguma capacidade. A Europa está longe de estar completamente desarmada, deveria estar já muito mais e ter muito mais reservas estratégicas, mas isso também é um problema global, diga-se, da própria Rússia. A própria Rússia também está a recorrer, no fundo, a rapar o tacho, a recorrer a equipamento muito envelhecido, a ter dificuldades em compensar completamente as perdas que tem em termos de material, para não falar em baixas. Há um artigo muito interessante esta semana de um especialista britânico que eu aprecio muito, o Nick Ottewill, na Foreign Affairs, que vai ao detalhe e explica que, por exemplo, na Grã-Bretanha, até há capacidade para aumentar muito substancialmente a produção de munições básicas de artilharia, aquelas de 155, mas, por exemplo, faltam explosivos para encher essas munições. Até haveria capacidade para fazer isso, mas a fábrica precisa de expandir, não consegue ter autorizações em termos da burocracia, não está a trabalhar em tempo de guerra e, portanto, esse é um exemplo de como realmente a Europa tem de levar muito mais a sério esta questão. Tem de se coordenar muito melhor, todos os países a trabalharem no mesmo sentido, tem de conseguir que realmente isso seja uma prioridade e isso significa investir rapidamente, garantias de encomendas em quantidade e conseguir também que um regime de exceção, pelo menos durante um período temporário, para esse tipo de indústrias poderem expandir rapidamente. E eu diria, se isso acontecer, isso tornará possível, pelo menos à Europa, à Ucrânia, continuar a defender-se com relativa eficácia. Deveria permitir isso. Ofensiva, já percebemos que é muito difícil. Era muito difícil até com o apoio americano, por causa da enorme assimetria de meios entre a Rússia e a Ucrânia, porque temos uma linha da frente com linhas defensivas em profundidade que tornam isso muito difícil, sistemas de vigilância que tornam também isso muito difícil. Portanto, a defesa eu acho que seria realista como objetivo, mas é preciso que a Europa trabalhe muito melhor. Agora, há aqui um aspecto que a história também nos mostra que é preciso ter em conta e que torna as contas mais complicadas, que é saber se os Estados realmente cumprem, conseguem, no fundo, ter aqui não só a capacidade, mas a vontade política sustentada ao longo do tempo para isso continuar a acontecer. Continuamos a ter eleições na Europa, continuamos a ter vozes na Europa a dizer que não se deve apoiar tanto a Ucrânia, que isso tem custos demasiado elevados. E o último aspecto é ao nível da própria Ucrânia, ou seja, nós vimos isso no Afeganistão. No Afeganistão, a Aliança do Norte conseguiu derrotar os Talibã com o apoio aéreo, praticamente só apoio aéreo, dos Estados Unidos. Depois, os Estados Unidos passaram duas décadas a transformar o exército afegão numa espécie de exército americano nas montanhas do Afeganistão. Quando esse exército deixou de contar com o apoio americano, com tropas especiais, com meios aéreos americanos, basicamente entrou em colapso, porque estava habituado a combater daquela forma e o efeito também moral, psicológico, de perceber que, de repente, tinha muito menos capacidade de resposta em relação ao inimigo, teve um efeito que levou ao colapso dessa resistência. Isso também aconteceu no Vietnã, de repente acabar com o apoio muito significativo. Portanto, vamos ver se aqui a Europa consegue atenuar esse impacto psicológico, mas eu diria que temos sempre de continuar a dizer que, infelizmente, um colapso da resistência ucraniana, não sendo inevitável, não é impossível neste momento, e seria, sobretudo, resultado das opções norte-americanas e não das ações russas propriamente.
É um cenário ao qual vamos continuar a estar atentos. Bruno, esta semana a Comissão Europeia deixou um apelo para que as pessoas mantenham um kit de emergência com mantimentos que durem no mínimo três dias. Que leitura é que podemos fazer disto?
Eu acho que uma leitura possível é dizer que a guerra está aí a chegar, vamos ter a Terceira Guerra Mundial. Eu acho que não é isso, isso não é sério. Agora, é verdade que temos um mundo muito mais perigoso. Eu tenho insistido nisso já há alguns anos e a situação está-se a agravar. Estamos a falar não só de conflitos armados, mas, por exemplo, no caso da Rússia, de guerra híbrida, de guerra na sombra, de ataques, por exemplo, até ciberataques a infraestruturas críticas, por exemplo, abastecimento elétrico, etc, que podem ter consequências catastróficas. Eu não estou mais uma vez a prever ou a garantir que isso vá acontecer, mas dizer com segurança que isso não vai acontecer, realmente parece-me cada vez mais imprudente, arriscado. E temos outros riscos e ameaças. Temos cada vez mais catástrofes naturais, eventos climáticos extremos com alguma frequência e intensidade. E, portanto, eu diria que isso é realmente avisado. Nós muitas vezes não nos damos conta de como estamos dependentes de uma série de sistemas que podem deixar de funcionar. Por exemplo, abastecimento elétrico. É muito importante ter uma lanterna com pilhas ou velas. É muito importante ter um meio de comunicação que também não dependa da eletricidade, necessariamente, qualquer coisa como um rádio, por exemplo, também com pilhas. Todo esse tipo de coisas, um cobertor, aqueles cobertores especiais mais quentes, água, pode haver um corte do abastecimento d'água, por exemplo. Portanto, tudo isso realmente parece-me bastante avisado e tem esta vantagem, que também passa uma mensagem a potenciais inimigos e adversários que a Europa está a levar essa ameaça a sério, está a preparar e, portanto, que o impacto desses ataques será menor do que aquilo que seria se não fosse assim. E, portanto, há ver, no fundo, também aqui uma espécie de mensagem de "nós estamos a prestar atenção, estamos a ver o que é que está a acontecer e estamos a preparar-nos para isso". Portanto, uma mensagem, no fundo, de dissuasão também por via de uma preparação mais eficaz para eventuais riscos e ameaças.
É uma chamada de atenção para estarmos eventualmente preparados, caso este cenário acabe por acontecer. Bruno, vamos agora olhar para outro conflito no mundo, nomeadamente no Médio Oriente. Aqui os ataques aos houthis são o principal destaque, embora por um motivo diferente. Tivemos altos responsáveis dos Estados Unidos a discutir planos numa rede social e, Bruno, os planos de guerra foram postos em causa.
Eu percebo um pouco a reação dos responsáveis da administração Trump no sentido de dizer que isso não são bem planos de guerra. Não houve aqui realmente uma partilha de documentos operacionais detalhados, documentos de planeamento operacional. Agora, sobretudo o secretário da defesa, e isso confirma o risco que foi escolher alguém que não tem nenhuma experiência desse tipo de funções a outros níveis, que basicamente fez toda a sua carreira a dizer coisas explosivas nas redes sociais ou nas televisões. Mais uma vez, eu também não tenho nada contra comentadores ou analistas serem nomeados para cargos importantes, mas realmente ter só isso no currículo é um problema. O próprio estilo de comentário que ele fazia mostrava que havia aqui um problema e ele foi claramente imprudente e partilhou alguns detalhes operacionais que pode-se discutir se isso pode ser caracterizado como plano de guerra, mas há aqui detalhes operacionais que realmente não deviam ter sido partilhados. E aí não é uma questão de opinião. A legislação é muito clara, repetidamente há instruções no sentido de dizer às tropas ou aos responsáveis da defesa que não podem usar esse tipo de apps, nem telefones comerciais, têm que ser redes seguras. E esse grupo até poderia existir, obviamente, não tendo convidado para fazer parte um jornalista, isso foi outra falha gravíssima. Há uma ironia em todas estas trocas de mensagens, é que a certo momento eles dizem, o próprio Pete Hegseth, a segurança operacional, no fundo, não haver aqui segredos que estão a ser revelados, está a um nível espetacular nestas operações. Isso quando ele estava a partilhar toda essa informação com o jornalista, que eles não tinham dado conta que ele estava nesse grupo. Mas de facto essa informação nunca deveria ter sido partilhada, porque obviamente se os telefones forem perdidos, se tiverem sido de alguma forma hackeados por potências inimigas, e isso seria sempre um objetivo, não há garantias de que uma parte desta informação não fosse conhecida. Por exemplo, alguns dos elementos do grupo estavam a viajar pelo mundo, aparentemente uma delas, a responsável do serviço de informações estava em Moscovo, e a qualquer momento isso podia ser partilhado com uma potência que podia informar os hutis que esse ataque estava iminente e ter consequências muito sérias na tal segurança dos soldados americanos que estavam a desencadear esta operação. Parece-me inquestionável se é exatamente correto falar em planos ou não, mas é inquestionável que a segurança operacional foi comprometida, que isto não devia ter acontecido e que parece haver aqui no fundo uma postura que é "as regras não se aplicam a nós, nós estamos acima de todas as regras, os especialistas não percebem nada disto, quem percebe somos nós" e o aconselhamento que eles dão tradicionalmente não é para ser ouvido nem respeitado, e depois o resultado vai ser a multiplicação de casos como este. Este, felizmente, não teve outras consequências mais graves.
Quantos podemos dizer que não haverão.
Exatamente. Revela aqui um nível de descuido, de arrogância, que levará a descuidos que podem ser potencialmente bastante mais perigosos.
Bruno, antes de fecharmos esta primeira parte dos Cinco Continentes, no Canadá estão previstas eleições antecipadas, eram esperadas, Bruno, e será que a relação com os Estados Unidos pode ter um impacto neste ato eleitoral?
As eleições realmente estão marcadas para o final de abril. Eram mais ou menos esperadas, eu tenho acompanhado mais agora a política e a imprensa canadiana e havia muita gente de facto a prever que mal o novo primeiro-ministro tomasse posse, ele iria pedir a antecipação de eleições. O sistema canadiano é muito parecido ao britânico, é um sistema realmente puramente parlamentar. O partido que tem a maioria no Parlamento nomeia o primeiro-ministro e depois é esse primeiro-ministro que pede a marcação de eleições ao representante da Coroa Britânica, neste caso o governador-geral e por regra, por tradição, isso é aceito e de facto aí não há surpresa. Agora, a própria realização de eleições, a demissão do primeiro-ministro anterior, Justin Trudeau, e o debate que está a decorrer em termos eleitorais e pré-eleitorais, a própria evolução das sondagens, tudo isso está a ser completamente dominado realmente por esta crise profundamente chocante e inesperada para os canadianos com os seus aliados tradicionais dos Estados Unidos, com esta ideia de que Donald Trump quer anexar o Canadá, quer transformar o Canadá num estado americano, o que em si mesmo mais uma vez é um completo disparate. O Canadá também é uma federação desde 1867, tem províncias, chamam-lhe províncias e não estados, mas tem províncias, é um estado maior ainda do que os Estados Unidos, ligeiramente maior do que os Estados Unidos, não faria nunca sentido aderir apenas como mais um estado, um estado único. Tem o Quebec, por exemplo, que tem uma cultura distinta, tem a língua francesa, etc. Mas tudo isso está realmente a ser discutido, está a fazer parte da campanha, e está a levar a algo que é uma alteração completa nas intenções de voto. O Partido Liberal, o partido da esquerda do Justin Trudeau e do Mark Carney, do novo primeiro-ministro, estava com uma desvantagem de quase 20 pontos percentuais há bastantes meses e de repente conseguiu ultrapassar o partido mais conservador, o partido que tem um pouco mais de simpatias pelo trumpismo aqui no Canadá, na América do Norte, e já é o primeiro partido em termos de intenções de voto. É verdade que tem uma ligeira vantagem, vamos ver se essa vantagem se confirma ou não, mas em todo caso já é evidente que estas posições de Trump tiveram aqui um impacto enorme. E na própria posição deste partido mais da direita canadiana, do líder da oposição, do Pierre Poilievre, que foi forçado a dizer: "Eu tinha grande admiração por Donald Trump", vários líderes também, vários destes governadores das províncias vieram dizer: "Eu tinha grande admiração pelos Estados Unidos e pela direita americana e pelo Partido Republicano, mas aqui não há que haver dúvidas, não vai haver anexação, o Canadá vai defender os seus interesses, vamos combater esta guerra comercial dos Estados Unidos." E forçou no fundo todos os partidos canadianos a assumir uma posição muito mais hostil em relação aos Estados Unidos do que aquilo que seria de esperar.
E nós, Bruno, vamos fazer aqui uma curta pausa. Voltamos já a seguir para continuar esta viagem pelos cinco continentes, é logo depois das notícias.
Estamos de volta aos Cinco Continentes, aqui na Rádio Observador. Vamos continuar a olhar para a geopolítica internacional com a ajuda do historiador Bruno Cardoso Reis. Na primeira parte estivemos muito focados nas guerras e na América do Norte, mas Zé, agora no início desta segunda parte, vamos olhar para a Turquia.
Que está a atravessar um período complicado. As últimas semanas ficaram marcadas por protestos contra o presidente Erdoğan. O presidente da Câmara de Istambul foi mesmo detido com suspeitas de corrupção. Bruno, podemos falar de regressão autoritária e por que agora?
Realmente eu acho que temos de falar nesses termos. Ou seja, Erdoğan não era propriamente um grande democrata já no passado. É alguém que se tem mantido no poder usando todos os recursos do Estado, usando, por exemplo, a sua influência econômica para comprar grupos de comunicação social que eram anteriormente críticos e que de repente passam a ser alinhados e apoiantes do governo. Portanto, realmente já havia aqui alguns sinais preocupantes, mas apesar de tudo, a maior parte dos observadores concordavam que Erdoğan tinha realmente alguma popularidade. Era um político bastante popular e carismático, por exemplo, entre a população mais rural, mais conservadora, de cidades mais pequenas, etc. Istambul sempre foi mais difícil, embora a carreira de Erdoğan tenha começado exatamente como presidente da Câmara de Istambul, que é de longe a maior cidade da Turquia. A capital, como sabemos, é Ancara, mas historicamente a capital continua a ser o grande centro econômico e populacional da Turquia é realmente Istambul. O problema é que o grande teste nestes processos de regressão autoritária, no fundo transformação gradual de uma democracia plena, pluralista, com plenos direitos pra oposição, pras minorias, liberdade de expressão, de organização, etc, pra um regime cada vez mais repressivo, limitador das liberdades, muitas vezes o teste crucial é quando estes líderes carismáticos e populistas que não gostam de pesos e contrapesos, que acham que ter sido eleitos lhes dá todo o poder, começam a perder popularidade e começam a correr o risco eventualmente de perder eleições. Muitas vezes é que temos estas medidas, no fundo, um avanço para um sistema mais abertamente repressivo. Nós falamos sempre muito de Trump. Trump gosta muito que falemos dele, não é por acaso.
Gosta de ser protagonista.
Exatamente. E tem muito jeito pra isso, em termos de protagonismo midiático. Os Estados Unidos são uma potência absolutamente incontornável, continuam a ser de longe a maior economia, a maior potência militar a nível global, etc. Aqui eu diria não é apenas por causa dos Estados Unidos, quiçá não é principalmente por causa dos Estados Unidos, mas certamente o fato de Donald Trump ter sido eleito, de sabermos que Donald Trump é completamente indiferente à questão da promoção da democracia e da defesa da democracia em outros países. Pensa apenas em termos dos interesses, sobretudo econômicos, dos Estados Unidos e até os seus interesses pessoais em termos de imagem, de apresentar vitórias políticas no palco internacional. De fato, não há nenhuma razão pra esperar que haja aqui uma reação forte dos Estados Unidos que pudesse, por exemplo, criar mais complicações à economia turca, que é o outro fator aqui muito importante. A Turquia terminou com uma inflação no final de 2024 de 44%. Realmente a situação econômica já há vários anos é bastante complicada, e poderia haver aqui alguma pressão econômica. Claro, a Europa também poderia fazer, mas a Europa está muito distraída pelas preocupações com a Ucrânia, pela crise com os Estados Unidos. Tem na Turquia, de fato, um tampão muito importante, por exemplo, na gestão das crises migratórias e também aí, sobretudo esta percepção que é crescente entre os líderes europeus, entre os responsáveis europeus, que é cada vez mais evidente que os esforços da União Europeia nesse campo seriam completamente inúteis e ineficazes. Ou seja, não é só uma questão apenas de regimes autoritários ou líderes mais autoritários poderem recorrer à China pra investimento ou à Rússia pra armamento, podem recorrer aos Estados Unidos neste momento. Realmente aí o peso da Europa por si só dificilmente seria decisivo e teria o custo de cortar aqui pontos. Como eu referi também já várias vezes, o maior impacto parece no trumpismo, o impacto mais dramático será não tanto na Europa Ocidental, que tem instituições muito sólidas, uma longa história, fronteiras muito bem definidas, etc. Será muito mais noutras zonas do mundo onde há conflitos territoriais, conflitos fronteiriços portanto pode haver um regresso das guerras de conquista. Do meu ponto de vista, já estamos a ver isso em África, por exemplo, na República Democrática do Congo, e eventualmente estamos a ver sinais disso entre a Etiópia e Eritreia, enfim, noutras regiões. E depois a segunda grande tendência é esta, é no fundo autogolpes, líderes cada vez mais abertamente autoritários, e isso também é mais provável em zonas do mundo onde a democracia é muito mais recente, muito mais frágil do que na maior parte da Europa, embora a Europa também não seja imune a esse processo.
Ainda na Europa, Bruno, vamos olhar para a Alemanha e para uma pergunta que nos chega de um ouvinte, o Vasco Frazão. A pergunta foi feita no X, o antigo Twitter. São aliás três perguntas numa só. Pergunta como está a política alemã, qual o histórico dos partidos e como está a evoluir este novo cenário governativo.
Sim, a pergunta era também muito focada especificamente no partido da esquerda radical, o Die Linke, que tem uma componente importante que vem do antigo Partido Comunista Alemão e do antigo Partido Comunista da Alemanha de Leste, que foi o partido do governo, o partido de Estado que presidiu à ditadura comunista sob domínio soviético com o apoio do Exército Vermelho, do KGB, inclusive do senhor Putin, que teve lá funções no início dos anos 80. Portanto, o que é que aconteceu a esse partido e se ainda se pode falar nesses termos, se tem uma espécie de herdeiro direto desse Partido Comunista da Alemanha Oriental, sendo interessante que o partido acabou por conseguir um resultado razoável nestas últimas eleições, mas em geral como é que está o sistema partidário e como é que estão a evoluir as coisas. Portanto, agradeço muito a questão muito interessante do Vasco Frazão e, de facto, é um velho sistema multipartidário. Nós esquecemos que a Alemanha teve uma ditadura terrível, das mais brutais da história, o nazismo. Foi entre 1933 e 1945. Em todo o período anterior, desde meados do século XIX, que a maior parte dos Estados alemães, e depois o Império Alemão, a partir de 1870, eram realmente monarquias constitucionais, tinham parlamentos. É dos primeiros países da Europa que passa a ter sufrágio universal, ainda no século XIX, sufrágio universal masculino, enfim, sabemos que infelizmente nessa época era o que era considerado o máximo a que se podia ir. Tem partidos muito antigos, o mais antigo de todos que continua a funcionar é o SPD, que perdeu um pouco nestas eleições, mas continua a mostrar grande resiliência, tendo em conta que é um partido que existe desde 1875, portanto sobreviveu inclusive ao nazismo, à clandestinidade, à repressão, às prisões, aos campos de concentração. Depois temos uma forte componente democracia cristã que também já existia desde o século XIX, um grande partido católico, o Zentrum católico, que aliás inspira os partidos católicos em Portugal, quer na Primeira República, quer depois o Centro Democrático Social, ou seja, o CDS, é daí que vem essa expressão também. Esses partidos existiam partidos democratas cristãos católicos, mas também protestantes. Eles estão divididos até ao nazismo. Vai ser um dos problemas, aliás, vão se apresentar divididos perante a ameaça do nazismo, mas depois da Segunda Guerra Mundial, Konrad Adenauer vai reconstituir esses partidos, federando esses partidos na CDU. A CDU agrupa quer católicos, quer protestantes. O próprio Adenauer é um católico da Renânia, de Colônia, mas apesar de tudo, com esta exceção interessante que é nessa federação há um caso especial que é a CSU, é o partido do centro católico da Baviera, que se mantém completamente autónomo e que faz uma espécie de coligação permanente com o resto da democracia cristã, mas esse é um dos grandes pilares também da política alemã. E foi a direita respeitável que restou depois do nazismo, em que muitos elementos da direita mais nacionalista, mais populista, ou tinham aderido abertamente ao nazismo, ou se tinham aliado e ficado contaminados por essa aliança com o nazismo. Konrad Adenauer, por exemplo, teve de se autoexilar no interior do país. Não chegou a ser propriamente preso, mas perdeu o seu emprego e teve de se refugiar no mosteiro. Portanto, essa direita respeitável vai reconstituir a direita alemã na Alemanha Ocidental. Também houve sempre um Partido Comunista muito forte. Nós esquecemos às vezes, mas Karl Marx era alemão e esse partido vai assumir o poder aliado às tropas soviéticas na Alemanha de Leste, mas com algum apoio. Não creio que se possa dizer que tivesse um apoio maioritário, nunca teve em eleições livres, mas a verdade é que era um partido muito numeroso, muito bem organizado, que também tinha resistido à clandestinidade, etc. E que vai dominar a Alemanha de Leste. E depois uma parte desses elementos, até alegando que tinham ajudado a acabar com o regime autoritário da Alemanha de Leste, a negociar a unificação da Alemanha, uma parte desses elementos mais moderados, mais reformistas do antigo Partido Comunista, vão se aliar a outros elementos da esquerda radical e criar este movimento Die Linke. Hoje em dia, a maior parte dos dirigentes já são de uma nova geração, portanto já têm poucas ligações realmente à Alemanha Oriental. Agora, é realmente um sistema político sempre muito fragmentado, ou seja, não há maiorias absolutas na Alemanha desde os anos 60. Há sempre coligações e isso exige negociações muito longas, que é o que está agora a acontecer. Não sabemos se até o final de abril teremos governo. É esse o objetivo e já é um objetivo que mostra como estas coisas demoram. Em todo caso, eu diria, a Alemanha está a mexer mais do que aquilo que muitas vezes é normal. Esta política, até por causa do trauma do nazismo, leva a uma grande dispersão de poder, a valorizar-se muito o compromisso quase a qualquer preço e portanto muitas vezes, de facto, a decisões que não são muito rápidas nem muito decisivas, mas realmente Merz está aqui a ter já a capacidade de mudar as coisas, ou seja, ainda com este Parlamento em funções, já conseguiu aprovar o fim do travão orçamental para certas despesas e um novo programa de investimento que vai permitir realmente um reforço brutal do investimento, não só na defesa, mas também em novas tecnologias, em infraestruturas e alguma coisa está realmente a mudar na política alemã, apesar de haver aqui uma grande permanência nalguns partidos-chave. Os grandes elementos novos, obviamente, são estes novos partidos populistas, AfD e os Verdes já há mais tempo, mas nenhum deles até agora conseguiu acabar completamente com estes partidos do centro-direita e do centro-esquerda, que têm uma existência realmente secular.
Parece ter ficado bastante clara a tua posição, Bruno. Agradecemos também ao Vasco Frazão pela pergunta que enviou, desta vez através do X, o antigo Twitter, mas o Bruno tem um e-mail, nós no final do programa vamos dizê-lo, recordá-lo para qualquer dúvida que tenha, já sabe é colocar e quem sabe se o Bruno Cardoso Reis não estará aqui na semana seguinte para a responder. Entretanto, Bruno, foi aprovado um superpacote de financiamento, pelo menos é assim que está a ser descrito, de rearmamento na Alemanha. Faz parte do acordo do novo governo que está ainda em formação. A indústria alemã vai passar, Bruno, dos carros para os carros de combate?
Esse era realmente o último ponto que eu referi e estamos a falar de 500 mil milhões. A Alemanha tem realmente margem de manobra para investir muito e para investir rapidamente, se quiser também. E tem este problema que é estar, por exemplo, com uma certa crise na indústria automóvel, não se conseguiu adaptar suficientemente rápido aos novos carros elétricos. Há claramente uma discussão também na Alemanha nestes termos, que me parecem os corretos e os acertados, que é esta situação de conflito armado, de necessidade de investir mais na defesa europeia para nos defendermos, para dissuadir ataques, não é para ir invadir o resto do mundo. Os europeus já fizeram isso no passado e já desistiram disso há algumas décadas, mas isso pode ser uma grande oportunidade econômica, pode permitir utilizar até indústria que já existe. A indústria alemã tem grande capacidade nesta área da metalomecânica, etc. E utilizar isso. Obviamente, também já existe uma indústria de defesa que pode ser expandida, mas até novas oportunidades, novos nichos. Acho que Portugal aí deve seguir também o exemplo alemão e procurar estudar a possibilidade de parcerias, de se associar a alguns destes projetos, que na sua escala nunca seriam fazíveis só num só país e certamente não em Portugal. Mas realmente também há esta dimensão da oportunidade econômica, de inovação tecnológica, que claramente a Alemanha está aqui a querer aproveitar.
E Bruno, vamos voltar a um lugar bem frio. Trata-se da Gronelândia. J.D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos, fez questão de visitar este território dinamarquês. Esteve numa base militar americana. A Gronelândia é um território que Trump já admitiu anexar aos Estados Unidos, mas os Estados Unidos já têm lá bases militares e pergunto, Bruno, se a Gronelândia vai continuar a ser um tema. Pelo menos parece que sim.
Sim, realmente é extraordinário. Eu sou alguém que prefere evitar o frio. A Gronelândia é um sítio muito frio, mas parece que temos de continuar a fazer estas visitas, nem que seja virtuais. Lá está, houve aqui uma minicrise, ou seja, quer os responsáveis da Gronelândia, os políticos eleitos nas novas eleições, quer o governo da Dinamarca deixaram claro que não tinha havido nenhum convite oficial ou oficioso, que de fato esta visita não era uma boa ideia. Estão a decorrer negociações para formar o novo governo. Em princípio, está concluído. Há um governo de ampla coligação que parte desta ideia de que não vai haver uma independência a curto prazo, que seria eventualmente o caminho para alguma aproximação aos Estados Unidos. E há eleições municipais. Felizmente, aparentemente, por temor também de protesto, há notícias de que os responsáveis diplomatas americanos andaram porta a porta a tentar que alguma família da Gronelândia recebesse o casal Vance. Toda a gente se recusou. Estava aparentemente prevista uma manifestação também, e portanto eles acabaram por limitar a visita à base militar norte-americana, que já existe e que é aqui a questão, no fundo, mais irônica e mais extraordinária, que é: os Estados Unidos já têm uma presença militar na Gronelândia. Ela já foi maior, foram os Estados Unidos que optaram por reduzir e fechar bases. A Gronelândia e a Dinamarca já deixaram claro que estão dispostos a aceitar novas bases americanas ou bases maiores, ou uma presença maior. E tudo isto realmente parece ser simplesmente uma vontade de afirmação de poder, de quero, posso e mando, contra um aliado tradicional dos Estados Unidos e muito leal dos Estados Unidos, e sem que haja nenhuma justificação prática para que isso aconteça. Eu espero que acabem estas notícias e que se entre aqui num registo mais normal e mais pragmático, mas realmente não é garantido que seja assim, porque de fato isto é sobretudo uma questão de populismo também, de ganhar pontos internamente na política americana. Vamos ver se isso também está a resultar, se não está a haver uma reação negativa. Em relação ao Canadá, isso já é muito evidente. Já tivemos alguém como o Joe Rogan, que é aqui uma figura com uma enorme influência, com o podcast, um colega podcaster, mas com um bocadinho mais de cliques. O Joe Rogan já veio pela primeira vez criticar a administração Trump. "Eu não percebo esta crise com o Canadá", diz ele, e com toda a razão, não se percebe. E a mesma coisa se podia dizer em relação à Gronelândia e à Dinamarca. Espero que isso acabe por prevalecer, que o bom senso acabe por prevalecer.
Bruno, estamos a entrar nos últimos quatro minutos do "Cinco Continentes". Vamos até à África. Venâncio Mondlane e Daniel Chapo estiveram reunidos. Um encontro muito antecipado, depois de toda a tensão que se sentiu em Moçambique depois do período eleitoral. Bruno, o problema está finalmente resolvido?
Eu acho que não podemos dizer isso, infelizmente, não podemos dizer que está finalmente resolvido. Acho que é um passo na direção certa, desse ponto de vista acho que é de saudar. Corresponde a algo que eu também fui aqui dizendo, que até pelo contexto regional e global, não há muita capacidade ou interesse ou vontade de outras potências terem aqui um protagonismo importante como mediadores. Muitas vezes as elites moçambicanas, e às vezes com razão, queixavam-se de excessivas interferências, por exemplo, na guerra civil, etc, de países vizinhos ou de outras potências. Aqui era sobretudo os moçambicanos que tinham de resolver este problema de Moçambique. No fundo, isso também era uma oportunidade. E parece-me também que saiu pelo menos aqui uma mensagem importante, que é a rejeição da violência pelas duas partes e a disponibilidade para algum tipo de compromisso. Agora, acho que apesar de tudo, o mais difícil vem a seguir, que é um compromisso que não seja simplesmente um acordo entre elites políticas. Isso já aconteceu no passado entre a RENAMO e a FRELIMO, por exemplo, uma distribuição de lugares, etc. Mas, de fato, algum tipo de reformas, algum tipo de resposta aos anseios da população mais pobre, isso será sempre mais difícil de fazer, mas acho que isso não se pode dar por garantido e também não se pode dar por garantido que esta crise está definitivamente encerrada.
E entretanto, Bruno, temos ainda tempo para ir até às Filipinas, que estão a diversificar as relações de cooperação em defesa e compras de armamento face aos Estados Unidos. Pergunto se esta diversificação é sinal de que os Estados Unidos podem estar aqui a perder aliados.
Eu penso que infelizmente é verdade, muito contra a vontade desses aliados, até porque em muitos casos o equipamento militar americano é claramente o melhor, seria aquele que seria mais fácil de produzir em quantidade e com alguma rapidez de manter. Mas a verdade é que é sempre boa política manter alguma diversificação de relações. Claramente, esta enorme confiança que havia nos Estados Unidos, não só por produzir armamento de muito boa qualidade, mas por ser um aliado muito fiável, esta segunda parte está claramente cada vez mais em questão. Eu recordo que o presidente Trump, nestes últimos dias, fez declarações a respeito do novo avião que substituirá os F-35, que ele chama F-47, e disse claramente: "Não vamos fornecer a versão melhor aos nossos aliados, porque os aliados podem ser aliados um dia, podem não ser no outro dia". No fundo, confirmou estes receios. E as Filipinas, que está aqui na linha da frente do choque com a China pela disputa territorial no Mar do Sul da China, de facto não se pode dar ao luxo de deixar de ter equipamento militar se de repente os Estados Unidos decidem chegar a um acordo a qualquer preço com a China e está a apostar muito na cooperação com o Japão, com a Austrália, com a Índia, com países europeus como a França, que têm alguma capacidade de produção militar, com a Coreia do Sul, que é um grande produtor também de equipamento militar e também não só em termos de compra de algum armamento, mas também de mais exercícios navais, por exemplo, inclusive sem a presença dos Estados Unidos. Mas tudo isso é bem um sinal do custo que tem esta política norte-americana, esta política externa trumpista muito agressiva, muito nacionalista, muito populista, em que aparentemente as alianças não têm nenhum valor e também não há nenhuma segurança que sejam para manter a prazo.
Bruno, de forma quase telegráfica, estamos a chegar ao fim, qual é a sugestão que queres deixar aos nossos ouvintes?
É um novo livro de um podcaster também, alguém que é muito ativo nos podcasts, que eu admiro muito, que é o Ezra Klein, um livro em coautoria com o Derek Thompson. No fundo, é um pequeno ensaio, não muito longo, que saiu agora há poucos dias. Ezra Klein é alguém que é um crítico do trumpismo, mas a questão que ele coloca é que realmente as pessoas estão muito insatisfeitas com o sistema político, estão muito insatisfeitas com a capacidade de resposta do Estado às suas preocupações, aos seus problemas e como é que se resolve isso? Nós não podemos simplesmente denunciar o trumpismo ou o populismo, temos que tentar perceber quais são os reais problemas, e eles existem em questões como o custo de energia, a construção de casas, a construção de sistemas de transporte público. No fundo, ele parte deste diagnóstico que é, mesmo nos Estados Unidos, e os Estados Unidos nisso se calhar serão um pouco melhor que a Europa, as coisas parecem completamente bloqueadas. A burocracia é extremamente pesada, os concursos públicos nunca mais acabam, as obras todas custam muitíssimo mais do que era suposto e duram muito mais tempo. Portanto, é preciso realmente ter aqui políticas públicas muito mais eficientes, eficazes, para realmente convencer as pessoas que vale mais apostar em políticos competentes e que querem resolver problemas concretos do que no populismo, que dá, no fundo, respostas simplistas e em muitos casos irrealistas, mas àquilo que são realmente problemas reais. Parece-me uma leitura muito interessante.
E é um livro mesmo recente, Bruno, estou aqui a ver, saiu dia 18 de março, portanto, foi mesmo há poucos dias.
Exatamente.
Nós ficamos por aqui nesta edição de "Cinco Continentes". Entretanto, dizer que os nossos ouvintes podem sempre deixar uma pergunta ao Bruno Cardoso Reis. Pode ser através do X, como fez o Vasco Frazão, mas é mais fácil se for para o e-mail ouvinte@observador.pt. O Bruno Cardoso Reis tem todo o gosto em responder a estas perguntas aqui no nosso "Cinco Continentes". Bruno, um grande abraço e até à próxima semana.
Bom fim de semana. Obrigado.
Grande abraço, Bruno.