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"Cinco continentes" com Bruno Cardoso Reis na Rádio Observador. Todas as semanas analisamos a geopolítica internacional. Bruno, bem-vindo.

Obrigado e bom ano a todos.

Bom ano, Bruno.

Esta semana, como é habitual, começamos com os dois conflitos que estão a marcar a atualidade: a guerra na Ucrânia e o Médio Oriente. Começamos em Gaza, onde houve um grande desenvolvimento esta semana, Bruno. Os Houthis do Iémen foram atacados pelos Estados Unidos, mas também pelo Reino Unido.

No último mês assistimos a um aumento significativo no número de ataques de Houthis a navios comerciais no Mar Vermelho. Isso colocou vidas inocentes em risco, está a perturbar a economia global e também a desestabilizar a região. Nesse período, também vimos o maior ataque a um navio de guerra da Marinha Britânica em décadas. Ficava agora claro que esse tipo de comportamento não podia continuar. É por isso que nos juntámos aos aliados na condenação pública deste comportamento e é por isso que tomei a decisão com os aliados de avançar para um ataque que acredito que é necessário, proporcional e direcionado contra alvos militares.

Rishi Sunak, o primeiro-ministro inglês, com os motivos que levaram ao ataque, que lançou várias questões. Fazemo-las aqui também, Bruno. Primeiro, se os ataques foram justificados.

Não há, de facto, um direito dos Houthis, não há um direito de ninguém de atacar navios civis, navios de comércio, alegando a defesa de uma qualquer causa, por muito legítima e justa que seja essa causa. Neste caso, os Houthis dizem: "Estamos a defender a causa palestiniana". Até dizem: "Estamos a atacar navios ligados a Israel ou com destino a Israel", mas a verdade é que isso comprovadamente não é assim. Já foram mais de 100 ataques, muitos deles foram navios que não tinham nada a ver com Israel. Houve um caso que foi até muito noticiado, de um navio que transportava óleo alimentar da Malásia para penso que Itália. Isso levou inclusive a uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas esta quinta-feira, que exigia, e estou a citar: "A suspensão imediata de todos os ataques contra navios mercantes e comerciais no Mar Vermelho". Portanto, eu diria que a resposta parece-me que é claramente que sim. Ou seja, os Estados Unidos e os seus aliados têm aqui claramente a lei internacional do seu lado. No fundo, os Houthis estão a desenvolver uma atividade que só pode ser caracterizada como pirataria e isso não é permitido à luz da lei internacional, à luz da ordem internacional vigente. E essa é realmente uma questão muito importante. Esta resolução do Conselho de Segurança mostra que mesmo países que nestes últimos tempos têm estado muitas vezes em posições completamente opostas e quase por princípio assumem posições diferentes dos Estados Unidos, por exemplo, a Rússia ou a China, de facto não quiseram aparecer completamente ao lado dos Estados Unidos e do Japão, que promoveram esta resolução, mas abstiveram-se. Ou seja, também não convém, sobretudo à China, mas mesmo em relação à Rússia, que também precisam de exportar produtos, de vender produtos, a Rússia o seu petróleo, a China múltiplos produtos, muitos deles, aliás, os produtos que vêm da China pra Europa basicamente têm que passar por este estreito de Aden, também não convém a essas potências que haja o caos no mar, que haja uma criminalidade descontrolada no mar, que haja pirataria no mar. E portanto, parece-me que a resposta é claramente que sim.

Bruno, e estes ataques representam uma escalada no conflito, na tua opinião?

Representam uma certa escalada vertical. Nesta terminologia, nestes palavrões mais da análise de conflitos, quando se fala em escalada, estamos a falar do intensificar ou do alargamento do conflito. Uma escalada vertical quer dizer que o conflito se torna mais intenso. Uma escalada horizontal quer dizer que o conflito se alarga a zonas diferentes. Neste caso, não estamos a falar do alargamento a zonas diferentes, porque foram os Houthis que tomaram a iniciativa de fazer essa escalada antes, ou seja, de um conflito que estava basicamente focado em Gaza, também passar a afetar o Mar Vermelho, que fica a umas centenas de quilômetros dessa região. Aí não, mas em termos de intensidade da resposta dos Estados Unidos, sim, os Estados Unidos e os seus aliados deixaram simplesmente de ter aqui uma postura reativa e defensiva, portanto, sempre que havia ataques com drones ou com mísseis, seriam interceptados a partir dos navios americanos ou dos seus aliados, e proativamente passaram a atacar os locais de lançamento desses mísseis, os paióis onde essas munições, esses mísseis e esses drones estão armazenados. E portanto, desse ponto de vista, há uma certa escalada, mas que corresponde, da parte dos Estados Unidos, a um objetivo fundamental, que é evitar uma escalada ainda mais perigosa, sobretudo o alargamento, essa tal escalada horizontal, o alargamento do conflito também à região do Golfo Pérsico, ao Estreito Ormuz. Houve sinais preocupantes nos últimos dias de que longe de o Irã ou os seus aliados Houthis estarem também a restringir as suas atividades, estavam continuamente a intensificar essas atividades. Mais ataques no Mar Vermelho, ataques pela primeira vez na zona do Golfo de Omã, que é logo à saída do Estreito de Ormuz, e portanto, parece-me que o objetivo fundamental americano continua a ser igual.

E Bruno, achas que podemos estar perante um falhanço da estratégia de Joe Biden no Médio Oriente com estes ataques?

Eu acho que marginalmente sim, no essencial não. Ou seja, acho que Biden foi talvez excessivamente otimista no sentido de achar que a presença de meios aéreos, de meios navais, sobretudo no Mar Vermelho, neste caso, que os avisos repetidos dos Estados Unidos iriam ser suficientes para evitar uma escalada Para evitar o intensificar dos ataques dos Houthis ou até para travar esses ataques. E isso claramente não foi bem-sucedido. Ou seja, nesse aspecto, sim, houve um falhanço dessa estratégia que obrigou os Estados Unidos a intensificar os ataques, a passar pra uma fase seguinte, em que passaram a atacar alvos no próprio território controlado pelos Houthis. Por enquanto, eu acho que não se pode falar de um completo falhanço da estratégia americana, que continua a ser, no essencial, não se envolver com tropas no terreno, e portanto, até agora isso não aconteceu. Estamos a falar de usar meios aéreos, meios navais, mísseis, e de evitar também que haja uma escalada descontrolada a nível regional, ou seja, que houvesse aqui, por exemplo, um completo fechamento do Estreito de Aden ou um envolvimento mais direto do Irão. Agora resta ver como é que os Houthis e sobretudo como é que o seu grande patrocinador, o grande ator aqui que tem estado a promover esta ação dos Houthis, do Hezbollah, mesmo do Hamas, que é o Irão, até que ponto é que o Irão está disposto a ir na resposta, se também o Irão irá escalar. Se isso acontecer, aí sim, pode ser que falhou a estratégia norte-americana. Agora também é preciso dizer que não se vê muito bem quais seriam as alternativas melhores para os Estados Unidos, depois dos Estados Unidos terem deixado claro que não iriam permitir que o Estreito de Aden fosse estrangulado, fosse fechado, que era fundamental até em termos da ordem regional e global garantir a liberdade de navegação, não se criar aqui um precedente perigoso para outras zonas onde pudesse haver ataques deste tipo. Se os Estados Unidos não reagissem de forma mais intensa, mais assertiva, mais robusta, no fundo perdiam credibilidade.

E Bruno, já na Ucrânia, nos últimos dias, Zelensky tem recusado pausas, tem feito vários apelos diplomáticos. Pergunto se estamos aqui também perante uma ofensiva diplomática da Ucrânia e pergunto se estamos perante isso, perante o momento em que a Ucrânia tem de realmente pegar nos meios diplomáticos pra tentar vencer esta guerra?

Sim, acho que não há dúvida que sim, ou seja, em termos militares, no terreno, as coisas estão num relativo impasse. Um impasse ainda assim custoso e sangrento, mas não há grandes avanços. E na medida em que tem havido alguns avanços, tem sido a Rússia, embora relativamente insignificantes, de poucos quilômetros. Em termos da guerra aérea, há uma certa intensificação, mas também não será por aí que o conflito se irá resolver. Aquilo que parece decisivo realmente para a Ucrânia é conseguir contrariar este risco, esta ideia de que os países ocidentais, esta grande coligação de mais de 50 países coordenada pelos Estados Unidos, que tem sido crucial para alimentar o esforço de guerra ucraniano, para aumentar as capacidades militares ucranianas em termos de sofisticação de meios mais avançados, que essa coligação, que esses aliados, no fundo, estão a começar a desistir, a cansar-se da Ucrânia. Eu acho que isso realmente seria uma ameaça para a viabilidade da resistência ucraniana. Em termos objetivos, até se pode dizer, a Ucrânia estará mais forte, em todo caso, do que estava em fevereiro de 2022, quando começou a agressão russa. Mas entretanto, toda a sua estrutura militar foi sendo construída em torno deste apoio, em torno destes sistemas de armamento, em torno de sistemas de armamento que exigem, por exemplo, fornecimento regulado de munições. E a Ucrânia aí tem procurado desenvolver algumas capacidades próprias, mas tem sempre este problema, que é o seu território estar muitas vezes a ser atacado pelas forças russas. Ao contrário do território russo, que em grande parte é um santuário pra Rússia. E, portanto, isso significa que a Ucrânia tem de garantir que este apoio continua. Em relação aos Estados Unidos, está tudo muito dependente do calendário político, das guerrilhas políticas internas norte-americanas, num contexto também de aproximação das eleições de novembro de 2024 pra presidência e pro Congresso. E, portanto, aquilo que é possível neste momento é procurar sinais positivos do lado dos aliados europeus, e o Zelensky conseguiu isso dos países bálticos, e conseguiu isso sobretudo agora com a Grã-Bretanha a anunciar um apoio plurianual de mais de 2 bilhões de euros, representa um aumento de mais de 250 milhões de euros por ano em relação ao que foi dado nos anos anteriores, e também uma garantia de segurança que vai tornar difícil, por exemplo, a uma futura administração americana, que tem historicamente relações muito próximas com a Grã-Bretanha, dizer: "Nós não temos nada a ver com a Ucrânia", porque esta garantia significa que de alguma forma a Grã-Bretanha também estará aí implicada, e deixar cair a Ucrânia também seria deixar cair a Grã-Bretanha.

E Bruno, achas que a Ucrânia, não podendo vencer militarmente, é mais realista em negociar?

Eu acho que esta é uma questão fundamental e eu acho que é preciso ser claro que não há uma teoria fácil ou garantida de vitória numa guerra, em qualquer guerra, e certamente também não nesta, em particular nesta, pra Ucrânia, que tem uma enorme assimetria de poder em relação à Rússia. Eu falo sempre, por exemplo, da questão da população, mas podíamos falar do tamanho da economia. A Rússia é um país que é três, quatro vezes maior em população, no tamanho da economia, é muitas vezes maior em termos de território e recursos. Portanto, não há realmente uma teoria fácil, mas apesar de tudo, eu acho que aí há uma via que é sobretudo tentar-se acabar com estas linhas vermelhas artificiais, que no início podiam ter alguma justificação por causa do risco de escalada pra uma Terceira Guerra Mundial. Do meu ponto de vista, já se percebeu que a Rússia continua a ser um ator racional e que não vai arriscar um conflito direto com o Ocidente, que seria muito mais custoso pra Rússia do que um conflito com a Ucrânia. Portanto, acho que esse risco de escalada não pode ser completamente ignorado, mas não pode condicionar-nos, não pode continuar a condicionar o apoio ocidental como tem sido o caso até aqui. Portanto, devia-se fornecer mais armamento, mais avançado e sobretudo acabar com estas restrições ao seu Emprego. Em termos de uma teoria para uma paz negociada, essa é que me parece que não faz muito sentido. Não vejo que seja muito credível. Por que que agora Putin iria aceitar que afinal a Ucrânia tem direito a existir? Ele até se deu ao trabalho de assinar um ensaio a provar que a Ucrânia nunca existiu na história, que na verdade era parte da Rússia. Por que a Rússia agora iria ser um parceiro fiável? Por que que haveria razões para acreditar nos compromissos que a Rússia assumisse? A Rússia já várias vezes garantiu as fronteiras da Ucrânia, em 1994, em troca das suas armas nucleares. Em 2014, quando Putin anexou a Crimeia, disse:"Eu garanto que nós não queremos mais nenhum território ucraniano. Isto é um caso excepcional". Vimos o que aconteceu depois, logo a seguir no Donbass, e o que aconteceu depois de fevereiro de 2022. Portanto, não me parece que haja aqui nenhuma razão para acreditar que a Rússia esteja disposta a negociar de boa fé e, portanto, que houvesse aqui uma paz negociada fácil, aceitável para a Ucrânia, para a Rússia e também para os países ocidentais que estão a apoiar a Ucrânia.

Bruno, vamos então até a América Latina, onde o Equador está numa situação muito preocupante, uma onda de violência gerada pelo domínio dos traficantes de droga levou o país a ativar o estado de emergência. Pergunto se podemos falar de narcoterrorismo e como é que pode ser a resposta a esta situação.

Em relação à primeira pergunta, por um lado, oficialmente, foi exatamente isso que foi decretado. É isso que o novo presidente do Equador, que tem, aliás, um mandato muito curto, só de ano e meio, vai completar o mandato do presidente anterior, que foi afastado pelo Parlamento. Realmente ele veio dizer: "Estamos num estado de emergência, estamos num estado de conflito interno, estamos a enfrentar narcoterroristas". E eu acho que realmente esse conceito aqui faz algum sentido, porque tipicamente a criminalidade organizada não choca de frente com o Estado. Procura ter a postura de um parasita, ou seja, de alguém que não põe em questão o sistema, mas que ilegalmente vai explorando o sistema económico, nomeadamente. É verdade que já houve alguns precedentes deste tipo, por exemplo, no México, até na Itália, com a máfia, mas sobretudo, eu diria, nalgumas zonas da América Latina, no México, na Colômbia, onde grupos de criminalidade organizada pelo menos tentaram controlar partes do território e controlar partes do sistema político. Mas eu diria que provavelmente em termos de um desafio aberto a todo o Estado, até porque o Equador é um Estado muito mais pequeno do que o México ou que o Peru, realmente é uma situação quase sem precedentes na clareza deste desafio dos grupos de criminalidade organizada ao poder do Estado. Em relação ao que se vai fazer, ao segundo aspecto, eu acho que sobretudo vai seguir a receita de El Salvador, do presidente Bukele, que é muito controversa, que muitas vezes é atacada por violar direitos fundamentais, por haver aqui um risco de uma deriva autoritária. Mas a verdade é que é impressionante pensar nesses termos. Há quatro ou cinco anos atrás, El Salvador tinha os números de homicídios que o Equador tem atualmente, à volta de 40 ou 50 por 100 mil habitantes. Hoje, o Equador tem os números de El Salvador. El Salvador, com estas medidas draconianas, detenções sem acusação, de purgas do sistema judicial, etc, conseguiu que esses números baixassem para aquilo que eram os números do Equador, que era volta de sete homicídios por 100 mil habitantes. E mesmo que esses números sejam um pouco otimistas, mesmo que fosse o dobro disso, seria muito menos do que aquilo que tem hoje o Equador. Essa parece ser a receita, cada vez com mais apoio, apoio também da própria população. Eu percebo este argumento, para mim é muito importante. Não se pode sacrificar a liberdade à segurança, mas a verdade também é que sem segurança não há verdadeira liberdade e as populações na América Latina estão claramente cansadas deste crescendo da violência ligada à criminalidade organizada.

Na Europa, viajamos até à Polônia, Bruno, onde continua o choque entre Donald Tusk, o novo primeiro-ministro, e Andrzej Duda, o presidente. Agora tivemos deputados do partido do presidente, o Lei e Justiça, a serem detidos e acusações de obstrução à Justiça. Bruno, até onde é que este confronto pode ir?

Sabemos que já irá até certamente Bruxelas. Pelo menos é essa a vontade, ironicamente, do partido que estava no poder, do PiS, do partido também do presidente Duda, que durante todos estes anos insistia sempre que a União Europeia, Bruxelas, não tinha nada que se meter nos assuntos internos polacos, não se tinha de meter na Justiça, não se tinha de meter em questões constitucionais, e agora que foi derrotado em eleições e que enfrenta aqui estes problemas, a primeira coisa que fez foi apelar a que Bruxelas fizesse pressão sobre o governo polaco, portanto, é realmente uma enorme ironia. O segundo aspecto, eu espero que os dois lados mostrem alguma moderação, mas acho que isto confirma aquilo que nós dissemos no programa anterior, em relação exatamente à Polônia, é que provavelmente este conflito está para durar. O presidente Duda vai se manter até 2025, só há eleições nessa altura. O partido, o PiS, o partido da Lei e Justiça, continua a ser o maior partido no Parlamento, embora não tenha maioria parlamentar, a oposição é que tem, e portanto, não perdeu de forma esmagadora e está claramente determinado a continuar aqui a fazer sempre pressão sobre o novo governo do primeiro-ministro Donald Tusk.

Bruno, em Taiwan há eleições este sábado. Lai Ching-te, que é o atual vice-presidente da ilha, é o favorito para vencer entre os três candidatos. O que é que devemos esperar destas eleições e que importância é que têm a nível regional e também a nível global?

Em relação ao primeiro ponto, as sondagens dão realmente uma vantagem ao partido que está atualmente no poder, ao Partido Democrático, que é visto como pró-independência, embora seja muito importante dizer isto Mesmo este partido pró-independência não vai declarar formalmente independência, isso seria quase que uma declaração de guerra em relação à China continental, à China comunista. Mas apesar de tudo, a margem é suficientemente curta em relação ao número dois, ao Kuomintang, ao Partido Nacionalista Chinês, o partido que perdeu a guerra civil em 1949 com o Partido Comunista, que se refugiou em Taiwan e que agora, mais uma ironia da história, é vista como o partido pró-Pequim, pró-Partido Comunista Chinês, porque realmente é hostil à ideia da independência e quer relações relativamente cordiais com a China. Esse partido, apesar de tudo, tem algumas hipóteses, teremos de ver. E há um terceiro candidato também na casa dos 20 e tal%. São eleições mais disputadas ainda do que é costume. Teremos de ver. Em relação ao segundo ponto, eu acho que isso é importante sublinhar, nós podemos pensar em Taiwan, Formosa, como lhe chamaram os navegadores portugueses, é uma ilha muito distante, mesmo que seja muito bonita. O que isso nos interessa? 50% do comércio de contentores a nível global passa pelo mar que separa Taiwan da China continental. 90% dos microchips mais avançados, daqueles que são usados, por exemplo, nos smartphones, são produzidos em Taiwan. Se houvesse aqui um conflito armado, ainda por cima com os Estados Unidos a terem assumido o compromisso de defender militarmente Taiwan, haveria um conflito direto entre a China e os Estados Unidos, a guerra na Ucrânia, de vários pontos de vista, mas inclusive do ponto de vista também econômico, seria uma crise relativamente menor. É realmente algo que nos deve preocupar bastante, embora seja uma realidade bastante distante geograficamente.

Bruno, terminamos em África, com foco na África do Sul. Têm estado tensas as relações entre o país e Israel, depois de muitas acusações no Tribunal Internacional de Justiça em Haia. A África do Sul acusa Israel de genocídio. Israel acusa o país africano de ser um representante do Hamas. Bruno, por que a África do Sul se mostra tão hostil a Israel?

Nós podíamos pensar que é simplesmente uma preocupação, uma prioridade aos direitos humanos, ao direito internacional. Mas sabemos que isso não é verdade, porque a África do Sul, é preciso recordar aqui, este governo sul-africano, o ANC, chegou a pôr a possibilidade de sair do Tribunal de Haia, do Tribunal Penal Internacional, para evitar problemas com Putin, que é acusado de crimes de guerra ligados à deportação forçada de crianças ucranianas. Claramente não é essa a questão. É também estranho que a África do Sul, por exemplo, não venha denunciar o genocídio em relação aos quais há provas com alguma credibilidade na atual guerra civil no Sudão, aquela força de reação rápida que está a combater as Forças Armadas do Sudão eram os antigos Janjaweed, que está documentado estiveram envolvidos no genocídio de africanos no Darfur, uma parte do território do Sudão, e as alegações são que agora isso está a repetir-se. Realmente há aqui um certo paradoxo. O que explica isso é a relação histórica de extrema proximidade entre o ANC, como movimento armado, e a OLP também como movimento armado. Basta dizer que a primeira viagem de Mandela, depois de ser libertado da prisão em 1990, para a Zâmbia, ele aí encontrou-se com os seus principais aliados, os líderes africanos, e a única figura não africana era precisamente o líder da OLP, Yasser Arafat. Há realmente essa proximidade, essa extrema simpatia do ANC em relação ao movimento nacionalista palestiniano, e é isso que essencialmente explica esta ação da parte da África do Sul.

Bruno, estão feitas as viagens por hoje. Na próxima semana voltaremos mais uma vez para viajar pelos cinco continentes. Um forte abraço e até para a semana.

Até para a semana. Obrigado.