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Penúltima edição da Força da Técnica e a Técnica da Força Especial Mundial. O Gabriel Alves já está aqui conosco. Boa tarde, Gabriel.
Boa tarde.
Depois deste jogo, permita-me que lhe pergunte: afinal, ainda há jogos de terceiro e quarto lugar que vale a pena ver?
Estamos todos de parabéns. Tivemos aquilo que se pode dizer um belo jogo. Belo jogo, interessantíssimo, muito bom, muito agradável, entretenido, divertido. Daquele jogo que normalmente ninguém quer disputar. Pois bem, estes futebolistas da Croácia e de Marrocos, naturalmente mostraram que: "Sim, senhora. Pondo-me neles, nós queremos disputar este jogo, queremos o bronze, vamos lutar pelo pódio", e naturalmente fizeram uma partida muito interessante. A equipe de Marrocos, portanto, é derrotada, começo por ela. É, de facto, uma honra para a África, naturalmente, todo um continente que obviamente viu uma equipe sua chegar a esta luta pelo pódio, depois de ter tido uma carreira ímpar no decorrer deste mundial do Catar. E aquilo que nós podemos dizer é que a África sai feliz, mesmo não tendo conseguido o tal pódio, mas a discussão como Marrocos fez a competitividade, a forma galharda e com tudo o que é futebol, com mérito, com competitividade, com aspectos de ordem técnica e tática, naturalmente que deixa a África feliz. E acima de tudo, com um fator em alta competição que é fundamental, e Marrocos foi bem o apanágio, que é a capacidade de sacrifício, porque teve vários jogadores tocados, vários jogadores que deram tudo e mais não deram, porque não era possível, porque são humanos. Portanto, para os africanos fica uma palavra de honra, de glória e naturalmente, acima de tudo, de história. E é importante agora que os outros países africanos que têm vindo a mudar, têm vindo a alterar processos, têm vindo a crescer, têm vindo a estar atentos para a melhoria daquilo que é o seu futebol. Cada vez têm mais futebolistas no futebol mais avançado do mundo, principalmente aqui na Europa, têm tido grande capacidade de retirar ensinamentos e de os aplicar, mesmo no ponto de vista estrutural, mesmo no ponto de vista da organização, mesmo no ponto de vista de administração. Portanto, continuarem assim. Marrocos deu a nota, agora é preciso seguir em frente e procurar que haja outros que possam discutir pódios, que possam discutir as grandes medalhas para gáudio de todo um continente.
E Gabriel, faço-lhe uma pergunta, mas antes peço-lhe que se chegue só um pouquinho mais perto do seu microfone, porque estamos a perder alguma qualidade. Mas neste jogo em concreto, o que aconteceu? Como o Gabriel, estive atento, não sei se tão atento como o Gabriel, obviamente, mas o que aconteceu? A Croácia finalmente aparece, depois da França, claro está, porque eliminou Marrocos. Aparece com a lição bem estudada, que outras seleções não tinham tão assente e conseguiu eliminar os perigos que Marrocos representa ou as pilhas dos marroquinos neste jogo não estavam como estiveram no mundial?
Não. A verdade é esta: Marrocos já surgiu nessa partida com alguns déficits, não podendo utilizar determinado tipo de jogadores. Portanto, como eu disse, essa capacidade de sacrifício foi bem notória, bem evidente. Eu já lá irei naquilo que mostrou. Mostrou hoje um jovem, o Hakimi, um jovem lançado, mas formado no gangue.
Dezoito aninhos.
Dezoito aninhos, claro. Um jogador fantástico. Para não falarmos no En-Nesyri, que é de facto um jogador fabuloso.
Mas que até foi preferido pelo Regragui no início do jogo.
Sim, porque muito bem este treinador, que quis dar a hipótese de todos os futebolistas. Penso que só houve um guarda-redes que não teve essa premissa de poder jogar este campeonato do Catar 2022. Isto é ter um grupo unido. Eu dizia hoje de manhã que não é preciso ser professor doutor para ser selecionador da nacional. É preciso é ser líder. Também não é preciso chefes. Chefes para lá. Não, precisamos de líderes, pessoas com essa capacidade de perceber, de saber lidar, saber comunicar, saber falar, saber conhecer com quem trabalha. E este treinador mostrou isso. Em tão poucos meses, obviamente surgido praticamente do nada, fez uma equipa e teve uma equipa, e uma equipa com ele e ele com a equipa. Isso é que é o fundamental. E portanto, hoje, perante esta Croácia, que também denotou algumas limitações. É preciso também ter isso em conta. Houve ali momentos em que a Croácia esteve com o bloco muito baixo e esteve apertada. Eu direi mesmo, aquilo que faltou à equipe marroquina foi aquilo que se chamou quase um pouco melhor definição, porque teve momentos em que podia ter igualado a partida e até antes de sofrer o segundo gol, poderia ter ela chegado a esse segundo gol. Agora, esta Croácia, que despede uma geração desse grande senhor Modrić, eu diria que é um adeus grande pela medalha que uma vez mais vai conquistando. Já conquistou imensos títulos ao nível de clube e noutras provas. Têm uma caixa de medalhas, eu diria a caixa de ouro, porque tem lá tantas medalhas de ouro, mas também pelo seu enorme futebol, porque é um futebol enorme que nós vimos pela última vez hoje, pelo menos ao nível dos tapetes verdes do mundial. Portanto, encabeçada por Modrić, temos uma geração que depois tem Perčić, tem Kovačić, tem Kramarić, tem Lovren, tem Brozović. São jogadores que cumpriram no espaço de quatro anos. Vejam bem, são medalha de prata e quatro anos depois são medalha de bronze. Se dava pouco por esta seleção croata e também pela de Marrocos, quando se começou este campeonato do mundo. A verdade é que, quer numa, quer outra, uma atingiu o objetivo do pódio, e merecidamente. Repare-se e não se esqueça que mandou o bando do Brasil para casa. Esta Croácia mostrou muito valor e mostrou que também há aquele fator que é preciso ter muitas vezes em conta. Velhos são os tratos. Sabendo fazer um mixing entre jovens e jogadores maduros. É evidente que há muitos jogadores maduros, mas destes que eu falei, ainda vão estar alguns que vão continuar a abrir as portas, os espaços para que os jogadores de grande qualidade, como Oršić, por exemplo, como Gvardiol e outros que lá estão, possam obviamente vir a substituir e a vir relançar esta grande seleção croata, que vem já na sequência de hoje do seu grande líder, que é Šuker, que era um grande jogador em 1998.
Então vamos lá para as nossas duas rubricas, começando pela força da técnica. Onde esteve Gabriel e não me desiluda, porque aquele segundo gol da Croácia merece pelo menos uma menção.
Não, esse é o gol da força da técnica. Eu falei em Oršić. Eu quero dizer, é uma obra de arte. Não vou dizer mais nada.
Mas é que a posição do corpo do Oršić não fazia prever que o remate saísse assim.
Sim, mas ele tem tudo, porque não foi por acaso. Repare se ele teve outros passes, teve outros toques, teve outras movimentações. Quem esteve atento ao jogo, outras situações gestuais de corpo fantásticas. Um jogador muito sereno, muito frio, mas soberbo em qualidade técnica, este jogador que joga em Belgrado e naturalmente que é um dos futebolistas, como vai haver vários que naturalmente se destacarão nesta grande montra que é sempre um mundial de futebol, mais do que outro splato. E de facto, Oršić é um dos jogadores que vai naturalmente chamar a atenção de tudo que é olheiro.
Eu não sei é como é que o Oršić, com 29 anos, ainda está no Dínamo de Zagreb.
É verdade. Essa é que é a verdade, mas é um jogador de futebol. E não foi muito utilizado neste campeonato, a verdade é que tem que se dizer, mas é um jogador capaz de poder vir a ser um futebolista que possa vir a liderar uma sequência nesta equipa da Croácia. Mas há outros. Por exemplo, na equipa de Marrocos, temos Amrabat. Mas que jogador este! O Boufal também já tem 29 anos. Eu já o conhecia quando ele jogou em Vigo. Saltando, está emprestado ao Angers. Ele foi formado no Angers. Este é um jogador que tem muito futebol e mostrou-se aqui naturalmente com essa qualidade. O Ziyech, que futebol! Portanto, quer numa, quer noutra equipa, há futebolistas de grande qualidade. Eu queria chamar a atenção também para o trabalho específico do próprio treinador. Eu queria tocar, antes disso, os guarda-redes. Cuidado! Quer o guarda-redes da Croácia, que faz uma defesa fabulosa no decorrer deste desafio, quer o guarda-redes de Marrocos, são dois dos grandes guarda-redes deste campeonato, porque os outros dois grandes guarda-redes vão jogar amanhã a final. Para mim, é o quarteto maravilha com o Rid neste Catar 2022, porque o guarda-redes argentino é grande, tem uma história de vida fabulosa, podemos falar dela amanhã, e temos o Lloris, que é de facto um guarda-redes fantástico, de grande dimensão ao serviço do Tottenham há uns anos. Portanto, há jogadores, e por isso é que eu digo, temos que estar todos satisfeitos e dizer: ainda bem quem viu, ainda bem que vimos a Croácia e Marrocos.
E antes de viajarmos no tempo, Gabriel, quem teve ou onde esteve a técnica da força neste jogo dos desconsolados, que foi um consolo?
Eu direi por quê. Depois de termos visto tanta coisa falada aqui de técnica da força, porque foram muito mais os pontos de força da técnica que nos embeleceram e que nós gostamos de observar, mesmo ao nível do ponto de vista tático. Cuidado com aquele trabalho específico, aquele trabalho de escritório, aquele trabalho de casa na marcação do primeiro gol da equipa da Croácia, naquele livre soberbamente marcado.
E vamos finalmente para o nosso estilo inconfundível. Peço ajuda à Filipa Duarte para nos lançar aqui uma música chamada "Rei Pelé", de 1961, bem ao ritmo brasileiro, porque Gabriel, hoje, no penúltimo dia do mundial, quer falar do Rei.
Eu quero falar do Rei, porque em 1959 havia um jovem chamado Pelé Eu vou pegar aqui de um escrito, com a devida vênia, de Juan Delgado, um jornalista espanhol que, ao tempo, escrevia. Não vou citar o artigo todo, vou citar partes do artigo. "Em 1958, a guerra não passava de uma má recordação. O mundo mudara com rapidez e abria-se para uma era de avanços técnicos e científicos prodigiosos. O Campeonato Mundial disputado naquele ano, na Suécia, demonstrou que o futebol acompanhava essa evolução, inaugurando igualmente um novo período, o do fabuloso Pelé. Quando cheguei ao país nórdico para comentar a sexta Taça do Mundo", e estou a citar Juan Delgado, "os meus colegas brasileiros contaram maravilhas de um dianteiro extremamente jovem, com condições para se converter num dos prodígios do futebol de todas as épocas. Chamava-se Edson Arantes do Nascimento, mas no seu país era mais conhecido pela alcunha de Pelé, e tinha apenas 17 anos. Em 1958, Pelé era um jovem muito tímido, ao ponto de se tornar difícil dialogar com ele, e os seus olhos demonstravam uma enorme apreensão ante uma das primeiras experiências com agentes da imprensa. Se no jogo exibia à vontade e serenidade, a conversação, a sua voz lenta e doce denunciava-o como um cauteloso e receoso. Tinha um ar reservado e distinto que de qualquer forma não dissimulava a sua origem humilde. Falámos do seu jogo, da sua eficácia, do recorde que já possuía, 58 gols no Campeonato Brasileiro e do seu primeiro triunfo no Balão, aos 12 anos. Uma das suas frases surpreendeu-me, e cito: ‘O futebol é das coisas mais simples do mundo. Só é preciso jogar.’ Isto dito com sorriso tímido e sincero, afiguro-se-me revelador da difícil simplicidade do seu jogo. Esforcei-me por não perder um pormenor de jogo que disputou a equipe do Brasil, por exemplo, frente à União Soviética da altura. Três dos melhores suplentes do mundo, Pelé, Garrincha e Zito, foram a jogo. Esforcei-me por não perder um pormenor daquele embate sensacional. Foi um prélio brilhante, em que se contrastaram o estilo rude baseado no poder físico dos soviéticos e a técnica e o profissionalismo dos sul-americanos." A tal técnica da força e força da técnica. "Se até então parecia que o Brasil considerava cada encontro como um pretexto para uma exibição espetacular, em 1958, a sua seleção nacional incutiu ênfase na eficácia que apoiava as suas características técnicas. Por isso, foi campeão do mundo. A sensacional ofensiva da equipe brasileira baseava-se naquele jovem de cor, com gestos de bailarino e passada tipiquiana. Apresentava o aspecto incômodo do jogador que não descobre um companheiro a quem passar a bola. No entanto, com a agilidade surpreendente e a astúcia de uma raposa, unia a técnica, a imaginação e a rapidez. Além disso, Pelé possuía um sentido excepcional da colocação do terreno, demonstrando um instinto futebolístico que muito poucos alcançaram. Dispunha já de um poder muscular enorme, concentrado nas pernas, quadris e cintura, que lhe permitia as mudanças de ritmo mais inesperadas, os sprints mais vertiginosos e uma finta longa e de certeza. O seu virtuosismo era cortado, coroado pela facilidade com que fazia o arremate seco, preciso e potente. Aquele 15 de julho em Gotemburgo figura entre as minhas melhores recordações." Estou a citar Juan Delgado. "As minhas melhores recordações futebolísticas, quando anos mais tarde comentei o facto com o próprio Pelé, este não ocultou a emoção, dizendo: ‘O Mundial da Suécia foi para mim o melhor e mais lisonjeiro. E não só por ter sido o primeiro.’" Pelé na primeira pessoa, Pelé descrito por alguém que o entrevistou, por alguém que o seguiu de perto quando ele era jovem. Eu também tive o grato prazer de entrevistar Pelé no Mundial dos Estados Unidos em 1994 e recordo a conversa simples, agradável, de um grande senhor, Edson Arantes do Nascimento. Eu queria só dizer que trouxe hoje aqui, porque houve outros grandes jogadores que se seguiram. E amanhã? Estão frente a frente dois futebolistas, um que é lenda, Leo Messi, o outro que é futuro, Mbappé. Haja o que houver, Pelé está lá. As grandes vedetas, as grandes figuras do futebol marcam os mundiais. Que o diga Maradona, que o diga Cruyff, que o diga Di Stéfano e até Cristiano Ronaldo.
O rei antes do último episódio do força da técnica e a técnica da força que amanhã vai coroar, quiçá, aqueles que cheiram o trono que é desde há muito ocupado por Pelé. Gabriel Alves, nós voltamos amanhã para ver quem é que é o vencedor disto tudo. Até amanhã. Um abraço.
E quem é o rei.
Até amanhã.