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Mais um capítulo da guerra traduzida na Rádio Observador. Nesta primeira parte vamos analisar a imprensa russa, um trabalho do jornalista Miguel Cordeiro, em colaboração com a Larissa Tovmasian, natural da Rússia. Miguel, boa tarde. Para começar, vamos olhar para uma reunião de Vladimir Putin. O presidente russo esteve com mães de militares mobilizados.

Escreve a RenTV: o presidente russo Vladimir Putin encontrou-se pessoalmente com as mães dos militares participantes da operação especial da Federação Russa para proteger o Donbass e a sua população. O encontro está programado para assinalar o Dia das Mães, um dia que é comemorado na Federação Russa no último domingo do mês de novembro, ou seja, no próximo domingo. Os filhos dessas mães que se encontraram com Vladimir Putin estão na zona de combate da operação especial da Federação Russa como mobilizados, como voluntários, soldados contratados e militares regulares. Os homens servem nas fileiras das Forças Armadas da Rússia, estão diretamente na zona de uma operação especial ou então passam por treino tático e coordenação de combate. A reunião contou com a presença de 17 mulheres de várias regiões da Rússia, do Extremo Oriente ao Donbass. Também estiveram no evento mães cujos filhos ficaram gravemente feridos ou até que morreram durante a operação especial. O presidente russo destaca também que o país compartilha a dor de quem perdeu os seus filhos durante a operação especial e que as autoridades dão apoio integral às famílias. Já a Ria Novosti conta a história de algumas dessas mulheres. Podemos ler neste artigo da agência estatal russa: entre os participantes da reunião está a inspetora tributária Galya Sukovskaya, de Ryazan. O seu único filho, Semyon, morreu a 4 de março em Bucha. Deixou a esposa e a filha em casa. Ele foi condecorado postumamente com a Ordem da Coragem. A dona de casa Yelena Alexeeva, de Stary Oskol, também fala com o presidente. Ela é mãe de dois filhos, o mais novo dos quais, Yevgeny, foi mobilizado em setembro. Na zona da operação especial, ele ficou gravemente ferido e agora está num hospital em Rostov-on-Don.

E Vladimir Putin classifica como heróis todos estes militares mobilizados.

Foi também durante esta reunião. O presidente russo Vladimir Putin disse que todos os participantes da operação militar especial são heróis. Só eles, os próprios, sabem que são heróis de verdade. Por quê? Porque ninguém, exceto eles e os seus comandantes mais próximos, que estão ao lado deles, sabe o quão difícil é este trabalho e o quanto envolve um perigo real para a vida e para a saúde. Só eles sentem, só eles percebem. Esta é a frase de Vladimir Putin. O presidente russo também referiu que os participantes da operação especial comportam-se heroicamente e que isso é um mérito das suas mães.

Vamos para território ucraniano, onde a Rússia está a criar uma reserva de energia para a central de Zaporizhzhia.

Uma fonte de reserva de energia para a central nuclear de Zaporizhzhia. Isto foi relatado pela empresa Rosatom. A empresa esclarece que a central de Zaporizhzhia vai ter esta utilização. Esta decisão foi tomada em conta com a enorme importância da reserva de abastecimento de energia para a segurança nuclear desta central. Tomamos a decisão de começar a restaurar o comutador aberto de Zaporizhzhia, pode ler-se no canal de Telegram da Rosatom. Ontem, Zaporizhzhia perdeu novamente o acesso à energia. A RenTV escreve que as Forças Armadas da Ucrânia dispararam contra Zaporizhzhia e danificaram os tanques localizados entre a quarta e a quinta unidade. Isto provocou um derrame não radioativo.

Da Ucrânia voltamos à Rússia. Isto porque houve mudanças, Miguel, no Kremlin. O supervisor russo para as eleições de 2024 saiu.

Saiu. Este artigo está na Meduza. No bloco político da administração presidencial da Federação Russa, o supervisor de todas as eleições russas pode ser substituído. Isto é o que dizem três fontes, três interlocutores próximos do Kremlin à publicação Meduza, jornal independente russo. Diz também este jornal que as campanhas eleitorais estão a ser realizadas pelo chefe da administração presidencial para garantir os assuntos do Conselho de Estado e que Alexander Kharichev, um colaborador próximo do chefe do bloco do Kremlin, Sergey Kiriyenko, vai assumir este cargo. Segundo as fontes da publicação Meduza, Kharichev, o homem que estava no cargo até agora, vai sair, vai aposentar-se. São apontadas razões de saúde pelo Kremlin, mas, de facto, as fontes da Meduza dizem que os problemas de saúde não são aqui a única razão. Segundo essas fontes, altos funcionários de segurança insistem que esta renúncia de Kharichev acontece porque ele reivindicava e estava contra a organização dos referendos sobre a anexação de territórios ucranianos à Rússia, tentou adiar por várias vezes esses referendos, que acabaram por acontecer. Foi uma voz contra e agora começa a ser afastado e a publicação Meduza conta em parte esta história.

Vamos olhar para o que disse Angela Merkel, a antiga chanceler alemã. Diz que não ficou surpreendida com a invasão russa à Ucrânia.

Em entrevista ao Der Spiegel, que surge também na imprensa russa, diz que a invasão russa à Ucrânia não foi uma surpresa. Esta é a frase. Segundo Merkel, nas vésperas de deixar a política, ela tentou estabelecer contato com o presidente russo Vladimir Putin. A citação é a seguinte: "Gostaria de ver um momento mais tranquilo depois da minha saída, mas isso não foi uma surpresa. Os acordos de Minsk foram quebrados no verão de 2021, após o encontro entre os presidentes Biden e Putin. Eu queria estabelecer um formato europeu independente para a discussão com Vladimir Putin, novamente com Emmanuel Macron, no Conselho da União Europeia. Mas alguém começou a opor-se a isso e eu não tinha mais forças para insistir sozinha, porque todos sabiam que eu iria sair no outono". Segundo Merkel, durante a última visita que fez a Moscovo, a atitude em relação a ela era também a mesma, em termos políticos de poder, ela estava a acabar, estava a terminar um ciclo e para Putin apenas a força importa. A ex-chanceler alemã afirma que tentou passar por sua iniciativa de prevenção de guerra para outros políticos alemães, mas que aqueles com quem ela falou hesitaram em assumir a responsabilidade.

Seguimos em frente nesta guerra traduzida. Um em cada quatro russos está disposto a comprar o novo carro russo. E tudo por patriotismo.

Sim, porque como sabemos, várias empresas dos diferentes setores cortaram relações com a Rússia. Um dos setores é o setor automóvel, ou seja, as grandes marcas deixaram de produzir, muitas empresas foram vendidas a zero, a um rublo, a um valor simbólico, e empresas russas tomaram conta dessas empresas. É quase uma nacionalização. Mas uma dessas empresas está a produzir o modelo Moskvich 3. É um SUV, um novo carro que está a ser produzido e que vai começar a chegar ao mercado. Os primeiros 600 carros vão estar à venda no próximo mês, 200 são elétricos, e a Pravda Komsomol decidiu fazer uma sondagem à população para perceber se as pessoas estão ou não interessadas neste carro e os resultados, escreve a Pravda Komsomol, que um em cada quatro russos quer comprar este carro por patriotismo. Um quarto dos entrevistados pretende comprar o Moskvich por patriotismo e desejo de apoiar a indústria automobilística nacional neste difícil período de sanções. 23% apontaram que já se familiarizaram com o modelo e pretendem comprar este carro ao longo do tempo. Outros 22% acrescentam que comprariam o carro com prazer, mas que o preço é muito alto. Os russos lembram que em algumas regiões do país há casas mais baratas e, portanto, seria difícil comprar este carro. 21% acrescentam que se puderem ser convencidos da viabilidade deste veículo, da qualidade destes novos carros russos, feitos um pouco à pressa e que na verdade são muito semelhantes a alguns modelos chineses de carros, 21% dizem que se conseguirem garantir que este veículo é útil, que funciona, que está tudo correto, que podem dar preferência a comprar este carro com prazer e assim dar força à economia russa.

E terminamos com este gesto de patriotismo russo, a guerra traduzida com análise à imprensa de Moscovo.