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Guerra Traduzida na Rádio Observador. Vamos analisar nos próximos minutos a imprensa russa. É um trabalho do jornalista Miguel Cordeiro, feito em colaboração com a Larissa Tovmazian, natural da Rússia. Miguel, boa tarde.
Boa tarde.
Em destaque, os tanques enviados para a Ucrânia pelos países europeus.
Escreve o Vesti, publicação estatal russa: a Ucrânia pode receber 88 tanques alemães, tanques Leopard 2 da Alemanha e dos seus aliados. Isto foi dito pelo chanceler alemão Olaf Scholz. Ele especifica que o objetivo é transferir dois batalhões destes veículos de combate para as Forças Armadas da Ucrânia. O processo de transferência vai ser coordenado pela Alemanha, é o que escreve a agência russa Interfax. O gabinete de ministros alemão permite o envio de tanques Leopard 2 para a Ucrânia. A Alemanha promete transferir 14 veículos blindados. Além disso, é relatado que os Estados Unidos podem fornecer às Forças Armadas da Ucrânia 30 a 50 tanques M1 Abrams, o Reino Unido 14 Challenger 2 e a França está a discutir a transferência dos tanques Leclerc. Na imprensa russa, vários artigos sobre críticas também da oposição alemã ao envio destes tanques. É um dos temas em destaque na imprensa russa de hoje.
Foi, entretanto, aprovada a lei que acaba com a divulgação pública das declarações de propriedade dos deputados, e o Kremlin refere que acontece por causa do conflito na Ucrânia.
Nós já falamos um pouco sobre isto esta semana. Agora o Kremlin vem dizer que acontece por causa do conflito na Ucrânia. A grande novidade é esta: a Câmara Baixa do Parlamento Russo adotou a terceira e última leitura da lei que remove a obrigação dos deputados de publicarem declarações de renda em domínio público. A nova regra entra em vigor a 1 de março. Um dos autores do projeto de lei, o chefe do Comitê de Legislação do Parlamento Russo, Pavel Krasheninnikov, explica que os deputados ainda vão ter que apresentar declarações, mas apenas informações estatísticas, de formas gerais, vão ser disponibilizadas de acesso público. Ou seja, quantas foram aprovadas, quantas foram chumbadas, quantas têm problemas. Não vão ser divulgados dados pessoais. Falando sobre o motivo pelo qual decidiram acabar com esta publicação das declarações, Krasheninnikov diz que nem todos estão interessados em tornar isso público e o secretário de imprensa do presidente da Federação Russa, o Dmitry Peskov, diz que esta recusa em publicar as declarações dos deputados não afeta o combate à corrupção. Diz que os deputados vão ter que continuar a informar sobre as receitas e sobre a propriedade que têm. Peskov explica a necessidade de mudar este procedimento, dizendo que as condições da operação militar da Ucrânia trazem as suas próprias especificidades.
Especificidades. Na Pravda de Komsomol, um artigo com relatos de prisioneiros russos que estiveram na guerra da Ucrânia.
Desde a primavera do ano passado que prisioneiros russos começaram a ser integrados nas forças ucranianas, principalmente no grupo Wagner. Nós já falamos um pouco disso, falamos principalmente na altura em que os contratos destas pessoas terminaram. Foi em dezembro, o primeiro lote de ex-presidiários que cumpria contrato de seis meses voltou para casa. Os primeiros prisioneiros a irem para a guerra voltaram para casa. Voltaram com medalhas, com dinheiro e com esse indulto. Em janeiro, o segundo lote foi também condecorado. E um destes homens fala à Pravda de Komsomol, esta publicação falou com vários destes homens. Vamos olhar aqui para um caso específico. Dmitry Semenov é um nome fictício, claro. Ele diz: "Fui durante 180 dias carne para canhão. Em troca, deixei de cumprir uma pena de 12 anos". Dmitry é um veterinário. Ele não trabalhava já há muito tempo nesta especialidade. Nas horas vagas desenvolvia próteses para cães e gatos. A esposa trabalhava como professora de Física e Astronomia na escola. Acontece que, para além de tudo isso, dedicavam-se também à produção e venda de estupefacientes em grande escala. Produziam e vendiam droga, foram detidos, foram apreendidos equipamentos para produção de drogas, mercadorias. Houve depoimentos de clientes, alguns polícias disfarçados. Em 2018, foram condenados. Ele, a 17 anos, ela a 16. Ele já não vai ter que cumprir pena. Inscreveu-se para combater pela Rússia na primavera do ano passado. Esteve seis meses na linha da frente e em dezembro terminou o contrato. Está livre. A esposa vai ter que ficar presa até 2034. Ele diz: "Na verdade, ela devia ter saído um ano antes de mim, se tivéssemos os dois a cumprir pena". Espera agora conseguir encontrar uma forma para que ela consiga sair mais cedo. Ele diz que quer continuar a trabalhar no ramo militar. Diz que é um homem diferente, que nestes seis meses que esteve na linha da frente na Ucrânia, aprendeu disciplina. Neste artigo há depois vários testemunhos, vários homens que são aqui entrevistados. Está na Pravda de Komsomol o artigo extenso com estes testemunhos de homens que estavam presos e que deixaram de estar para irem combater e agora estão livres. A maior parte deles diz que quer continuar a combater.
Avançamos agora para um artigo que se debruça sobre a forma como a guerra mudou o setor farmacêutico na Rússia.
É um artigo na Ren TV. A indústria farmacêutica russa está atualmente a passar por uma transformação. Após a saída de empresas estrangeiras, as empresas estão agora gradualmente a passar por um ciclo de produção completo, ou seja, o setor farmacêutico na Rússia de produção ou fazia medicamentos específicos, ou produzia apenas alguns, ou tratava algumas substâncias, e agora tem que fazer a produção completa, desde as caixas dos medicamentos às substâncias medicinais complexas. O problema de escassez de medicamentos foi referido por Vladimir Putin, salientando que é necessário aumentar as reservas e os volumes de produção. Este artigo da Ren TV parte depois para a reportagem para perceber a dimensão da escassez, reportagens em farmácias em várias regiões. Os repórteres confirmam. Um dos farmacêuticos diz: "Houve um aumento sazonal significativo na incidência da gripe, infecções respiratórias e, de facto, temos muita procura". Os cidadãos estão habituados a comprar remédios que conhecem, mas muitos desses remédios já não existem nessas marcas. O problema não passa tanto pela capacidade de produzir os medicamentos, mas sim pela escassez das substâncias. Devido às sanções, há muitas dificuldades russas para importar substâncias necessárias. Há muitos países que continuam a exportar para a Rússia medicamentos. Ao contrário do que acontece em muitos outros setores, no setor da saúde, no setor farmacêutico, as sanções não são tão abrangentes, portanto há empresas que continuam a exportar para a Rússia. O artigo explica ainda assim que há muitas mudanças nesse setor, principalmente porque querendo a Rússia produzir medicamentos, há dificuldade em conseguir substâncias. Para além disso, a Rússia teve até que começar a produzir cartão para as caixas dos medicamentos, porque aí sim, já não consegue importar de outros países. Teve que criar novas fábricas devido às dificuldades de importação, dificuldades em praticamente todos os setores da Rússia por causa das sanções. Como sabemos, o setor farmacêutico não está a ser exceção.
E é com esta notícia que terminamos a Guerra Traduzida. Analisamos nos últimos minutos a imprensa russa deste dia 25 de janeiro.