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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a tripla epidemia que está a entupir os hospitais.

No maior hospital do país, em Santa Maria, os tempos médios de espera atingiram as 14h.

Falava em seis horas, agora esse número agravou. Falam em 7h30 só em média de tempo de espera e já ouvimos relatos aqui muito complicados de pessoas que estiveram muito mais do que o dobro desse tempo à espera, 15h até 24h.

Já o Hospital de Santarém, a partir do meio-dia, deixou de receber doentes de ambulância. O caos instalou-se no Hospital Amadora-Sintra, em Lisboa, devido à demora no atendimento dos utentes nas urgências.

Os serviços de urgência têm sido muito procurados em todo o país. As reportagens das televisões à porta dos hospitais dão conta de milhares de casos de doenças respiratórias, nalgumas situações com consequências graves. A meio do outono, estamos a viver os efeitos daquilo a que muitos chamam de tripla epidemia. O Ministro da Saúde, Manuel Pizarro, diz que o governo está atento e a agir.

A pressão está menor do que ontem, mas tem sido o hospital onde temos tido uma maior pressão. Aliás, diria que no essencial, nós temos tido uma procura mais elevada nas urgências, que não é inesperada. É mesmo por isso que estamos a apresentar este plano de contingência, é porque sabemos que na época de inverno há, naturalmente, maior procura de cuidados de saúde e também de procura de cuidados na urgência.

Não é um exclusivo nacional. Aqui ao lado, em Espanha, as autoridades de saúde lidam com a conjugação de três vírus que estão a provocar doenças respiratórias, o que está a pressionar também, do outro lado da fronteira, os serviços de saúde. O VSR, o SARS-CoV-2 e o Influenza, o causador da gripe, juntaram-se neste outono. Esta tripla ameaça deve deixar-nos preocupados? Como devemos lidar com estes vírus? Vou conversar com a jornalista do Observador, Ana Kotowicz. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia número 200. Bem-vinda, Ana. Bem-vinda ao episódio número 200 da História do Dia.

Obrigada, Ricardo. É uma honra estar aqui no episódio 200, mas digo-te já que estou com alguma tosse. Espero que tu estejas melhor.

Não, eu também não estou grande coisa. Não sei se queres começar esta conversa a trocar doenças. Eu ontem estava pior do que estou hoje. Fiz um autoteste esta manhã, deu negativo para a Covid, mas estou aqui um pouco confuso com os sintomas. Também diria que não é gripe. Será essa coisa da VSR?

VSR, Ricardo, eu diria que dada a tua idade, não deve ser, porque isso normalmente afeta mais as criancinhas e as pessoas muito velhas, e tu ainda não és assim tão velho.

Muito velhas, eu registei essa.

Tens a minha idade, portanto, estás ótimo.

Exato. Vamos lá então primeiro tentar dizer isto: VSR quer dizer vírus sincicial respiratório. Acho que é isto.

É assim mesmo, é difícil de dizer e mais vale ficarmos pela sigla.

Então vamos pela sigla. Que vírus é este? Não me lembro de termos sido apresentados.

A maior parte das pessoas não o conhece. Ele tem passado despercebido, até porque no inverno, a não ser que tenhas filhos pequenos, nós acabamos a ouvir falar mais é da gripe nos últimos anos, da Covid. Mas é um vírus com uma história muito engraçada, embora cause uma série de problemas respiratórios, como por exemplo, as bronquiolites, sinusite, por aí fora. Mas o que eu te posso dizer deste vírus? É que ele foi descoberto em 1956. E o que aconteceu? Na altura, havia tuberculose e a tuberculose era um problema. Então estava-se a tentar descobrir e testar vacinas contra a tuberculose. Onde? Em chimpanzés. E o que acontece? De repente, os chimpanzés ficam todos doentes, com uma espécie de constipação e o vírus era um vírus completamente novo, que nunca tinha sido conhecido, tanto que foi chamado agente da coriza do chimpanzé. Coriza é um nome esquisito, a não ser para donos de gato.

Sim, eu só conhecia a coriza dos gatos.

Exatamente. É a mesma coisa, só que em vez de ser dos gatos, é dos chimpanzés. O que os investigadores decidiram fazer? Decidiram brincar com o vírus e portanto pegaram nele, infectaram mais chimpanzés para tentar aprender como é que ele se replicava. Só que aquilo correu mal. Alguém naquela equipa ficou infectado, ou seja, aquele vírus deu o salto zoonótico, de animal para homem, que foi o que aconteceu com o vírus da Covid-19.

Com aquele coronavírus, de que já vamos falar daqui a pouco.

Exatamente. E de repente tinhas vários bebés ali nas proximidades a serem infectados com este vírus. E foi assim que ele deixou de ser o agente da coriza do chimpanzé e passou a ser o VSR. E se tu quiseres, podes tentar dizer o nome outra vez, eu não me vou arriscar.

Não vou arriscar. Vamos imaginar que é parecido com o nome daquele vulcão islandês. Mas isto tem ou não tem consequências graves? Que vírus é este? Estavas a explicar que afeta sobretudo crianças e idosos. Quais são as consequências?

Tal como a gripe ou como a Covid, pode ser fatal. Ou seja, tu podes morrer depois de teres sido infectado com este vírus, mas isso é o menos comum. O mais normal, e foi o que me explicou o virologista Francisco Antunes, é que tanto adultos como crianças fiquem bons no espaço de uma a duas semanas. O que é que normalmente acontece? Até aos dois anos de idade, tu ainda estás a aproveitar o sistema imunitário que a tua mãe te passou.

Uhum.

Portanto, tens alguma proteção. A partir dos dois anos perdes e é quando normalmente és infetado. O que acontece? És infetado, ficas doente, podes ter uma bronquite, podes ter uma sinusite, uma série de coisas, mas ganhas a tua imunidade e daí para a frente, mesmo que sejas infetado, não te faz grande mossa. É como as constipações. Nós constipamo-nos várias vezes ao ano e já não ficamos em casa por causa disso.

E depois temos a gripe. A gripe normal, passados dois anos de máscara e trancados em casa.

Exatamente. A gripe normal é aquela que anda entre nós há mais tempo. Já temos gripe entre os humanos, pelo menos desde o século XVI e se calhar tivemos antes, só que não tínhamos conhecimentos científicos para concluir isso. O que é que acontece? Durante dois anos, nós estávamos vestidos dos pés à cabeça contra a Covid-19 e, portanto, a gripe não passava. E o que na altura muitos virologistas explicaram é que quando tu tens mais do que um vírus em circulação, o dominante ganha. O dominante era o vírus da Covid-19. E portanto, a gripe desapareceu, as constipações desapareceram, o VSR desapareceu. Só tínhamos Covid. Agora, o que acontece? A Covid já não é nova. Já não vale a pena chamarmos o novo coronavírus, porque já é o velhinho coronavírus. E os antigos vírus voltaram todos a aparecer, entre eles o da gripe e o do VSR, como já falámos. Queres saber mais coisas sobre a gripe normal?

Quero. Quero só antes disso perguntar-te se faz sentido isto, se eles vêm com mais força ou vêm iguais ao que sempre foram.

Eles vêm iguais ao que sempre foram. Nós é que não estamos como éramos. Ou seja, há aqui duas coisas importantes. Primeiro, nós tínhamos barreiras para nos impedir de ficarmos infetados pela Covid-19. Essas barreiras funcionam para qualquer vírus que causa doença respiratória. Portanto, a gripe não passava e os outros vírus que causam doenças respiratórias também não. O que é que acontece? Nós durante dois anos não fomos infetados, portanto, as nossas próprias imunidades, e isto não é uma coisa 100% aceite por todos os virologistas, há opiniões diferentes, mas, por exemplo, o Francisco Antunes diz-nos isso, que é: nós depois de dois anos sem lidarmos com o vírus, ficamos mais frágeis e portanto, quando apanhamos a gripe, vai ser daquelas fortes que nos deitam mesmo abaixo.

Mas há a vacina. A vacina contra a gripe é só para maiores de 65 ou devemos canalizar as doses para os maiores de 65, mas podendo, quem sabe, os que estão entre os 40 e os 50.

Como nós.

Também podem levar.

Eu acho que isto também tem um lado económico importante. De facto, as pessoas que mais arriscam a ter consequências graves depois de uma gripe são as pessoas com mais de 65 anos e as pessoas que já têm outras doenças associadas. E portanto, aí, de facto, há um foco em vacinar estas pessoas e a vaciná-las mais rapidamente, até porque são as que vão ficar, à partida, mais doentes, com doença mais grave, vão precisar de ser internadas e eventualmente podem até morrer. Agora, a vacina protege qualquer pessoa, portanto, em havendo e podendo, eu acho que é sempre de ser vacinado.

E no meio disto tudo, ainda temos a Covid-19. Qual é o ponto de situação nesta altura, Ana?

A Covid-19 continua a estar por aí, está por todo o mundo. Aqui em Portugal, o que nós temos visto é que o índice de transmissibilidade está a subir, ou seja, está em um, no limiar daquilo que é-

O RT.

O RT, exatamente, como nós ficamos a conhecer. Portanto, está no limite. Acima de um, nós sabemos que as coisas podem começar a correr mal. É aí que estamos agora, segundo o Instituto Ricardo Jorge. Já a média de casos a cinco dias baixou, segundo dados que saíram agora há muito pouco tempo. Portanto, isto é uma boa notícia. No entanto, também sabemos que todos estes vírus vão aumentar à medida que vier o tempo mais frio, e ele ainda não chegou.

Já voltamos à conversa com a jornalista Ana Cotovitz. Vamos tentar perceber quais são as melhores táticas e defesas para esta ameaça tripla de vírus e ainda fazer uma pergunta: podemos ser contaminados em simultâneo?

Eu sou o Carlos Diogo Santos, editor de sociedade do Observador e estive durante mais de um mês a fazer a cobertura das eleições presidenciais no Brasil. Para fazer bom jornalismo é preciso estar no terreno e isso só é possível graças aos assinantes. Assinar o Observador é fundamental para garantir um jornalismo de qualidade.

Estamos de regresso à conversa com a jornalista Ana Cotovitz. Ana, como é que nos defendemos desta tripla ameaça? Só este nome é assustador. Eu sinto-me rodeado de vírus por todos os lados.

E estás rodeado de vírus por todos os lados, até porque, como já toda a gente percebeu, nenhum dos dois está muito bem por este vírus.

Basta ouvir com atenção as nossas vozes.

Não é? O que é que nós devemos fazer? Tudo aquilo que aprendemos durante a pandemia e que parece que a maioria das pessoas já se esqueceu.

É verdade.

Andar de máscara quando tens sintomas, porque estás a evitar contagiar os outros. Usar máscara quando os outros estão a tossir para cima de ti, porque é uma forma de evitar ser contagiado. Por exemplo, em sítios como aquele que estamos agora, neste estúdio, o que as regras dizem é que pelo menos duas em duas horas ele deve ser arejado durante 15 minutos. Portanto, já sabes, quando sairmos a porta fica aberta.

E fica, de certeza.

Durante um quarto de hora e manter o distanciamento quando suspeitamos que a outra pessoa está carregadinha de vírus. E depois, claro, a lavagem das mãos. Tudo aquilo que nós aprendemos durante a pandemia é o que nós precisamos de fazer para nos proteger de qualquer vírus, doença respiratória.

Mas é curioso como tanta gente já se esqueceu. Basta andar por aí. Aquela regra do cotovelo é tão fácil. Vá lá, não custa nada.

Facílimo.

E a par dessa etiqueta respiratória, as vacinas também continuam a ser uma arma muito importante, obviamente.

As vacinas são fundamentais, é o que diz qualquer um dos especialistas que nós ouvimos aqui no Observador. Por quê? Porque vão evitar ao máximo que tenhas doença grave, vão evitar a probabilidade de morte e com isso tu consegues retirar pessoas dos hospitais, porque quem tem Covid-19 e acaba internado é mais uma cama que está ocupada.

E esse não é um problema só nosso, esse problema de hospitais cheios, urgências entupidas. Aqui ao lado, em Espanha, há notícias que parecem as notícias que nos chegam aqui de Portugal. Há capacidade de resposta nos hospitais e centros de saúde para esta tripla ameaça, Ana?

Eu acho que a resposta vai depender muito de quem te responder. Há capacidade de resposta, se calhar há, se só estiverem nas urgências as pessoas que realmente devem estar nas urgências, os doentes graves. Mas depois também vais ouvir os médicos a queixarem-se da falta de recursos humanos no Serviço Nacional de Saúde. Portanto, nós depois ouvimos as notícias que nos dizem que as urgências estão entupidas. Os médicos e as administrações hospitalares podem falar em mais casos complexos do que é costume, mas nós sabemos que tirando o tempo da pandemia, em que deixámos todos de ir para a urgência, hoje em dia as pessoas dão três espirros e muitas delas vão correr para um hospital. E os nossos hospitais não têm capacidade para atender essas vagas de doentes.

Daí também a sugestão que surgiu pela voz da ministra Mariana Vieira da Silva, de usar primeiro a linha Saúde 24.

A mensagem que queria deixar também é que nos últimos dois anos todos pudemos experimentar as vantagens da utilização da linha SNS 24 e esse deve ser sempre um recurso à disposição dos cidadãos e que é uma porta de entrada privilegiada no sistema, quanto ao mais o governo acompanha a cada momento a evolução da situação e vai definindo as medidas necessárias. Próxima questão.

É fundamental, é o que qualquer médico, seja de saúde pública, seja internista, seja o próprio bastonário dos médicos, diz. Antes de saíres de casa, se o teu problema é uma constipação, uma gripe ou até Covid, liga para a Saúde 24 para perceber se vale a pena saíres de casa ou se de facto podes tratar no conforto do teu lar com uns comprimidos e com um chá e com uma mantinha quente, muito mais agradável do que estar no frio das urgências.

E perante esta tripla ameaça, Ana Cotovitz, podemos ser contaminados em simultâneo?

Eu gostava de dizer que não, mas a resposta é sim.

Isso é muito assustador.

É muito assustador.

Um colírio de vírus.

É possível, é raro, é muito raro, mas é possível. O mais provável é tu acabares a ser infetado por todos, mas um de cada vez.

Alternadamente.

Alternadamente. Inclusivamente pelos próprios vírus. Porque hoje em dia todos nós conhecemos pessoas que já tiveram Covid mais do que uma vez. Há ali um estado de graça em que ficas imune, mas depois volta a acontecer.

Obrigado, Ana, por teres vindo ao episódio 200 da História do Dia.

Nada, Ricardo. Obrigada por me teres tido aqui neste dia tão especial.

Ana Cotovitz é jornalista do Observador. Esta foi a História do Dia número 200. Eu sei, já disse isso pelo menos três vezes, mas é um número redondo que nos deixa muito orgulhosos. São 200 conversas, 200 temas e se gosta dos nossos episódios, por que não partilhá-los? Isso é mesmo muito importante para nós. Partilhe com um amigo ou com um familiar e obrigado por nos ouvir. Os sons que ouvimos no início são retirados das televisões RTP, CNN e Correio da Manhã. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.