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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Ceuta, uma porta aberta para lado nenhum. É já uma das imagens mais chocantes do ano. Milhares de pessoas a chegar a nado a território espanhol, um caos de medo, euforia e esperança.

"Viva España, viva España! Hola Marruecos."

Que durou muito pouco.

Definir o que aconteceu ontem como um ataque, uma violação da integridade territorial de Espanha.

Em poucas horas, Espanha conseguiu esvaziar uma crise migratória que não tinha previsto. Milhares regressaram a Marrocos depois de perceberem que tinham acreditado numa mentira, mas os estragos políticos estavam feitos.

When you look at what happened to Spain, they don't know what to do, and it's happening again today. They're coming in by the tens of thousands, they're just invading the country.

Hoje eu vou conversar com os enviados especiais do Observador a Ceuta, a Inês André Figueiredo e o João Porfírio. Vamos perceber o que levou tanta gente a arriscar a vida ao mesmo tempo, como é que uma cidade ficou paralisada em menos de 48 horas. E vamos ouvir as histórias de quem voltou para trás e de quem diz que prefere morrer em Ceuta a regressar a casa. Eu sou o Pedro Benvides e esta é a história do dia de segunda-feira, 03 de agosto. Olá, Inês. Olá, João.

Olá, Pedro.

Olá, Pedro.

Vou começar por vos perguntar, porque é curioso, houve uma noite que nós tínhamos visto as imagens da chegada de milhares de pessoas a Ceuta. Eu estava aqui nos estúdios do Observador a gravar a história do dia desse dia e vocês os dois estavam de malas feitas e iam fazer uma noite inteira de carro a caminho de Ceuta. Portanto, eu gostava de vos perguntar o que vocês encontraram quando aí chegaram.

É verdade, saímos durante a noite, de Lisboa, por volta das 23h30, e chegámos a Ceuta entre as 08h e as 09h. Basicamente, a travessia é feita desde Espanha peninsular até Ceuta e é feita através de ferry, que foi aquilo que nós fizemos, e quando saímos do porto de Ceuta e fizemos o trajeto até à praia onde estavam a entrar milhares de migrantes a essa hora, nós chegámos a uma cidade completamente diferente daquela que temos visto nos últimos dias. Estava tudo fechado, havia milhares de migrantes nas ruas. Nós, na altura, acabámos por escolher dizer no nosso primeiro direto que a imagem que nos fazia lembrar era quando acabava um grande evento e as ruas se enchiam de repente de um momento pra outro. E depois acabámos por entrevistar um senhor que estava aqui a trabalhar numa feira que ia existir em Ceuta e que acabou por ser cancelada, e ele deu-nos uma imagem bastante boa, que era aquilo que se costumava ver na série "The Walking Dead", em que está tudo fechado, não há nada, não há serviços, não há nada nas ruas para os habitantes e se vê um conjunto de pessoas a deambular pelas ruas, e foi isso que vimos quando chegámos aqui a Ceuta.

Sendo que o "Walking Dead", pra quem não conhece a série, é uma espécie de apocalipse zumbi, onde basicamente a humanidade é dizimada, quase. E é um pouquinho esse cenário pós-apocalíptico que vocês encontraram quando chegaram. João, tu obviamente vais armado com a tua máquina fotográfica, vais ter que captar aquilo que está a acontecer. Quando chegas e vês essa quantidade de gente e este cenário que a Inês descreveu do fim de uma grande competição, um fim de um grande evento que junta milhares de pessoas, como é que tu decides o que vais fotografar, como é que tu decides a história que vais contar no meio dessa multidão?

Bom, isso de fato é das coisas mais difíceis, uma vez que olhando à minha volta, tudo era história e tudo o que estava a acontecer à nossa volta era digno de ser contado. Nós assim que chegámos à praia, estacionamos atrás de uma coluna enormíssima de tanques militares e atravessamos a estrada e quando entrámos na praia propriamente dita, quando pisamos a areia, junto à água era praticamente impossível ver-se areia, porque era tanta gente que estava a entrar àquela hora, às primeiras horas da manhã, era tanta gente a sair de dentro d'água feliz por estar a chegar a território espanhol, que obviamente é um trabalho muito difícil aquele do fotojornalista que tenta captar emoções e tenta captar aquilo que está a acontecer. Mas acaba por ser relativamente fácil, por causa disso mesmo também, que é, está tudo a acontecer à minha frente e tudo o que está a acontecer à minha frente é digno de registo.

Tu viravas a lente e encontravas uma história, é isso?

Sem dúvida, sim. Só pra termos noção, uma das imagens que mais ficou daquelas primeiras horas, quando chegamos à praia, foi grande parte das pessoas que chegava à areia, quando chegava à areia, ajoelhava-se e beijava a areia. Portanto, foi das primeiras imagens que eu fiz. É uma imagem que visualmente é muito diferente de tudo aquilo que eu já fotografei, que são pessoas que vieram a nado, que chegaram a território europeu e que estão ali a beijar a areia com um significado gigantesco, que é em forma de agradecimento.

E de esperança também, não é? Nessa altura, havia essa esperança de que tinham chegado a um local onde a vida ia mudar a partir daí.

Ia mudar, exato. E poucas horas depois, como iremos certamente falar mais à frente, poucas horas depois, praticamente todas estas pessoas perceberam que não era bem assim e acabaram por regressar. A esmagadora maioria de todas estas pessoas que entraram pela praia de Ceuta já regressaram a Marrocos.

Inês, há uma questão que fica na cabeça de toda a gente, que é quando olhamos para 200 pessoas a chegar, é um número impressionante, mas são 200 pessoas. Quando olhamos para 2000 pessoas a chegar, é um número ainda mais impressionante, mas são 2000 pessoas. O que nós vimos naquelas imagens e que chocou toda a gente foram dezenas de milhares de pessoas a vir. A grande dúvida é: como é que estas pessoas vieram todas ao mesmo tempo? O que se passou? Que informação é que elas tinham para acreditar que aquele era o caminho que deviam fazer?

Só para acrescentar aquilo que disseste, Pedro, ainda por cima eram milhares e milhares de pessoas a chegar a uma cidade que tem 83 mil habitantes. De repente, esta cidade praticamente duplicou o número de pessoas em poucas horas. O que nos foi sendo dito ao longo destes dias é que estas pessoas vieram porque foram recebendo mensagens, principalmente através das redes sociais, a informá-las de que a fronteira de Espanha em Ceuta estava aberta, que era possível entrar de forma gratuita, sem papéis. E isto vem no seguimento, pelo que depois foi explicado a posteriori, de que o Supremo Tribunal de Espanha tinha dado seguimento a uma decisão onde se justificava que quem entrasse por mar, quem não tivesse de atravessar uma barreira física, não poderia ser deportado de imediato. Então, depois desta decisão, terá havido um conjunto de publicações colocadas nas redes sociais que obviamente tiveram um impacto estrondoso. O algoritmo funciona de forma brilhante nestes casos, ainda por cima, pelo que se sabe agora, poderão ter sido colocados botes à disposição destas publicações para que elas chegassem ainda a mais pessoas. E não estamos a falar de uma população que viva propriamente bem. Por isso, quando se tem a noção de que se pode passar gratuitamente, sem ter problemas com a polícia, todos tentam a sorte. E para termos noção daquilo que estamos a falar aqui, nós acabámos por conversar com pessoas que nos disseram: "Um amigo enviou-me uma mensagem pelo WhatsApp, eu soube que a fronteira estava aberta e como estava de férias, vim tentar a minha sorte". Ou: "Eu estava a tomar café e a fumar um cigarro. Passou um vendedor ambulante que comunicou que a fronteira estava aberta e eu imediatamente coloquei-me num táxi, que era a uma hora e meia da fronteira, e vim para aqui". Porque nos últimos anos, e esta pessoa em específico de quem estou a falar agora, tentou passar variadíssimas vezes, nunca conseguiu e agora teve uma oportunidade e não a quis deixar passar. No fundo, estas pessoas estão há anos à procura de tentar chegar a um país europeu, que neste caso é a Espanha, apesar de ser um território africano, a partir daqui têm uma possibilidade, ou acreditavam ter a possibilidade de chegar à Europa mais facilmente e aproveitaram a oportunidade como se não houvesse amanhã.

E é impressionante que vocês foram contar uma história, que era a história da pressão migratória de milhares e milhares de pessoas, como é que uma cidade consegue suportar aquela quantidade de gente, mas era também uma história de esperança para muitas dessas pessoas, porque as imagens que víamos era de festa e depois acabaram, horas depois, a contar a história de um valente balde de água fria, porque todos esses sonhos se desfizeram em muito pouco tempo. João, como é que se faz essa viragem? Como é que tu olhas para isso? Tu estás a contar uma história, estás a ver uma história e de repente a história passa a ser outra. Como é que isso funciona no teu trabalho?

Pois, tudo o que disseste é totalmente verdade e a perceção de felicidade destas pessoas mudou no espaço de poucas horas.

Já não vais mostrar a imagem do beijo na areia, vais mostrar outra coisa, não é?

É, exatamente. Vou mostrar as filas de pessoas que, resignadas ao facto de aqui, em Espanha, território europeu, afinal não foi aquilo que eles perspetivavam quando se puseram no mar a nado para cá, o cabisbaixo e a desilusão na cara de todas estas pessoas era evidente. Aliás, até a própria resistência de alguns deles, porque muita gente saiu voluntariamente, é um facto, mas também houve muita gente que resistiu até à última para sair. Aliás, prova disso mesmo é que ainda continuam aqui em Ceuta milhares de pessoas vindas nos últimos dias para cá. Mas o que é facto é que muitas delas resistiram às primeiras horas. Às primeiras horas o exército encaminhava as pessoas para: "Aqui é Espanha, por ali é Marrocos", e havia muita gente que começava a correr rapidamente em direção a Ceuta, ou seja, evitar ao máximo a saída para Marrocos. Mas, como disseste, e bem, muitas dessas pessoas começaram a resignar-se poucas horas depois, exatamente porque em Ceuta, nos primeiros dias, não havia absolutamente nada aberto. Portanto, as pessoas, tendo dinheiro no bolso, não conseguiam comprar comida, não conseguiam comprar água, uma vez que todos os serviços, como a Inês disse há pouco, estavam completamente encerrados. E obviamente que a história continua a ser as pessoas que estão a chegar à praia, mas passa também a ser as pessoas que depois de chegarem à praia, poucas horas depois, estão a abandonar. E muitas vezes, durante vários minutos, nós vimos pessoas a atravessar, a chegar à areia, a falar com outras pessoas, a perceber que, afinal, isto não foi aquilo que nos disseram e não vai ser aqui que vamos fazer a nossa vida e no minuto a seguir voltavam a sair. A imagem visual de um carrossel só de uma volta acontecia muitas vezes, de pessoas que chegavam à praia, por intermédio de outras pessoas percebiam que aqui não era o local ideal para refazer a sua vida e minutos depois voltavam a sair.

João, antes de fazer mais uma pergunta à Inês, deixa-me só perguntar também por outra questão. Obviamente que esta história não é sobre ti, é sobre as pessoas cujas histórias vocês foram contar, mas algumas das fotografias que tu tiraste, e quem está a ouvir este podcast pode não saber, foram parar até à primeira página do "El País". Em particular, uma delas, eu gostava que tu me falasses dessa fotografia. Já tinha passado o momento de maior pressão, já havia milhares e milhares de pessoas que tinham regressado a Marrocos depois desta tentativa falhada e, no entanto, continuava a haver gente a dar à costa, a vir a nadar. E há uma imagem muito poderosa, que é essa que faz a capa do "El País", que é um militar a tentar salvar uma pessoa que estava claramente prostrada e cujo esforço que fez a deixou num estado miserável.

Sim, essa fotografia foi capa do "El País" e foi também manchete do "Observador". Só por contarmos um bocadinho os bastidores desta fotografia e destas fotografias. Nós fizemos esta fotografia e esse trabalho na segunda noite em que cá chegámos e percebemos que poderia haver movimentações na praia durante a noite. E os holofotes mediáticos, ou seja, os nossos colegas jornalistas de toda a Europa que estão aqui, não estando lá em direto e a fazer peças jornalísticas, achamos que seria o momento ideal para perceber como é que afinal está aquela praia fora dos holofotes televisivos e noticiosos. E foi isso que fizemos. À 01h30 da manhã, decidimos, eu e a Inês: "Vamos dar uma volta pela cidade e vamos ver o que é que se passa na praia". E quando chegámos à praia, havia apenas um militar. Um militar na areia, a andar pra esquerda, pra direita, para frente e para trás, sozinho na praia. E víamos ao longe um grupo de sete ou oito migrantes a nadar muito lentamente. Só víamos os vultos destas pessoas, uma vez que no mar havia várias embarcações com holofotes, para que estes migrantes não fossem, por exemplo, embater contra as rochas ou se apercebessem que estavam muito perto ou muito longe da costa, para evitar afogamentos e morte. E estes holofotes que estavam a motorizar estas pessoas era aquilo que nos permitia ver estes vultos. E começámos a ver este grupo de rapazes, todos homens, e como viram que estava um militar na praia, acabaram por sair pelas rochas um pouco mais à frente. O que é facto é que este homem que aparece na fotografia ficou para trás e quando ficou para trás, apercebeu-se que estava sozinho no meio do mar e começou a chorar. Foi bastante audível pra mim e pra Inês, nós estarmos em completo silêncio no meio de uma praia, perto das 02h00, ouvir um homem no meio do mar a chorar. E obviamente que o militar que lá estava pôs-se logo de prontidão e aproximou-se o mais rápido possível da beira do mar e assim que se apercebeu que o homem não estava assim tão longe, porque durante toda a noite esteve bastante neblina e era bastante difícil perceber onde é que estavam as pessoas no mar, o homem atirou-se pra dentro d'água, neste caso, o militar atirou-se pra dentro d'água e com o seu cassetete, conseguiu que o homem agarrasse no cassetete e foi puxando até a areia. Quando chegaram, com a água mais ou menos pelo joelho, este militar sozinho pegou-lhe pelos braços e arrastou este homem até à beira do mar, onde o pousou. E foi aí que nós temos a sensação que o homem terá desmaiado, terá perdido os sentidos, uma vez que deixou de responder a este militar. Há até uma fotografia em que o militar está a tentar medir o pulso no pescoço para saber se o homem teria ou não morrido. E é aí que ele chama outro militar e, neste caso, dois, e muito tempo depois, conseguem levantar este homem e levá-lo em segurança para uma ambulância. Isto tudo foi testemunhado por mim e pela Inês. É muito difícil, porque eu só fiz fotografia, não fiz vídeo, mas espero que seja muito visual para os nossos ouvintes. Imaginem uma praia deserta, só com apenas um militar a ouvir um choro de alguém dentro d'água. Eu e a Inês ficámos bastante alertas e bastante assustados com aquilo que estava a acontecer, mas imaginemos também como é que terá ficado aquele militar que, apercebendo-se daquilo que estava a acontecer, e provavelmente se aquele militar não se tivesse atirado pra dentro d'água sozinho, aquele homem poderia ser mais uma das vítimas mortais.

À hora que estamos a gravar esta história, já estão basicamente em 100 pessoas que oficialmente são dadas como mortas. Inês, deixa-me perguntar-te agora pelo outro lado, que é as pessoas de Ceuta, que recorrentemente veem vagas migratórias deste gênero, tentativas de chegada ao enclave de Ceuta. Como é que as pessoas reagiram a isto? Como é que viveram o dia de maior intensidade e como é que viveram estes dias em que a situação agora acalmou?

As pessoas com quem falámos descreveram-nos situações de pânico, de medo, ficaram trancadas em casa, até porque, como dissemos há pouco, todos os serviços fecharam, as pessoas fecharam as suas lojas, os seus negócios, mesmo os supermercados, os grandes supermercados, houve uma decisão generalizada de os fechar. Portanto, as pessoas acabaram por se barricar, por assim dizer, em casa, para não estarem na rua, porque acreditavam que podiam correr perigo, porque estas pessoas, como falávamos há pouco, estavam com fome, estavam com sede Com o passar das horas a situação ia piorando. E percebemos também, ao falar com algumas destas pessoas que vivem aqui em Ceuta, que havia muita comunicação entre as pessoas. Estavam constantemente a partilhar mensagens nos grupos do WhatsApp, mesmo de vizinhos, de pessoas aqui da região, para explicar o que estava a acontecer a cada hora, em cada local. Mas estas pessoas também têm uma preocupação acrescida e hoje quando falávamos com um dos seguranças do centro de alojamento temporário aqui de Ceuta, que ainda por cima já estava cheio antes desta crise migratória e que não consegue recolher mais alguém, dizia-nos que o que está por vir é muito pior, porque as pessoas que regressaram a Marrocos vieram em tentativas de procurar uma vida melhor, mas não estavam assim tão necessitadas, porque à primeira oportunidade acabaram por regressar para casa e perceberam que essa era a melhor opção. Mas há pessoas que estão aqui e que se recusam a sair. Nós hoje escrevemos um texto ao final da noite em que chamamos a estas pessoas os resistentes, porque são pessoas que têm vidas tão complicadas, algumas delas vêm de outros países que não Marrocos, mas já estavam em Marrocos e aproveitaram esta oportunidade, mas vêm de países que estão em guerra, como o Sudão. Falámos com pessoas que vieram da Nigéria e da Argélia, que estão há cinco anos a mudar de país até ter esta oportunidade. E estas pessoas não vão sair daqui tão cedo, porque não têm nada em Marrocos que as faça voltar para trás. Mais do que uma, dizia-nos: "Antes ficar aqui e morrer do que voltar para Marrocos".

Uma frase poderosa e uma ideia muito forte, essa que nos deixas aqui no fim desta conversa sobre as vidas que nós acompanhámos ao longo destes dias, mas não como vocês que estiveram e que estão aí em Ceuta. Inês, João Porfírio, obrigado.

Obrigado, Pedro.

Obrigada.

Eu conversei hoje com os jornalistas do Observador, Inês André Figueiredo e João Porfírio. Ouvimos as histórias dos vivos e conhecendo o número de mortos, não há dúvidas de que Ceuta é uma tragédia às portas de uma Europa, que olha para tudo isto dividida entre a empatia e a preocupação. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Arthur Costa, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.