Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Nós somos um animal extremamente frágil no reino animal e nós conseguimos, através da técnica, através de redes sociais muito fortes, através de cuidados muito intensos.
Da cooperação.
Da cooperação. Florescer neste mundo e adaptar-nos aos mais diversos territórios. Nós conseguimos praticamente habitar todas as partes do planeta já na pré-história.
Quem me conhece já sabe que sempre que eu recebo arqueólogos brinco com o fato de serem os profissionais cujo futuro está em ruínas. E hoje acolho uma arqueóloga muito especial, Sara Cura, professora, investigadora, museóloga, divulgadora de ciência, doutorada em pré-história pela UTAD e com mestrados em pré-história pela Sorbonne de Paris e em Comunicação de Ciência pela Universidade Nova. Fundou o projeto Comunicar Arqueologia e é mentora do Let's Rock, um podcast da Idade da Pedra. A última novidade é o livro "Inovações Pré-Históricas que Mudaram o Mundo", que é lançado amanhã na FNAC da Avenida de Roma. Dos fios às cordas, dos sapatos às colas e agulhas, muitos objetos que hoje usamos no nosso dia a dia nasceram surpreendentemente há milhares de anos. Alguns recuam a milhões de anos. De fato, a nossa história começa muito antes do que imaginamos e este livro convida-nos a descobri-la. Vamos conhecer melhor esta profissional que admite estarmos atualmente a viver um momento muito pouco inteligente pra espécie humana.
É verdade.
E tal como a época que estuda, também a vida da Sara teve períodos agitados, épocas de gelo e quase extinção. Olá, Sara. Bem-haja por ter aceitado este meu convite. Bem-vinda à Rádio Observador.
Olá, João. Muito obrigada.
É um grande prazer estar aqui a falar contigo. Tu que és de Vila Nova da Barquinha, que eu conheço bem, ali bem perto do rio Zêzere, do rio Tejo, de Almourol, é uma zona tão bonita. Mas eu gosto muito desta ideia de teres os avós em Pinhel.
Sim.
Que é uma cidade que eu não conheço em Portugal e adoraria ir.
Na verdade, não é bem Pinhel, é uma aldeia ali mesmo ao lado que se chama Malta.
Ah, que giro.
Portanto, eu tenho uma costela beirã, com muito orgulho.
Exatamente. E Pinhel é uma cidade lindíssima, que eu não conheço, mas com solares e acho que tem coletor de mistérios de Pinhel. E eu não conheço, apesar da família no Páteo da Guarda, nem sequer é muito longe. Tu, além dos teus talentos musicais, por exemplo, tocavas clarinete na filarmônica da tua terra, és irmã de outro grande arqueólogo conhecido, que é o Pedro Cura.
Exatamente.
Que é da arqueologia experimental.
Sim.
Isso quer dizer o quê?
Quer dizer que nós muito jovens começamos a fazer arqueologia numa associação local, em Vila Nova da Barquinha, um grupo de arqueólogos amadores, que era liderado pelo meu grande mentor da minha juventude e também da minha vida adulta, o José Gomes, que era um arqueólogo amador, que nos levava pro campo, nos ensinava a encontrar os objetos.
Ele era de lá?
Ele era do Entroncamento, mas a associação era em Vila Nova da Barquinha.
É tão giro isso, o Carola local, passo a expressão, que congrega. Essa homenagem que tu prestas é muito bonita.
Sim, ele foi uma pessoa muito importante na minha vida.
Quando tu foste pra faculdade já sabias imenso.
Já, porque a associação tinha a vantagem de que já estava a trabalhar com especialistas.
Pronto.
Eu lembro-me que o José Gomes muitas vezes trazia alguns artefatos até ali ao Museu dos Serviços Geológicos e mostrava um grande histórico da investigação em Portugal, o Zbizevski, o professor Zbizevski. E depois, entretanto, começaram as relações com o Instituto Politécnico de Tomar, com um arqueólogo também bastante conhecido.
Deste aulas, durante quinze anos.
Dei aulas, o Luís Osterbeck. E nós fazíamos aquela arqueologia amadora, mas ao mesmo tempo já estávamos a colaborar com investigadores.
Exato.
E isso permitiu-me, pra já, quando entrei na faculdade, já tinha muita experiência de campo. E permitiu-me encontrar logo a minha paixão, que é a pré-história antiga, o paleolítico, os caçadores-coletores.
Isso vem de onde? Tu e o teu irmão, que referência que vocês tinham na família? Porque os dois para aquilo da arqueologia, só por causa da ATL que havia da escola?
Não, não tínhamos referência na família. Eu sempre tive uma grande paixão por história. Aliás, eu de certa forma tenho uma pequena obsessão por saber a origem das coisas. Interessa-me saber como é que tudo começou.
Então este livro é importantíssimo.
Exatamente.
A história das cordas, das agulhas, das lanças.
Seja a origem duma música, a origem duma palavra.
Uma mulher curiosa.
Sim, pelas origens das coisas. E como eu gostava muito de história, aconteceu que na altura, nos anos 90, havia uns programas pra jovens muito engraçados. E houve um.
Queres dizer ATL, estas coisas?
Exatamente.
Sim, os meus filhos também fizeram.
E houve um que era uma espécie de projeto pra fazer a carta arqueológica de Vila Nova da Barquinha. E eu inscrevi-me. Eu devia ter uns 12 anos e fiquei apaixonada e depois desafiei o meu irmão a vir também.
Ah, foi por causa de ti que ele foi também.
Sim, e ele depois apaixonou-se também pela arqueologia.
Arqueologia experimental é o quê? Eu conheço a preventiva, conheço, se quiseres, a acadêmica.
A arqueologia experimental é um processo de investigação que procura reconstruir as formas como eram elaborados os utensílios e como eram utilizados. Nesse processo de reconstrução, nós conseguimos aprender muitas coisas, porque temos uma visão mais profunda da complexidade dos processos técnicos, temos uma ideia da sua eficácia enquanto instrumentos e portanto, a arqueologia experimental é uma forma muito importante de auxiliar todo tipo de investigação em pré-história. E depois tem uma outra dimensão muito interessante, já não tão ligada à investigação pura e dura, que é a dinamização patrimonial. Ou seja, através da arqueologia experimental, já não com fins Científicos, mas recriando as pessoas em atividades de socialização do conhecimento, de comunicação.
Ele também é divulgador como tu.
Sim, o Pedro é um grande divulgador de arqueologia através da arqueologia experimental. O Pedro trabalha com museus, constrói parques arqueológicos, ou seja, tem estas duas dimensões de investigação e de contato com o público.
Muito importante. Vou ser honesto contigo, Sara. Vou agora libertar o elefante na sala. E vou contar que, e isso pra ti já é tranquilo, que tu aos 15, 16 anos, por causa da tua orientação sexual, por tu ser "fora da norma", já sofreste algum bullying. Levavas uma borrachinha contigo porque as pessoas escreviam coisas na tua carteira, havia colegas do teu lado e colegas que brincavam contigo. Passaste essa fase toda de bullying, incluindo episódios traumáticos. O homem que disse que tinhas que andar meio-maria rapaz, como dizem por aí.
Exato.
As pessoas diziam: "Não sei, não sei se é menina". Até que aquele homem, na brincadeira, estavas com teu primo, ele não estava ali naquele momento, disse pra você ir lá pra ele saber se é rapaz ou rapariga. Tu viveste estes episódios todos traumáticos. Não tiveste uma vida fácil nessas alturas, apesar de teres tido uma infância até feliz.
Sim.
E ótima. Também em casa dos avós, em Pinhel, e tudo, imagino. E na barquinha com as convenções que já fazias. Mas depois houve aquela parte da dependência do álcool que tiveste décadas. E foi uma coisa tremenda. Agora é bom celebrar os teus 2375 dias em que tu estás limpa.
É verdade, seis anos. Já passou de seis anos.
Exatamente, desde 2020. E de fato, viveste uns anos infernais. Não vou contar essa história, pra isso vejam o programa da Júlia, que é muito bom, com burnouts, estes esgotamentos, até este ponto em que tu bateste no fundo, acordavas e não sabias um dia quem eras, estiveste internada. Foste viajar a Florença, desmaiaste duas vezes, hospital e hospital. Tiveste ideações suicidas, etc. Até que houve um clique e tu passaste a acreditar em ti por causa do Pedro Castro, a famosa entrevista do Pedro Castro. Eu conheço, tive uma vez uma conferência com ele. E de fato mudou tua vida, porque eu acredito que sou capaz de passar isto, porque uma dependência é sempre uma coisa, uma adição é sempre-
É terrível. Realmente é um processo.
Todo o teu entendimento, as pessoas culpam-te, mas tu és inimputável.
Não, é uma doença, nós não temos culpa. Mesmo que no início o comportamento possa não ser exatamente uma doença, depois as coisas vão se agravando.
Claro.
E realmente as pessoas estão profundamente doentes, estão impossibilitadas de fazerem escolhas com discernimento, porque simplesmente não são capazes.
Pouca gente sabia. Tu conseguias fazer o teu trabalho e tinhas vários.
A dada altura, não.
No museu, nas aulas, nas coisas.
Eu fui sempre trabalhando, mas a dada altura toda gente sabia e toda gente me ajudou. E é um processo frustrante.
E tinhas bons amigos também.
Tinha. Sempre tive uma grande rede de apoio, que aliás é frustrante, porque as pessoas tentam ajudar e nós não aceitamos a ajuda. Eu acho que a doença me venceu pelo cansaço.
Sim.
Eu cheguei em um momento que eu não aguento mais. Ou morro ou vivo.
Sim, exatamente.
E aquele momento, aquele dia 15 de março de 2020, em que eu decidi que nunca mais, até hoje.
A única coisa boa da pandemia.
A pandemia pra mim foi boa, porque realmente entramos em lockdown, fechou tudo, e eu decidi ficar ali em casa.
Quando eu li isso, pensei: "Olha, que bom", porque a ideia de fechar tudo e nem sequer haver contatos era o ideal pra um alcoólico que quisesse se esconder e continuar a beber.
Sim, mas eu já estava em casa dos meus pais e estava à espera de entrar pra um centro de tratamento e depois fecharam todos também por causa do Covid e estive ali três meses. Foi nesse período que vi a entrevista do Pedro Castro. E é muito importante nós termos histórias de superação como referência. E não foi só isso, foi também que na entrevista eu descobri o sítio pra onde iria, a instituição pra onde fui, o Farol, e que realmente mudou-
Ias respirar um mês ou dois e ficares de novo.
Mudou a minha vida por completo.
Completamente. E daí tu tiveste propósito.
Sim.
E outra coisa que vou dizer, o amor também ajuda muito.
Com certeza.
E a tua mãe e o teu pai, mas sobretudo a tua mãe. Ainda hoje estou arrependido, mas a mãe é mãe, eu percebo essa coisa. Mas o fato que também esteve sempre ali e graças a ela tens muita coisa a agradecer. E uma mensagem que tu passas: é possível se tivermos ajuda.
É possível se tivermos ajuda.
É muito importante isso.
Nós temos que tomar uma decisão. Eu digo sempre que não é força de vontade, a força de vontade é um músculo que se esgota muito rapidamente.
Sim.
É decisões, ajuda e contexto. Ou seja, eu para ter a vida fantástica que eu tenho hoje, eu tive que sair de onde estava, deixar a minha casa, mudar de emprego, mudar tudo.
Viver nesta casa, por tua e meia, ainda por cima.
É verdade, porque me queria ver livre do álcool.
E foste para o quarto andar e mudaste de emprego, fizeste mais um curso.
Sim. Mas é incrível quando nós damos aquele primeiro passo, a ajuda começa a chegar, nós começamos a sentir mais confiantes, mais fortalecidos, e depois coisas boas começam a acontecer.
Claro que sim. Esta é uma das melhores, não, eu estou brincando. A Sara AC, antes do consumo, e a Sara DC. Tu até agora estás na Sara DC.
Eu estou na DC, sim.
Muito bem. Investiste tudo também nas aulas, na tua carreira, pra compensar. E então vamos agora, sim, falar da tua arqueologia, licenciada em História, mestrado em Pré-História, que fomos a Paris, na Sorbonne, doutoraste em Quaternário, Materiais e Culturas. Esta tese é sobre a ribeira de Atalaia. Ela é um grande sítio.
É o sítio que eu estudei durante muitos anos.
Pré-história quer dizer antes da escrita, certo?
Convencionalmente, sim.
Portanto, começa então nos sumérios ou esse ano de civilizações?
Isso já é o final da pré-história. Especificamente, quando eu me refiro à pré-história, é o que nós chamamos de pré-história antiga.
Desculpe interromper. Tu fazes a recente e a antiga. O que é que é a pré-história recente?
Vamos dizer que a recente começa quando nós iniciamos um processo de sedentarização e começamos a domesticar plantas e animais. Antes disso, o modo de vida das comunidades humanas era baseado na caça e recoleção.
Os caçadores-coletores, tal história.
Exatamente.
Mas que vai de três milhões e tal anos.
Sim, é o período mais longo da nossa história. São milhões de anos. E sempre foi essa a pré-história que me interessou. Por exemplo, na linguagem anglo-saxônica, é muito frequente usar-se o termo Stone Age para este período. E eu até utilizo a Idade da Pedra no meu podcast, mas Idade da Pedra não é uma terminologia que nós usemos muito cientificamente.
Academicamente.
Sim, academicamente. Não fazemos essa tradução direta. Ou seja, pré-história antiga, paleolítico, epipaleolítico, mesolítico, que aliás, são tudo coisas que eu explico no livro, porque são termos estranhos, e tem uma tabela cronológica, porque quando nós falamos desses períodos, uma das coisas que é mais desafiante pra divulgação, pra comunicação, é o tempo.
A escala temporal.
A escala do tempo. É difícil pras pessoas conseguirem imaginar.
Até os 10 mil anos.
Normalmente, a referência mais antiga geral é o Antigo Egito.
Sim. Isso eu adoro quando tu dizes. Conversa com amigos, diz: "Cara, eu adoro a tua iniciativa, e tu?" "Olha, eu, pra mim, isso é muito recente."
É totalmente recente.
E depois dizes tu, fazes uma pausa. As pessoas: "Como assim?"
Cá em Portugal, as pessoas-
O paleolítico inferior.
Sim, coisas muito mais antigas. E realmente as pessoas têm alguma dificuldade em aprender.
A escala temporal é muito mais pra trás do que isso.
Sim.
Uma coisa que eu aprendi contigo e não fazia ideia, aprendi muita coisa contigo. Uma das coisas é o conhecimento humano nem sempre progrediu linearmente, sem retrocessos.
Não.
Houve civilizações que perderam o uso do fogo.
Não, houve comunidades. Aliás, nós sabemos até em épocas-
Houve que reaprender do zero.
Sim, houve que reaprender. E nós sabemos que comunidades-
Eu achava que era sempre a aumentar, sempre a subir. Não
...bastante desenvolvidas do ponto de vista tecnológico, colapsaram. Nós sabemos que as civilizações colapsam por vários motivos.
Quando há fechamentos, quando há fundamentalismos, por exemplo, são peritos nisso.
Podem ser motivos sociais, podem ser confrontos, podem ser alterações climáticas.
Exatamente. Houve muitos que até foram porque diminuíram, os grupos humanos foram reduzindo, ficaram muito isolados. Perderam-se alguns conhecimentos, alguns saberes fazer.
Perdem-se conhecimentos, porque vamos imaginar que há uma pessoa que, isto não seria tão comum, porque os conhecimentos seriam partilhados pelo seu ponto de vista, da sobrevivência.
Mas talvez só um que dominasse a arte de...
Perde-se essa pessoa, perde-se o conhecimento. O grupo está isolado, não tem outro grupo onde possa ir recuperar a tecnologia.
Faz questão de dizer a cooperação.
Não há uma flecha unidirecional do progresso. Nós pensamos que sim, intuitivamente parece-nos que sim, mas não é necessariamente sim.
Não há. Aprendi contigo outra. A cooperação e não a violência, foi a verdadeira força motriz da evolução humana.
É, sim.
Portanto, a questão do multilateralismo. O mundo atual, tu dizes, cá estão os tempos pouco inteligentes que às vezes vivemos. Parece que o mundo atual, dizes tu, palavras tuas, rasga o multilateralismo e não percebe que sem isso, simplesmente, não florescemos.
Não, sem a colaboração não vamos a lado nenhum.
Isso parece tão óbvio, mas há pessoas que não acham.
Pois, tal como é uma ideia muito óbvia cuidar da única casa que temos e não o estamos a fazer, do ponto de vista evolutivo. Estamos a caminhar pra uma espécie de suicídio.
E mais conceito. A arqueologia lembra-nos que somos todos iguais há dezenas de milhares de anos.
Exatamente.
As raças são uma construção social e política sem qualquer fundamento biológico.
Exatamente. Aliás, uma das coisas que a arqueologia-
Chamo essa atenção pra coisas que parecem óbvias, mas não são. Infelizmente
Atualmente parece que não são óbvias, mas um dos contributos que a arqueologia pode oferecer à sociedade é de fato mostrar que a nossa história é muito variada, é feita de confluências, de povos, de trocas, de migrações. Sempre fomos migrantes neste planeta, sempre convivemos e trocamos.
Nascimentos e mortes.
Nós somos o resultado de muitos. E eu acho que isso é uma coisa importante que nós temos pra oferecer à sociedade, sobretudo num tempo em que se recuperam ideias muito incorretas de identidades puras ou únicas. Isto simplesmente não existe.
O teu combate com a pseudociência.
Exatamente.
Aqueles influencers da arqueologia, que há muitos, que até em documentários pela Netflix fora. A passarem um bocadinho essa ideia que depois grupos extremistas e populistas se aproveitam e dizem: "Não, as raças. Ilumina a raça."
Alguma da pseudoarqueologia, não toda, mas alguma da pseudoarqueologia realmente tá relacionada com movimentos políticos bastante radicais.
Sim, muito duvidosos. Foste também professora no Instituto Técnico de Tomar, escola que eu gosto muito. E tu dizes: "Foi a coisa mais importante que eu fiz na vida".
Foi.
E foi durante uma série de anos, quase 20 anos. Passar este conhecimento é das coisas mais importantes que se pode fazer.
Ser professora acho que é um dos maiores privilégios que uma pessoa pode ter na sua vida.
Eu gosto muito daquela escola.
E eu tive o ainda maior privilégio de ser professora no mestrado Erasmus Mundus.
Mundus é todos os continentes.
Exato, alunos de todos os continentes. E eu fui ensinando umas coisas, mas aprendi muito mais.
Claro que sim.
Porque do ponto de vista humano, cultural, aqueles alunos ensinaram-me tanto. E a pessoa tem verdadeiramente a noção de que só Constroi conhecimento novo quando está rodeada de pessoas muito diferentes.
Sim.
Que têm perspectivas muito diferentes.
A importância disso. E não do monocórdico big brother is watching you.
Sim, o meu aluno do Burkina Faso via a vida e via a ciência de uma forma totalmente diferente. E juntos criamos coisas novas.
Faz-se luz.
Exatamente.
É muito importante isso. Não sei se no recôndito do Uganda, faz de conta, um país assim, vi umas coisas já no cromlech aqui e assim. Estes agrupamentos de pedras pré-históricas, também tem eles em Portugal. O guarda ficou louco. "Manda-me, por favor, fotografias" e não sei o quê. Como é que se chama? Al Mendes, por exemplo. Falei-lhe eu. "Mande-me isso que engraçado ver uma coisa parecida com isto em Portugal. Há duas ou três famosas!" E ele ficou todo contente nos confins da África a ver uma coisa parecida. De facto, era igual, é impressionante. A mesma coisa, os mesmos alinhamentos. É muito curioso.
Sim, nós como espécie humana somos muito diferentes, mas também muito iguais.
Muito iguais, claro que sim. Trabalhaste no museu, em Mação. Neste museu de arte pré-histórica e do Sagrado, no Vale do Tejo. Foste arqueóloga da câmara. Diz-me rapidamente uma coisa, neste museu de Mação, que valha muito a pena. Isto tem a ver com a arte rupestre do Fratel.
Eu diria muito rapidamente que o que vale mesmo a pena é visitar o Vale do Ocreza e conhecer as gravuras.
O Ocreza é o rio?
É o rio, é um afluente do Tejo.
Já sei.
No troço final tem-
Isso fui lá uma vez, por causa de uma barragem qualquer iam baixar o nível e fica à vista. São quilômetros.
É a grande arte rupestre do Tejo, que depois também é linda pelos afluentes, é maravilhoso.
Isto são mais de 40 km nas margens do rio Tejo, do rio Ocreza. 40 mil gravuras é uma coisa monumental.
É espantoso.
Descobertas em outubro de 71, zoomórficas, antropomórficas.
João, a particularidade de Mação é que esta arte do Tejo é maioritariamente de agricultores e pastores.
Ok.
Mas o Vale do Ocreza tem um cavalo paleolítico.
Ah, que giro.
Muito bonito, com cerca de, se não estou em erro, uma idade aproximada de 24 mil anos.
Meu Deus. 20 mil anos é o Côa.
É contemporâneo do Côa.
Outra coisa extraordinária que nós temos. Muito bem, Sara Cunha, temos que fazer um curto intervalo. Já voltamos à conversa, até já. Estamos a conversar com a arqueóloga Sara Cura. Ela é mentora do Let's Rock, um podcast na idade da pedra, que agora lançou o livro "Inovações Pré-Históricas que Mudaram o Mundo", mostrando que objetos como, por exemplo, fios, cordas, sapatos, colas e agulhas, que hoje usamos no nosso dia a dia, nasceram, afinal, há milhares ou até milhões de anos. Estamos a falar que merece uma visita este museu em Mação, Museu de Arte Pré-Histórica de Mação. Estamos a falar dos sítios de arte rupestre do Vale do Tejo, que grande parte submergiu com a barragem do Fratel.
Exatamente.
Mas tem lá um centro de interpretação de arte rupestre do Tejo. Eu acho muito engraçado estes centros e acho obrigatório haver in loco, no local, obviamente, porque é um bocadinho o turismo arqueológico em territórios de baixa densidade. Este é o nome de um colóquio que tu tiveste em Serpa, no Museu do Canto, não há muito tempo.
Sim, exatamente.
Importante haver estes sítios e estes centros.
Sim.
Territórios que as pessoas não irão se não souberem que há uma coisa que vale a pena chamá-los.
A dinamização do turismo patrimonial naquilo que nós chamamos territórios de baixa densidade, é importante por dois motivos. O primeiro motivo é para as próprias comunidades locais.
Que atraem visitantes.
Para já, participam num processo de construção de memória. Não são passivos nesse processo. Têm as suas terras e podem participar nas escavações.
Com uma amiga minha eu falei, tive em uma vila romana de Tourega, no Alentejo, e íamos à escola buscar os alunos que nos seus tempos livres iam escavar conosco. Extraordinário.
E também há projetos que envolvem a comunidade local, pessoas mais velhas, isso é extremamente importante. Portanto, eu diria que é uma forma das populações se apropriarem e terem uma voz ativa no seu património.
Também os defende.
Claro, porque se o conhecem, o compreendem, valorizam-no mais.
Só se ama o que se conhece.
E são logo os nossos primeiros aliados para proteger e conservar os sítios. Mas também há muitos trabalhos feitos que demonstram que todas as atividades que depois se constroem à volta destes centros interpretativos ou pequenos museus contribuem imenso para o bem-estar das pessoas. Juntam pessoas que podem estar isoladas. O isolamento é um dos grandes problemas nestes territórios e, portanto, há logo uma enorme vantagem para as populações locais.
Há imensas vantagens.
E depois, tem sempre a vantagem de atrair pessoas de fora.
Para o comércio local e para as vezes o hotel.
O comércio local, a restauração, a hotelaria. E, portanto, eu obviamente, puxando a brasa à minha sardinha, só vejo coisas positivas e boas.
Claro que sim. Tu estás a pensar nos tipos de saída que há em arqueologia para pessoas que estão a pensar em ir pra lá. Há a parte mais acadêmica, docência, a empresarial, a museologia. A preventiva tem a ver com as câmaras, é aquela fama terrível do "para obras"?
Pois, temos essa fama, mas isso não corresponde à realidade.
Isso é a preventiva ou não? É quando se descobre um sítio.
A preventiva é associada às empresas, ou seja, quando há intervenções no território, pode ter que haver trabalhos arqueológicos, seja para identificar previamente E escavar e depois liberta-se o território pra qualquer coisa que se possa construir. Por vezes, as descobertas são tão significativas que tem que se alterar o traçado.
Mas às vezes isso é feito aqui na Baixa, o museu por baixo das obras do Banco, um mútuo.
Em Lisboa a imensa arqueologia.
E está à vista e é visitável. É muito importante. O Museu da Moeda também, mesma história.
Sim, muitas vezes os vestígios são encontrados e depois são musealizados e são incorporados naquilo que se pretende ali fazer. Portanto, há muitas empresas de arqueologia de pequena dimensão, mas é uma das possibilidades de trabalho. Depois há os museus, as câmaras municipais, cada vez mais as câmaras municipais têm equipas dedicadas ao patrimônio, à carreira da investigação.
Exatamente.
À carreira da docência.
Já passaste quase por todas. Museus, as coisas.
Sim, eu tive o privilégio. Nunca cheguei a trabalhar para uma empresa de arqueologia. Colaborei com empresas de arqueologia, mas não é a realidade que eu conheça por experiência própria.
Mas gostas do que fazes? Ou tens pena que a mulher está em escavações no Egito todos os dias? Não.
Não, gosto do que faço. Neste momento, a forma como eu exerço a arqueologia é através da comunicação.
Exatamente. Como divulgadora. Até foste mestrar nisso.
Já fiz as escavações, já fiz as minhas viagens.
Tens viagens extraordinárias em Itália, as grutas italianas.
Mas isso é um privilégio da profissão quando segue a carreira de investigação, que eu fui seguindo em paralelo com a docência e com o trabalho no museu. Viajamos muito. E eu consegui fazer algumas viagens que ficaram pra memória, pelo menos pra minha memória pessoal.
Mas é extraordinário. Eu estou a pensar, por exemplo, nesta que tu foste pra uma gruta.
Tinha 18 anos.
Grotta Brella, em Itália, com o Stefano Grimaldi. Este é da família real monegasca.
Foi.
E Pierluigi Rosina. Tu estiveste aqui nesta gruta.
Essa foi uma aventura inesquecível.
Numa ilha, o barco só ia uma vez por semana.
Não era bem numa ilha. A questão é que a gruta, quando foi-
O acesso é que era pelo mar.
O acesso era pelo mar, porque a gruta quando foi ocupada pelos neandertais há dezenas de milhares de anos atrás, tinha muita terra à frente até chegar ao mar. Porque dada a altura, num período da nossa história.
Houve uma transgressão.
Houve.
Como nas ruínas de Ribadavia, foram seis lagos, já tiveram lagos.
O clima começou a aquecer e o nível das águas do mar subiu. E portanto, a única forma de aceder à gruta era de barco. Mas aquilo era uma escavação fantástica, eu aprendi imenso, mas tinha um orçamento muito modesto. E quer dizer que o barco não podia ficar atracado em frente à gruta, porque eles não podiam correr o risco de perder o barco. Porque às vezes o mar ficava um bocado revolto e já tinha acontecido. E portanto, nós ficávamos lá.
Ia de fim de semana em fim de semana.
Ia de fim de semana em fim de semana e nós lá escavávamos, dormíamos, tomávamos banho no mar.
Exato, e tinham o sabão pra lavar a roupa. Tanto que lavaste a roupa com o sabão, que a roupa gastou-se com o sal.
Foi terrível, mas aquilo foi muito curioso, porque eu fui pra Itália vinda de uma escavação na Bélgica. Que estava muito mais frio. Eu estava a escavar numa gruta na Bélgica. A juventude. "Vou pra uma gruta, portanto, eu preciso de roupa assim mais ou menos aconchegada". Quando eu saí do avião em Roma, um bafo, e eu pensei: "Eu agora venho com camisolas". Havia toda uma série de roupa que eu não podia utilizar porque era demasiado quente. Usei sempre a mesma, com o sal.
Foi apodrecendo.
Apodreceu, rasgou-se toda.
Tanto que depois foste visitar Roma com o pijama de verão.
Nunca mais me esqueço desse pijama. Nós na juventude fazemos essas coisas e eu viajava sem dinheiro nenhum. Arriscada, não é?
É da idade.
Normalmente, as escavações dão-nos sempre um sítio pra dormir e comida. Quando somos jovens.
Quando se está a fazer o PSI é tudo o que chega.
Mas visitei Roma, isso é o que interessa.
Já agora, há outras visitas tuas. As Filipinas, também foste em trabalho?
Fui em trabalho.
Ficaste lá um mês. Calau Cave, onde descobriram, aliás, uma espécie nova. Homo luzonensis. Incrível. A ilha de Palawan, isso são sítios paradisíacos. São de férias, Palawan. A viagem de barco de 30 horas que fizeste no mar da China. Depois as outras viagens também de lazer que tu fizeste, que eu adorei, os Açores, Marrocos, a Islândia em autocaravana. A Islândia é linda.
A Islândia é fantástica.
A nível de natureza é mais bonito que eu conheço.
A viagem que mais me marcou, sem dúvida alguma, foi a Tanzânia, por razões que se prendem com o meu trabalho. Eu tive a oportunidade de visitar Olduvai, que é o berço da humanidade. Onde foram encontrados vestígios tão antigos e espécies humanas. E o mais marcante dessa viagem, pra além de tudo mais, ver os animais e o Serengeti, é maravilhoso. África é um continente cheio de vida. Nós chegamos ali e sentimos vida, ao contrário da Europa, já não se sente assim tanta vida. Pelo menos foi essa a sensação que eu tive quando estive lá. E tive a oportunidade de visitar uma tribo que ainda são caçadores-coletores.
Ah, que interessante.
Mas também visitei outros.
Como a etnia Napu, Nova Guiné.
Sim, é os Hadzabe. Eles não vivem como se fosse na pré-história, como é evidente. Nós não fazemos essa analogia direta. Eles têm uma economia baseada na caça e recoleção, mas têm objetos com materiais modernos, têm contactos com outras tribos de pastores. Por exemplo, eles trocam muito. As pontas de flecha deles não são em pedra, são em metal. E o que eles fazem? Eles recolhem mel e trocam o mel pelas pontas de metal com tribos que vivem próximas. Eu tive a sorte de visitar também essas tribos e de entrar num ateliê onde eles estavam a fazer os objetos em metal. Foi fabuloso.
Qual é a sensação para uma mulher que estuda e que adora a parte da pré-história, ver assim, quase ao vivo? Às vezes perguntam-te isso, típico: "Se pudesses recuar no tempo, onde é que ias viver?" Tu obviamente dizes a pré-história antiga. Mas ali um bocadinho, estás a viver.
Sim. É uma sensação incrível. É surpreendente, porque eles são diferentes e a diferença impacta-nos.
Sim.
Mas também rapidamente percebemos que somos exatamente iguais. Portanto, é uma ligeira contradição. Mas eu passei algum tempo com eles, fui à caça com eles.
Só faltava ter apanhado um mamute.
Não, esses já se extinguiram há uns anos. Mas eles também não tiveram muita sorte, só apanharam uns passarinhos. Mas foi fantástico.
Uma experiência fascinante, qualquer uma. E mais recentemente, talvez o Tibete, foste já este ano. O Tibete e a China.
A China. Este ano foi uma viagem longa, três semanas.
Onde foste àqueles sítios obrigatórios do pago Avatar, do Zhangjiajie.
Foi.
Pequim, os guerreiros de Terracota, em Xi'an. Xangai.
Não, esses não visitamos. A China é absolutamente desconcertante.
E por causa disso, foste ao Tibete também?
A viagem terminou já nos contrafortes do Himalaia. Estivemos ali mesmo a uns quilómetros no Tibete, não chegamos a entrar. Foi uma viagem muito longa, desde Pequim. Eu não me recordo bem dos nomes das terras que visitei.
Sim, tem nomes estranhos.
Mas eu sinceramente digo a toda a gente, desde que fiz essa viagem, quem podendo, por favor, vão à China, porque é difícil compreender o mundo em que vivemos sem conhecer a China. Sim, as viagens são sempre maravilhosas.
Tendo a tuaquela primeira a Florença, que tens que qualquer dia ir à séria para ver que vale a pena. Se andares de namorados.
Sim.
Se tens companhia para ir, vai. Porque de facto é extraordinário. A Galeria degli Uffizi, que tudo é fascínio, esquina sim, esquina sim, como aliás viste em Roma, também é um bocadinho assim. O tempo entretanto voa, é terrível falar contigo, porque vêm os assuntos e é muito bom, porque tens muita coisa sempre gira para contar. Este podcast também é uma ideia extraordinária, porque de facto percebeste inteligentemente que 78% da população portuguesa está nas redes sociais, portanto eu tenho que agarrar este meio ou passo despercebido. A Inês Abreu, que cuida da Media Pop, é outra coisa que ela fez também dentro deste centro de história, ou aqui, o Resta História, também temos. De facto, este Let's Rock é uma ideia genial que tu tiveste, que te apareceu. Estas entrevistas que tu tens, qual é a frequência disto? É uma vez por semana?
Não, eu tento fazer uma frequência mensal. Este ano não estou a conseguir fazer entrevistas de mês a mês. Eu estou com uma periodicidade um pouco mais irregular, mas eu lá vou fazendo.
Mas tiraste este mestrado de propósito para a divulgação, que é muito importante.
Não, eu fui fazer o mestrado porque eu quando recomecei a minha vida em Lisboa, não pensava que ia voltar a fazer arqueologia, porque a grande paixão da minha vida também estava muito associada a uma tempestade muito dolorosa que eu atravessei. E eu pensei, comecei a trabalhar ali na Escola Superior de Comunicação Social e pensei: "Isto não me chega, eu preciso de qualquer coisa". E pensei: "Vou me inscrever no Mestrado de Comunicação de Ciência", porque eu fui investigadora, mas eu sempre gostei de fazer atividades com o público nos serviços educativos do museu.
E também gostavas muito de rádio e assim, portanto são coisas que se foram juntando.
Eu adoro rádio. E quando comecei a fazer o mestrado, percebi: "Bom, eu não consigo estar longe da arqueologia. Esta é a minha porta de regresso, é através da comunicação". Aconteceu que numa disciplina.
Com o João Lobo Antunes.
Exatamente.
Que por aqui passou também, extraordinário divulgador de ciência.
Tive que fazer um projeto e eu juntei-me a uma colega que fez o mestrado comigo, também é arqueóloga, e disse: "Olha, vamos fazer um episódio piloto de um podcast. Por que não? Eu adoro podcast, eu adoro rádio, adoro podcast." E foi assim que nasceu. E depois continuou, eu continuei sozinha.
Só ao pai, que é 38? Eu contei 38, mas não sei se estão.
Sim, 38 episódios. Pelo meio há uns que são narrativos, pequenas histórias.
Sobre os gatos, por exemplo, e assim.
Exato, que já está desatualizado, porque já fizeram novas descobertas. Este é o grande problema, o drama da divulgação de pré-história.
Dá tema para o seguinte: hoje vamos refazer o episódio 12.
Ou seja, já fizeram descobertas sensacionais sobre os gatos e eu vou ter que gravar um novo.
E é o teu projeto Comunicar Arqueologia, que é muito importante. Se calhar é o que tu dizes, para isto não ficar na academia. Então a gente tem que ser um bom comunicador. Eu lembro-me do Vitorino de Almeida com a música ou o German de Saraiva com a história. É preciso pessoas, nós temos bons influencers que façam esta coisa bem. Da história, da arqueologia. E não há muito.
Não há muitos.
Tu tens algumas referências estrangeiras.
Eu tenho referências estrangeiras, claro.
O Ignacio Martín Lerma, por exemplo. Que é um extraordinário. La Prehistoria en la Mochila.
Sim, ele é extraordinário. Mas eu tenho a certeza absoluta que essas pessoas vão surgir nas gerações mais novas.
Ok. Tens esperança nisso.
Nem é esperança, é certeza absoluta.
Isso é tão bom dizeres isso, ainda bem.
João, disseste uma coisa muito correta, nem todos têm que ser divulgadores de ciência.
Pode ser muito bom naquela área, mas a parte da divulgação, já exige uma pedagogia.
Mas é bom que alguns de nós o façamos.
Sim, que treinem as skills que tu dizes, estes soft skills, aprender a fazer uma tese, a dar uma aula, a falar em público, a responder a uma entrevista. É importante, são coisas que se aprendem. Técnicas.
Sim, e isso dá jeito para a comunicação de ciência, dá jeito na vida de um investigador mesmo só no dia a dia.
Porque senão faz uma grande investigação, uma grande escavação, aquilo é fechado, fica para uma academia, ninguém mais sabe. É pena, porque podia-se valorizar.
Sim, claro.
Validar.
E é também, entre aspas, uma obrigação que nós temos de devolver à sociedade, até porque Em larga medida, aquilo que nós fazemos é pago pela sociedade.
Exatamente.
Portanto, temos também essa responsabilidade.
Muito bem. Let's Rock Stories. Por exemplo, há um sobre o beijo. Eu adorei isto.
Sim, como é que nós começamos a dar beijinhos.
Quando foi o último vez que beijou alguém? Um beijo rápido na face ou suave nos lábios? É uma coisa muito familiar, mas como é que começou o beijo? Para saber tudo, temos que recuar milhões de anos. Isto é lindo! Vou ouvir. É muito importante isso, as novas formas de comunicação. Tu pensaste nisto, o podcast, o Instagram, o storytelling. Há uns mais adequados que outros. Comunicar é que o é. Este projeto é extraordinário. E o passado diz-nos muito, de facto. Por que é tão importante saber da pré-história, Sara? Este livro ensinou muita coisa. Hoje usamos coisas que foram descobertas há milhões de anos, mas é engraçado saber isso.
Eu acho que é muito difícil nós compreendermos o presente, enfrentarmos as nossas inquietações. O ser humano sempre teve inquietações. Os pré-históricos tinham inquietações, sempre as tivemos. Ou até enfrentar desorientações. Por exemplo, eu acho que neste momento nós estamos a viver uma série de mudanças radicais disruptivas que causam muita desorientação.
E ansiedade.
E ansiedade. E eu acho que o conhecimento profundo da nossa história, de como nos tornamos humanos, ou os fundamentos daquilo que nos tornou humanos, a nossa longa história e a força motriz da forma como nós fomos florescendo. Nós somos um animal extremamente frágil no reino animal e nós conseguimos, através da técnica, através de redes sociais muito fortes, através de cuidados muito intensos, cooperação, florescer neste mundo e adaptar-nos aos mais diversos territórios. Nós conseguimos praticamente habitar todas as partes do planeta, já na pré-história. E portanto, eu acho que essas perspectivas não são só enriquecedoras, como são extremamente úteis para nós enfrentarmos talvez as adversidades com mais calma, mais segurança e mais conhecimento próprio.
Dá-nos contexto, dá-nos história.
Dá-nos contexto e conhecimento próprio.
Outra coisa importante que vem no teu livro, o nosso tempo está a acabar, que é a imagem popular da pré-história como o tempo de sobrevivência bruta e violência permanente é errada e incompleta.
Sim.
A ideia de que os caçadores-coletores pré-históricos eram brutamontes é totalmente errada. Eram sofisticados, eram engenhosos, muito conscientes de que a cooperação é fulcral.
Exatamente. Eu com isso não quero dizer que não houvesse violência, evidentemente. Aliás, nós somos uns seres que cuidamos muito, mas também somos violentos.
Claro que sim.
Mas não seria a violência no longo tempo profundo da pré-história, não seria a violência a estratégia mais eficaz.
Muito bem. Entre os teus hobbies, há este de comer bem e de forma autêntica. Tu chegaste a fazer um workshop de cozinha pré-histórica?
Sim, há muitos anos fizemos.
O que é isto? É a dieta paleolítica?
Não é bem a dieta paleolítica. Mas sim, há muitos anos, quando trabalhava no museu, juntei-me ao Pedro.
Teu irmão?
E a mais uns colegas. Sim, ao Pedro Cura. E fizemos um workshop que foi um sucesso. E depois o Pedro continuou a desenvolver esta atividade e desenvolve-a tão bem que ele colabora muitas vezes com os Chefs on Fire.
Ok.
Com a cozinha pré-histórica.
Agora aconteceu outra vez. Muito bem. O nosso tempo acabou. Estas inovações pré-históricas que mudaram o mundo, amanhã é lançado, com Joana Loba Antunes e João Pedro Cunha Ribeiro, aliás, que foi teu professor.
Foi meu professor, sim. E a Joana também.
Claro, porque no curso da comunicação social. Aliás, foi na cadeira dela que nasceu o teu podcast, Let's Rock.
Foi, exatamente.
Portanto, é uma ideia muito gira. Vamos viajar no tempo. Tens outros temas além dos instrumentos, ficamos a saber outras coisas, uma breve síntese da evolução humana, por que nós nos tornamos bípedes, os sítios arqueológicos mais relevantes em Portugal, os períodos culturais da pré-história. Foi muito importante. E depois falas do anzol, das agulhas, das lanças, do arco e flecha, das cordas, da cola, dos sapatos. Adorei isto dos sapatos. Achei lindo a questão dos vestígios indiretos ou das pegadas, ou é pela análise dos ossos. Isto é incrível, que as análises mais antigas da Tanzânia, que tinham 40 mil anos ou 10 mil anos, é impressionante. Muito se aprende, depois tem estes QR codes e esta bibliografia extensa. O livro vale muito a pena. Isto é extraordinário. E de facto, o que a gente queria saber mais sobre ti, tens sempre este Instagram, podemos encontrar coisas lá.
Sim.
Sara ponto Cunha ponto archaeology.
Sara ponto Cura ponto archaeologist.
Ponto archaeologist.
Exatamente.
Pronto, assim a gente consegue saber.
Volta e meia há lá coisas novas.
Sim, eu vou vendo e é muitíssimo bom. Sara, tenho imenso para te perguntar, mas não temos é mais tempo para isso. Mas quero agradecer muito por teres passado por aqui. Quero agradecer muito o teu percurso, a tua luta, o teu exemplo e o teu testemunho, que é muito importante. E esta carreira, um futuro em ruínas, mas que é extraordinária, motivante e excepcional. Já sabe, para si que nos ouve, é uma edição da Manuscrito. Sara Cura, "Inovações Pré-históricas que Mudaram o Mundo". Bem-haja, Sara. Até sempre.
Obrigada, João.
Muito obrigado.