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Boa noite. Jornal das 8, na Rádio Observador, com Luís Soares. E Luís, o primeiro-ministro faz a esta hora uma declaração em São Bento.

É uma declaração que vai começar dentro de instantes, onde está já o repórter João Lourenço. João, a declaração está marcada para esta hora.

É carregado por uma legítima e justificada preocupação com o aumento do custo de vida, sobretudo por força do preço dos combustíveis, causado por guerras que não controlamos. Não temos influência na origem desta crise, mas sentimos, e muito, o seu impacto. E temos consciência que este impacto se pode prolongar e até agravar já na próxima semana. Por isso, e para bem de todos nós, temos de equilibrar a sensibilidade social com a responsabilidade financeira. Voluntarismos excessivos ou facilitismos no presente significam problemas no futuro. Não contem comigo, nem com o governo, para ilusões hoje, que sejam pesados preços a pagar amanhã. Temos de preservar com prudência a capacidade de resposta e avaliar a cada momento as medidas mais adequadas. Neste momento difícil, aqui estou a dar a cara para explicar o que estamos a fazer e por que é que este rumo que o governo escolhe é o melhor rumo para o país. Para reforçar a resposta a esta crise, o Conselho de Ministros aprovou hoje um conjunto de medidas. A primeira, um suplemento extraordinário aos pensionistas, que será de €200 para quem recebe uma pensão até €537,13, de €150 para quem recebe desde este valor até €1.074,26 e de €100 para quem recebe pensões deste valor até €1.611,39. Será pago com a pensão de dezembro e vai abranger mais de dois milhões de pensionistas. Uma segunda medida, uma nova redução do IRS até ao sexto escalão. Será a quinta descida deste governo no imposto sobre o rendimento do trabalho das famílias portuguesas. Uma diminuição de €400 milhões em sede de IRS, de que vai beneficiar já o salário de novembro e o subsídio de Natal. É dirigida especialmente aos agregados familiares da classe média. Uma terceira medida, o alargamento do passe ferroviário verde aos serviços de transporte urbano de Lisboa e do Porto, incluindo a linha da Fertagus. Por apenas €20 mensais, pode-se viajar em todas as linhas ferroviárias do país, com exceção do alfa pendular. Em quarto lugar, um novo apoio aos setores que estão mais expostos ao aumento dos combustíveis. O setor do transporte de mercadorias e de passageiros, os táxis, as instituições particulares de solidariedade social e as associações humanitárias de bombeiros. Vamos reeditar este apoio com o objetivo de diminuir o impacto do aumento do custo dos combustíveis. Este apoio acresce, de resto, àquele que decidimos já na semana passada, de €0,10, de forma extraordinária, por litro, para o gasóleo colorido e agrícola. Portugueses, desde março que reduzimos o imposto sobre os combustíveis, o ISP, de molde a devolver a todos o valor cobrado a mais em IVA, devido ao aumento dos preços. Os descontos totais que estão hoje em vigor representam cerca de €0,23 por cada litro de combustível que é abastecido nos respectivos postos. Isso acontece nesta semana e provavelmente subirá para €0,25 já na próxima semana. Sem este apoio, só para termos a noção do esforço que também estamos a fazer, a gasolina já custaria, ao dia de hoje, cerca de €2,30 e o gasóleo já custaria, ao dia de hoje, cerca de €2,40. Quero reiterar de forma solene uma vez mais: o Estado ganha zero euros com a subida do preço dos combustíveis, conforme comprova o próprio Conselho das Finanças Públicas. Quem diz o contrário está a faltar à verdade. Este desconto do ISP significa, até o final do ano, uma redução de impostos de cerca de €1.300 milhões, dinheiro que fica com os contribuintes. Se juntarmos a este valor todas as outras decisões, a intervenção do governo deve €2.300 milhões aos contribuintes. Estamos a falar dos descontos do ISP, da descida do IRS e do suplemento das pensões, do apoio à botija de gás solidária, dos apoios aos setores mais afetados pelo aumento dos combustíveis, transportadoras, agricultura, pesca, silvicultura, aquicultura, proteção civil, bombeiros, táxis, instituições particulares de solidariedade social, que agora reforçamos. O apoio aos fertilizantes e à energia para os agricultores E também a receita proveniente da criação de uma contribuição extraordinária de solidariedade sobre os lucros extraordinários do setor petrolífero. Portugueses, governar é fazer escolhas e estas são as nossas escolhas. Elas seguem uma linha de rumo coerente e sustentável. Lançar, neste momento, o país num leilão de medidas avulsas e descoordenadas é abrir a porta a um tempo que não vamos deixar voltar a Portugal. Os portugueses ainda se lembram, e lembram bem, que quando em 2009, perante uma se subiram os salários dos funcionários públicos e se baixou o IVA, isso foi não só sol de pouca dura, como um contributo para privações e sacrifícios no momento seguinte. Não contam comigo, nem com este governo, para uma reedição dessa tragédia. Contam conosco para promover o crescimento económico, para aumentar os rendimentos dos portugueses a partir da criação de riqueza e de emprego, salvaguardando sempre os salários, as pensões e o funcionamento dos serviços públicos. E quero dizer-vos de uma forma muito clara, sem qualquer outra intenção que não seja o esclarecimento. Não troco, não trocamos este rumo por nenhum outro, de nenhum Estado-membro da União Europeia. Não troco mais cêntimos de desconto do ISP por mais impostos, por mais défice, por mais dívida que teríamos de pagar no futuro. Não troco a passagem do IVA de alguns alimentos de 6% para zero, pelos 800 milhões de euros que estamos a devolver às famílias em sede do IRS e no suplemento das pensões. Tenho todo o respeito pelas escolhas das oposições e pelas escolhas dos meus colegas chefes de governo da União Europeia, mas não trocamos este caminho pelo dos governos que no passado obrigaram os portugueses a subidas de impostos ou a cativações de investimentos. E não troco a nossa política fiscal e financeira pela de outros países, mesmo aqueles que nos são mais próximos, como a Espanha, a França ou a Itália. Não é uma questão de criticar o que lá se faz, mas é uma questão de acreditar no que se faz aqui. E aqui fazem-se coisas por opção, por escolha e por estratégia. Coisas como baixar os impostos sobre o rendimento do trabalho. Nestes dois anos e meio, já foram cinco descidas do IRS num montante próximo de 2500 milhões de euros. Aqui aumentamos em dois anos o rendimento líquido dos trabalhadores portugueses em cerca de 15%. Aumentamos as reformas de mais de três milhões de pensionistas e aumentamos três vezes o complemento solidário para idosos, a quem comparticipamos os medicamentos a 100%. Temos a maior taxa de criação de emprego no segundo trimestre de 2026 ao nível da União Europeia. Valorizámos 39 carreiras na administração pública. Reduzimos em cerca de 20% o risco de pobreza. Temos uma economia que este ano também está a ter um desempenho que é mais do dobro da média europeia. Foi o que aconteceu no segundo trimestre de 2026. Temos um saldo orçamental equilibrado, uma dívida pública descendente, tudo isto fundamental para que nos possamos financiar, nós, Estado português, nós, famílias portuguesas, nós, empresas portuguesas, a uma taxa de juro inferior a muitos dos nossos concorrentes. Apoiámos mais de 117 mil jovens na compra da primeira habitação. Construímos ou reabilitamos mais de 31 mil habitações a custos acessíveis. Reabilitamos cerca de 87 escolas e mais 200 estão agora já projetadas e cerca de 500 unidades de saúde. Por isso, quero terminar dizendo a todos e dirigindo-me a cada português: nós sabemos que as dificuldades são muitas e são reais. E também sabemos que há muito a fazer, mas nós não vamos deitar fora o esforço de tantos e tantos milhões de portugueses. O nosso sentido de responsabilidade está intimamente ligado ao vosso esforço, à vossa dedicação e à vossa confiança em Portugal. Acreditem que sentimos as vossas angústias e também sentimos apreensão com a incerteza que vem do estrangeiro. Também nós nos indignamos com a insensatez e a deriva das guerras à nossa volta. Mas não estamos aqui para nos lamentarmos ou queixarmos da responsabilidade que os portugueses nos deram. Pelo contrário, estamos aqui para decidir, para optar e para executar, sem deixar ninguém para trás, mas também sem empurrar pra frente uma fatura pesada e injusta para as novas gerações. Estamos aqui com muita humildade, mas também com muita firmeza. Estamos aqui com muita sensibilidade social, mas também com responsabilidade cívica, financeira e geracional. Estamos aqui com muita, muita, muita confiança na capacidade dos portugueses Na capacidade de cada um de vós, na capacidade das nossas famílias, na capacidade das nossas instituições, na capacidade das nossas empresas. O momento é duro, nós sentimos o vosso sofrimento, a vossa inquietação. Mas juntos, tenho a certeza, continuaremos a fazer de Portugal um exemplo na Europa e no mundo. Um exemplo que é apreciado de fora, mas que nós estamos a fazer para ser sentido e vivido cá dentro. Muito obrigado.

Ficam as declarações de Luís Montenegro depois de mais um Conselho de Ministros. O primeiro-ministro que voltou a referir algumas medidas que foram anunciadas na semana passada, no debate da moção de censura no Parlamento, no que toca à descida do IRS até ao sexto escalão e também o suplemento extraordinário anunciado aos pensionistas, mas o foco foi certamente o preço dos combustíveis, que continua a aumentar e a perspectiva para a semana é que haverá novo aumento tanto do gasóleo como também da gasolina. Ora, o chefe do governo lançou também alguns avisos, não só à oposição, mas também aos outros governos da União Europeia. O primeiro-ministro a referir que não vai lançar o país num leilão de medidas que iria prejudicar o presente e o futuro das contas públicas. O primeiro-ministro Luís Montenegro a referir que, novamente e quase como nova crítica ao PS, a dizer que o Estado não ganha mais nenhum cêntimo com a subida dos combustíveis. Terminou mesmo a dizer que o país não vai contar com o governo para ter uma tragédia semelhante àquela que surgiu em 2011. Voltou a falar das medidas já anunciadas e executadas, como por exemplo, na habitação, na educação ou também do setor da saúde. O chefe do governo a terminar com uma frase clara a dizer que não vai deitar fora o esforço de tantos portugueses com outras medidas de apoio agora à subida dos combustíveis. Foi o essencial de um discurso que demorou praticamente 10 a 11 minutos do primeiro-ministro.

Acompanhado aqui em direto pelo João Lourenço no Palácio de São Bento, um discurso ou uma declaração, como percebemos, sem direito a perguntas dos jornalistas. Em estúdio estão o editor de política do Observador, Rui Pedro Antunes, e também a editora adjunta de economia, Ana Sanles. Ana, começava-se calhar por ti, porque, na verdade, não temos aqui grandes novidades em relação às medidas que já eram conhecidas, nem grandes detalhes, nomeadamente sobre a questão do IRS, quanto é que vai calhar, digamos assim, a cada português.

Sim, se querias que eu viesse aqui explicar isso, acho que posso dar meia-volta, porque não houve absolutamente novidade nenhuma, se alguém estava à espera, e nós estávamos à espera, não de medidas novas, se bem que poderia haver essa expectativa, porque o primeiro-ministro guardou a declaração até às 20h, o Conselho de Ministros começou de manhã, poderia ter tirado um coelho da cartola, mas a expectativa era realmente que anunciasse o que já tinha dito. Mas poderia ter explicado um bocadinho mais. Disse os valores do bónus dos pensionistas.

Das pensões, que é basicamente igual ao do ano passado.

É praticamente igual ao do ano passado. Quem ganha mais, recebe €100. Quem ganha menos, recebe €200. Quem está no meio, recebe €150. Mas em relação ao restante, vamos ter que esperar pra saber como é que vai ser feita a distribuição do IRS.

Provavelmente, no comunicado do Conselho de Ministros, nomeadamente do IRS. Sabemos que são 400 milhões, mas não sabemos qual é a distribuição.

A descida será até ao sexto escalão, que impacta todos, porque o IRS é progressivo, mas provavelmente só nos próximos dias, não sei se amanhã, já será possível ter mais alguns dados. Mas o primeiro-ministro foi recuperar até coisas que já tinha dito no pontal, o caso do Passe Ferroviário Verde, estendido até às linhas suburbanas, inclusive a Fertagus, isto já se sabe há mais de um mês. E mesmo os outros apoios aos combustíveis, já se sabia que o governo ia anunciar isto hoje. Portanto, talvez pra algumas pessoas tenha sido um balde de água fria.

Eventualmente, a única novidade que podemos encontrar aqui é que o desconto ISP amanhã, provavelmente irá aumentar mais 2 cêntimos.

Irá mais 2 cêntimos. Isso quer dizer que realmente devem confirmar-se as previsões que já foram sendo avançadas hoje de que na segunda-feira vamos ter novamente um grande aumento dos combustíveis, quer no gasóleo, quer na gasolina, e isso sim, continua a preocupar as pessoas, e isso sim, continua a pressionar muito o governo, que continua a preferir dramatizar com o que poderia acontecer se tomasse medidas mais musculadas, mais volumosas, o que poderia acontecer mais pra frente. Hoje de manhã, Montenegro até deu uma novidade, a dizer que esperam um superávit.

Isto podia dar sinal de que poderia haver aqui mais alguma medida.

É isso. E eu acho que o que o governo está a fazer é proteger-se, defender-se, porque se a inflação não for contida, quando nós tivemos a última grande crise inflacionista, nós tivemos inflação num nível bastante superior ao que está agora. Agora está em 3,3%. Se o preço do petróleo continua a subir como tem subido, a escalada da inflação não vai ficar por aqui.

E, portanto, poderá não querer esgotar as medidas todas agora.

Pode ser necessário ter ainda essa almofada, porque as pessoas não vão perceber durante muito tempo que, por muito que se diga que é para continuar a trajetória de descida da dívida pública, garantir boas condições de financiamentos, que o governo escolha ter um superávit a apoiar pessoas, mesmo que seja com as medidas mais dirigidas a quem mais precisa e não as medidas Que abranjam toda a gente, como pede a oposição, como pede o PS, como pede o Chega. Portanto, pode ser possível. E Montenegro diz isso, a avaliação é feita semana a semana, portanto, se calhar daqui a uma ou duas semanas vamos ouvir falar de mais algumas medidas.

Se calhar vai ser mais uma declaração às 20h.

Sem perguntas.

Sem direito a perguntas. Rui, tivemos aqui recados tanto para cá para dentro como também lá para fora por parte de Luís Montenegro.

Sim, eu julgo não compreender toda esta solenidade desta declaração ao país. Ou seja, o país não entrou agora num resgate financeiro, não aconteceu nada de extraordinário hoje que mereça isto. O problema é continuado. Só expõe que se calhar o primeiro-ministro está a acordar tarde porque há uma tracking poll com duas semanas que o dá a perder muito e com muito pouca popularidade. Isto para as pessoas é como ele estivesse a tocar violino, mas não vão lá meter a moedinha. Por quê? Não há nada que justifique a formalidade desta declaração. Para já, porque aquilo que anunciou já era praticamente tudo conhecido. Poderia, eventualmente, encontrar-se uma ou outra coisa que ainda não estivesse suficientemente clara. E por isso não se percebe muito o porquê disto. Qual é a utilidade? É perante a ideia de que o governo poderia ir atrás com várias medidas, banjar algum dinheiro que tem com base no rigor orçamental e naquilo que pode ser o excedente, haver a ideia de que ia abrir os cordões à bolsa mais do que aquilo que já tinha anunciado. E na prática, o que Luís Montenegro vem dizer é que não vai fazer isso. E também por isso não se percebe isto, porque se ele queria dar a cara, mas ele deu a cara por uma coisa que nem é mais a austeridade provocada por ele, portanto, não faz sentido ele dar a cara pelo contexto internacional ou pelo que se passa no Estreito de Ormuz. E também se não vai dar a cara por medidas novas, não se percebe a utilidade política para ele, enquanto estratégia, de estar a aparecer com esta solenidade no fim do Conselho de Ministros, ia lá ele ao lado do Leitão Amaro, se quisesse com o Joaquim Miranda Sarmento ou com mais alguém para explicar e estava resolvido. Porque o governo, para mostrar que está em contínuo trabalho, não é de repente criar aqui um happening para dizer: "Agora é que isto é sério, mas eu não tenho mais para vos oferecer, porque o rigor das contas públicas é melhor". E, portanto, eu não consigo compreender esta declaração.

Nem como resposta, por exemplo, a José Luís Carneiro, que tem vindo a dizer que temos aqui medidas do PS que se calhar podíamos implementar.

Esse é o ponto. Não precisava de ser aqui, mas esse é o ponto, que é o que ele não vai fazer, que é dizer: "Atenção, porque daquilo que depender de mim, farei tudo para não ceder à tentação do PS e Chega, que juntos têm a hipótese de forçar algumas medidas e, portanto, eu não o vou fazer". E aí ele acena com o fantasma sem dizer o nome. Podemos aqui nós dizer, podemos chamar George Clooney da Covilhã ou de Vilar de Maçada. A Covilhã foi onde ele cresceu, Vilar de Maçada foi onde ele nasceu, que é José Sócrates, para dizer que atenção, que nós já estivemos aqui. Portanto, em 2009, José Sócrates aumentou os funcionários públicos, tomou uma série de medidas que eram, numa fase inicial desse ano, se quisermos, de libertar dinheiro para cima dos problemas. E depois, na verdade, o que aconteceu foi uma austeridade em que deixou as pessoas ainda pior. E, portanto, ele acena com o fantasma de Sócrates, apesar de José Sócrates o ter elogiado por retomar projetos que um governo do PS não poderia retomar, como o TGV ou o novo aeroporto, etc. E que eram projetos que o próprio José Sócrates colocava muito em cima da mesa. Mas, na verdade, essa acaba por ser a única utilidade. E nós sabemos que Luís Montenegro não vai ceder à tentação de colocar mais dinheiro e de mexer mais nos combustíveis que aquilo que está a fazer neste momento. Claro, nada disto é definitivo. De repente, se a economia ficasse toda paralisada por causa dos aumentos dos combustíveis, o governo ia ter que direcionar dinheiro de um sítio para outro, não sei exatamente onde é que isso aconteceria. Na questão de execução orçamental, que vai muito depender também depois do que ele vai abrir os cordões à bolsa. Por isso é que muitas vezes nós em dezembro vemos o governo a dar determinadas medidas, precisamente para não ter um excedente tão grande, porque vai avaliando, mas até lá pode precisar. E nós andamos anos a dizer que era preciso uma almofada financeira, ter as contas certas, ir reduzindo a dívida. Agora que o governo está a fazer essa trajetória, as pessoas querem ir à bomba de gasolina e receber menos, porque há um presidente dos Estados Unidos que é absolutamente inconsequente, que nunca se percebe o que é que vai acontecer exatamente no Médio Oriente, e agora o governo é que tinha que pagar essa fatura. Terá que pagar, certamente. E poderá até pagar uma fatura eleitoral. Mas se queres tirar daqui uma coisa positiva, é esta não ceder à tentação de Luís Montenegro, que era mais fácil para ele colocar dinheiro em cima dos problemas, ir até a 3% de déficit, o que seria permitido e tentar um impacto imediato. Mas na verdade, ele optou por este caminho, que é mais doloroso. Provavelmente até continuará a cair na popularidade, porque é sempre atribuído no momento em que se vai à bomba de gasolina a quem está no poder, mas poderá mais tarde ter um novo fulgor, ou não, a gente não sabe o que se vai passar, para atacar. Aqui só uma coisa que espero que não seja cínica, é que este todo sentido de responsabilidade de Luís Montenegro não seja porque sabe que neste momento ninguém quer eleições nem vai provocá-las. Tem um presidente que não gosta delas, tem pelo menos uns partidos da oposição que não está interessado em ir. Tem uma sondagem que diz que os portugueses querem que ele vá até o fim, apesar de não gostarem dele E que isto não seja um interesse ou um sentido patriótico oportunista, que é estar a fazer isto agora para quando aqui a um ano ou dois tiver eleições no horizonte.

Aí abrir os cordões à bolsa.

Exatamente. E portanto, como as pessoas votam no momento com o bolso e como nós vimos, temos uma relação cada vez mais transacionável entre o eleitor e o político, como dizia há pouco, isso pode trazer ganhos eleitorais mais perto. Agora não daria. Ninguém se ia lembrar que pagou menos gasolina agora, se tivéssemos eleições em 2029.

Ana, deixa-me só já agora aproveitar para acrescentar aqui uma informação que chega agora, porque à mesma hora que o primeiro-ministro fazia a declaração, o governo divulgava no site as novas taxas previstas para a baixa do IRS a entregar à Assembleia da República. São baixas entre os 0,3 e os 0,5 pontos percentuais até ao sexto escalão, 0,3 no primeiro, 0,5 do segundo ao quinto e 0,3 no sexto. Conseguimos aqui tirar alguma conclusão disto ou ainda é prematuro?

Estás-me a fazer uma maldade, porque eu ainda não olhei para elas. Não me vou atrever a fazer contas erradas.

Mas consegues comparar se vai mais ou menos ao mesmo nível daquilo que foi noutros anos ou nem por isso, não tens de cabeça?

Não tenho de cabeça, mas não deve andar muito longe do que foi nos últimos anos. Não sei qual será o ganho líquido por escalão. Estava a tentar ver aqui para ver se conseguíamos dar essa informação já aos nossos ouvintes.

Aqui em direto e em cima da hora mesmo.

Acho que ainda vamos ter que fazer contas e simulações.

É o jornalismo ao minuto, em cima do acontecimento.

Em cima do acontecimento. Vamos fazer certamente essas contas e tê-las no site do Observador. Deixa-me só fazer-te uma outra pergunta, Ana, só para terminarmos, porque o primeiro-ministro focou muito este ponto de que não troca este rumo pelo rumo de outros países, nomeadamente como Espanha, que tem tomado outro tipo de medidas. São assim tão diferentes as medidas que Espanha tem tomado daquelas que Portugal tem tomado e que vai tomar agora, são caminhos realmente diferentes?

Espanha, logo quando começou a guerra com a Ucrânia, anunciou um grande pacote de quatro a cinco mil milhões de euros de apoios e logo na altura, se bem nos lembramos, o governo foi muito criticado por não ter feito nada de semelhante. Espanha tem uma abordagem aos combustíveis diferente da nossa. Têm uma fiscalidade mais baixa e prefere apoiar as pessoas nesse aspeto. Ou seja, nós poderíamos, e é isso que o governo está sempre destinado a fazer, não pode baixar o IVA porque as regras europeias não deixam, mas poderia fazer esse corte através do ISP. Mas é uma opção que o Luís Montenegro já explicou várias vezes que não quer tomar. Mas sim, é uma diferença que continua a compensar ir quem pode por combustível a Espanha.

Olhando também um bocadinho lá para fora, Rui, para estes recados também lá para fora e para os países europeus, de certa forma, a própria Europa poderá vir aqui, mais cedo ou mais tarde também vir a tomar algumas medidas que possam ajudar os próprios governos e o governo português, naturalmente.

Sim, eventualmente, na verdade, mesmo em períodos difíceis de inflação e pós-pandemia, com a guerra na Ucrânia, na altura António Costa, que era primeiro-ministro de Portugal, enviou uma carta à Comissão Europeia a pedir precisamente para baixar no IVA, para reduzir o preço dos combustíveis. A resposta que veio de lá foi precisamente esta que a Ana estava a dizer, que é: o IVA não podem baixar, se quiserem baixem o ISP. O governo já explicou que por várias razões não o fará, até porque depois a médio prazo poderia não compensar. E, portanto, na verdade, ou há uma medida europeia coletiva que permita de alguma forma ou algum apoio extraordinário, como existe em momentos de crise profunda, como quando, por exemplo, houve a pandemia, etc., e considerar-se que é uma grande ameaça à economia europeia e haver uma resposta conjunta, ou não me parece que venham daí boas notícias, até porque o exemplo de Espanha, que precisamente baixou o IVA, levou uma reprimenda de Bruxelas até ter que acabar com essa redução do IVA.

Sim, durou três meses.

Portanto, como dizia o outro, foi bom enquanto durou. Mas, na verdade-

Não durou muito.

Não durou muito.

Rui Pedro Antunes, Ana San Lés, obrigado por terem estado aqui em estúdio a analisar esta mensagem do primeiro-ministro, esta declaração no Palácio de São Bento, a dar conta das medidas aprovadas hoje em Conselho de Ministros, no fundo, medidas que o primeiro-ministro já tinha anunciado, como o bónus para as pensões, a descida do IRS até ao sexto escalão, também o alargamento do passe ferroviário verde a todas as linhas ferroviárias, o apoio de 10 cêntimos por litro no gasóleo para os setores que estão mais expostos à subida do preço dos combustíveis, como os transportes, os lares e os bombeiros, a dar a indicação de que provavelmente amanhã haverá um aumento do desconto ISP também em mais 2 cêntimos, sublinhando Luís Montenegro que o Estado ganha zero com a subida do preço dos combustíveis e a recusar lançar o país num leilão de medidas. Diz Luís Montenegro que não troca o rumo que está a traçar por nenhum outro, como o que fazem outros países como Espanha. A sublinhar também a ideia de que há muitas dificuldades, mas pretende, sobretudo, ter sentido de responsabilidade perante estas adversidades. É o essencial das medidas anunciadas por Luís Montenegro esta noite em São Bento.

Luís, vamos ainda a outras notícias que marcam a atualidade.

Uma declaração que acontece também no dia em que é conhecida uma nova sondagem, que mostra o PS à frente. O Chega está em segundo, a apenas um ponto dos socialistas. A tracking poll da CNN e Nascer do Sol, divulgada ao fim da tarde, o Partido Socialista aparece em primeiro lugar, com 28,6% de intenções de voto, mais um ponto do que o Chega, em segundo. A AD aparece em terceiro lugar com 24,3%, mais de quatro pontos do PS, e fica já fora da margem de erro, que é de cerca de 3,5%. O presidente da República critica o debate público em torno dos resultados do PISA, que revelam uma queda histórica no desempenho dos alunos portugueses em várias disciplinas. António José Seguro mostra-se insatisfeito com o constante passa-culpas, quer um debate mais construtivo e também mais virado para as soluções. O governo e os sindicatos da PSP não chegaram a acordo sobre o suplemento para a Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras. Os protestos vão, por isso, manter-se. É o resultado da reunião desta tarde no Ministério da Administração Interna. O governo propôs €160 de suplemento para os elementos ligados ao controle aeroportuário este ano, com retroativos a 1 de julho. No ano que vem, seria de €230, mas o presidente da ASP considera a proposta frágil e diz que não responde às pretensões da associação e, por isso mesmo, vão manter-se os protestos agendados para dia 28 de setembro no Porto e dia 8 de outubro em Lisboa. Ainda é notícia esta tarde os três suspeitos de balear uma turista na baixa de Lisboa vão ficar em prisão domiciliária. Eles tinham se entregado à PJ na terça-feira, depois de várias buscas nas residências. Foram aos presentes a juiz. Os três autores do tiroteio ficam lá em casa com pulseira eletrónica. Ainda há tempo para futebol, porque o Torrense está a estrear esta hora nas competições europeias e Diogo Varela neste momento está na frente do marcador.

Golo histórico por parte do espanhol Alejandro Alfaro. Aponta este primeiro golo da história do Torriense em termos de competições europeias. Marcou ao minuto 23, assistido por David Bruno, numa bela jogada da turma do Oeste, o Torriense, que nesta altura, com quase meia hora de jogo, Luís, vai batendo a equipa do Lillestrøm até ver uma entrada triunfante para o estreante absoluto Torriense nesta Liga Europa.

Esta é a Liga Europa do Torriense, que vai vencendo por 1 x 0 a equipa da Noruega. O Diogo Varela vai continuar a acompanhar este jogo e vai trazer-nos todas as informações ao longo da noite.