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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a dura realidade das crianças sozinhas que procuram ajuda alimentar. São perto das 8 da noite. Um grupo de crianças sozinhas destaca-se de uma fila de adultos. Esperam junto a uma paragem de autocarro no Saldanha, em Lisboa, mas ninguém ali vai apanhar o autocarro. Em vez de estarem em casa, aqueles cinco irmãos estão no meio da rua, ao frio, à espera para receberem a refeição, que será o jantar naquela noite. Minutos antes, a mãe já lhes tinha ligado para confirmar que estavam na fila. Quando a carrinha com a ajuda finalmente chegar, aqueles irmãos, entre os oito e os 21 anos, hão de fazer dos ventiladores do metrô a sua mesa de jantar. Depois disso, espera-os ainda uma longa viagem de regresso, entre metrôs e autocarros ou simplesmente a andar. Só vão chegar à casa, em Canecas, perto da meia-noite. Vivem com os pais e a avó, mas o dinheiro já não chega para alimentar todos. Pedro, de 15 anos, confessa que muitas vezes fica a chorar no quarto, só para não chorar à frente da mãe. E em Portugal são cada vez mais as famílias em dificuldade.
Os preços já estão a subir e vão continuar. É o reflexo do aumento do custo da energia e dos combustíveis.
Diogo, não é só nos combustíveis. Os efeitos da guerra também já chegaram ao pão.
O pão já está mais caro e os preços vão continuar a subir. A previsão é da Associação do Comércio e Indústria da Panificação.
Os preços das casas subiram quase 19% em 2022. É a subida mais forte dos últimos 30 anos.
Esta história dos cinco irmãos foi testemunhada pela jornalista do Observador, Rita Pereira Carvalho, com quem vamos falar nesta edição da História do Dia. É o reflexo de uma realidade que, não sendo ainda generalizada, já começa a ser visível. Crianças desacompanhadas que recorrem às carrinhas das associações que prestam ajuda alimentar. Primeiro, veio a pandemia e o desemprego para muitas famílias. Depois, a inflação e o aumento brutal da conta do supermercado. O dinheiro, em muitos casos, não chega para ter uma casa e comida na mesa ao mesmo tempo. São realidades duras sobre as quais vamos falar no episódio de hoje. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia. Olá, Rita, bem-vinda.
Olá, João.
A tua reportagem começa com a história de cinco irmãos. Que família é esta?
Primeiro, é uma família numerosa, como dá para perceber. Destes cinco irmãos, quatro são menores. O mais novo tem oito anos e a mais velha tem 21. Têm casa, onde vivem com os pais e com a avó. Portanto, vivem oito pessoas nesta casa, que tem apenas três quartos.
Eles estão sozinhos, embora uma irmã é maior, tem 21 anos, mas estão sozinhos a pedir ajuda nestas carrinhas da Associação Casa. Os pais sabem que estas crianças estão ali?
Sabem. Aliás, numa das vezes em que estivemos, eu e o João Porfírio, com estes irmãos, a mãe ligou a um deles para saber se já tinham chegado ao Saldanha. E foram eles que nos contaram que é a mãe que lhes pede para irem até à Rotunda do Saldanha. Eles sabem que ali têm uma refeição certa, coisa que não têm em casa.
Fala-nos também um pouco mais sobre esta família. No caso desta família, como será também, infelizmente, o caso de tantas outras, as dificuldades começaram a agravar-se com a pandemia.
Sim, este é precisamente o retrato de milhares de famílias portuguesas. No caso desta família, quando foi decretado o primeiro confinamento em Portugal, a mãe, que fazia limpezas, foi despedida da empresa onde trabalhava. Nunca mais conseguiu um contrato e continua à procura de trabalho. E claro, neste momento, entra nesta casa o ordenado do pai, que trabalha na construção civil, e a reforma da avó. Portanto, no total, são pouco mais de € 1.000 para sustentar uma casa de oito pessoas.
Ou seja, não dá para sustentar a casa, para ter uma casa e para ter comida ao mesmo tempo para todos, porque eles são muitos. Nestas carrinhas, a alimentação é a única ajuda que eles recebem, não é?
Não. Além das refeições, pelo menos à sexta-feira, conseguem levar roupa, calçado e um saco com comida enlatada, que vai dando para as refeições que fazem em casa. Até porque eles não vão à Rotunda do Saldanha todos os dias. Costumam ir três vezes por semana. Num dos dias em que estivemos com estes irmãos, eles estavam a escolher roupa e levaram vários sacos com eles.
Estes irmãos que tu encontraste depois a jantar, e tu descreves na tua reportagem, faziam dos ventiladores do metrô mesa, eles depois ainda têm um caminho muito longo até chegar à casa, não é?
Sim, normalmente eles comem com alguma pressa, até porque do Saldanha eles ainda vão a pé até à estação de comboio de Entre Campos. De Entre Campos vão até Sete Rios e depois vão até ao Colombo e aí apanham o autocarro para Canecas. Portanto, este percurso todo dura várias horas e eles chegam sempre à casa depois da meia-noite. Estamos a falar de crianças.
Estamos a falar até agora, de facto, deste caso de uma família, o caso com o qual tu começas esta tua reportagem, que é muito marcante. Mas para além destes irmãos, esta associação tem encontrado também outras crianças sozinhas nas rondas que vai fazendo pela cidade de Lisboa?
Sim, já encontrou várias crianças. Uma das histórias que uma das voluntárias da Associação Casa, com quem fizemos algumas das rotas de entregas de refeições nos contou, é duas irmãs que encontrou no Cais do Sodré. Tinham sete e 12 anos e estavam sozinhas na rua. Neste caso, elas não foram de propósito a estas carrinhas que distribuem refeições, mas viram que estavam a dar comida e foram lá. E esta voluntária até falou com a mãe delas por telefone Não tinham comida em casa e esta também não era a primeira vez que acontecia. Aliás, a mãe destas crianças disse uma frase que marcou muito a voluntária: "Eu nunca fui pobre." E isto mostra bem a realidade em que estamos a mergulhar.
E para além destes casos que testemunhaste, destas crianças que apareceram sozinhas, há também crianças que vêm acompanhadas pelos pais a estas carrinhas.
Exatamente. Este é outro ponto que as associações destacam. Nós falámos com várias e, por exemplo, um dos voluntários da Associação Romar diz que começou a notar que há crianças a acompanhar os pais no último mês. Isto tem acontecido sobretudo no Saldanha e no Martim Moniz.
Já voltamos à conversa com a jornalista Rita Pereira Carvalho. Vamos falar também de outras realidades difíceis, quando o dinheiro não chega para pagar uma casa e ter comida na mesa.
Ouviu rádio hoje?
Ouvi a pipoca mais doce, a Ana Garcia Martins.
Ouvi a Catarina Miranda.
Ouvi o Manuel Serrão.
Ouvi o meu amigo Júlio Magalhães.
Sim, ouvi o Paulo Ferreira.
Já ouvi a Maria João Simões.
Ouvi a voz incrível da Carla Jorge Carvalho.
Ouvi o José Manuel Fernandes.
Ouvi a Helena Matos.
Ouvi, claro, o Rui Ramos. Ouvi o João Miguel Tavares.
Ouvi o Luís Aguiar Conrague.
Ouvi a Susana Peralta.
Já ouvi o Jorge Fernandes.
Ouvi o João Marques de Almeida.
Ouvi o Bruno Cardoso Reis.
Ouvi o Carlos Filhais.
Eu ouvi o Martim Sousa Tavares.
Ouvi o Bruno Vieira Amaral.
Ouvi o Eduardo Sá.
Ouvi o Alberto Gonçalves.
Ouvi o Gabriel Alves.
Acabei de ouvir o Pedro Henriques.
Se também já os ouviu, ouviu a Rádio Observador.
Estamos de regresso à conversa com a jornalista Rita Pereira Carvalho. Rita, penso que era importante começarmos por estes casos e estas histórias de vida, porque nunca nos podemos esquecer que por trás dos números e das estatísticas há sempre pessoas reais, de carne e osso. Mas chegados aqui, penso que temos também de olhar um pouco para o retrato geral e para aquilo que nos dizem os indicadores. O que os dados que estão neste momento disponíveis nos permitem perceber da fragilidade das crianças em Portugal?
Estes dados não são animadores e mostram que existem milhares de crianças em situação de fragilidade em Portugal. Aliás, estas histórias mostram precisamente isso e os números do Eurostat, os mais recentes, que foram divulgados em outubro do ano passado, dizem que em 2021 praticamente uma em cada quatro crianças portuguesas estavam em risco de pobreza e exclusão social. Ou seja, estamos a falar de 388 mil crianças. Este é o valor mais alto desde 2017 e se compararmos 2021 com 2020, temos mais 10 mil crianças em risco de pobreza em apenas um ano.
Mais pedidos de ajuda, novos tipos de pessoa do que estávamos habituados a aparecer na rua. De facto, os jovens são uns deles. Mais jovens e imigrantes.
Ouvimos aqui Nuno Jardim, o presidente da Associação Casa, que tu entrevistaste para este trabalho. O perfil das pessoas que procuram este tipo de ajuda também tem mudado nos últimos meses?
Sim, e aqui voltamos a falar da pandemia. Antes da pandemia, apareciam sobretudo pessoas em situação de sem-abrigo, e já nesta altura a situação era preocupante, mas agora há mais jovens, mais imigrantes e mais pessoas que têm casa, mas que não têm dinheiro para comer. E, claro, pessoas com filhos, com muitas despesas e pouco dinheiro.
E a ajuda que estas associações dão ainda chega para os pedidos que vão surgindo?
Não chega. E nós percebemos isso quando acompanhamos esta associação.
Depois há dias que dá, depois há dias que não dá, depois há dias que sobra. Houve alturas que não chegava, acabavam as voltas e havia um ponto que já não conseguiam ir.
Numa das voltas do Cais do Sodré, por exemplo, as refeições acabaram, mas continuavam a chegar pessoas e nós ouvimos os voluntários pedir desculpa às pessoas que chegavam e que não conseguiam levar comida. E também nesse dia, os voluntários que estavam no Oriente ficaram sem refeições logo na primeira paragem.
Tu, de facto, começas a reportagem por abordar este caso que falámos inicialmente, no início do programa, dos cinco irmãos, mas também falas de outros casos. Eu penso que um dos que também me surpreendeu muito é esta situação de pessoas que nos entregam o jantar ou o almoço no conforto das nossas casas, mas que depois elas próprias muitas vezes não conseguem sequer ter uma refeição.
Sim, e é outro retrato que nós também podemos fazer a partir daqui e que ilustra o aumento das dificuldades e que não afeta só os portugueses. Numa das voltas do Cais do Sodré, nós encontrámos um jovem indiano de 28 anos que trabalha na Glovo, a empresa de distribuição de refeições, e que vive neste momento na rua com o irmão. Deixaram de conseguir pagar o quarto que arrendavam por €300 e agora espera todos os dias pelo jantar que a associação lhe leva.
Há zonas da cidade de Lisboa que a maioria das pessoas não são pessoas sem-abrigo. Sem-abrigo daqueles que dormem na rua, são pessoas que têm casa, algum já de família típica classe média, mas que deixaram de o ser e neste momento estão a pedir ajuda, apoio nesse sentido.
E tu já referiste aqui o caso de uma mãe que disse: "Eu nunca fui pobre." E de facto, esta não será uma realidade de hoje, mas é importante também percebermos que muitas das pessoas que recorrem a esta ajuda não são sem-abrigo, são pessoas que têm casa, mas o dinheiro não chega para tudo e muitas vezes o dinheiro não chega para comer, certo?
Sim. E mais uma vez, esta não é uma realidade que começou há dois ou três meses, mas o preço das casas aumentou, o preço da alimentação também, e o que muitas pessoas dizem é que o dinheiro não estica. E nós estivemos com pessoas que levavam o seu saco para levar a refeição e iam para casa, não comiam ali. Algumas têm apoios da Segurança Social, mas outras simplesmente deixaram de conseguir pagar tudo. Muitas trabalham, mas precisam das associações para conseguir comer.
Rita, e uma questão também importante, até para quem nos esteja a ouvir e tenha ficado sensibilizado com alguns destes casos que tu também abordas na tua reportagem e quiser ajudar, não só estas pessoas, como o trabalho da Associação Casa ou outras associações que tenham trabalhos idênticos, o que é que as pessoas podem fazer?
Primeiro, podem sempre entrar em contato com estas associações através dos sites ou até mesmo através das redes sociais, porque estas associações estão sempre a partilhar também pedidos de ajuda. E recebem, sobretudo, comida, roupa, calçado, cobertores, que é o que faz mais falta e o que as pessoas que estão na rua e as pessoas que têm casa e que precisam de ajuda, mais precisam.
Obrigado, Rita.
Obrigada.
Rita Pereira Carvalho é jornalista do Observador e assina uma reportagem sobre a ajuda a famílias carenciadas em Lisboa e o fato de aparecerem já muitas crianças sem os pais a recorrerem a estas carrinhas. Um trabalho que conta ainda com fotografias de João Porfírio. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico, do João Ribeiro. Este episódio contou também com a participação da jornalista Marta Amaral. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.