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Este podcast tem o apoio da gama Audi e-tron. Esta é a história do dia da Rádio Observador: como se supera a perda de um filho. Todos os anos há milhares de casos de perda gestacional. Podem chegar a 20% dos casos de gravidez. Os números exatos não são conhecidos. Em Portugal, nem todos entram para as estatísticas. A grande maioria dos casos ocorre nos três primeiros meses de gestação e a possibilidade de aborto vai diminuindo ao longo da gravidez. Todos os meses, dezenas de pais que perdem filhos reúnem-se para falar, para procurar formas de atenuar a dor. Estes pais sentem que a sociedade olha para a perda gestacional como um percalço e não como uma perda de alguém que se ama. A jornalista Diana Rosa esteve num destes encontros promovidos pelo grupo de suporte Pais Coragem, que decorreu em Lisboa. Este é um episódio especial da História do Dia. Alguns testemunhos que vamos ouvir são particularmente fortes. Aconselhamos a que não sejam ouvidos por crianças. Eu sou o Ricardo Conceição.

Olá, mais um beijinho. Tudo bem? Finalmente aparecemos.

Tudo bem. Esta é a Inês. Encontrou a Joana numa reunião dos Pais Coragem em Lisboa. A Inês veio com o Bruno, a Joana veio sozinha. São pais que perderam bebés durante a gravidez. Estão aqui para falar daquilo que sentem, querem tentar ultrapassar a dor através da partilha. São recebidos por Susana Vidigal, é a fundadora do grupo de apoio dos Pais Coragem.

E hoje estou aqui sobretudo para partilhar este amor convosco, pelos que são queridos, pelos filhos, pelos pais, pelas mães, pelas nossas famílias, por tudo o que sofreram, por tudo o que ainda sofrem com esta ausência física dos nossos bebés.

Joana Neto ouve.

A minha perda foi em dezembro de 2017.

Perdeu a Mafalda aos cinco meses de gravidez.

Foi uma gravidez muito planeada, muito sofrida, muito sonhada. Foram 10 anos de tratamentos de infertilidade, foram 10 anos de negativos, até que veio o positivo.

A 30 de julho do ano passado, Joana seguia no carro quando o telefone tocou. Era a chamada mais aguardada. Era da clínica de fertilidade a confirmar aquilo que já esperava há mais de 10 anos.

E eu disse ao pai dos meus filhos: "Encosta que é da clínica, deve ser uma novidade." E a enfermeira fala comigo, diz-me o valor do beta e diz-me: "Ó Joana, é um beta baixinho, mas é um sim, é um positivo!" Cheia de energia positiva na voz. Eu sentia, cá dentro, que tinha sido desta. E tanto sentia que foi.

E às oito semanas, Joana ficou a saber que ia ter uma menina, a Mafalda.

Eu a passar a ferro e digo: "Então, já sabemos que é uma menina, temos que escolher um nome." Ele respondeu-me: "Por acaso estive a pensar, gostas de Mafalda?" Eu disse: "Olha, gosto." E naquele momento ficou: "Ok, então a nossa filha chama-se Mafalda."

Joana entrou num mundo cor-de-rosa.

O cor-de-rosa é muito mais giro e ganha uma dimensão na nossa vida. Eu sou fã do Mickey e da Minnie desde sempre e, portanto, a minha filha, obviamente, ia ter tudo do Mickey e da Minnie.

O quarto, por exemplo.

Curiosamente, o quarto não. Porque eu achei que não a vou influenciar tanto assim, mas a Mafalda tem rios de coisas do Mickey e da Minnie e tudo quanto seja bonecos fofinhos. Desde as cortinadas a tudo quanto era lençóis. A Mafalda já tinha o enxoval todo feito, o quarto estava já pintado, a caminha para ela já tinha sido pintada, já estava pronta a mudar-se lá para casa, já tinha a cadeira da papa.

Estava tudo preparado para receber a Mafalda.

E eu vivi muito a gravidez a conversar com ela, a mimá-la, a dizer-lhe o quanto a amava. Sempre a dizer: "Filhota, quando chegares cá fora, tu nem sabes a quantidade de beijos e de abraços que a mãe te vai dar." Sempre a partilhar o meu dia com ela.

Até à noite em que tudo mudou. Joana acordou em sobressalto, com a sensação de que alguma coisa não estava bem.

"Liga para o INEM, porque nós não temos tempo de chegar de carro." Naquele momento algo me disse. E ele muitas vezes depois disse-me: "Tu sentiste naquele momento?" Eu disse: "Senti". Naquele momento algo me disse que isto não ia ter um desfecho bom.

Passadas umas horas, no hospital, o médico entrou no quarto com a pior notícia. Uma frase que Joana jamais vai esquecer.

O doutor entra no quarto, era o chefe de urgência desse dia, e entra com o pior dos cenários, com a pior das notícias.

A pior frase que ele usa, lembra-se?

Lembro-me. E hei de me lembrar para o resto da vida: "Joana, as suas análises chegaram. Está com uma infeção enorme. Neste momento a sua vida corre perigo." A bebé às 20 semanas não é viável, a nível pulmonar, e portanto vamos iniciar o processo de indução de parto, para podermos tratar de si.

E o mundo de Joana desabou.

Porque eu sabia que estava a preparar o meu corpo para a morte da minha filha. Minha filha ia nascer, porque estava viva, mas ia morrer no mesmo segundo.

Joana teve o parto da bebé, que morreu pouco depois. Por opção, não quis ter a Mafalda no colo. Viu a filha ser levada, embrulhada num lençol, nos braços de uma enfermeira.

Eu quero acreditar que eu não a quis ver por egoísmo, e é o que eu sinto no fundo do meu coração, porque eu não ia ser capaz de a devolver. E preferi não a ter. Eu podia ter pedido para a ter nos meus braços sem a ver. Se eu a agarrasse nos meus braços, eu não a ia querer largar. Ia ser muito pior.

Já voltamos.

Sim, a gama Audi e-tron é 100% elétrica, mas é mais do que isso. Leva-nos mais longe do que imaginamos. Encontra no silêncio, o ritmo perfeito. Faz-nos olhar duas vezes, se formos suficientemente rápidos. Por isso sim, a gama Audi e-tron é 100% elétrica e entre outras coisas fantásticas, apoia esta história do dia. Audi, o futuro é uma atitude.

Enquanto Joana se despedia da filha, Bruno e Inês Alfaiate estavam a recuperar da perda do Mateus. Foi a terceira vez que este casal chorou a morte de um filho.

Perdemos o Mateus, ficámos de rastos os dois.

Joana, Bruno e Inês estavam agora a passar pela mesma dor. Nunca sabemos bem o que dizer nestas situações. Inês lembra as piores coisas que ouviu depois de perder o filho.

Nas primeiras gravidezes isso ainda não era nada, porque estava grávida de oito semanas.

O que é que nunca se deve dizer a uma família que está a passar por isto?

Que foi melhor assim. Não, não foi melhor assim, porque é um sonho que está ali. É um filho, independentemente das semanas. Muitas vezes as pessoas dizem-nos isso porque não sabem como o há-de dizer e acham que ao dizer isso, que nos estão a confortar de alguma forma, a puxar para o outro lado. Mas não, eu costumo dizer, quando não têm nada de bom para dizer, não nos digam nada, mostrem só que estão lá, digam-nos só: "Estamos aqui, quando quiseres conversar, eu estou aqui". Porque um abraço nestas situações fala mais. Porque é complicado ouvirmos das pessoas próximas: "Era porque não tinha que ser agora. Para vir com problemas, mais vale não vir." É um filho. É o nosso filho. Era o nosso filho.

Joana voltou a casa sozinha, sem a filha. O quarto da Mafalda ficou fechado à chave.

Eu tenho a ideia que a primeira vez que abri aquela porta, já tinham passado três meses. A primeira vez que eu abri aquela porta e caí no chão e chorei, chorei, gritei, porque é um desespero tão grande. A minha vida toda estava naquele quarto.

O luto afastou a Joana e o marido. Meses depois, divorciaram-se. Inês e Bruno também viveram uma crise no casamento.

O nosso relacionamento abanou-se um bocadinho. Lá está, por aquela coisa de: "Eu sou o homem, não posso mostrar parte fraca, tenho que dar apoio à minha mulher", mas depois, quando estava sozinho, quem é que me dava apoio a mim?

Muitos pais afastam-se neste momento de luto, de dor extrema. A enfermeira Leonor Gonçalves, que coordena este grupo e que há muito trabalha com estes pais, explica que aos homens não é permitido chorar.

Muitas vezes, os pais são negligenciados e desautorizados a viver esta dor. Lá está, porque são as normas sociais, aquilo que é esperado da figura masculina, tens que ser o forte, tens que ser o pilar para a tua companheira, tens que ir trabalhar porque alguém tem que sustentar a família. E eles acabam por ficar para segundo plano. Eles sentem mesmo isso, que são colocados em segundo plano. O que é que acontece? Acontece que a mulher está a sofrer, o homem está a sofrer, cada um no seu canto, e o casal acaba por se desconectar.

E foi na hora H que Bruno e Inês encontraram este grupo de apoio.

Conhecemos a Leonor na maternidade e ela depois veio falar conosco, que estava a pensar criar o grupo dos Pais Coragem. Queria ir para a frente com esse projeto e nós aceitámos logo e começámos a vir aos encontros. Acho que foi isso que nos ajudou imenso a fazer o luto do Mateus.

Meses depois, Inês e Bruno conseguiram finalmente realizar um sonho. Um sonho chamado Valentim.

Ao fim de tanta luta, de tantos obstáculos, conseguimos realizar o nosso sonho e ter aqui o nosso filho.

Já tem quanto tempo?

Tem seis meses.

Seis meses.

E vocês quando pensam na paternidade, vocês dizem que têm quantos filhos?

Quatro.

Quatro filhos.

Às vezes perguntam-me quatro, e eu vivos tenho um. Na hora em que: "Quantos filhos têm?" Eu vivos, um. Mais três. É mesmo assim.

E vocês vão ficar por aqui?

Não.

Não.

Qual é o plano?

O plano agora é

Pelo menos mais um.

Pelo menos dar outro mano aqui ao Valentim.

Joana também tentou ser mãe novamente, mas voltou a perder o bebê. É aqui no grupo dos Pais Coragem, que reúne força para seguir em frente.

Este grupo é amor.

Que diferença é que acha que fez, de facto, neste processo todo, que imagino que não tenha um termo, não tenha um prazo?

Não. Eu hoje estou na parte de baixo da montanha-russa. Amanhã espero estar na parte de cima. E o luto é mesmo isso, é uma montanha-russa constante. O grupo aquilo que me deu foi ferramentas para conseguir encarar a dor. Deu-me uma coisa extremamente importante, que foi a noção de que eu tinha que me permitir sentir.

Joana, Bruno e Inês terminam a conversa conosco. Vão às malas buscar canetas e escrevem o nome dos filhos que perderam em balões brancos. Depois, libertam-nos, deixam-nos voar. Um momento de abraços, de lágrimas, de silêncio. Mafalda e Mateus vão ficar sempre longe, mas perto.

Todos os dias eu digo bom dia aos meus filhos. Todos os dias eu falo com os meus filhos. Os meus filhos estão tatuados no meu corpo. Todos os dias eu beijo os meus filhos.

Eu falo diariamente com o Valentim sobre o mano Mateus.

Diana Rosa é jornalista da Rádio Observador. Foi testemunha deste encontro dos Pais Coragem, que tentam romper o silêncio da dor que sentem e que não é valorizada pela sociedade. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã. Este podcast tem o apoio da gama Audi e-tron