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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Depois das autárquicas, as eleições presidenciais. Do candidato favorito às possíveis surpresas, o que pode ainda mudar até janeiro? Se já está farto de eleições, temos uma má notícia: daqui a uns meses estamos todos a ir às urnas outra vez para escolher quem vai ser o próximo presidente da República. E portanto, despachadas as autárquicas, é tempo de olharmos como é que estão posicionados os vários candidatos. Cinco eleições no espaço de dois anos. Depois das autárquicas, as atenções centram-se agora nas presidenciais de janeiro, que prometem ser as mais disputadas das últimas décadas. Desde logo, as sondagens apontam para a forte possibilidade de uma segunda volta, o que já não acontece desde 1986. Os candidatos posicionaram-se há muito, mas muito pode ainda mudar até ao dia das eleições. Gouveia e Melo continua a ser o grande favorito, mas até que ponto a vitória do almirante é inevitável? E quem conseguirá uma melhor dinâmica até ao dia das eleições para lhe fazer frente? Depois do resultado abaixo do esperado nas autárquicas, quão importantes serão estas eleições para André Ventura e para o Chega? E a esquerda, como pode correr o risco de não conseguir garantir um candidato numa eventual segunda volta? Vou falar com Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de quarta-feira, 15 de outubro. Olá, Miguel, bem-vindo.
Olá, João.
Depois das autárquicas, as atenções viram-se agora, inevitavelmente, para as eleições presidenciais de janeiro. De resto, nos últimos dias já saíram duas sondagens. São muito diferentes, mas têm um dado em comum: apesar de aparentemente ter perdido algum gás nos últimos meses, Gouveia e Melo continua a ser o único que venceria em qualquer cenário, seja qual for o adversário.
É verdade. Henrique Gouveia e Melo continua a ser o grande favorito nestas eleições presidenciais, mas como tu dizias, há duas sondagens diferentes. Numa delas surge a subir ligeiramente, noutra a descer. Portanto, temos de ter sempre muita cautela quando analisamos estes estudos de opinião. Falta algum tempo ainda para as presidenciais. As pessoas ainda não estão focadas nessas eleições. O que podemos sugerir é que à medida que o quadro de candidatos foi estabilizando, Henrique Gouveia e Melo foi perdendo alguma vantagem em relação àquelas sondagens muito iniciais.
Há mais dispersão também do eleitorado.
É verdade, mas podemos dizer isso com alguma segurança. Aquela vantagem olímpica que Henrique Gouveia e Melo tinha há uns meses parece ter diminuído. Ainda assim, e é importante dizê-lo, continua à frente nas intenções de voto e sempre que se faz o exercício da segunda volta, Henrique Gouveia e Melo continua a ganhar nesse cenário contra todos os candidatos.
Outra constante nestas sondagens tem sido Marques Mendes aparecer em segundo lugar. Já após as autárquicas, Marques Mendes anunciou esta terça-feira Rui Moreira como mandatário nacional da campanha às presidenciais. O até agora presidente da Câmara Municipal do Porto é um independente e uma figura de peso no panorama político. De resto, Marques Mendes chamou-lhe mesmo senador da República. Este é um trunfo importante para um candidato que, apesar de facto das sondagens lhe darem consistentemente um segundo lugar, precisa, apesar de tudo, de encurtar distâncias?
Um apoio como o do Rui Moreira é sempre importante e qualquer candidato que esteja ou que entre numa corrida gosta de estar rodeado pelas principais figuras da política e da sociedade civil. Agora, temos que colocar em perspetiva até que ponto o apoio isolado de determinadas figuras tem um peso determinante na hora de votar. A minha opinião é que será um efeito limitado. Serve, sobretudo, para mostrar que há uma tendência de apoio em relação ao candidato A ou candidato B, mas uma eleição é definida por muitos outros fatores, desde logo a forma como os candidatos conseguem expressar o seu ponto de vista. Teremos depois também a campanha em si, teremos os debates, que creio que terão um papel muito importante nesta eleição. Portanto, ainda que seja naturalmente uma notícia positiva para Luís Marques Mendes, e ainda que se reconheça que Rui Moreira, apesar de ter deixado o cargo de presidente da Câmara do Porto, é uma figura respeitadíssima na sociedade portuguesa, não creio que seja determinante.
Falemos também de André Ventura. Depois de um resultado nas autárquicas claramente abaixo das expectativas que o próprio líder do Chega colocou, as presidenciais tornaram-se agora ainda mais importantes ou não para a afirmação política de Ventura e do Chega? Ele precisa de passar a uma segunda volta?
Precisar, não precisa, porque o Chega em seis anos conseguiu um crescimento bastante expressivo. Claro que se André Ventura passar a uma segunda volta, isso torna ainda mais sérias as suas pretensões ao lugar de primeiro-ministro. Portanto, é nesse aspecto que André Ventura parece empenhado a provar que tem condições para passar a uma segunda volta e aí o resultado já será mais ou menos indiferente, até porque, olhando novamente para as sondagens, há um facto indesmentível, seja que sondagem for, que é a enorme taxa de rejeição de André Ventura. Ainda que surja bem posicionado para passar a uma segunda volta, quando os inquiridos são desafiados a escolher entre o candidato A, e no caso o favorito é mesmo Henrique Gouveia e Melo ou André Ventura, André Ventura acaba por ser muito penalizado. E isso acontece, se olharmos, por exemplo, para a sondagem publicada pela CNN. Nesse caso, André Ventura perde mesmo contra todos os seus oponentes num eventual cenário de segunda volta. Portanto, a taxa de rejeição do líder do Chega é de facto muito elevada e isso é um handicap para André Ventura. Mas como dizia, não me parece que seja esse o grande objetivo do André Ventura. Não é vencer as eleições, é provar que, de facto, enquanto figura política nacional, tem uma dimensão que faz dele um candidato natural a primeiro-ministro.
Já regressamos à conversa com Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador. Na segunda parte vamos falar de como se posiciona neste momento a esquerda para estas presidenciais e fazer também uma comparação com as eleições históricas de há 40 anos. Estamos de regresso à conversa com Miguel Santos Carrapatoso. À esquerda, ou neste caso ao centro-esquerda, António José Seguro continua a ser o candidato mais bem cotado de acordo com as sondagens, mas continua também a não ter o apoio formal do PS, o partido do qual foi secretário-geral. Como é que o Partido Socialista vai desatar este nó das presidenciais e por que tem demorado tanto tempo a declarar o apoio a um candidato?
José Luís Carneiro tinha um problema para resolver, porque o dossiê das presidenciais foi gerido por Pedro Nuno Santos inicialmente, depois o Partido Socialista entrou num psicodrama sobre quem apoiar e houve muita gente do Partido Socialista que se foi colocando de fora desta corrida eleitoral e sobrou António José Seguro. José Luís Carneiro, quando apareceu no cargo, disse que só tomaria uma decisão ou só levaria a decisão aos órgãos do partido a partir do momento em que se encerrasse o ciclo das autárquicas, que se encerrou num domingo, 12 de outubro, e portanto agora o processo vai acelerar. Em breve o Partido Socialista vai anunciar o apoio a António José Seguro, porque também não há mais alternativas. Não o faz, como sabemos pelas várias intervenções que foram sendo feitas por muitas figuras do Partido Socialista, de forma unânime. Parte do Partido Socialista está algo desanimada com a hipótese de ter de apoiar António José Seguro, mas de facto muita gente foi apontada à corrida, e estou a pensar em António Vitorino, em Mário Centeno, Augusto Santos Silva, que chegou a ameaçar ser candidato, e essas candidaturas acabaram por não acontecer. Portanto, sobra António José Seguro, que tem uma particularidade, e há pouco falávamos das sondagens, por exemplo, olhando para a sondagem publicada no Correio da Manhã, só 29% dos inquiridos que se dizem eleitores do PS dizem votar em António José Seguro. Ou seja, parte de uma base muito baixa.
Dentro dos apoiantes do próprio partido.
Dentro dos apoiantes do próprio partido. Um problema que também se coloca a Luís Marques Mendes, ainda que numa dimensão menos relevante. Só 45% dos inquiridos que se dizem eleitores do PSD é que vão votar em Luís Marques Mendes. Há um grande movimento, quer de eleitores do PS, quer de eleitores do PSD, em torno de Gouveia e Melo, o que lhe dá uma vantagem, porque é o centro, como sabemos, que se ganham as eleições. E portanto, isto são dois problemas para os dois candidatos que terão o carimbo partidário. André Ventura, em contrapartida, tem um eleitorado mais fiel. 73% dos eleitores do Chega dizem que vão votar em André Ventura. Ainda assim, 16%, olhando para a mesma sondagem do Correio da Manhã, está inclinado a votar em Gouveia e Melo. Como falámos no início, isto dá algum conforto ao almirante e dá-lhe uma vantagem teórica em relação aos seus adversários.
Mas não é estranho que a esquerda não consiga ter um candidato que consiga, com quase toda a certeza, passar a uma segunda volta?
Estranho não é necessariamente, porque é histórico. A esquerda tem tido sempre muitas dificuldades em unir-se em torno de um único candidato. A esquerda está também a atravessar um processo de reconstrução. António José Seguro não é percepcionado como sendo um construtor de pontes à esquerda. Se quisermos simplificar, foi sempre um homem da ala mais centrista do Partido Socialista. As reações do Bloco de Esquerda, do PCP e do próprio Livre foram de algum desânimo em relação à possibilidade de o PS vir a apoiar António José Seguro. Muito se falou sobre a ideia ou a hipótese de se criar um candidato único. António Sampaio da Nova chegou a ser apontado como o grande favorito para essa aventura. Já era uma solução B ou C. O próprio antigo reitor acabou por se excluir da corrida e, portanto, os quatro partidos à esquerda não conseguiram entender-se em relação a um candidato e vão partir para estas eleições na iminência de terem de, à segunda volta, escolher entre um militar e um candidato da direita radical, um militar ou um candidato do PSD, uma vez que António José Seguro, em todas as sondagens, é mesmo o terceiro ou o quarto favorito a passar à segunda volta.
Tu és o autor do podcast Plus, do Observador, que está neste momento no ar, a eleição mais louca de sempre, conta toda a história das eleições presidenciais de 1986, as únicas que até hoje foram a uma segunda volta, disputada na altura entre Mário Soares e Freitas do Amaral. Precisamente 40 anos depois, estamos novamente na iminência de termos aqui uma segunda volta. Eu sei que são tempos e contextos políticos muito diferentes, mas haverá ou não também aqui pontos de contacto entre estas duas eleições?
Há 40 anos, nessas eleições em concreto e no país, existia uma grande fragmentação à esquerda. Hoje existe, mas a esquerda, ao contrário do que acontecia em 86, é hoje minoritária no país, portanto, é uma fragmentação, mas uma fragmentação de partidos em dificuldades, coisa que não existia em 86. À direita, houve um candidato único, Diogo Freitas do Amaral. Desta vez vamos ter vários e ainda assim, como conversávamos há instantes, há a possibilidade de dois candidatos Da direita ou do centro-direita passarem à segunda volta. Isso mostra que existe, neste momento, uma mudança significativa do contexto sociopolítico português. E isso coloca ou traz uma grande imprevisibilidade nestas eleições. Portanto, o grande ponto de contacto, aquele que podemos assumir como confortável à luz de todos os critérios, é que são, como foram as eleições de 86, umas presidenciais muito imprevisíveis. Não é fácil, até pela disparidade de resultados que as sondagens nos vão mostrando, antecipar quem é que passará à segunda volta e, passando, quem é que vai vencer essas eleições. Sabemos que há um favorito, um favorito que tem perdido alguma força.
Sendo que em 86 o favorito inicialmente não venceu.
É verdade, o que é uma lição importante a reter. Ainda assim, as coisas neste momento parecem mais equilibradas do que pareciam em 86. Mário Soares, o grande vencedor dessas eleições, em dezembro, sensivelmente ou um pouquinho antes, tinha sondagens de 8%. Não se aplica neste caso, mas há uma grande imprevisibilidade nestas eleições, e tudo pode acontecer. De facto, se pensarmos que haverá uma natural tendência de apoiar o mal menor para alguns eleitores, esse mal menor pode ser Henrique Gouveia e Melo, no caso de estar a disputar essas eleições com André Ventura, essa segunda volta. No caso de haver um candidato com chancela partidária, PS e PSD, que são e continuam a ser marcas políticas muito fortes, podem preferir votar num candidato mais do sistema do que num candidato antissistema. Nesse aspecto, é uma eleição, ou serão umas eleições que vão pôr o sistema a medir forças com o antissistema.
Obrigado, Miguel.
Obrigado, João.
Miguel Santos Carrapatoso é editor adjunto de Política do Observador. A terminar, três coisas a ter em conta esta quarta-feira. Passam esta quarta-feira oito anos dos incêndios de 15 de outubro de 2017, que devastaram a região Centro do país e fizeram 50 mortos. Estão marcadas para hoje várias cerimónias de homenagem às vítimas nos concelhos que foram mais atingidos. Arranca também hoje mais uma edição da Feira do Livro de Frankfurt. É considerado o maior encontro mundial do setor. Portugal vai estar representado por 60 marcas editoriais. E a terminar, uma competição de olhos no espaço, que vai decorrer em Constância, no distrito de Santarém. 600 alunos de 28 universidades de 16 países diferentes vão participar numa competição de lançamento de foguetes para equipas universitárias. É organizada pela Agência Espacial Portuguesa. Esta foi a história do dia. No início deste episódio, ouvimos um som da TVI. A sonoplastia é de Mariana Sousa Aguiar. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.