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Esta é a história do dia da Rádio Observador: ensaio sobre a retirada de Saramago.

E se considera um otimista?

Não, eu sou francamente pessimista. Eu sou a mais pessimista das criaturas que vivem sobre a Terra. Sendo assim tão pessimista como se descrevia nesta entrevista à televisão brasileira, anos antes sequer de ter ganho o Prêmio Nobel, sendo assim tão pessimista, dizia eu, talvez José Saramago não se surpreendesse com a notícia de que pode vir a deixar de ser leitura obrigatória nas escolas portuguesas. Estamos a falar de obras como "Memorial do Convento" e "O Ano da Morte de Ricardo Reis", até aqui, leitura obrigatória no 12º ano. Mas o Ministério da Educação fez uma proposta de revisão das aprendizagens essenciais e a ideia é que as escolas passem a ter mais flexibilidade na escolha da literatura. Hoje vamos perceber o que está em causa nesta mudança, por que ela pode fazer sentido, mas também por que pode haver o risco de estarmos a caminhar numa estrada sem retorno, com consequências graves para a formação das novas gerações. Eu vou falar com Carlos Reis, professor catedrático emérito da Universidade de Coimbra, especialista em literatura portuguesa e que foi comissário para as comemorações do centenário de José Saramago. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de terça-feira, 31 de março. Olá, professor, bem-vindo.

Muito obrigado.

Vamos falar aqui de um tema que lhe é caro, porque ainda por cima acompanhou Saramago, digamos assim, quando foram as celebrações do centenário.

É verdade que sim.

Como é que olhou para estas notícias que dão conta de que Saramago pode deixar de ser leitura obrigatória? Com preocupação ou com naturalidade?

Olhe, com as duas coisas ao mesmo tempo, se isso é possível. Com naturalidade, porque os programas e as chamadas aprendizagens essenciais não são imutáveis, como é evidente. Com alguma preocupação, porque eu acho que se mudam estas coisas com demasiada frequência. Isto, portanto, está ainda aquém do, digamos assim, caso Saramago. A minha preocupação com o caso Saramago não é propriamente uma preocupação dramática, porque, que conste, Saramago é um grande escritor aquém e além dos programas e das aprendizagens essenciais. Mas eu acho que nos cabe a todos a responsabilidade de reconhecer aqueles autores que numas aprendizagens essenciais representam textos do cânone essencial. Eu explico. Cânone essencial por quê? Porque é aquilo que nós reconhecemos como mais identitário, como relativamente ligado à nossa memória, como aquilo que tem um valor formativo literariamente, mas também em termos de pensamento. E José Saramago, goste-se ou não dele, é esse escritor. Não é só, como se tem dito, porque ganhou o Prêmio Nobel. Ele ganhou o Prêmio Nobel porque é um grande escritor, portanto, independentemente do Prêmio Nobel, ele deveria ser um escritor que não se deveria evitar no sistema de ensino. Portanto, esta é a minha posição geral, se quiser, tem depois outras coisas que podemos abordar sobre isto.

Mas o que diz é que não deve ser afastado, digamos assim, do ensino. Mas aquilo que está aqui em causa, não sendo um afastamento, é passar a ser um autor opcional. Consegue perceber o racional desta decisão? Já vamos olhar numa perspectiva mais crítica para isto, mas do ponto de vista racional, consegue olhar e dizer: "Sim, eu percebo que esta decisão tenha sido tomada por esta e por esta razão."

Bom, de novo, a minha resposta é sim e não. Eu percebo que sim, pelo mesmo princípio que já enunciei. Mesmo um autor que nós consideramos do cânone em geral ou de um cânone escolar, não é imutável. Outra coisa é nós pensarmos se faz sentido lançar sobre as escolas a responsabilidade deste tipo de escolha. Faz sentido lançar sobre a escola muitos tipos de escolha, como é evidente. Mas eu penso que há uma responsabilidade coletiva. Não é deste governo, não é do anterior, não é do que vem a seguir. Há uma responsabilidade do Estado em saber marcar de uma forma discreta que há temas, valores, escritores, obras, que são necessários para a nossa formação. E vou dar agora um exemplo que pode parecer um pouco bizarro. Nós dizemos assim: "No fundo, pode-se escolher entre Saramago e Mário de Carvalho." E Mário de Carvalho, que conste e que fique já bem claro, considero um grande romancista. Não é isso que está em causa. O que está em causa até é a crueldade de ter que se escolher entre os dois. Mas imagine-se que se dizia assim: "Bom, no século XVI, nós podemos escolher ou Camões, ou António Ferreira, ou Sá de Miranda." Já se viu o absurdo disto, sem prejuízo de se dizer que o Sá de Miranda e o António Ferreira também são escritores importantes, mas não têm a dimensão identitária que o Camões tem. Eu não estou a dizer com isto que o Saramago é como Camões. Vamos ser claros também quanto a isto. Estou a dizer com isto que o Saramago tem no nosso século XX e ainda XXI, mas sobretudo no século XX, um peso literário que não pode correr o risco de ser obliterado por escolhas que podem até ser bem-intencionadas, mas que esquecem muito daquilo que eu estou a dizer.

Ou seja, o que me diz é que não está tão impressionado com a história do Prêmio Nobel, porque isso é uma consequência daquilo que foi a obra do escritor, mas porque Saramago Pode ser colocado e deve ser colocado ao lado de outros escritores ditos clássicos, porque precisamente faz parte desta identidade portuguesa já.

Exatamente. Vou lhe dizer quatro nomes já agora, e penso que são quatro nomes relativamente incontestáveis: Camões, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, José Saramago. Alguns torcerão o nariz ao José Saramago. Eu julgo que isso às vezes acontece por razões até ideológicas, que eu compreendo, mas que não são literárias. E em outros casos é porque o Saramago está muito perto de nós e nós tendemos, muitas vezes, a valorizar mais o que está no passado, que é importante, do que aquilo que está perto de nós. E neste momento, eu acho que nós não temos ainda condições para afastar o Saramago desta microlista que eu acabei de fazer. Sei lá daqui a 100 anos como é que será, daqui a 200 anos como é que será. Se calhar já não se lê literatura, quem vai lá saber, não é? Mas neste momento acho que estas coisas devem ser vistas com esta cautela, e é disso que eu estou a falar.

E é interessante que fale disso, porque efetivamente, olhando para as escolhas que estão aqui a ser propostas, dá um bocadinho essa ideia que é: vamos voltar aos clássicos, e por clássicos entendemos aqueles que fazem parte desta identidade, mas que já estão muito mais lá atrás no tempo. Por exemplo, Camilo Castelo Branco passa a ser obrigatório ao mesmo tempo que Saramago passa a ser opcional. Acha que tem a ver com isto, com a distância do tempo que faz com que Saramago ainda esteja demasiado próximo de nós para ser incluído no panteão, digamos assim?

Pode ser que sim, mas também pode ser que seja outra razão, sem embargo de eu dizer que Camilo Castelo Branco é, de facto, um escritor admirável. Não é isso também que está em causa. É que este ano e o ano passado celebrou-se o centenário, uma efeméride do Camilo Castelo Branco, a do Saramago já foi há quase quatro anos. Eu não sei se não haverá nisto um efeito, e que se houver, até pode ser um efeito virtuoso, dessa celebração dos 200 anos do nascimento do Camilo Castelo Branco. Vá-se lá saber. Sabe, o que eu acho é que, por vezes, as escolhas são necessárias, porque a lista é muito grande. Eu digo um pouco melhor do que isto nos seguintes termos: muitas vezes nós escolhemos e temos que preencher os programas com autores, com textos, etc. Que eu tenho algumas dúvidas sobre se realmente para estudantes que não são da especialidade. Não estou a falar dos estudantes de Humanidades, estou a falar do Português que não é da especialidade dos programas de Humanidades.

Certo. Um aluno de Ciências, por exemplo, que tenha Português.

Sim, por exemplo. Fará algum sentido estar a valorizar muito textos medievais? Com todo o apreço que eu tenho por textos medievais, mas eu sou da área.

Sim.

Valerá a pena incrementar muito o estudo de alguns clássicos, até do século XVII? Retiro daqui o Padre António Vieira, porque esse é óbvio, evidentemente. Autores, alguns até do século XIX, que preenchem tempo, preenchem horas de leitura. E para esses alunos, repito, não estou a dizer para os alunos de Humanidades, para esses alunos que é preciso cativar para a leitura, fará muito sentido estar a fazer esses alunos lerem livros de linhagens, textos de livros de linhagens, que são textos que inclusivamente nós podemos questionar se são textos literários ou não. Está a ver o que eu quero dizer? Quer dizer, eu sempre fui mais partidário de uma cabeça bem feita do que de uma cabeça bem cheia. E em matéria de leitura, acho que isto se aplica muito bem.

Falou aí duas questões que eu gostava de explorar. Uma delas tem a ver com a questão ideológica. Acha que esta escolha pode explicar-se também por isso?

Não sei. Quem faz este tipo de proposta fará o favor de responder. Eu apenas posso fazer conjecturas, que valem o que valem, evidentemente. E esta conjectura que eu vou fazer não pretende, de modo algum, visar nenhum dos meus colegas, que aliás nem sei quem são, envolvidos nesta proposta, que devem ser seguramente pessoas honestas e competentes. Mas eu não sei se não haverá também aqui o risco, não estou a dizer que seja uma intenção, o risco de se encarar isto como uma tentativa. Bem, agora afasta-se um bocadinho o Saramago. Bem, e daqui a 10 anos? Afasta-se mais um bocadinho. E depois afasta-se tudo. Está a ver o que eu quero dizer?

Apagar a memória.

Eu espero que isto não faça parte de um processo gradual. Porque se fizer parte de um processo gradual, há, entre outras coisas, o seguinte risco, que já é um risco efetivo hoje em dia em muitos ramos do saber, e que é pôr-se em causa o pensamento crítico. O José Saramago, goste-se ou não dele, foi um escritor que exerceu de uma forma constante este pensamento crítico. E sem pensamento crítico, nós transformamo-nos todos em pessoas pré-formatadas e sem capacidade de reagir às coisas da vida, aos seus valores, às suas opções filosóficas, etc. E, portanto, seja o Saramago, seja outro, mas estamos a falar do Saramago, mantenha-se no horizonte dos estudantes, que talvez só agora tenham a possibilidade de lidar com isto, mantenha-se um escritor em quem nós valorizamos esse pensamento crítico.

Professor, falou noutra questão que também me parece essencial e que é sempre considerada quando falamos de Saramago, às vezes tem a ver com mitos que se criam, outras vezes com realidades concretas. Mas quando falava dos vários autores que às vezes se impõem aos alunos, àqueles que não são da especialidade, isso pode não ter um efeito benéfico para a literatura. Não aproxima os alunos da literatura, faz o contrário, afasta-os, porque são autores mais densos ou mais difíceis. No caso do Saramago, há sempre esta ideia de que é um autor difícil, é um autor exigente, que foge um bocadinho às normas a que estamos habituados e que talvez isso tenha também contribuído para esta decisão, ou seja, de retirar da obrigatoriedade um autor que é difícil. Acha que isso faz algum sentido?

Essa questão é pertinente e obriga a duas respostas. Uma O sistema de ensino existe para facilitar a vida das pessoas. O sistema de ensino existe para tornar as pessoas, desde a idade dos 16, 17, 18 anos, que é aquela que estamos a falar, pessoas exigentes e competentes. E portanto, acabemos com essa história de que é difícil. Se é difícil, a pessoa senta-se na cadeira, lê, pensa, é ajudada e enfrenta a dificuldade. E outra paralela é esta: é fácil tudo aquilo que os alunos dessa faixa etária aprendem em Física, em Matemática, em Biologia, em Química? Também vamos por essa via de aliviar a dificuldade aos meninos nessas matérias? Eu penso que isso é um erro. É um erro que, aliás, se anda a cometer no sistema de ensino há muito tempo e que está associado a um outro, e deste não quero deixar de falar. É que os alunos precisam de professores e de bons professores, seja em que disciplina for, mas eu conheço o caso do Português, em que a leitura consome muitas horas, muito esforço, muita paciência. Têm os professores disponibilidade, tempo, para se dedicarem ao ensino como devem, com a carga administrativa brutal que têm à sua conta? Valia a pena um dia, Pedro Benevides, é um desafio, fazer-se uma reportagem sobre isto. O que é o dia a dia de um professor de qualquer disciplina? Em grande parte, é um dia a dia de lidar com planos, formulários, estatísticas, questionários, reuniões, etc.

Burocracias.

Exatamente, isso é que chamamos burocracias e é que eu chamo a tirania da administração. O tempo é de 24 horas por dia para todos nós. E se o professor é forçado a ocupar o seu tempo com isto, como é que ele fica tempo para motivar e ajudar os seus alunos a lerem escritores difíceis como Saramago?

É uma excelente questão.

Boa pergunta, não é?

É uma ótima questão que encerra bem esta nossa conversa, professor.

Muito bem.

Tive um gosto enorme em ouvi-lo refletir sobre esta questão de Saramago. Vamos ver o que vai acontecer nos próximos tempos.

Eu também. Muito obrigado.

Muito obrigado. Hoje tivemos respostas e também muitas dúvidas que ficaram no ar nesta conversa com o professor Carlos Reis, da Universidade de Coimbra, que foi comissário para as comemorações do centenário de José Saramago. Para já, ainda nada está decidido. A proposta de revisão das aprendizagens essenciais, que inclui a possibilidade de José Saramago passar a ser leitura opcional e não obrigatória, está em discussão pública até ao final do mês de abril. Só depois se saberá o que acontece a seguir, mas este é um daqueles temas quentes que promete dividir o mundo da cultura e da educação. Esta foi a História do Dia, a sonoplastia é do Pedro Oliveira, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.