Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Este podcast tem o apoio da gama Audi e-tron.
Esta é a história do dia da Rádio Observador. Liz Truss ainda manda no Reino Unido?
"Cutting taxes is the right thing to do, morally and economically. Morally, because the State doesn't spend its own money. It spends the people's money. Economically, because if people keep more of their own money, they're inspired to do more of what they do best."
A 5 de outubro, um mês depois de tomar posse como primeira-ministra, Liz Truss participava num comício do Partido Conservador em Birmingham. Prometia uma reviravolta económica assente no corte de impostos. Menos de duas semanas depois, numa entrevista para vários meios de comunicação britânicos, pedia desculpa pela ousadia e prometia voltar atrás.
"Now, I recognize we have made mistakes. I'm sorry for those mistakes, but I fixed the mistakes. I've appointed a new chancellor. We have restored economic stability and fiscal discipline."
O que é que mudou no Reino Unido? Que plano económico apresentou Liz Truss que provocou uma tal reação dos mercados e que obrigou mesmo a primeira-ministra a dar meia-volta e a substituir o ministro das Finanças, o quarto em quatro meses em Inglaterra. Eu sou o Ricardo Conceição e vou conversar com o jornalista da seção de Economia do Observador, Edgar Caetano. Esta é a história do dia. Bem-vindo, Edgar.
Obrigado pelo convite.
Vamos recuar no tempo. Não muito tempo. Liz Truss chega a primeira-ministra como?
Chega a primeira-ministra vencendo Rishi Sunak, que era o ministro das Finanças de Boris Johnson. Boris Johnson demitiu-se depois daquela sucessão de escândalos, nomeadamente relacionados com as festas em Downing Street enquanto as pessoas estavam confinadas em casa devido à pandemia. Liz Truss conseguiu ir à final com Rishi Sunak, que era o ministro das Finanças de Boris Johnson, e conseguiu a nomeação para suceder a Boris Johnson.
E logo nos primeiros tempos fez questão de mostrar ao que vinha, nomeadamente no plano económico.
"I have a plan to make Britain a high growth economy over the next 10 years through bold supply side reform. We will cut taxes, helping businesses invest in their future."
Liz Truss quer cortar nos impostos, e muito. No fundo, explica ela, para deixar às pessoas e empresas mais dinheiro no bolso. É isto, Edgar, que o novo governo britânico vai chamando de mini budget, um miniorçamento, aqui numa tradução literal.
No fundo, era baixar impostos, mas ao mesmo tempo lançou um programa de aumento de despesa pública, nomeadamente relacionada com um pacote energético. No fundo, queria ajudar as pessoas a suportar os preços da energia. Ao mesmo tempo, também se cortava despesa, nomeadamente despesa nas condições laborais dos enfermeiros que estiveram na linha da frente do combate à pandemia. E portanto, isso era uma mistura muito complicada do ponto de vista da avaliação da política económica de um país ou de um governo, que corta-se impostos, promete-se despesa quase potencialmente infinita com a questão energética e ao mesmo tempo está-se a cortar despesa onde não é popular politicamente.
Ou seja, é um plano no mínimo ousado. Portanto, corta no encaixe financeiro, nos impostos, nas taxas, e aumenta na despesa, mas já percebemos que isto deu muito barulho, deu muito alarido. De onde é que vem todo este alarido, Edgar?
Vem do facto de os mercados financeiros avaliarem este programa como altamente desequilibrado.
Os mercados. Portanto, foram os mercados que não gostaram deste programa?
Sim, os mercados financeiros penalizaram os ativos britânicos, todos, desde a libra esterlina até à dívida pública britânica, e essa é que foi a origem do problema, porque tens a dívida pública britânica de repente a ser transacionada pelos investidores para preços muito mais baixos, o que significa juros mais altos, risco mais alto.
Onde é que eu já ouvi isso?
Já ouviste isso porque és português e já eras adulto em 2011.
Já era crescido.
No fundo, os mercados são as poupanças das pessoas. As poupanças de alguém que, em vez de as consumir, poupou-as e tem que as investir. E quando os chamados mercados desconfiam de um país, é porque acham que ele tem uma menor capacidade, pela política económica que está a seguir, de vir a devolver o seu dinheiro com juros.
É curioso que digas isso, porque ia te perguntar se esses mercados têm um rosto.
Têm vários rostos. Os mercados têm uma coisa muito boa, que é muito quantificável. Os mercados são máquinas de descoberta de preço instantânea. Não há nada mais eficaz do que os mercados financeiros. É praticamente como se todos os dias e a todos os minutos faz uma eleição, uma sondagem. Isso significa que são uma conjugação de uma série de perceções. Se têm um rosto, neste caso, têm vários rostos, desde investidores mais especulativos a investidores mais conservadores, sem ligação aqui ao Partido Conservador, não estou a falar sobre isso, estou a falar em relação à versão ao risco.
Ao perfil do investidor.
Ao perfil do risco, exatamente. Aqui tiveram um rosto muito particular, de forma que foram os fundos de pensões Fundos de pensões são conservadores. E o problema aqui é quando os fundos de pensões britânicos, nós já sabemos que no Reino Unido há um sistema de pensões de reforma muito baseado no setor privado. E portanto, as pessoas, de facto, descontam para uma caixinha, não é como acontece em Portugal, não há nenhuma caixinha. Na verdade, há uma, mas é pequena.
Uma espécie de caixa de previdência.
Ali, sim, desconta-se para a sua pensão. E portanto, o que acontece é que depois os fundos de pensões têm que aplicar aquele dinheiro em algum lado.
Têm que investir.
Têm que investir. E têm que investir em coisas conservadoras, têm que investir em ativos sem risco ou com muito pouco risco, e depois podem investir em coisas com um pouco mais de risco para ter um pouquinho mais de rentabilidade, como ações, etc. Ou seja, de repente, a parte menos arriscada do portfólio de um banco de investimento ou um fundo de pensões, estava investido numa coisa que afinal não era assim sem risco e que tinha tido uma enorme queda de preços em poucos dias. E portanto, isto é que gera o desequilíbrio. Quando um investimento que está contabilizado nas contas de um fundo de pensões como algo que é sem risco, de repente tem, afinal, muito risco.
E no meio disso tudo, aparece uma outra personagem, daquelas personagens muito fortes, isto já quase que parece uma trama shakespeariana, aparece o Banco de Inglaterra, Edgar Caetano.
O Banco de Inglaterra aparece como comprador de último recurso. O que acontece? Tu tens muitos investidores a despejarem títulos de dívida para o mercado. Isso é como se no mercado dos usados, de repente, houvesse alguém a vender uma série de carros ao barato. Isso fazia com que não houvesse procura para comprar esses carros.
O preço baixa.
O preço baixa. O Banco de Inglaterra aparece, como qualquer banco central aparece numa situação destas, como a instituição que vai comprar até, neste caso, 65 mil milhões de libras esterlinas em obrigações, no fundo, dizendo assim: não apostem contra a dívida britânica, aqueles investidores mais propensos a apostar na queda dos ativos, não apostem porque podem ser apanhados de contrapé, porque o Banco de Inglaterra tem bolsos fundos, como qualquer banco central poderoso. E portanto, especular contra a dívida britânica era arriscado, quando sabemos que está lá o banco central. Só isso já induz uma disciplinazinha nos mercados.
E o banco impôs alguma condição para fazer isso?
Mais do que impor condição, impôs um tempo, que é: sabemos que os bancos centrais, neste momento, estão a fazer o percurso inverso ao de comprar dívida. Estão a querer parar com essa compra de dívida e vender a que compraram e deixar, no fundo, estreitar os seus balanços. O Banco de Inglaterra não impôs condição, disse é que isto era temporário e que não iam estar aqui para sempre a comprar. E portanto, atenuou a pressão durante aqueles dias, mas disse: "Atenção, que não vamos estar aqui para sempre. Vocês têm que, de alguma forma, conquistar autonomia nos mercados financeiros".
Ou seja, disse ao governo inglês: organizem lá as coisas porque isto não vai durar para sempre, é isso?
Certo. E foi daí que se gerou uma disputa pública entre o líder do banco central inglês, Andrew Bailey, e o então ministro das Finanças, Kwasi Kwarteng, que foi o que foi demitido na sexta-feira passada. E portanto, basicamente, o banco central dizia: atenção, orientem-se, nós vamos terminar isto na sexta-feira, foi a última sexta-feira passada, vamos terminar com esta intervenção e não vamos prolongá-la ou não vamos prolongá-la como ela está neste momento.
Sexta-feira já não compram dívida.
Exatamente, parecido com isso, simplificando. E do lado do governo, o ministro das Finanças dizia: não, instabilidade nos mercados, isso é uma coisa para me perguntar ao banco central. E sempre que tu vires um combate de boxe entre um banco central e um governante, eu sei que tu não és muito de apostas, mas aposta sempre no banco central.
Já vamos voltar à conversa com o jornalista Edgar Caetano. Vamos saber o que aconteceu ao ministro das Finanças e vamos também tentar perceber porque é que a situação em Londres também é falada por cá, no Parlamento português.
Sim, a gama Audi e-tron é 100% elétrica, mas é mais do que isso. Leva-nos mais longe do que imaginamos. Encontra no silêncio o ritmo perfeito. Faz-nos olhar duas vezes, se formos suficientemente rápidos. Por isso sim, a gama Audi e-tron é 100% elétrica e entre outras coisas fantásticas, apoie esta história do dia. Audi, o futuro é uma atitude.
A Iniciativa Liberal, pelo menos nos próximos dias, devia ter um pingo de vergonha de voltar a falar sobre Segurança Social e pensionistas. Depois do primeiro governo na Europa em muitos anos, que assumiu e aplicou a vossa doutrina, ter obrigado ontem o Banco Central de Inglaterra a ir resgatar com 65 milhões de euros fundos de pensões privadas, que é o vosso sonho, graças a uma descida completamente irresponsável dos impostos, que é o vosso programa, deviam estar calados por algum tempo, ao menos sobre economia. Muito obrigado.
António Costa irritou-se com a Iniciativa Liberal no debate com os deputados a 29 de setembro e até mostrou a capa do Financial Times da bancada do governo. Edgar, o jornal conservador britânico funciona aqui como uma espécie de vacina de António Costa contra os liberais, é isso?
O que o primeiro-ministro quis veicular é que havia no Reino Unido um novo governo que tinha apresentado um plano de corte de impostos como forma de fazer crescer a economia. Isso foi muito penalizado nos mercados e acabou por ter que recuar, como agora se viu. Claro que o que o primeiro-ministro português não referiu é que não era só uma questão de baixar impostos, também era aumentar a despesa. Isso acabou por ser aquilo que os mercados não apreciaram, digamos assim. Por outro lado, António Costa também usou o tema para criticar o sistema privado de pensões, que falamos há pouco. Também não é novidade, porque já muitas vezes António Costa se referiu às bolsas de valores como um cassino e depois, ao mesmo tempo, é paradoxal que os seus governos lancem grandes programas de estímulo ao financiamento no mercado de capitais e coloca a CMVM a fazer incentivos para aumentar o número de empresas na bolsa, mas isso já são outras discussões.
Regressemos então a Londres.
I met the former Chancellor earlier today. I was incredibly sorry to lose him. He is a great friend.
Depois de tudo isto, depois dessa posição de força tomada pelo Banco de Inglaterra, o ministro das Finanças estava em Washington, é chamado de urgência a Londres para ser demitido, Edgar, é isso?
Aparentemente, foi isso que aconteceu. Ele tinha dito que não ia a lado nenhum, mas foi. E acabou por ser o cordeiro sacrificado para que se tente começar a fazer um caminho da recuperação de credibilidade. Era muito óbvio que, pelo menos o ministro das Finanças, por ter sido o rosto disto, e Liz Truss, apesar de ser amiga dele, nessa altura, colocou todo este problema em cima do ministro das Finanças da altura, dizendo que foi uma ideia dele. Isto tem muita gestão política que também está a ser feita, e nisso eu não sou especialista. Mas o que eu queria dizer é que, basicamente, foi na sexta-feira. Sabemos que o Banco de Inglaterra estava a demonstrar que não ia continuar a apoiar a dívida britânica nos mercados como vinha fazendo e esse foi um primeiro passo para tentar fazer uma inversão de marcha. E é aí que entra em cena Jeremy Hunt.
Firstly, we will reverse almost all the tax measures announced in the growth plan three weeks ago that have not started parliamentary legislation.
E este é o novo ministro das Finanças, Jeremy Hunt. E o que está aqui a dizer é que pegou no tal mini budget, no miniorçamento, guardou bem guardadinho numa gaveta bem trancada. Ou seja, Edgar, daquele plano inicial que motivou todo este estresse nos mercados, eu não sei se há uma expressão em inglês para isto, mas todo esse plano ficou em águas de bacalhau.
Codfish waters?
Boa tentativa.
Não, não existe. Basicamente, ele não colocou o programa numa gaveta, colocou mesmo no lixo, nem é na reciclagem, pôs no lixo. Basicamente, ele disse taxativamente que praticamente todo o ímpeto que estava por trás daquele programa, tanto do lado dos impostos como do lado da despesa, isso ia ser-
Portanto, já não há corte de impostos
Neste momento, só para um terço das intenções de corte de impostos é que se mantém. Basicamente, é dizer que aquele plano já não existe.
We will no longer be proceeding with the cuts to dividend tax rates, the reversal of off-payroll working reforms introduced in 2017 and 2021.
A questão é que Jeremy Hunt não é uma pessoa com grande experiência nos mercados financeiros. Não é um nome que inicialmente tenha sido muito tranquilizador, mas para já, pelo menos, parece estar a passar uma mensagem assertiva de que vai conduzir a política orçamental de uma forma mais cautelosa e equilibrada. Estamos a falar de alguém que chegou a ser, no início deste processo de escolha do sucessor de Boris Johnson, uma pessoa falada para o cargo. Não sabemos se o opositor de Liz Truss, Rishi Sunak, esse sim, teve melhores probabilidades de conseguir esse cargo. Não sabemos se ele foi convidado ou não. Se calhar não quis ser convidado, porque possivelmente até acha que pode, à segunda volta, conseguir a nomeação.
And all we know right now is, unless she tells us otherwise, that the Prime Minister is cowering under her desk and asking for it all to go away.
E no Parlamento britânico, a oposição trabalhista pergunta onde está a primeira-ministra. Liz Truss falhou um debate. A oposição até pergunta se a primeira-ministra está debaixo da secretária e a porta-voz da bancada do governo atira que a primeira-ministra está a tratar de assuntos urgentes. E a Câmara dos Comuns enche-se com uma sonora gargalhada.
Mr. Speaker, with apologies to the leader of the opposition and the House, the PM is detained on urgent business. And they will have to make do.
I must hear the answer of why the Prime Minister is not here. Leader of the House.
I'm afraid you will have to make do with me, Mr. Speaker.
I guess under this Tory government, everybody gets to be prime minister for 15 minutes.
Edgar, afinal, quem é que manda agora a Inglaterra? São os mercados? É o Banco de Inglaterra?
Não é a Liz Truss, pelo menos neste momento, certamente, por exclusão de partes. Diria que nesta fase, ela pode ter conseguido acalmar um bocadinho os mercados, que já se recuperaram um bocadinho nestes últimos dois dias, mas estão ainda longe de níveis antes de toda esta polêmica. E isso mostra que normalmente não há duas oportunidades para deixar uma boa primeira impressão, mas ela fará o seu trabalho e fará a sua tentativa de se agarrar e continuar no cargo.
O jornal Daily Star tem um desafio com uma transmissão em direto no YouTube, é uma espécie de corrida. De um lado, está a fotografia da primeira-ministra britânica e do outro, uma alface. É uma alface que tem uma cabeleira, uns olhos, uma boca sorridente, até tem mãos e sapatos. A pergunta é: qual delas acaba primeiro? A alface ou Liz Truss? Queres apostar, Edgar?
As casas de aposta, neste momento, atribuem uma probabilidade de mais de dois terços, no sentido que Liz Truss não chega ao Natal como primeira-ministra.
Não estamos a falar de futebol.
Exatamente. Não sabemos se será assim, mas na verdade, há uma dúvida ainda maior, que é: não podemos esquecer que ela conseguiu ser eleita dentro do Partido Conservador e por muito que tenha sido caótico estas primeiras semanas, ela tem apoios. E a dúvida é: será que se consegue apresentar um candidato que reúna consenso naquela bancada, para no fundo, surgir um novo nome, seja Rishi Sunak, seja Boris Johnson, que aparentemente é um nome muito apreciado por muita gente.
E há uma sondagem que o dá como favorito.
Sim, ele quando se despediu, disse: "I'll be back". Não sabia que poderia ser potencialmente tão rapidamente. Agora, o que não é impossível é que todo este processo acabe com uma nova eleição no Reino Unido, uma eleição geral, no sentido de pôr conservadores contra trabalhistas e cair o governo. Basicamente, isto até pode levar a uma intervenção do Carlos III, que é o recém-coroado rei do Reino Unido.
E sobre o desafio da alface, foi lançado a 14 de outubro, já leva cinco dias. Obrigado, Edgar.
Obrigado, Ricardo.
Edgar Caetano é jornalista da secção de Economia do Observador. Esta foi a história do dia. Ouvimos vários sons registrados pela Agência Reuters e também pelo jornal The Guardian e recolhidos pela Rádio Observador no Parlamento Português. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.
Este podcast tem o apoio da gama Audi e-tron