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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Luís Montenegro quer tirar Passos Coelho do caminho?
Tem Pedro Passos Coelho na sua sombra? Está atrás de si.
Eu já disse aqui e vou repetir, eu tenciono recandidatar-me a presidente do PSD depois das eleições europeias.
Não terá ficado também foi para Pedro Passos Coelho?
Para um segundo mandato, com vista a atingir o objetivo que me trouxe a esta função: disputar eleições legislativas, vencer as eleições legislativas, constituir um governo e reformar, transformar o país. É isso que eu quero fazer.
Em entrevista à TVI CNN, na segunda-feira, Luís Montenegro foi de novo confrontado com a sombra de Pedro Passos Coelho. O nome do ex-primeiro-ministro continua a pairar e poderá ser o mais desejado por uma grande fatia do centro-direita. Nessa mesma entrevista, o líder do PSD disse uma frase que incendiou os passistas quando sugeriu uma carreira acadêmica ao ex-primeiro-ministro. As relações entre Montenegro e Passos Coelho já viram melhores dias? As europeias do próximo ano são uma espécie de espada que pende sobre a cabeça do líder do PSD? São perguntas para a conversa com o editor adjunto de política do Observador, Miguel Santos Carrapatoso. Eu sou Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Miguel.
Olá, Ricardo.
Miguel, o que Montenegro disse na entrevista à TVI CNN que causou assim tanto celeuma, tanto incômodo?
Na verdade, à pergunta sobre o fantasma de Pedro Passos Coelho, o que respondeu Luís Montenegro?
Eu acho que o meio acadêmico português não está a tirar partido do potencial que ele tem também nessa área.
Que há um todo mundo acadêmico à espera do antigo primeiro-ministro e até recordou o outro exemplo.
Muitas vezes também acabamos por desconsiderar aquele que é o capital de conhecimento que pessoas como José Manuel Durão Barroso têm.
Como alguém que está a ser subvalorizado. E vai daí, a jornalista Sara Pinto pergunta automaticamente se Luís Montenegro está a tentar despachar Pedro Passos Coelho pra universidade.
Luís Montenegro está a tentar arranjar-lhe um trabalho na universidade pra ter o caminho livre pra vida política sem Pedro Passos Coelho, é isso?
Não, de maneira nenhuma. O doutor Pedro Passos Coelho fará aquilo que entender, e eu também. É óbvio, é a lei da vida.
E depois Luís Montenegro, que tem aqui uma oportunidade de se referiar, ou seja, de dizer que aquela frase era um mal-entendido, não só reforça, como diz, e acrescenta, aliás, que Pedro Passos Coelho fará o que bem entender, tal como ele próprio. "É a lei da vida", disse Luís Montenegro.
E isso caiu mal entre os passistas?
Caiu muito mal, e não só entre passistas, mas caiu mal porque há gente que olha para aquelas declarações como uma tentativa óbvia de condicionar Pedro Passos Coelho e depois até dizem que roçou um bocadinho a indelicadeza ao tentar reformar Pedro Passos Coelho da política. É importante dizer que as pessoas próximas de Luís Montenegro garantem que não foi de todo essa a intenção. Até recordam que não é a primeira vez que Luís Montenegro fala da importância do contributo acadêmico de Pedro Passos Coelho. Agora, dado o contexto, dada a pergunta especificamente sobre o medo ou não de Luís Montenegro ser ultrapassado por Pedro Passos Coelho, e o líder do PSD responde com o mérito acadêmico e o percurso acadêmico do antigo primeiro-ministro, há muita gente que vê aí uma falta de consideração e até uma indelicadeza para com o antigo primeiro-ministro, que é, no fundo, o pai político de Luís Montenegro.
E o próprio?
O próprio Pedro Passos Coelho, tanto quanto é possível dizer com alguma segurança, vai manter-se em silêncio, mas não terá ficado nada satisfeito com estas declarações de Luís Montenegro.
Já sabemos que no PSD existem vários grupos. Houve manifestação de algum dos outros grupos, rioístas, passistas, enfim, tu conheces melhor todos os grupos.
As tribos.
As tribos.
Houve reações muito diferentes e o nosso texto no Observador reflete isso mesmo. Houve quem preferisse o silêncio, sabendo que a frase tinha gelado o PSD. Houve quem escolhesse deliberadamente condenar Luís Montenegro e há, como eu dizia há instantes, gente próxima de Luís Montenegro, mas não só, por exemplo, antigos ministros do governo de Pedro Passos Coelho ou até Carlos Carreiras, que aconselham alguma calma e algum cuidado neste tipo de recados, mas também ao mesmo tempo procuram tirar algum peso às palavras de Luís Montenegro.
Miguel, deixa-me só voltar aqui um pouco atrás. Há pouco chamaste pai político na relação entre Pedro Passos Coelho e Luís Montenegro?
É no fundo pela mão de Pedro Passos Coelho que Luís Montenegro chega ao seu lugar maior, pelo menos antes de ser líder do PSD, aquilo que tinha sido o lugar de maior exposição no partido, que foi de líder parlamentar durante um tempo muito exigente, como foi o tempo da intervenção da Troika. E quando eu digo que já não é a primeira vez que Luís Montenegro tenta matar o seu pai político, nós temos de nos recordar daquele episódio em torno da despenalização de eutanasia. Pedro Passos Coelho escreveu um artigo de opinião que foi publicado aqui no Observador, onde não escondeu as críticas que tinha e mantém em relação à estratégia do PSD de Montenegro nesse debate, onde desafiou a direita a garantir como promessa eleitoral que ia reverter a lei assim que chegasse ao poder E tivemos depois Luís Montenegro a ser bastante duro e a firmar a sua posição em relação ao tema, cortando com Pedro Passos Coelho. Na altura, os termos que o próprio líder do PSD usou já tinham caído muito mal junto dos chamados passistas. Estes vieram só renovar uma tensão que já é muito evidente entre Pedro Passos Coelho, Luís Montenegro e depois toda a gente que os rodeia.
Já voltamos à conversa com Miguel Santos Carrapatoso e este não é um episódio sobre o complexo de Édipo, é sim sobre as relações entre Montenegro e Passos Coelho. Será que já viveram melhores dias? Regressamos à conversa com Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador. Miguel, e Luís Montenegro joga o futuro, ou quiçá até o presente, nas próximas eleições europeias?
É evidente que sim. E é isso também que justifica o facto de Luís Montenegro ter aproveitado a entrevista à CNN e à TVI para anunciar a recandidatura à liderança do partido.
Eu vou recandidatar-me porque faço uma avaliação positiva daquilo que temos vindo a fazer. Estou muito tranquilo. Acho que nós temos muito tempo para crescer nas sondagens.
A pouco mais de oito meses dessas eleições que deverão acontecer algures em julho de 2024. Ora, é verdade que Luís Montenegro, quando chega à liderança do partido, diz que quer ser candidato a primeiro-ministro, portanto, pressupunha que iria ser recandidato no pós-europeias e também não é menos verdade que ao dizer que vai ser recandidato, está a condicionar todos aqueles que contam com o mau resultado nessas mesmas eleições europeias para, no fundo, aparecerem e irem a jogo. Há muita gente que conta com um sair de cena suave de Luís Montenegro. Luís Montenegro veio dizer que não deitará a toalha ao chão assim tão facilmente. E se quiseres podemos falar dos cenários que estão em cima da mesa ou na cabeça de Luís Montenegro.
Sim, e também no PSD, quando falamos do PSD, falamos sempre da contagem de espingardas. Montenegro tem tropas que o aguentem nessa empresa?
Terá, certamente. Mas eu acho que mais do que as tropas, que é sempre um tema fascinante e sabes que eu gosto muito desse tema.
E já falámos várias vezes aqui no Estreito de Gil sobre isso.
É verdade. Há basicamente três cenários em que as coisas podem ou não acontecer. Há um cenário da vitória e aí é indiscutível que Luís Montenegro será, naturalmente, o candidato a primeiro-ministro por parte do PSD. Há um cenário da hecatombe eleitoral nas europeias e então, aí sim, Luís Montenegro sairá pelo próprio pé. E há um cenário um bocadinho mais nebuloso, e é neste cenário que estamos a jogar e que estes recados fazem mais sentido, que é um cenário de uma derrota por poucochinho. Se bem nos recordamos, essa foi uma hipótese que Luís Montenegro admitiu há um par de meses, assumindo que não seria mau perder as eleições por pouco, porque seria um resultado superior ao de Rui Rio. Isso caiu pessimamente no PSD. Luís Montenegro depois corrigiu e assumiu que o objetivo é ganhar.
Eu quero e vamos ganhar as eleições europeias, mas eu estou focado em ganhar as eleições legislativas. Essas é que vão mudar o país.
Mas nunca desapareceu por completo esta hipótese na cabeça de Luís Montenegro e de quem o aconselha, que é: se ficar a três, quatro, dois pontos do PS, Luís Montenegro será recandidato e, portanto, os outros terão de ir a jogo sabendo que é uma empreitada bastante exigente.
E entre os outros que estão à espera, está Carlos Moedas.
Está. Nós nunca devemos excluir Carlos Moedas, embora, como já tivemos oportunidade de explicar, o calendário para ele não seja muito fácil. Ou seja, as eleições europeias são em junho de 2024, as eleições internas do PSD seriam em julho, agosto desse mesmo ano, as autárquicas são em 2025, as legislativas em 2026. Portanto, para simplificar, Carlos Moedas basicamente teria de abdicar de ser novamente candidato à Câmara de Lisboa, correndo o risco de primeiro ganhando as eleições internas, depois vir a perder as legislativas. Portanto, esse é um risco real que existe e que está na cabeça de Carlos Moedas, que vai mantendo um tabu, recorrendo a frases muito criativas. Esta semana teve mais uma oportunidade de desfazer o tabu e não o fez, portanto, isso tem um valor político. A entrevista à SIC, depois de jurar lealdade a Luís Montenegro, disse o seguinte:
O meu futuro é o presente, é estar aqui na Câmara Municipal de Lisboa.
Portanto, isto é todo um tratado de política palaciana e muito interessante. Portanto, sim, devemos contar com Carlos Moedas, sabendo que o calendário para ele é quase impossível.
E no texto que assinas e que está publicado no Observador, há uma citação interessante de uma das fontes com quem falaste, Miguel, que diz que: "Queríamos um Top Gun e saiu-nos um Hamlet". Pegando nessa citação, Passos Coelho poderá avançar contra Luís Montenegro?
É uma frase de um ruísta muito divertido com esta divisão na família passista e que diz que venderam-nos, portanto, Luís Montenegro vendeu-nos ao partido a ideia de que vinha aí um Top Gun, um filme cheio de ação e cheio de heroísmo, e acaba por sair uma tragédia como Hamlet, de segunda categoria, diz o crítico, diz o rioísta em questão. E não deixa de ter alguma graça, porque de facto esta divisão vem de-
Isto porque o pobre príncipe dinamarquês vive assombrado pelo fantasma do pai.
E não deixa de ser curioso que a divisão venha donde menos se esperaria, que é da família passista. De facto, Luís Montenegro e Pedro Passos Coelho, apesar de uma crescente distância entre ambos, sempre foram próximos. E portanto, à tua pergunta sobre se Pedro Passos Coelho avançará contra Luís Montenegro, a garantia que nos dão, por quem o conhece muito bem, é que Pedro Passos Coelho jamais será candidato no sentido mais restrito do termo, irá enfrentar Luís Montenegro numas eleições. E isso conforta muito o núcleo duro do PSD. Agora, ao mesmo tempo, as pessoas que conhecem bem o funcionamento do partido vão dizendo o seguinte: em caso de derrota nas próximas eleições europeias, sobretudo se for por uma derrota por números pesados, Pedro Passos Coelho não precisará fazer muito para que nasça uma vaga de fundo e para que Luís Montenegro automaticamente perceba que não tem condições para continuar no cargo. Portanto, Pedro Passos Coelho não terá, se isto se verificar, atenção, e partimos sempre de um cenário de hecatombe, o que não é certo, nem sequer é muito provável, mas se isso acontecer, bastará um sinal de Pedro Passos Coelho para que o partido vire por completo. Até há uma frase no texto que é muito elucidativa das pessoas que desejam esse regresso, que é: se Passos quiser ir, passa um caminhão por cima de Montenegro.
Então, para a criatura, seria bom que o criador, não sei se podemos chamar isso a Pedro Passos Coelho, mas já que estamos aqui nestas metáforas do pai político, seria bom que Passos Coelho fosse mesmo para a universidade ou não?
Mais uma vez, e resistindo a responder diretamente à tua provocação.
Oh, senhor, responda!
É preciso lembrar objetivamente que Luís Montenegro já tinha feito referências elogiosas ao percurso académico de Pedro Passos Coelho. Notar também que as pessoas que acompanham o atual líder do PSD tentaram relativizar este momento dizendo que era um elogio genuíno e absolutamente convicto.
Que lhe saiu mal.
Que lhe saiu mal, porventura. Mas respondendo à tua pergunta, naturalmente era muito melhor para Luís Montenegro libertar-se desta sombra muito pesada, e nós falávamos disso há uns programas, numa das edições da História do Dia, porque é quase um mito sebastiânico. É impossível combatê-lo, porque já ninguém sabe exatamente o valor real de Pedro Passos Coelho, a não ser aquilo que representa para alguns militantes do partido e para uma certa direita que sonha outra vez regressar a uma espécie de federação capaz de derrotar a família socialista. Isso é muito difícil, fosse o líder que fosse, mas é difícil também para Luís Montenegro combater esse mito. Só se consegue combater com resultados nas urnas e é isso que Luís Montenegro tentará ter nas próximas eleições europeias.
Miguel, e sabemos se isso está ou não a afetar a relação entre os dois? É possível aferir isso?
É possível admitir que a relação já está afetada a partir do momento em que há peças que se vão movendo de uma forma bastante evidente, a partir do momento em que Pedro Passos Coelho já não esconde aos seus mais próximos que se o partido precisar muito dele e se os resultados nas europeias forem menos positivos, ele estará disponível para sair da reserva. Foi isso que o Observador escreveu há um mês e que o Expresso agora reforçou até com bastante destaque. Isso cria sempre irritantes do lado de Luís Montenegro, tal como Pedro Passos Coelho, por estes sinais de algum distanciamento tático, vai ganhando uma certa, vou ter algum cuidado com a palavra, mas uma certa antipatia pela sua criatura. Não foi só na questão da eutanásia, também, mas não só, mas por exemplo, Pedro Passos Coelho nunca digeriu bem aquela aproximação tática de Luís Montenegro a Rui Rio nas vésperas das últimas legislativas que Rui Rio disputou. Isto porque nessa mesma campanha, Luís Montenegro, que foi sempre um crítico feroz de Rui Rio, que por sua vez era um crítico feroz de Pedro Passos Coelho, andou de braço dado com Rui Rio na campanha eleitoral, foi a um congresso prometer unidade em torno de Rui Rio e isso nunca foi bem digerido por Pedro Passos Coelho, porque viu aí um oportunismo que não reconhecia ao seu antigo líder parlamentar, Luís Montenegro.
Obrigado, Miguel.
Obrigado, Ricardo.
Miguel Santos Carrapatozo é o editor adjunto de política do Observador. E esta foi a História do Dia. E se gosta da História do Dia, há duas coisas que pode fazer por nós que são muito simples e gratuitas, mas são mesmo uma grande ajuda. Uma é partilhar este episódio ou outro de que tenha gostado com um amigo ou um familiar, porque nada bate o passa palavra. E a outra coisa, também ela muito simples, é clicar em seguir. Seguir a História do Dia no site ou na plataforma onde ouve o podcast. E também estamos disponíveis no YouTube. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até segunda.