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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o que acontece nos grupos de partilha de imagens íntimas nas redes sociais?
Eu estava na festa de aniversário da minha irmã. Na altura, o Messenger do Facebook sempre a receber notificações e depois chamadas. Eu atendi a primeira chamada, que era de uma colega de escola, a dizer-me: "Olha, fizeram um Facebook com o teu nome e a fotografia de perfil és tu toda nua." E eu, na altura, não sei bem como é que reagi. Lembro-me de ficar nervosa e depois quando entrei para ver as mensagens que tinha no Facebook, já eram outras pessoas a mostrar-me esse tal Facebook que tinham feito com o meu nome e que estavam a fazer pedidos de amizade às pessoas que me conheciam.
Este caso aconteceu quando Carolina, nome fictício, tinha 17 anos. Foi há mais de uma década. É uma vítima da devassa da vida privada e partilha de fotografias ilícitas. Outro caso, Margarida, com 18 anos, soube que estava uma imagem íntima a ser partilhada num grupo de Telegram com milhares de membros. Um grupo dedicado exclusivamente à troca de conteúdo sexual ilícito. Ricardo, com 21 anos, viu que foram criados perfis com fotografias dele. Foram criados em aplicações de encontros e também no Instagram e no Twitter. Perfis falsos que depois das mensagens partilhavam fotografias íntimas, o número de telemóvel e a própria morada de Ricardo. São casos que resultam de um submundo online de conteúdo sexual ilícito. O Observador teve acesso a milhares de mensagens em grupos de Telegram e em outras redes sociais, grupos em que se pedem, oferecem e trocam fotografias íntimas. Vou conversar com Ana Moreira, jornalista do Observador. Eu sou o Luís Soares e esta é a história do dia de quarta-feira, 31 de dezembro. Bem-vinda, Ana.
Olá, Luís.
Ana, este é um trabalho realizado depois de 18 meses dentro de grupos de Telegram em que se partilham imagens ou até vídeos íntimos sem consentimento. Foi difícil esse processo, Ana, de aceder a estes grupos e ir seguindo aquilo que era dito e partilhado?
Sim, foi difícil. Houve duas fases distintas de acesso a este tipo de grupos. A primeira foi em 2023, em que eu e a Inês, a outra jornalista que também assina este trabalho, criamos o Jorge, que foi o pseudônimo que nós usamos para entrar nestes grupos. E o Jorge teve muita facilidade a entrar nestes grupos, nessa altura. Depois, numa fase mais recente, o acesso ficou muito mais restrito. Havia pedidos de autorização, tínhamos que falar com outros utilizadores de certos grupos para eles nos porem noutros grupos. Alguns pediam transferências de MB Way, por exemplo, para conseguirmos entrar. Uma coisa muito comum, que nos grupos todos nós reparámos, é que é muito difícil estar a fazer scroll nestes grupos durante horas, porque o conteúdo que lá se partilha é mesmo muito chocante.
E apesar das proibições, Ana, esses grupos continuam a proliferar com mais ou menos participantes. Muitos acabam por ser bloqueados, mas o facto é que parece sempre haver forma de ir contornando essas proibições que foram surgindo também ao longo do tempo em que foram participando nesses grupos.
Sim, parece fácil de contornar. Um grupo é eliminado pela plataforma e de seguida nasce outro logo. Às vezes até nascem com o mesmo nome e depois dois, ou o antigo e depois o nome do grupo. O mais difícil é eles aguentarem o tempo suficiente até serem denunciados ou descobertos novamente. Uma das mensagens com que nós nos cruzamos nos grupos dizia: "Agora fecha-se grupos só porque se quer". Porque se calhar também para quem frequenta este tipo de fóruns, pode ser chato ter que estar sempre a mudar de chat de uns para os outros, porque realmente estão sempre a aparecer e a desaparecer.
No vosso artigo contam a história de cinco pessoas, quatro mulheres e um homem, que viram a intimidade exposta na internet e que têm em comum essa ideia de que todos eles ficaram com a vida virada do avesso com aquilo que lhes aconteceu, não é, Ana?
Sim, completamente. Em todos os casos, são diferentes uns dos outros, mas têm esse ponto em comum. Todos eles ficaram com a vida completamente diferente. Nunca mais voltou a ser igual e temos casos de perseguição em grupos de Telegram, de pornografia, de vingança, temos chantagem, temos bullying, mas nenhuma vida aqui voltou a ser aquilo que era depois disso.
Temos também aqui casos, como dizias, de vingança, de chantagem, que estão também na base da partilha destas imagens. Ou seja, nem todos os casos que vocês relatam têm diretamente a ver com imagens publicadas no Telegram, têm também a ver com outro tipo de formas de partilhar imagens e de complicar a vida a outras pessoas.
Sim. No caso da vingança ou chantagem, por exemplo, ouvimos relatos, por parte da APAV, sobre pessoas que são chantageadas mesmo de extorsão, de casos do gênero: se não me pagares isto ou se não me fizeres isto, eu partilho as tuas fotos. Mas nós chegamos a um tipo de chantagem que já roça também a violência doméstica, que foi: se tu acabares a nossa relação, eu partilho estas fotografias na internet, que é a história que nós contamos de uma rapariga
A que chamaram Joana.
Na verdade, não se chama Joana, mas a que chamamos Joana. Há o rapaz, por exemplo, a que chamamos Ricardo, a relação dele acabou e como consequência, ele foi vítima de roubo de identidade também. O ex-namorado fez-se passar por ele no Grindr, que é uma aplicação de encontros, e além de partilhar as fotos e os vídeos íntimos, dava detalhes como morada. Então o Ricardo tinha pessoas a bater-lhe à porta de casa, a dizer que tinham combinado encontros com ele, desconhecidos a abordá-lo em concertos. Um dia chegou ao trabalho e descobriu que tinham sido enviadas essas fotografias e esses vídeos para os chefes dele. Foi todo um conjunto de situações ligadas a chantagem ou vingança.
Depois, e também contam isso no artigo, Ana, cada uma das pessoas tenta dar resposta à sua maneira àquilo que se passou, por exemplo, com o acesso à justiça, mas que, no entanto, parece não conseguir ser rápida perante estas denúncias, Ana.
Sim. Uma das vítimas com quem falamos não foi às autoridades. O caso passou-se há muito tempo e ela decidiu nunca atuar sobre isso. Mas temos, por exemplo, uma que tratou disso na Suíça e conta que foi rápido, sentiu-se segura, sentiu justiça, sentiu que foi bem tratada pelos polícias e as vítimas com quem falamos, que têm casos tratados pela justiça aqui em Portugal, não têm nada a ver a experiência. Falam-nos de serem olhados de lado, falam-nos de, por exemplo, lhes dizerem que não podem fazer nada com as provas em relação, por exemplo, ao Telegram, porque não há um culpado, porque não têm, por exemplo-
Porque não há uma cara.
Ninguém para ir atrás, para investigar, por exemplo. Sim, não há uma cara para investigar, então é muito mais difícil a justiça atuar sobre isso. Por exemplo, no caso de Ricardo, apresentou queixa em 2021, mas ainda está à espera de julgamento.
E já estamos praticamente em 2026. E há também quem tenha tentado intervir diretamente nesses grupos, Ana, e quem tenha criado até um movimento para ajudar outras pessoas vítimas de crimes semelhantes.
Sim, é o caso da Inês Marinho, que falou conosco. Ela é a cara do movimento Não Partilhes. Ela decidiu na altura que não queria ser conhecida como a rapariga das nudes, palavras da própria, e juntou-se a algumas raparigas que também tinham sido vítimas disto. Entre elas está a Margarida, que também falou conosco, e outras com quem eu também falei, mas que não quiseram dar a cara, o discurso e o depoimento delas na reportagem. Mas criaram o movimento para não se sentirem sozinhas e para sensibilizar as pessoas para esta questão. Agora, a cara do movimento está mais entregue à Inês Marinho, que transformou isto numa associação e que dá palestras em escolas, que vai a conferências internacionais e continua diariamente a receber ódio na internet por causa disto.
Já vamos continuar a conversa com Ana Moreira. Agora fazemos uma curta pausa. Estamos de regresso à conversa com Ana Moreira. O fato é que estamos aqui perante vários tipos de crime, como já estiveste aqui a relatar também, Ana. E de maneira geral, pelos dados que recolheram para esta reportagem da APAV e também do Ministério Público, tem havido cada vez mais denúncias destes vários tipos de crime.
Sim, os dados da APAV e da PGR mostram que sim. Até junho deste ano, a PGR contou com 608 inquéritos instaurados por gravações e fotografias ilícitas. Isto é um número que já é mais de metade do que foi registado no ano inteiro de 2024, em que foram 1045. Já nos números da APAV, também há uma tendência de crescimento, mas há sempre uma coisa curiosa. Há sempre um pequeno asterisco que diz: a mesma pessoa pode ser vítima de mais do que um tipo de crime. E isso também mostramos na reportagem. Por exemplo, o Ricardo foi vítima de roubo de identidade, Joana foi vítima de violência doméstica, Margarida foi perseguida e ameaçada, a Inês também, a Carolina foi vítima de bullying e de difamação.
Acabam por ser vários crimes que estão aqui em causa e não apenas um único, não é?
Exato. Parece que estão sempre associados a outro tipo de crimes também.
Falando especificamente do artigo, Ana, temos um trabalho, digamos assim, com bolinha vermelha, até porque há algum vocabulário mais explícito, mas este é sobretudo um artigo bastante interativo.
Sim, a nossa ideia principal foi fazer com que o leitor se sentisse nos grupos. Então fomos logo falar com o Miguel, que é o nosso colega que faz os conteúdos interativos.
O Miguel Ferreira Cabral.
Exatamente. Então recriamos um chat em que as mensagens que estão neste especial e que as pessoas podem fazer scroll como se estivessem no próprio Telegram, essas mensagens estão exatamente como estão nos grupos. Estão escritas com as mesmas palavras, a mesma pontuação, os mesmos erros ortográficos. É uma linguagem muito forte, muito chocante, mas é acima de tudo, a realidade do que acontece ali dentro.
E daí também, digamos assim, o aviso que há também no início deste artigo para esta linguagem menos própria e que é natural que exista num grupo como estes onde vocês estiveram durante 18 meses. Ana, obrigado.
Obrigada, Luís.
Ana Moreira é jornalista do Observador e assina, juntamente com a Inês Batista e o Miguel Fraso Cabral, um longo artigo interativo, disponível no nosso site, que conta a história de várias vítimas deste submundo de partilha de imagens e vídeos íntimos em grupos de mensagens nas redes sociais. É importante saber que pode denunciar a partilha não consentida de conteúdos íntimos através do formulário da Linha Internet Segura da APAV ou por telefone para o número 800 21 90 90. Nesta história do dia, deixo ainda três coisas a ter em conta esta quarta-feira. É o último dia do ano e, como tal, há muitas sugestões de locais para passar a meia-noite. No Porto, a tradicional Avenida dos Aliados vai estar encerrada a partir do fim da tarde. O acesso pode ser feito a pé, através de seis pontos de entrada, onde pode contar ser revistado. Quanto à festa propriamente dita, os Clã atuam às 10 da noite e depois do fogo de artifício da meia-noite, entra em palco Nini Vaz Maia. O Metro do Porto vai circular toda a madrugada. Em Lisboa, todos os caminhos vão dar ao Terreiro do Paço, onde o dispositivo de segurança vai ser robusto, também com seis pontos de revista à entrada. Plutónio, às 10:30 da noite, leva os lisboetas até ao fogo de artifício da passagem de ano sobre o rio Tejo, com festa garantida até à 1 h. De lembrar que no caso de Lisboa, o metro fecha à hora habitual, já Carris reforça a operação noturna. No Algarve, Albufeira costuma ser o centro da festa. São esperadas milhares de pessoas para entrar em 2026 na Praia dos Pescadores. Os Silence Four são os cicerones das despedidas de 2025, mas há também espetáculos com drones e fogo de artifício. Esta foi a história do dia, a última do ano. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Luís Soares. Votos de boas entradas em 2026.