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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a misteriosa morte do ministro das Relações Exteriores da Bielorrússia.
Esta é a voz de Vladimir Makei, o ministro das Relações Exteriores bielorrusso. Esta gravação tem nove meses, é de 28 de fevereiro. Quatro dias depois da invasão russa da Ucrânia, delegações dos dois países encontraram-se na Bielorrússia, junto à fronteira ucraniana. Vladimir Makei disse que se trata de um lugar seguro, onde podem discutir soluções e que espera bons resultados.
Vladimir Makei morreu este fim de semana aos 64 anos, em circunstâncias não totalmente esclarecidas. A morte ocorre um dia depois de um alegado encontro com o enviado do Papa Francisco para discutir um caminho para a paz na Ucrânia. Makei estava a ser visto como um desalinhado, e na Ucrânia, e entre os opositores de Vladimir Putin, há quem defenda que foi assassinado com recurso a um veneno desenvolvido pelo FSB, o herdeiro do KGB, onde Putin começou a carreira. Vou conversar com o jornalista correspondente da RTP, Evgeny Moravitz. Eu sou o Ricardo Conceição, e esta é a história do dia. Bem-vindo, Evgeny.
Olá, Ricardo, agradeço o convite.
Quem era este homem, Vladimir Makei?
Vladimir Makei era assessor do presidente Lukashenko desde há 22 anos. Já em 2008, passou a chefiar o gabinete do presidente. Em 2012, foi promovido para ministro diplomático e, tal como Sergey Lavrov na Rússia, Makei sabia negociar coisas e dialogar na época em que a política do Lukashenko era procurar balanços entre Moscovo e Ocidente. Havia uma altura dessas. À medida em que Lukashenko se tornava cada vez mais ditador, Makei era considerado o interlocutor tragável para o Ocidente. Daí a sua imagem de voz mais liberal no governo bielorrusso. Recorda-se uma alocução dele de que gostaria de ver a Bielorrússia como a Suíça do leste da Europa.
O que sabemos das circunstâncias em que ocorreu a morte deste homem?
Sabemos que ainda na véspera era são e salvo, acabara de participar numa reunião dos ministros no quadro do Tratado da Segurança Coletiva e planeava uma viagem a outra conferência na Polônia. A versão oficial do óbito é um enfarte, mas não faltam versões constrológicas que focam o eventual envolvimento dos chamados falcões ou alas radicais, tanto no governo bielorrusso como em Moscovo.
Mas o ministro ter-se-á reunido na véspera da morte ou um pouco antes com o enviado do Papa Francisco, e a conversa terá sido sobre o eventual plano ou roteiro para a paz na Ucrânia. Esta informação está confirmada ou não?
Confirma-se que ele estava reunido com alguém do Vaticano. Mas aqueles que conhecem pessoalmente Makei dizem que não era bem liberal. Ele provém das estruturas da inteligência e reconhecimento militar da antiga União Soviética. Sim, sabia manobrar e arredondar os ângulos agudos da política de Lukashenko, mas ao mesmo tempo não estava aquém das intrigas internas do aparato, pois não era uma quinta coluna. Não era. Lukashenko não o permitia. Makei apercebia-se perfeitamente da situação da Bielorrússia após os protestos suprimidos em 2020, apercebia-se da posição de Minsk frente ao Ocidente, da dependência em relação à Moscovo, da campanha militar russa na Ucrânia. Ele estava um político sóbrio.
Vou pegar num ponto que referiste agora, Evgeny Moravitz. Nesta altura, quão grande é essa dependência de Minsk em relação à Moscovo?
Tal como estamos a ver, Minsk presta seu território para a campanha militar russa na Ucrânia, mas não participa com tropas nem com equipamentos. Para Lukashenko, não existem outras hipóteses de sobreviver politicamente senão aliando-se à Rússia, a Putin. Estes dois não são nada amigos nem correligionários. A conjuntura político-militar é a única coisa que os liga.
Mas o presidente Lukashenko é ou não uma espécie de marionete de Putin ou esta imagem é demasiado exagerada?
Eu diria fantoche com ambições e mente própria. Quando dizemos que Putin é forçado a agir de forma brutal para não desiludir radicais em torno dele, subentendemos precisamente personagens como Lukashenko, entre outras. Qualquer sinal da fraqueza ou moleza da parte de Putin chamará à vida atividades autônomas, separatistas e separadas por parte de Lukashenko e de outros falcões. Putin não se pode permitir nem por um segundo parecer de pato coxo, como dizem os americanos.
Já voltamos à conversa com Evgeny Moravitz, o correspondente da RTP em Moscovo, sobre o que se está a passar na Bielorrússia, nomeadamente se a morte deste ministro de Lukashenko pode ou não ter mão do Kremlin Eu sou Carlos Diogo Santos, editor de sociedade do Observador, e estive durante mais de um mês a fazer a cobertura das eleições presidenciais no Brasil. Para fazer bom jornalismo é preciso estar no terreno e isso só é possível graças aos assinantes. Assinar o Observador é fundamental para garantir um jornalismo de qualidade. Estamos de regresso à conversa com Evgeny Moravets, é o correspondente da RTP em Moscovo, na Rússia. Evgeny, segundo um oligarca russo opositor de Putin, Leonid Nevzlin, o presidente bielorrusso mudou de cozinheiro, mudou de guardas, apertou a segurança dos filhos, isto depois da notícia da morte do seu ministro das Relações Exteriores. Nevzlin alega que Vladimir Makei foi envenenado por um produto desenvolvido pelo Serviço Federal de Segurança, FSB, herdeira do KGB, um veneno que simula a morte por ataque cardíaco, derrame ou insuficiência cardíaca. Lukashenko, Evgeny, tem medo de ser envenenado por Putin?
Quando entramos nas águas da conspirologia, não faz sentido fazermos prognósticos nem negarmos nada. Do ponto de vista moral e técnico, qualquer versão conspirológica é realizável. Claro, entendemos isto. Lukashenko e Putin não são exceções no sentido de fobias relativas à segurança pessoal. Há quem diga que só Putin tem entre 20 e 25 mil pessoas que cuidam da segurança pessoal dele em todo o território nacional.
Isso é um número astronómico, não é?
Pois, é sim, mas as estruturas da força são grandes beneficiários da política de Putin durante todo o seu tempo de governo. Isto é regra dos ditadores, todos acabam por ter fobias e reforçar os dispositivos de segurança. Agora, o senhor Leonid Nevzlin fazia parte de uma estrutura oligárquica desmantelada por decisão de Putin há 20 anos. Ele conseguiu escapar, vive no estrangeiro e tem motivos pessoais para criticar o Kremlin. Quer dizer, não é imparcial, mas tudo pode ser.
Mas Evgeny, há vários casos de opositores e inimigos de Vladimir Putin atacados com venenos. Esses casos existem.
Exato. Alguns foram atingidos mortalmente, tal como Litvinenko, envenenado em Londres, ou Nemtsov, baleado a escassos 200 metros do Kremlin. Outros não chegaram a morrer, como Skripal na Inglaterra ou Navalny na Sibéria, como sabemos, o que não o salvou da prisão. São estes os fatos que sabemos. O resto são versões. A versão que me parece mais provável é a de ajuste de contas entre diversas alas e correntes que compõem as estruturas da força da Rússia. Percebe-se que existem entendimentos nos altos escalões do poder. Existe a iniciativa daqueles que são mais papistas que o Papa, ou como dizem os russos, correm na frente da locomotora. Existem aqueles que zelam por adivinhar o desejável. Assim é que se formam as conspirações e que se realizam esses atentados que não sabemos se chegam a ser atentados ou são coincidências. Portanto, é muito difícil dizer, não há provas.
Mas Lukashenko, como estavas a explicar há pouco na conversa, é forçado a esta aliança com Putin. Como é que tem sido possível ao presidente bielorrusso protelar, adiar uma entrada mais efetiva na guerra com a Ucrânia?
Putin e Lukashenko optaram por tornar-se ditadores, ambos com o objetivo de permanecerem no poder. Isto os une, mas eles têm ambições desiguais. Putin está a rebelar-se agora, neste momento, contra o domínio dos Estados Unidos, proclamando multipolaridade e uma nova ordem mundial, nem mais, nem menos. Lukashenko não vai tão longe e, porventura, está-se a perceber do caráter suicidal da guerra iniciada por Moscovo na Ucrânia. E Putin não tem espaço de manobra, não tem pra onde recuar. Já se molhou de sangue. Lukashenko nem tanto. Não agrediu, por enquanto, território alheio. É muito astuto.
Mas é credível, podemos acreditar num cenário em que Putin obriga ao afastamento de Lukashenko e coloca alguém em quem tenha maior confiança, alguém mais próximo de Moscovo no poder em Minsk, na Bielorrússia? E se sim, quem seria essa pessoa, Evgeny?
Mesmo que o Putin o quisesse, Lukashenko não é tão fácil de afastar nem derrubar. Lukashenko sabe escalar suas linhas de defesa. Mesmo se Putin tem em mente algum substituto para ele, ninguém ou poucos conhecem o nome. Lukashenko faz seu próprio jogo, sim, mas nessa qualidade é até mais aceitável para Putin, já que o Kremlin não se responsabiliza por ele. Ele é autônomo até um determinado grau. Colocar lá um fantoche enviado a partir de Moscovo significa ficar entalado em mais uma campanha no estrangeiro. Já vimos que na Ucrânia falhou essa tentativa. Putin é cauteloso, não deve querer repetir E com todas as responsabilidades que Moscovo tem que assumir nesse caso. É duvidoso que o Kremlin o queira.
E com aquilo que sabemos, Evgeny, é plausível, podemos acreditar num cenário de morte por envenenamento do ministro bielorrusso às mãos da Rússia, por se afastar um pouco dessa linha que Moscovo defende?
Tal como já reparámos, em cima as coisas são mais complicadas do que a relação entre um soberano e um vassalo. São dois países que, por conjuntura política, estão a explorar o terreno de regime ditatorial. É a maneira deles de se preservarem, de salvaguardar os regimes. Pode haver ou não morte por envenenamento ou qualquer conspiração. Sabemos que ambos os regimes admitem qualquer instrumento, qualquer ferramenta que os ajude. E se for envenenamento, ninguém garante que não pode haver, porque repetimos, do ponto de vista técnico, é realizável, do ponto de vista moral, é aceitável, tanto para os serviços secretos de ambos os países como para os seus superiores, que estão entre a espada e a parede, não têm o que perder, não têm para onde recuar.
Muito obrigado, Evgeny.
Obrigado eu. Muito obrigado.
Evgeny Moravets é jornalista da RTP e correspondente da estação pública de televisão em Moscovo. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.