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Esta é a história do dia da Rádio Observador. A vitória de Pedro Nuno Santos obriga a uma rearrumação da esquerda?
Eu não falei em geringonça nenhuma. Aliás, termo que eu nunca usei muitas vezes, porque aquilo de geringonça teve nada, aquilo foi mesmo estável e funcionou bem.
Na noite da vitória, no sábado, Pedro Nuno Santos tentou, sem enjeitar o que considera ser um sucesso, distanciar-se um pouco de uma nova geringonça. Com ele, o acordo será possível, mas não é essa a prioridade do novo líder socialista. Porém, ninguém fabrica uma geringonça sozinho. O que pensam as outras peças, os outros partidos à esquerda desta possibilidade? Vou conversar com Mariana Lima Cunha, jornalista da seção de política do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de terça-feira, 19 de dezembro. Bem-vinda, Mariana.
Olá, Ricardo.
Mariana, a história do dia chega a todas as idades e pensando nos nossos ouvintes mais jovens, e porque é importante também para perceber este episódio, podes recordar-nos o que aconteceu em 2015?
O que aconteceu em 2015 foi um episódio completamente inédito, que nos abriu uma porta do nosso sistema político que nós ainda não conhecíamos, o político e parlamentar, que foi a criação da geringonça, que nasce por pura necessidade de sobrevivência de António Costa.
Não é bem um governo, é uma geringonça. Não é uma coligação, isso já se viu. Tampouco será um acordo, porque haverá vários.
Não é que ele tivesse propriamente o sonho de governar ao lado da esquerda, mas na altura foi mesmo a única hipótese que teve, que arranjou e que construiu para conseguir chegar ao governo do país. António Costa ficou em segundo lugar nessas eleições, aliás, fez uma campanha que lhe correu mal, foi descendo nas sondagens e quando chega o dia das eleições, contra todas as expectativas, é derrotado pelo governo da PAF, do PSD e do CDS. E portanto, o que faz a seguir é espantar toda a gente, incluindo o próprio partido, com conversas com o PCP e com o Bloco de Esquerda, que levam à assinatura dos acordos com estes partidos e também com o PEV, que estabeleciam uma série de pontos, que eram sobretudo reversões de medidas do tempo do PSD, quando o país ainda estava sob o Memorando da Troika, e conseguiu um acordo completamente inédito com esta esquerda, que até aqui se referia muito ao PS como um inimigo também. E foi assim que Costa consegue governar de forma inédita, quando tinha ficado em segundo lugar nas eleições.
E assim nasceu a geringonça e pelo menos esta designação. E qual foi o papel de Pedro Nuno Santos neste período e na geringonça?
Aliás, deixa-me dizer-te que geringonça, que obviamente começou por ser um termo pejorativo, não era uma coisa boa, acabou por ser abraçado e adotado pelo PS como uma espécie de marca. Pedro Nuno Santos não só é um fã confesso da geringonça, desse período, como foi também um dos seus artífices. Ele era secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, o que significava na altura que estava presente em todas as reuniões com a esquerda, ajudava a negociar os orçamentos com a esquerda e, portanto, nesse período, não só ele já era conhecido por ser um membro da ala mais à esquerda do PS, como isso ajudou a estreitar laços com a esquerda à esquerda do PS, portanto, com o Bloco de Esquerda e com o PCP e até com protagonistas que ainda hoje estão na vida política, aliás, até de forma mais ativa, como Mariana Mortágua. Na altura, ela era uma deputada e ele era um secretário de Estado, e agora são ambos líderes.
Mariana, Pedro Nuno Santos está agora na corrida para ser primeiro-ministro e alega que o PSD não oferece garantias de estabilidade. Vai daí, se vencer ou se ficar em segundo, isso quer dizer que vem aí seguramente uma nova geringonça?
Pedro Nuno Santos vai tentar apostar na omissão por agora, porque ele tem de apontar tudo para a vitória. E portanto, há uma coisa que ele sabe. Ele sabe que já tem tendencialmente muitos eleitores de esquerda consigo. Eleitores que até poderiam votar num desses partidos e que com ele à frente do PS até podem ser seduzidos para os braços do PS. Mas isso não chega para ganhar eleições, é preciso ganhá-las ao centro. E portanto, Pedro Nuno Santos até às eleições vai precisar de apostar no discurso que já começou a apostar durante esta campanha interna no PS, que é falar ao centro, mostrar-se como um moderado, tentar desfazer aquela imagem de radical, de esquerdista, que se foi criando à sua volta e que ele próprio foi criando sobre si próprio. Agora, todos nós sabemos que no caso de o PS não ter uma maioria, que é até ver o mais provável com os dados que temos hoje, a solução preferida de Pedro Nuno Santos será, de facto, uma geringonça.
Não, o Partido Socialista tem que apresentar, defender as suas ideias, defender o seu programa e conseguir o melhor resultado possível para o seu programa. É só nisso que nós estamos focados.
Ou seja, Mariana, se não vencer, poderá vir aí mesmo uma geringonça dois, é isso?
Sem dúvida. A nossa conversa faz-me lembrar uma conversa que eu tive com o grande apoiante Pedro Nuno Santos há umas semanas, em que eu lhe perguntava se fazia geringonça, se não fazia, quais eram os cenários, e esse apoiante me respondia por que ele há de falar sobre isso se toda a gente sabe o que ele tem na cabeça. Ou seja, ele é um adepto tão óbvio e que se declarou tantas vezes da geringonça que agora, como falávamos ainda há pouco, não lhe convém fazer essa campanha pela geringonça, porque tem de crescer por outro lado. O que não quer dizer que de facto, e nós temos registos públicos ao longo dos anos, de Pedro Nuno Santos elogiar a geringonça de todas as formas, dizer que foi uma solução muito estável, que trouxe coisas boas ao país, que é bem recordada pelos portugueses, que é uma solução de boa memória e portanto, se precisar, Pedro Nuno Santos não só falará por sobrevivência, mas também o fará provavelmente com gosto.
E viabilizar um governo minoritário do PSD, isto para isolar o Chega, caso venha a ser o terceiro partido mais votado, isso nem pensar para este novo PS?
Nós sabemos que em política é tudo muito volátil e até políticos que dizem que nem que Cristo desça à Terra vão fazer alguma coisa, isto foi o caso de Marcelo Rebelo de Sousa sobre a liderança do PSD, às vezes acabam mesmo por fazê-la. E estamos em campanha, mas até ver é mesmo isso que se defende do lado de Pedro Nuno Santos, que não se pode colocar nessa posição e aliás, que soluções tipo bloco central, em que o PS e o PSD se ajudem e se mostrem como uma frente, o chamado centrão a operar junto, só beneficiam as franjas, ou seja, beneficiam os populismos, beneficiam o ressentimento em relação ao sistema, aos políticos do centro, aos moderados, e portanto Pedro Nuno Santos sempre acreditou que a melhor maneira de fazer política, de ganhar eleições até, era apostar nalguma polarização e acredita que dizer que viabilizar um governo do PSD seria o contrário disso. Foi aliás por isso que o lado Pedro Nuno Santos atacou imenso a candidatura de José Luís Carneiro nestas eleições internas do PS, porque foi precisamente isso que José Luís Carneiro admitiu logo no início da campanha, quando disse que por ele o Chega não chegaria ao governo. O lado Pedro Nuno Santos fez uma festa com isto, porque acreditou que isto era a admissão de que aquele era o candidato parecido com a direita, dos blocos centrais, era este o tipo de discurso que se fazia. E aliás, José Luís Carneiro chegou a ter de corrigir o discurso e dizer que estava só a dizer que queria ganhar. E portanto, Pedro Nuno Santos continua a achar que esse é o discurso errado e não o fará.
Já voltamos à conversa com Mariana Lima Cunha. São precisos dois para dançar o tango, uma geringonça não se faz sozinha. O que pensam os outros partidos à esquerda desta hipótese de uma geringonça dois? Estamos de regresso à conversa com Mariana Lima Cunha, jornalista da seção de política do Observador. Mariana, vamos agora por partes e olhando para aquilo que presumimos possa vir a ser a votação dos portugueses nos partidos à esquerda do PS. Usando este critério, o que pensa cada um deles sobre esta hipótese de uma geringonça dois? E se calhar começamos pelo Bloco de Esquerda.
Neste contexto, a primeira coisa em que temos de pensar é que para qualquer um destes partidos não é bom falar agora numa geringonça. Ou seja, ninguém quer fazer uma campanha em que se anule e em que os eleitores de esquerda possam começar a pensar que é indiferente votar em qualquer um destes partidos, porque no fundo se vão todos juntar. E portanto, nós podemos esperar da esquerda uma campanha bastante aguerrida até contra o PS. Depois o que nós temos é, de facto, um Bloco de Esquerda que gostou da experiência da geringonça. Ou seja, o Bloco de Esquerda gostou da experiência de influência que teve, que foi a primeira experiência de influência governativa, em que teve uma nova geração toda a preparar-se a negociar com pessoas como Pedro Nuno Santos no Parlamento, a estudar os dossiês muito mais a fundo, a ter outro conhecimento da política e a poder reclamar conquistas para si que nunca tinha podido reclamar antes. E portanto, de que o Bloco de Esquerda não gostou? Foi da reta final da geringonça. Foi quando começou a sentir, e isto eu já ouvi de vários dirigentes do Bloco de Esquerda, que na reta final daquela solução já estava a aceitar migalhas, ou seja, já estava muito envolvido na solução. O PS já estava a começar a colher mais frutos e mais lucros dessa solução do que o Bloco de Esquerda e portanto, o que o Bloco tem na cabeça neste momento é: o eleitorado gosta dessa solução, o partido até foi castigado nas urnas quando chumbou o orçamento do PS, e portanto, o que tem de fazer agora é aprender com os erros da primeira experiência e ser bastante mais exigente na segunda. Se a primeira experiência foi uma espécie de programa de reversões, ou seja, o que unia os partidos e o seu cimento era reverter o que tinha acontecido durante o período da Troika, o que tem de acontecer agora na cabeça do Bloco de Esquerda é um programa pra frente. Ou seja, é um programa em que o PS e o Bloco e quem mais se juntar, olhem pra problemas como a habitação, como o SNS, como as carreiras dos professores, que identificam como problemas sociais muito agudos nesta altura, e tenham um programa estruturado, escrito, isso é muito importante, para que se comprometam e para que no fim, as responsabilidades de cada um estejam claras. Isso seria o cenário ideal do Bloco de Esquerda se o PS de Pedro Nuno Santos, de facto, se comprometer. Neste momento, aliás, o que o Bloco de Esquerda faz é sobretudo vincar as incoerências de Pedro Nuno Santos e desafiá-lo a esclarecer se de facto fará diferente do que António Costa fez. É aliás isso que o Jorge Costa, que já era dirigente do Bloco na altura da geringonça e que era aliás dos principais negociadores no Parlamento e nos orçamentos desta solução, é esse o recado que deixa. É uma grande exigência em relação ao PS, que é a postura em que o Bloco agora se tem de mostrar, e é já até o desafio que ele lança para a campanha, vamos ter de começar a debater o que é que seria de facto um acordo, porque como ele diz nesta entrevista ao Observador, mais importante do que se o acordo é escrito ou não, e o Bloco quer que seja escrito, é o que é que vem lá escrito.
A experiência dos acordos escritos entre 2015 e 2019 é boa, mas mais importante do que serem escritos, é o que lá está escrito. E no PCP, Mariana?
O PCP é um caso ainda mais complicado que o Bloco de Esquerda, porque o PCP nos últimos anos o que viu acontecer-lhe, desde que se meteu com o PS na geringonça, foi uma queda eleitoral muito acentuada. Há várias teses para explicar isto, há quem acredite que foi mesmo só uma questão da imagem de subjugação ao PS, há quem diga que é um problema mesmo de tecido social que vai acabando com os partidos comunistas e que o PCP não é exceção. O que importa agora é perceber que o PCP saiu bastante traumatizado da experiência e é difícil acreditar que se meta noutra experiência do gênero, pelo menos nos mesmos moldes. O que se vai comentando é que o PCP poderia, por exemplo, ajudar a viabilizar um governo de esquerda, porque não quer ficar com o ônus de abrir a porta à direita, mas poderia fazer acordos mais pontuais, ajudar coisas essenciais a passar, mas não estar tão vinculado com o PS como esteve da última vez. Isso é uma coisa que vamos ter de perceber lendo as declarações dos comunistas, porque vai ter que ser feito aqui um equilíbrio muito delicado entre o que o eleitorado quer e o que o PCP quer em termos de influência. E portanto, o PCP neste momento vai gerindo com pinças, sabendo que se crescesse muito nestas eleições, seria muito mais fácil alinhar numa geringonça, porque teria muito mais poder negocial.
Não contam com o PCP para alimentar ilusões de um PS que é só um, com as suas proclamações, por um lado, e depois com a sua prática, a prática real da sua política, por outro.
Fica o recado de Paulo Raimundo, secretário-geral do PCP. E em relação ao Livre, será o parceiro mais fácil de convencer, Mariana?
Sim, eu diria que o Livre destes parceiros, na verdade o Livre nunca chegou a ser parceiro porque chegou tarde ao Parlamento e esse foi precisamente o problema de Rui Tavares, que ele até já tinha defendido uma plataforma com os partidos de esquerda, até tentou avançar com essa proposta antes, quando o partido ainda nem sequer tinha representação parlamentar. Depois fez uma travessia complicada quando só tinha Joacine Katar Moreira no Parlamento e portanto Rui Tavares falou antes do tempo e só chegou tarde ao Parlamento quando já não havia geringonça. Agora todos os sinais que o Livre tem dado é que teria todo o interesse em conversar com o PS e com a restante esquerda para ser envolvido também nas propostas e nas soluções que quer para o país.
E perante o cenário de incerteza eleitoral que temos pela frente, perante as possibilidades que se abrem à esquerda, Pedro Nuno Santos vai querer todos ou vai escolher consoante as necessidades?
No que nós temos até agora e nos registos das opiniões de Pedro Nuno Santos e das suas posições políticas, indicam que ele preferiria um acordo mais sólido e não ter de ir escolhendo consoante as necessidades. Ou seja, nos elogios que faz à geringonça, faz muito e fez aqui também em entrevista ao Observador, o elogio do acordo escrito, por exemplo, que é um compromisso mais estável do que soluções de geometria mais variável.
E por isso eu julgo que no primeiro mandato o acordo ajudou a estabilidade e que no segundo mandato a sua ausência prejudicou essa mesma estabilidade.
Portanto, era melhor haver um acordo para garantir a estabilidade. É a dedução óbvia.
Eu estou aqui a explanar aquilo que é um ponto de vista, obviamente, do qual nós podemos retirar conclusões. Sim.
É um elogio a Cavaco Silva, portanto.
É, é um elogio a Cavaco Silva, é verdade.
E ele nessa altura até deixa um elogio a Cavaco Silva, porque na verdade Cavaco Silva, que era presidente da República na altura, foi quem exigiu que os acordos fossem escritos. Na altura, ele queria garantias sobre a solução da geringonça, que era uma coisa nunca vista, e portanto obrigou o PS a fazer esses acordos e a deixá-los por escrito. E Pedro Nuno Santos, ironicamente, mas acaba por ser assim mesmo, elogia Cavaco Silva por ter assegurado essa estabilidade. E Pedro Nuno Santos o que tem defendido é uma solução estável, escrita. É certo que pode ter mais facilidade em fazer isso com o Bloco de Esquerda e com o Livre do que o PCP. O PCP, aliás, era um partido que tinha uma relação boa, especificamente com António Costa, até pelas raízes familiares de António Costa e portanto, Pedro Nuno Santos pode não ter a mesma facilidade com todos, mesmo que o queira fazer.
E perante essa quase certeza de que em caso de necessidade haverá geringonça, isto é ou não um trunfo eleitoral para a campanha e para as eleições?
Há aqui duas formas de ver a coisa. Por um lado, é verdade, das sondagens que conhecemos e dos estudos de opinião que conhecemos, é verdade o argumento que Pedro Nuno Santos usa, que é que a geringonça é uma solução bem avaliada pelos portugueses. Isso pode ser em parte porque corresponde a um período de recuperação de rendimentos e portanto é natural que as pessoas tenham uma memória boa, pelo menos dos resultados que se alcançaram nessa altura. Agora, há aqui um problema evidente e que pode ser o calcanhar de Aquiles de Pedro Nuno Santos. É a tal necessidade que ele tem de apontar ao centro e portanto mesmo que acabe por montar uma geringonça, ele neste momento tem de assegurar ao eleitorado que não vai ser um radical por causa disso. Ou seja, que se António Costa acabou a experiência da geringonça sendo considerado penso que insuspeito em relação a ser um radical de esquerda, Pedro Nuno Santos também tem de dar garantias disso e ele tem um historial de afirmações bastante mais à esquerda do que António Costa. E portanto, ele precisa de assegurar que certamente montará uma geringonça se precisar, se vir que há uma maioria de esquerda à sua disposição com a qual pode trabalhar, mas ele precisa primeiro, e primeiro que tudo, e esta é a primeira grande tarefa de Pedro Nuno Santos enquanto líder do PS, ele precisa de se definir e de se apresentar. E nós o que vimos até agora é Pedro Nuno Santos até elogiar algumas decisões suas que o colocam à vista do grande público como um radical, como uma pessoa impulsiva.
Há uma confusão entre radicalismo e ter convicções e defender essas convicções com frontalidade.
Ele diz que não é radical nem é assim tão de esquerda, é uma pessoa que tem convicções. Resta saber como é que ele faz a quadratura do círculo de se mostrar tão radical e tão cheio de vontade de fazer e ao mesmo tempo uma pessoa ponderada e até moderada do ponto de vista político, numas eleições em que, como em todas as eleições, o centro é que as ganha ou que dá a vitória.
Obrigado, Mariana.
Obrigada, Ricardo.
Mariana Lima Cunha é jornalista da secção de política do Observador e acompanha o PS e os partidos à esquerda dos socialistas. Esta foi a história do dia. Neste episódio ouvimos sons retirados do Canal Parlamento, da RTP e ainda da Rádio Observador. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.