Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a história do dia da Rádio Observador: Donald Trump quer anexar o Canadá e a Gronelândia?

"What is the strategy?" "I can't assure you. You're talking about Panama and Greenland. No, I can't assure you on either of those two, but I can say this: we need them for economic security. The Panama Canal was built for our military. I'm not going to commit to that now. It might be that you'll have to do something. Look, the Panama Canal is vital to our country. It's being operated by China. China!"

Numa conferência de imprensa, na terça-feira, em casa, em Mar-a-Lago, na Flórida, Donald Trump não excluía o uso da força ou uma pressão económica severa para obrigar o Panamá a devolver o canal aos Estados Unidos, ou mesmo anexar o Canadá e até a Gronelândia, cuja soberania é detida pela Dinamarca. O presidente eleito norte-americano entende que se trata de territórios essenciais para a defesa económica, e não só, dos Estados Unidos. Esta intenção expansionista de Donald Trump é para levar a sério? Há algum fundo de razoabilidade nestas ideias, tendo em conta que os Estados Unidos são uma democracia com poderes e contrapoderes? É sobre isto que vou conversar com Madalena Moreira, jornalista da secção de internacional do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de quinta-feira, 9 de janeiro. Bem-vinda, Madalena.

Obrigada, Ricardo.

Vamos primeiro olhar para a história, porque parte dos Estados Unidos, parte do país, foi comprada a outros países. Que história é esta?

Não é só uma parte, é mais de metade do país. Quando os Estados Unidos se tornaram independentes do Reino Unido em 1776, eles tinham 13 estados. Hoje, têm 50. E eles cresceram comprando territórios a outros países, principalmente europeus, que também tinham colónias no continente americano. A maior destas compras, que é considerado um dos maiores negócios do imobiliário na história da humanidade, foi o que se chama Louisiana Purchase, em 1803, em que eles compraram a França. Mas eles não compraram só o estado do Louisiana, eles compraram todo o território entre o rio Mississipi e as Montanhas Rochosas, que é, quem olha para o mapa dos Estados Unidos, toda aquela faixa central que hoje se estende ao longo de 15 estados. E depois compraram a Flórida a Espanha, compraram o Novo México e o Arizona ao México, compraram o Alasca à Rússia e depois também se aventuraram além-mar, porque compraram Guam e Porto Rico, que até hoje ainda são territórios norte-americanos, e as Ilhas Virgem.

E Guam é no Pacífico.

Exatamente. Compraram-nos a outros países que são territórios que até hoje não chegaram a estados, mas são administrados por Washington.

As Ilhas Virgens...

São as mais recentes.

Foi recente.

São mais de 100 anos, mas olhando para o panorama, se estamos a falar que a primeira compra foi em 1803, as Ilhas Virgem foram em 1917.

Mas estamos a falar de territórios que neste caso pertenciam a potências europeias, eram colónias. Há na história exemplos de países inteiros que tenham sido vendidos?

Há muitos exemplos de territórios vendidos. Não há um único exemplo de um país inteiro que tenha sido vendido na íntegra a outro país. Há aqui dois casos, se calhar, que se trata do país inteiro, mas eles não são vendidos a outro país. Há o caso do Congo, que na transição entre o século XIX e o século XX foi administrado pelo rei da Bélgica.

O Congo Belga, estás a falar do Congo Belga.

O Congo Belga, mas era antes de ser o Congo Belga, era o Estado Livre do Congo, que era tudo menos livre e era administrado como uma posse privada do rei Leopoldo II da Bélgica. E este foi o primeiro caso de uma crise humanitária que os países ocidentais tentaram resolver, forçando o rei Leopoldo a vender esta posse que ele tinha e vendendo-a a quem? Ao governo da Bélgica, que compensou o rei Leopoldo pelas suas perdas, e a administração passou então para o governo da Bélgica e passou a ser uma colónia como as outras colónias europeias em África.

E qual era o outro exemplo que falavas?

O outro exemplo é o do Haiti, que era uma colónia francesa e foi o primeiro caso de uma revolução em que pessoas escravizadas fazem a revolução, conquistam a independência, governam o país, só que depois o Haiti foi bloqueado pelos restantes países ocidentais e para romper este bloqueio, eles compraram a sua independência.

Tiveram de pagar.

Tiveram de pagar às pessoas que os tinham escravizados, aos colonos franceses que os tinham escravizados. Portanto, são dois casos de países inteiros, mas que não foram comprados.

E já agora, deixa-me fazer aqui uma sugestão, porque há um episódio do podcast do Observador, da Rádio Observador, do "E o Resto é História", precisamente sobre a história do Haiti, que é particularmente interessante e onde explica tudo isso que acabaste de dizer, Madalena Moreira. E no meio disto tudo, também há negócios que correram mal ou não?

Houve, sim, e uma vez mais com os Estados Unidos envolvidos. Eu tinha referido que eles compraram Guam e Porto Rico à Espanha, isto foi em 1898, e o negócio incluía também as Filipinas, que eram uma colónia espanhola à data. Só que o povo filipino nunca reconheceu esta transação entre Espanha e Estados Unidos e revoltou-se contra as forças norte-americanas. Estiveram em guerra durante três anos, a guerra durou três anos, mas os Estados Unidos só reconheceram a independência das Filipinas em 1946. Hoje em dia o povo filipino celebra a sua independência no dia 12 de junho, que remete para a data do acordo de negócios entre Espanha e os Estados Unidos e, portanto, o dia em que eles consideram que se tornaram independentes.

Isso é interessante, essa recusa do povo, eu quero ir aí. Mas antes, diz-me só, a título de curiosidade, Portugal alguma vez fez negócios?

Sim, e tendo em conta a extensão do império colonial que Portugal teve, isso não é muito surpreendente. Foi um caso no final do século XIX, em que Portugal vendeu parte de Angola à Alemanha e parte de Moçambique ao Reino Unido, porque esses dois países tinham colónias nas proximidades e portanto tinham interesse em manter-se na região, e Portugal passava um período de crise económica. Portanto, Portugal assinou um acordo em que recebia-

O que não é propriamente inédito

Não é nada de novo. A história repete-se.

Exato.

Portugal assinou um acordo em que recebia empréstimos de Berlim e de Londres e em troca os dois países puderam estabelecer esferas de influência nos respectivos países. E se Portugal não conseguisse governar Angola e Moçambique, podiam intervir e assumir responsabilidades. Estava tudo previsto nestes acordos.

Com estes negócios, é caso para perguntar, e recordando o caso das Filipinas, com a terra também vêm incluídos os povos, as instituições, a cultura. Como é para um povo mudar de nacionalidade? Não imagino, por exemplo, a nossa reação se Espanha comprasse esta faixa de terreno com vistas desafogadas para o mar aqui na Europa e clima temperado. A nossa reação não deveria ser boa.

Pensando na nossa reação, é muito fácil pensar no que aconteceu às outras pessoas que foram vendidas e perceber a resposta para esta questão. Mas vamos um bocadinho atrás. Como eu disse, a última venda de um território foi em 1917, o caso das Ilhas Virgem. E esta questão do povo é precisamente a resposta para por que passamos mais de 100 anos sem ter havido uma venda. Então, temos que olhar pra questão legal. No direito do século XIX, que era quando estas vendas se efetuaram, um país era o seu território que podia ser comprado e vendido pelo rei, pelo governo, quem quer que o administrasse. Ao longo do século XX, desenvolveu-se um outro conceito, que é o do Estado-nação, em que um país não é só as suas fronteiras, mas também o povo que o habita e que tem o direito a decidir o que acontece no seu país, o que nós chamamos autodeterminação dos povos.

Exatamente.

E que levou à grande vaga da descolonização no pós-Segunda Guerra Mundial. A lição de história para dizer que é por isso que hoje em dia, se for preciso alterar fronteiras, são feitos referendos e acordos políticos baseados na vontade democrática. Ou pelo menos é isso que está previsto no direito internacional. Voltando à história, o que acontecia às pessoas que o seu país era vendido, em muitos casos, os Estados envolvidos na troca recorriam à força e à coerção, sem o respeito pela vontade das pessoas. Noutros casos, como as Filipinas, a venda começou uma guerra, que é o exemplo que as pessoas tentaram revoltar-se contra esta coerção que lhes era imposta.

E já voltamos à conversa com a jornalista Madalena Moreira. Estivemos aqui a perceber o enquadramento histórico que vai ser importante para a segunda parte desta nossa conversa, porque afinal, o que quer Donald Trump com o Canadá, a Gronelândia e até com o Canal do Panamá? Estamos de regresso à conversa com a jornalista Madalena Moreira, da seção de internacional d'O Observador. Madalena, esta não é uma pergunta para queijos, mas atenção, porque esta pergunta pode sair numa noitada de Trivial Pursuit. Quem construiu o Canal do Panamá?

Esta eu sei responder, foram os Estados Unidos.

Muito bem, um queijo pra Madalena.

Só se puder ganhar pontinhos extra. O projeto já tinha sido feito por França e depois nunca avançou e foi o presidente Theodore Roosevelt que pegou naquilo e construiu o Canal do Panamá em 1914. E durante muitos anos, os Estados Unidos é que foram responsáveis pela gestão da passagem entre o Oceano Pacífico e o Oceano Atlântico. Mas em 1977, o presidente Jimmy Carter assinou um tratado em que passava o controle para o Panamá por $1. E isto é uma questão que Donald Trump gosta muito de pegar e que se gosta muito de falar nos Estados Unidos. Mas é claro que este $1 foi um valor simbólico para assinalar o momento em que eles assinam o papel a dizer: "Vamos passar o controle do Canal do Panamá dos Estados Unidos para o Panamá". A entrada em vigor dos acordos, na verdade, demorou 22 anos e só ficou completa em 1999, quando o Panamá passou a ter controle exclusivo do canal. Então, ao longo de 22 anos, os Estados Unidos supervisionaram investimentos, trocas comerciais que foram benéficas para eles, mas também aprofundaram cooperação internacional, que pode ser vista como uma vitória política. Não houve aqui só $1 de lucro. Ainda assim, os acordos não foram unânimes e o facto de terem sido aprovados no Congresso foi visto como uma vitória para Jimmy Carter. Por que esta referência? Porque estão agora a decorrer as cerimônias fúnebres de Jimmy Carter e a questão dos acordos do Canal do Panamá têm sido referidas como um dos pontos mais importantes do seu legado.

E como ouvimos no arranque deste episódio, Donald Trump, que toma posse como presidente dos Estados Unidos a 20 de janeiro, admite ou não exclui o uso de força militar ou pressão a sério, pressão económica, política, para recuperar o Canal do Panamá. Afinal De que é que Donald Trump tem receio? O que se passa aqui?

O principal problema para Donald Trump é o preço das tarifas para passar no canal. Os navios têm que pagar para passar no canal.

A passagem.

Exatamente, que ele considera passar a estar ridículas.

They laugh at us because they think we're stupid, but we're not stupid anymore.

Os Estados Unidos são o principal cliente do Canal do Panamá e, portanto, sentem este aumento de preços, que, um parêntesis, pode ser justificado com a diminuição do caudal, ou seja, com menos água no canal, passam menos barcos e, portanto, se o Panamá quer continuar o lucro, tem que aumentar os preços da passagem. A estratégia de Trump para os Estados Unidos não continuarem a sofrer este roubo, como ele chama, é recuperar o controle total. E depois, há uma segunda questão, mais política, que é o fato da China ter aumentado a sua influência na região, porque depois dos Estados Unidos, a China é o maior cliente e há duas empresas chinesas que, apesar de não terem controle direto, operam nos dois lados do canal, o que lhes dá poder, um poder que Donald Trump não quer tão perto de casa. E, portanto, ele diz mesmo que não quer que o Canal do Panamá caia nas mãos erradas.

E vamos do Panamá para o Canadá. Donald Trump, Madalena, quer anexar o vizinho de cima? Esta vem de onde?

Esta decisão de Trump, esta declaração de Trump de que quer anexar o Canadá, é um jogo político para ter vantagens econômicas. As expressões que ele tem utilizado, que é referir-se ao Canadá como o estado 51, há 50 estados, e portanto, referir-se ao Canadá como o estado 51, ou a Justin Trudeau, o primeiro-ministro canadiano, como o governador do Canadá, são provavelmente toques para pressionar o governo canadiano. Trudeau acabou de apresentar a demissão, há um clima de crise política no Canadá.

Que é o primeiro-ministro.

Exatamente. Há um clima de crise política no Canadá e provavelmente o que o Trump está a querer fazer é aproveitar-se para pressionar o governo e fazer o quê? Assinar um acordo comercial com Donald Trump para que ele possa implementar as famosas tarifas que falou tantas vezes na sua campanha e que desde que foi eleito já prometeu implementar e que ia facilitar o negócio para os Estados Unidos nas suas relações com o Canadá.

E há um ponto importante, que é o da defesa do Canadá, que é assegurada pelos militares norte-americanos em grande medida. O Canadá respondeu o quê a isto?

O Canadá respondeu, foi muito claro, disse: "O Canadá não está à venda, isto não vai acontecer". E na terça-feira, o Justin Trudeau utilizou uma expressão muito concreta, que é: o Canadá tem a mesma hipótese de se juntar aos Estados Unidos de uma bola de neve sobreviver no inferno, ou seja, zero hipótese.

Já que falamos de neve e degelo, vamos ainda mais para norte, para uma ilha gelada, a Gronelândia. Donald Trump entende que os Estados Unidos também precisam deste território, é isso?

Sim, e depois do Canadá, que é uma ideia que não tem qualquer hipótese realista de ser implementada, a ideia da Gronelândia não parece tão descabida. Primeiro, porque é uma ideia antiga que ele já apresentou em 2019, no seu primeiro mandato, e depois porque tem várias justificações. Em primeiro lugar, pode haver minerais raros na Gronelândia que os Estados Unidos querem explorar e é uma oportunidade para o fazerem. Depois, a questão estratégica. Os Estados Unidos já têm uma base na Gronelândia, mas querem aumentar esta influência. Também se coloca novamente a questão de: "Ok, nós podemos fazer, nós, os Estados Unidos, podem fazer isto, então a China também pode". Os Estados Unidos querem chegar lá primeiro para que a China não se aproveite destas áreas de influência. E agora, desde 2019 até 2025, surge uma nova questão, que é novas rotas comerciais que se estão a abrir na Gronelândia por causa do degelo. Isto são as várias justificações que nós podemos-

Porque, no fundo, e passando esta imagem, já é possível dar a volta por cima, não é?

Exatamente, é isso mesmo. O que Donald Trump diz quando faz estas afirmações é que os Estados Unidos precisam da Gronelândia por uma questão de segurança nacional. Mas isto pode incluir tudo o que eu acabei de dizer.

E imagino que a Dinamarca e até a União Europeia não subscrevam esta ideia.

Imaginas muito bem. Em 2019, a Dinamarca já tinha dito que a Gronelândia não estava à venda e agora, com essas declarações, voltou a repetir isso. Mas a Dinamarca sublinha uma coisa importante e interessante, que é: a Gronelândia tem autonomia, ou seja, a Gronelândia tem o seu próprio governo e depende da Dinamarca para questões de negócios estrangeiros e de defesa. Mas os groenlandeses podem tomar decisões e se decidirem que não querem ser dinamarqueses, podem fazer um referendo e declarar a sua independência.

Lá está a tal autonomia dos povos.

A tal autonomia, a tal autodeterminação, que quando a primeira-ministra dinamarquesa diz: "A Gronelândia não está à venda, mas isto é a Gronelândia que diz e nós só estamos a fazer eco das palavras deles", que é uma questão que Donald Trump não considera ao dizer que vai negociar diretamente com a Dinamarca. E depois, tendo em conta que a Dinamarca está integrada na União Europeia, claro que a partir do momento em que Donald Trump disse que não excluía uma intervenção militar para ocupar a Gronelândia, o resto da União Europeia reagiu e, entretanto, França já disse que não vai aceitar ataques contra a Gronelândia, que os Estados Unidos nem precisam de tentar, porque a União Europeia não vai deixar. E coloca-se ainda outra questão para dificultar ainda mais as coisas, que é: estamos a falar de dois estados da NATO. Tanto os Estados Unidos como a Dinamarca fazem parte da NATO. Têm problemas maiores fora da NATO e vão discutir entre eles pela Gronelândia? Não sabemos.

Madalena Há fogo neste fumo? Porque às vezes não há fumo sem fogo. Isto é para levar a sério?

Depende dos casos. Como eu disse, o da Gronelândia tem se repetido e é o menos descabido, mas o que Donald Trump tem que fazer, se estiver a ser realista sobre isto, é largar a narrativa comercial e adotar uma coisa de: "a Gronelândia pode ser independente e colaborar conosco, porque se vocês precisam é de um orçamento de defesa, então os Estados Unidos podem dar um orçamento de defesa maior que a Dinamarca." Agora, no Canadá é impossível levar a sério e pode haver muito fumo, mas provavelmente é fumo para tapar outras coisas e não vai haver fogo no Canadá. Do ponto de vista interno, a decisão não passa só por Trump, porque a Constituição prevê que a aquisição de territórios e a formação de novos Estados pode existir, sim, mas é uma decisão que tem que ser tomada pelo Congresso, é um processo que passa pelo Congresso. E apesar de o Partido Republicano de Trump ter conseguido uma maioria no Parlamento, nem todos os republicanos concordam com todas as afirmações de Donald Trump. Portanto, não é garantido que o Congresso concorde com estas afirmações.

Madalena, já agora diz-me lá, quanto é que custou a Flórida?

A Flórida em 1819 custava $5 milhões. O New York Times diz que hoje em dia seriam $101 milhões.

101?

101. Não é um mau negócio.

Não acho caro. Já vi casas mais caras nos Estados Unidos. Obrigado, Madalena.

Obrigada eu, Ricardo.

Madalena Moreira é jornalista da secção de internacional do Observador. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Artur Costa, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.