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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Trump vai acabar as guerras com um telefonema?
"I could stop wars with just a telephone call."
Donald Trump está de volta à Casa Branca e prometeu acabar com a guerra na Ucrânia e com o conflito israelo-palestiniano. O que isso significa para Zelensky?
"He hasn't even made a phone call in two years to Putin, hasn't spoken to anybody. They don't even try and get it. That is a war that's dying to be settled. I will get it settled before I even become president."
E a NATO? Os Estados Unidos vão sair da organização transatlântica?
"For years, we were paying almost all of NATO. We were being ripped off by European nations."
Vou conversar com Jorge Rodrigues, oficial do exército e coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Eu sou a Teresa Abécassis e esta é a história do dia de quinta-feira, 07 de novembro. Bem-vindo, Jorge Rodrigues.
Obrigado pelo convite mais uma vez, Teresa.
Trump está de regresso à Casa Branca. O que podemos esperar nos próximos meses?
Em boa verdade, nós já tivemos uma primeira experiência com Donald Trump no primeiro mandato. De alguma forma, ele desenvolveu uma competição com a China, retirou-se das instituições internacionais e agora voltou a falar novamente numa agenda América First, que verdadeiramente parece querer levar um pouco mais além. Tendo agora legitimidade total, não há dúvida quanto a isso, a vitória é perfeitamente clara. Espera-se agora um ajuste das placas tectônicas, sendo com esse competidor global como a China, que procura a nova ordem internacional, mas em boa verdade, com algumas agravantes que eu considero particularmente relevantes. A primeira é o controle total do processo político, que lhe pode retirar os checks and balances, visto que tem o controle das duas câmaras do Congresso, pelo menos por mais dois anos. Naturalmente, uma pior equipa, não no caso do vice-presidente, mas não terá um General Mattis para o Pentágono, um General McMaster para o Conselho de Segurança Nacional, e depois pela personalização, que acaba por levar a um vingativismo, como alguém designou, que poderá ser extremamente perigoso. No entanto, quero ressalvar que haverá orientações estratégicas que já vêm desde o tempo de Obama, pelo menos, e que constam inclusivamente em alguns documentos oficiais, como o National Security Strategy, e que isso passa basicamente por dois grandes vetores. A questão das prioridades definidas para a Ásia-Pacífico, onde concentra meios, naturalmente, em que a Europa e o Médio Oriente vêm depois dessa prioridade, que é considerada como total, e a retração estratégica de vários pontos do globo, nomeadamente do Médio Oriente, que estava a desenvolver, do Iraque, do Afeganistão. Relembrar que esteve em 178 países e que de alguma forma haverá essa retração. Estamos a falar de uma superpotência que acaba por assumir agora uma disfuncionalidade geopolítica relevante pela imprevisibilidade, pelo erratismo. Nós sabemos que o Trump não é diplomático, não estuda dossiês. E naturalmente, aquilo que eu disse há pouco, do não multilateralismo, com a saída das organizações internacionais, acaba por criar um vazio, e um vazio em geopolítica não existe. Será sempre ocupado na China, como foi na região da Ásia-Pacífico quando saiu das organizações regionais, e pelas potências regionais, sempre à espera de ocupar espaços. Em última análise, não haverá dúvidas que China será sempre a maior ameaça a nível global, mas também a Rússia manterá uma referência, embora como uma referência regional, como consta nos vários documentos.
Olhando aqui pro continente europeu, a vitória de Donald Trump deve preocupar Volodymyr Zelenskyy?
Naturalmente que sim. Aliás, há várias expressões que deixam isso bem claro, que a Ucrânia deveria ter feito mais concessões desde fevereiro de 2022, estaríamos em paz. Logo, demonstra qual é o ponto de partida de Trump, que é um problema da Europa, portanto afastando os Estados Unidos dessa questão. E portanto, prevê-se que haverá realmente alterações. Aliás, Zelenskyy deixou bem claro, até na própria mensagem de apoio, em que foi dando parabéns e que falávamos de um Estados Unidos forte, etc. Mas em boa verdade, apelou à esperança de se manter um apoio bipartidário. Tendo em conta que Trump domina tudo neste momento e os republicanos, Trump e os republicanos, naturalmente, deixar o bipartidário demonstra alguma preocupação direta sobre a continuidade do apoio. E é aqui que está verdadeiramente a questão.
Donald Trump disse várias vezes que é muito crítico do investimento norte-americano na Ucrânia, do apoio financeiro à guerra na Ucrânia.
É exatamente isso que está em questão, Teresa. É exatamente essa a questão, visto que uma diminuição de apoio a Kiev iria asfixiar progressivamente, que a Europa não consegue compensar sem os Estados Unidos, basicamente, e como diz o Kiel Institute, passaríamos de 59 mil milhões para 39 mil milhões de euros de apoio. É uma diferença substancial. Mas a verdade é que Trump, apesar de não se comprometer com mais apoio Não contrariou o apoio que a NATO referiu de 40 mil milhões para 2025, ou seja, é global, os Estados Unidos estão lá, têm uma fatia substancial, mas ainda não será definitiva esta decisão. Seja como for, é preocupante e no caso de Zelensky estaria muito preocupado com esta nova situação.
Donald Trump disse até durante a campanha que iria resolver a guerra na Ucrânia ainda antes de tomar posse, o que está previsto para 20 de janeiro. Chegou mesmo a dizer que o faria apenas com um telefonema.
Imediatista e sem paciência, é Trump. Portanto, se não conseguir resolver no imediato e se os vários atores não estiverem alinhados com Trump, poderemos ter algumas questões que derretem a paciência e que de alguma forma façam alterar a estratégia de Trump para a região. Uma coisa é certa, parece-me que será um pouco mais difícil a autorização de armamento dos Estados Unidos em ataques ao território russo, e que, em boa verdade, a situação complexa em que se encontra a Ucrânia neste momento, seja a nível de recursos humanos, seja materiais, seja a situação na linha da frente com a Rússia, com ganhos na região do Donbass, e seja mesmo a iniciativa e o grande esforço da Rússia em ocupar terreno neste momento para ganhar uma posição vantajosa, apesar de perdas inacreditáveis, isto de alguma forma poderá vir a forçar para obter um acordo de paz, eventualmente mesmo com perdas de território nacional por parte da Ucrânia.
Perguntei por Volodymyr Zelensky, mas também há um outro ator neste conflito. Trump gaba-se de ter uma boa relação com Putin. Putin, por seu lado, deverá estar contente com esta vitória?
Sim e não. O sim é direto, porque realmente há relações pessoais próximas ou relativamente próximas. Aliás, há quem questione até que ponto Putin realmente controla Trump. Mas em boa verdade, no primeiro mandato, o Trump aplicou sanções na sequência da invasão de 2014 e retirou-se de vários acordos bilaterais. Portanto, em resumo, parecendo vantajoso para os interesses da Rússia, de facto, não será uma mudança decisiva e não é vista assim por Moscovo. Em primeiro lugar, porque os Estados Unidos é um adversário da Rússia. Isso não há dúvida que há interesses conflituais, alguns deles inclusivamente vitais, especialmente através dos republicanos. E o eurasianismo do Dugin, que é uma doutrina que de alguma forma Putin segue, é muito negativamente aproximada por Estados Unidos. Estados Unidos têm exatamente uma visão contrária, pretende que a Eurásia não se sinta unida e com força para contrariar o exceptionalismo dos Estados Unidos.
Ainda olhando para o continente europeu, há outro amigo famoso de Donald Trump que não é conhecido por ser um democrata. Falo de Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria. Isto vai ter repercussões na Europa? O que podemos esperar deste lado do Atlântico?
Naturalmente, Trump vai aproveitar as divisões na Europa. A Europa tem muito a perder e está preocupada. Eu julgo, no entanto, que também pode ser visto como uma oportunidade. É curioso que na sequência das eleições, as ações das empresas do setor de defesa foram as que mais aumentaram, porque a União Europeia vai ter que investir na sua segurança. Mas verdadeiramente nós temos aqui questões dentro, preocupações de tensões comerciais, de fugas de empresas e know-how, e eventualmente a tal oportunidade para autonomia estratégica europeia, que vai surgindo, vai surgir com o relatório Draghi, que fala em competitividade, fala em sair da potência herbívora a nível geopolítico, mas também Macron, que vem falando e reforçou aqui uma análise de segurança, reindustrialização e o repensar da descolonização. De alguma forma, é também uma oportunidade para a Europa e os atores, se se conseguirem manter unidos e definir uma estratégia comum.
Já voltamos à conversa com o Jorge Rodrigues. Na segunda parte falamos da NATO e ainda do conflito em Israel. Estamos de regresso à conversa com Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Olhamos agora para a NATO. Trump já se queixou muitas vezes que a aliança transatlântica vive às custas dos Estados Unidos. Os próximos anos vão ser mais complicados para a NATO?
Sim, isso não há a mínima dúvida. Nesta questão, não há realmente a mínima dúvida, porque é um crítico da NATO, em especial do contributo de determinados membros. O ponto que realmente é aqui também relevante é que os Estados Unidos são, de facto, o maior financiador da NATO, com 968 mil milhões de dólares, salvo erro. A nível de defesa, bem entendido, e que acaba por ser particularmente relevante por esse facto e pelo número de militares que tem. Mas, por outro lado, há uma tentativa pelos vários líderes europeus e em especial por Mark Rutte, que é conhecido por o Teflon Mark, exactamente pela flexibilidade e capacidade de negociação política que tem caído bem a Trump, ou seja, elogiando Trump desde cedo, deixando claro que Trump fez bem em pressionar na cimeira da NATO 2018 para que a Europa gaste mais em defesa, o que não foi verdade, mas permitiu que esse crédito fosse atribuído a Trump, o que o deixou contente, naturalmente, e que criou ou ajudou a desenvolver um esforço para que haja uma componente de segurança europeia dentro da NATO. Esse pilar de defesa poderá, de alguma forma, apaziguar Washington de uma maneira geral e Trump de uma maneira particular e evitar que haja essa saída. No entanto, espera-se um menor empenhamento, que irá definitivamente ter consequências. Isso não há a mínima dúvida, desde que, e é importante esse fator, os aliados também vão de encontro às preocupações de Trump e não será exclusivamente a Rússia, mas também, e em especial, a questão da China e da competição na Ásia-Pacífico.
Olhando para outra região do globo, para o Médio Oriente, há uma outra guerra que Trump prometeu acabar e que envolve outro amigo do próximo presidente dos Estados Unidos. Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelita, já disse que Trump é o melhor amigo que Israel alguma vez teve na Casa Branca. É assim?
Estará perto disso. O primeiro mandato dele demonstrou. Em primeiro lugar, reconheceu a capital em Jerusalém, moveu a embaixada para Jerusalém, esteve sempre próximo de Netanyahu, e Netanyahu referenciou inclusivamente agora o regresso de um grande político da história, uma expressão forte. Portanto, de alguma forma compensou a estratégia de Netanyahu de manter o conflito até às eleições. Aproveitou inclusivamente agora, no meio do fumo, para demitir o ministro da Defesa Nacional Gallant, que foi colocando em causa a estratégia de não acordo de paz para Gaza e a ausência de estratégia de longo termo para resolução da questão. Portanto, foi eliminando mais um adversário para a sequência estratégica que pretende que se siga em Israel. Portanto, a retratação estratégica que há pouco falava, que era uma intenção dos Estados Unidos, não poderia de alguma forma também pôr em causa esse aliado permanente de Israel. Todos os outros restantes aliados são conjunturais na região, mas a comunidade judaica, por um lado, o lobby, os votos, a força económica e, por outro, a preocupação que os norte-americanos têm em manter uma proximidade para a região e Israel ser esse único aliado, acaba por lhe transmitir uma força e uma permanência de conjugação de esforços, por exemplo, face a um inimigo comum como o Irão, que verdadeiramente é um competidor e que se pretende controlar o programa nuclear iraniano, mas por outro lado também em valorizar os acordos abraâmicos e com isso aproximar os Emirados, a Arábia Saudita, sem deixar de, no entanto, transmitir bem claro que não gosta da solução de dois Estados. Portanto, tudo isto acaba por ir muito ao encontro da intenção de Netanyahu e criar linhas de conjugação de concordância que lhe permitirá, e muito rapidamente, controlar as fontes energéticas da região, as carreiras de supply chain, o controle dos choke points, como o canal de Suez, o Hormuz ou Bab-el-Mandeb, e obviamente evitar que haja uma afectação das rotas de comércio global, uma preocupação extraordinária para os Estados Unidos e naturalmente também a nível global.
Só para voltar ao início do episódio, Trump prometeu acabar com as guerras com um telefonema, com a sua eleição não nos coloca mais perto da paz.
Poderá acontecer na Ucrânia, por uma paz que não é favorável aos ucranianos. Não me parece que nos aproxime da paz, até porque os próprios actores locais também não o procuram, na região de Israel e Gaza. Aí teremos mais dificuldades. No entanto, como disse, isto é uma competição também ela a nível global, há uma competição a nível global e a reação de outros actores também será determinante nestes próximos tempos.
Obrigada, Jorge Rodrigues.
Obrigada, até breve.
Jorge Rodrigues é oficial do Exército, esteve em várias missões internacionais e é coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Teresa Bacacis, até amanhã.