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Esta é a história do dia: quem é Volodymyr Zelensky, o presidente da Ucrânia?

"Всем добрый вечер. Лидер фракции тут, глава офиса президента тут, премьер-министр Шмыгаль тут".

Zelensky, aqui acompanhado por elementos próximos do gabinete, grava um vídeo na noite de Kiev, em plena rua, para garantir que não vai abandonar a cidade.

"Наша держава и так будет далее. Слава нашим защитникам, слава нашим защитницам. Слава Украине! Героям слава!"

Na, na, na, na, na.

Volodymyr é ator, humorista e ganhou fama ao fazer o papel de um professor do secundário que acaba como Presidente justiceiro.

Нахуй дачи, нахуй всех вас сука нахуй! Чтобы блядь простой учитель жил как президент, а президент этот сука жил как учитель. Это я тебе как учитель истории. Это тебе по хуй.

Quem é este homem que passou de vencedor improvável de eleições a herói da resistência? Hoje vou conversar com Bruno Cardoso Reis, historiador e especialista em relações internacionais. Bem-vindo, Bruno Cardoso Reis.

Obrigado.

Já viste algum episódio do "Servidor do Povo"?

Infelizmente não. Acho que não está disponível na Netflix nem nos outros serviços de streaming. Vi uns pequenos clipes.

A grande pergunta agora, Bruno Cardoso Reis, é: quem é Volodymyr Zelensky?

Eu acho que uma parte importante da resposta é que é um judeu. Portanto, esta ideia de que é líder de um governo nazi ou neonazi é um pouco estranha, difícil de acreditar. É um jovem também, tem 44 anos e basicamente é um actor, um comediante, um apresentador de programas televisivos até 2019, em que decide, depois de fazer um programa televisivo, este "Servidor do Povo", em que ele fazia de conta que era presidente da Ucrânia, Decide realmente concorrer a presidente da Ucrânia e acaba eleito com mais de 60% dos votos presidente da Ucrânia.

E até já o vimos em vídeos no Twitter rodopiar no salão naquele programa, na versão ucraniana, Dança com as Estrelas. E ele dança bem. Falaste nessa questão de ele interpretar uma personagem num programa de humor que é um professor de secundário.

Um professor de História.

Que faz um discurso inflamado e vai acabar na política.

Пиздат и пиздат, Пиздати с и пиздат ударения разные смысла один и тот же им всем похер понимаешь ты или нет.

Como é que se dá o salto do humor e da televisão pra política?

Eu acho que a grande explicação da popularidade dele e do sucesso dele é precisamente essa, é precisamente ele, por paradoxal que seja, não vir da política, não estar envolvido na política, basicamente até concorrer a presidente. O grande ponto positivo que ele utiliza na campanha, além obviamente das suas capacidades de comunicador e o reconhecimento que tinha, a popularidade que tinha, mas é este argumento: "Votem em mim porque eu não sou um político como aqueles que vocês estão habituados, envolvidos em escândalos, em corrupção, em esquemas obscuros. Eu sou a alternativa jovem e fora deste esquema e que pode, de forma credível, dizer que vai tentar combater a corrupção, a cleptocracia ucraniana."

Vou pegar nesse ponto, porque importa aqui pararmos um pouco a história de Zelensky para perceber o que está por trás de Zelensky. Temos protestos violentos na Praça Maidan, uma Revolução Laranja. Bruno Cardoso Reis, consegues resumir a história da Ucrânia em dois minutos, os últimos 20 anos pelo menos?

Sim. A história da Ucrânia é muito interessante, muito rica, também cheia de tragédias históricas ao longo dos séculos, mas mesmo os últimos 20 anos têm muita coisa com que nos entreter. Basicamente, eu diria, temos aqui uma série de presidentes que oscilam entre tentar uma aproximação à Rússia e uma aproximação maior aos países ocidentais. Um dado muito importante é que, seja por via de revoluções como essas de Euromaidan, seja por via de eleições, por muitos problemas que haja na democracia ucraniana, por muitos problemas que haja de corrupção, realmente é um país que tenta ser uma democracia e em que de vez em quando, ao contrário, por exemplo, da Rússia, os presidentes mudam porque as pessoas não querem que eles continuem, seja por via de revoluções, seja por via de eleições.

Depois de todos esses anos conturbados, também violentos, Volodymyr Zelensky, como dizias há pouco, vence as eleições em 2019. Vence com mais de 73% dos votos.

Зараз дуже дякую кожному. Зараз не буде ніякого пафосу

Isto com as tais promessas de limpar o Estado, limpar a corrupção. Mas terá sido bem assim ao fim de três anos ou não?

É muito difícil fazer isso. Ele era acusado de ser um pouco também uma figura demasiado próxima do oligarca, de um desses milionários com alguns negócios mais estranhos que controlava a estação de televisão em que ele trabalhava. Por outro lado, a resposta que ele deu foi: "Mas toda gente na Ucrânia trabalha em empresas de oligarcas e, portanto, nem todos os ucranianos são instrumento desse sistema." É assim que o sistema está montado. Agora, eu penso que apesar tudo, procurei até com mais atenção hoje, não encontrei referências de que houvesse negócios estranhos ou enriquecimento súbito. Portanto, aparentemente pelo menos ele ter-se-á mais ou menos mantido fiel a essa promessa. Obviamente está longe de ter resolvido todos os problemas da Ucrânia, até porque este contexto geopolítico torna muito complicado resolver os problemas da Ucrânia.

Ele vence Poroshenko à segunda volta nas presidenciais. Poroshenko, que é outro oligarca.

Exato, é o homem do chocolate, o grande milionário do chocolate na Ucrânia. Lá está, será um oligarca, certamente terá negócios mas aceitou a derrota. Aliás, está presente, está em Kiev. Declarou seu apoio ao atual governo.

E de Kalashnikov na mão, na rua.

Por muito disfuncional lá esta que esteja o sistema, eu acho que apesar tudo há que valorizar aqui algumas virtualidades democráticas na Ucrânia.

E num primeiro momento depois da eleição de Volodymyr Zelensky, Moscovo até gostou do resultado?

Eu acho que houve sinais de uma certa expectativa positiva. Porque precisamente ele era um outsider, era alguém que vinha de fora e поэтому não entrava bem. Moscovo teria preferido um candidato mais próximo da Rússia, daqueles partidos mais pró-russos, mas apesar tudo não era alguém que viesse daquela elite também da oposição muito hostil à Rússia ou muito crítica da Rússia. Houve alguma expectativa positiva, mas rapidamente se percebeu que ele não iria alinhar com a agenda que agradava ao Kremlin. E portanto rápidamente as coisas azedaram.

Nestes três anos de mandato de Zelensky, há também um episódio muito marcante que com toda esta situação que estamos a viver quase que já nem nos lembramos do episódio Biden Trump.

Thank you very much it's a deal well done. Thank you very much mister president. President Zelensky have you felt any pressure from president Trump to investigate his political rivals in the United States including his son Hunter who is under investigation for possible corruption involving Ukraine and Joe Biden when he was vice president of the Unites Stated. I am sorry but I don’t want to be involved through democratic often. In other words no pressure. O presidente Zelensky vai precisamente elogiar muito o presidente Trump, que outros líderes europeus também fizeram para tentar, digamos, o próprio presidente Macron por exemplo, ganhar aqui alguma margem de manobra com ele, dizer que tinha aprendido muito com ele em termos de política, que conhecia até algumas das suas estratégias eleitorais etc. O que é interessante e que mostra realmente que convém não subestimar o Zelensky.

The phone call It was normal we spoke about many things so I think that nobody pushed me yes.

In other word no pressure De facto nunca se compromete consegue sem nunca chocar de frente com o Presidente Trump obviamente os Estados Unidos são aqui um aliado crucial nesta tensão com a Rússia sem nunca ofender o Presidente Trump ou dizer taxativamente que não ele nunca se compromete em fazer aquilo que o Presidente Trump lhe pede que é no fundo uma investigação ao filho de Joe Biden que estava ligado a empresa de um destes oligarcas Ucranianos.

É um ator, é um homem de comunicação, no entanto também nos chegam relatos de uma má relação com os jornalistas na Ucrânia e também com a crítica que não lida bem com o escrutínio que é normal numa sociedade democrática.

Sim há alguns clipes dele ter uma postura muito agressiva em resposta a perguntas que não lhe agradam da imprensa. Apesar de tudo eu acho que isso acontece mesmo em democracias muito consolidadas o presidente Biden de vez em quando também tem pedido desculpa aos jornalistas porque se excedeu. A comparação mais uma vez pertinente neste momento acho eu é com a Rússia. Temos aquelas famosas conferências de imprensa do presidente Putin durante horas em que estranhamente não há nenhum jornalista que se lembre de lhe fazer uma pergunta incômoda, e que o leva a perder um bocadinho a cabeça.

Um humorista que não sabia nada de política começa como figura de um professor numa série de televisão que depois vai a presidente agora é mesmo o presidente e é um presidente num país em guerra. Esta duplicidade entre o político e o ator é um mau momento pra Ucrânia ou até pode ser bom Bruno?

Uma análise muito superficial diria bem, um ator obviamente não é um líder de guerra não é dum período de guerra.

É uma estrela de televisão ele né?

É uma estrela de televisão não terá a densidade. Eu acho que isso é erro neste sentido. A comunicação é algo que é absolutamente crucial num contexto de guerra. Obviamente que eu não estou aqui comparar o Zelensky com o Churchill,é certamente demasiado cedo para dizer isso, mas o Churchill, o próprio De Gaulle eram grandes comunicadores. Isso foi absolutamente crucial na resistência britânica ou francesa na Segunda Guerra Mundial.

We shall fight in the fields and in the streets We shall fight in the hills we shall never surrender Que l'honneur des Français consiste á continuer la guerre aux côtés de leurs alliés et nous sommes résolus á le faire Mr. Gorbachev, tear down this wall!

No final da Guerra Fria, o presidente Reagan era realmente um ator e que também foi muito subestimado e criticado porque não passava de um mau ator, como é que podia dar um bom Presidente? No entanto, a sua capacidade de comunicação também foi muito importante em termos dessa fase final da Guerra Fria. Eu acho que esta dimensão de comunicação num contexto de guerra é muito importante. Depois há outros aspetos que teremos de ver se ele revela as capacidades necessárias.

E ele usa muito bem as redes sociais, não é?

Sim, é um comunicador dos tempos atuais, está à vontade nas redes sociais. Isso é um mecanismo que foi crucial para a própria vitória eleitoral dele. Tal como o presidente Trump, neste modelo um pouco populista, mas realmente neste contexto atual são uma exceção. Ele utilizou não só em relação à população ucraniana, mas até em relação à população russa. Não se pode atribuir diretamente estas manifestações de jovens russos contra a guerra apenas ao presidente Zelensky, ou principalmente, mas ele teve o cuidado de gravar uma mensagem em russo para as redes. Escapam à censura.

Ele fala russo desde criança.

Exatamente, é uma língua nativa pra ele também e dizer: "Atenção, nós não confundimos o governo Putin no Kremlin com o povo russo, apelamos ao povo russo para se manifestar contra esta guerra, que é má para todos nós, para os russos e para os ucranianos."

Quanto disso pode ser verdade ou é plástico? Não interessa isso nesta altura ou interessa?

Eu acho que há aqui certamente uma dimensão de retórica e de técnica de comunicação. Há aqui dado factual que é crucial para eficácia desta mensagem, que é, ao contrário do que aconteceu no Afeganistão, em que o presidente Ashraf Ghani basicamente fugiu da capital e levou ao completo colapso qualquer possibilidade de resistência, ele está em Kiev. Ele deixou claro que não vai fugir, que essa não é uma possibilidade que coloque. Acho que isso dá credibilidade à mensagem e é muito importante para mobilizar e moralizar a resistência ucraniana à invasão russa.

Obrigado, Bruno Cardoso Reis.

Obrigado eu.

Na Rádio e no jornal continuamos a acompanhar ao minuto a situação na Ucrânia onde estão os enviados especiais do Observador Cátia Bruno e João Profírio. Esta foi a história do dia, a música do genérico e a sonoplastia são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.