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A luzinha, essas várias luzinhas ao fim do túnel. Uma luz concreta, exata, ao fundo do túnel. A luz ao fundo do túnel.

Markus Genga é um guitarrista norte-americano, vencedor de vários prêmios internacionais e com concertos em dezenas de países. A pandemia obrigou-o a cancelar muitos espetáculos, mas agora Mark volta a atuar ao vivo. Em Teppan, uma aldeia no estado de Nova York, Mark atua em frente a um lago. O público está dentro d'água, em pequenas embarcações, e está também no jardim, a garantir o distanciamento social. A canção é dos Beatles, "Day Tripper". Foi assim que Mark terminou este concerto de regresso às atuações depois do confinamento. Os Estados Unidos da América já estão a desconfinar. A Europa também, e cada vez a maior velocidade. Na segunda-feira, 15 de junho, Alemanha, França, Grécia, Bélgica, Suíça e Holanda reabriram as fronteiras para quem viaja a partir dos países do espaço Schengen. A Itália já o tinha feito no dia 3. Espanha vai reabrir no dia 22. A circulação de pessoas está a ser reposta e as empresas de transporte, na aviação e na ferrovia, procuram agora garantir condições de segurança para realizar as viagens. Em Portugal, no próximo dia 1 de julho, as fronteiras com Espanha vão reabrir. Deixa de existir controle, como acontece desde o dia 17 de março. Até lá, vão avançando as fases de desconfinamento. Esta semana, a região de Lisboa e Vale do Tejo entrou na mesma velocidade que o resto do país. Apesar de continuar a registar mais de 200 casos por dia, esta região continua a desconfinar e na segunda-feira reabriram centros comerciais, lojas do cidadão e já são permitidos ajuntamentos até 20 pessoas. São poucos os setores que não têm autorização para reabrir. Um deles é o dos bares e discotecas. Enquanto estão encerrados, repetem-se os casos de festas e ajuntamentos ilegais durante a noite. Por isso, hoje falamos da luz que tarda em surgir para o setor da vida noturna.

Nós vamos determinar o encerramento das discotecas e estabelecimentos similares.

O anúncio foi feito por António Costa no dia 12 de março, uma semana antes de ser decretado o estado de emergência. Desde então, estes espaços não voltaram a reabrir. Três meses passados, o futuro continua incerto. O primeiro-ministro já assumiu mesmo que as discotecas e os bares noturnos podem nem reabrir neste verão, mas, para já, não há garantias. Os donos destes espaços criticam o silêncio das autoridades e do governo e pedem respostas, prazos, pedem uma luz ao fundo do túnel. Qual o impacto da pandemia neste setor e de que forma podem reabrir? João Magalhães tenta responder. É dono do Bliss Vilamoura, no Algarve, e do MOM, em Lisboa, duas discotecas. Gere também os bares do Casino do Estoril, que já tiveram autorização para reabrir. Bom dia, João.

Bom dia.

Tudo bem?

Bom dia, tudo bem. Muito obrigado.

João, vamos falar sobre o setor dos bares e das discotecas. É um dos poucos setores que continua encerrado e sem previsão para reabrir. O João Magalhães é dono de vários espaços, o Bliss, em Vilamoura, a discoteca MOM, em Lisboa, dois espaços que continuam fechados. Gere também os bares do Casino Estoril, que neste caso já reabriram. Nos últimos dias, vários agentes destes setores pedem a reabertura. João, a questão aqui é: como é que podem garantir a segurança a nível sanitário para voltarem a abrir portas?

Nós temos tido várias reuniões com a AReSP, com propostas exatamente nesse sentido, e existem em cima da mesa várias formas de poder garantir essa segurança. Uma delas, como é óbvio, nós temos aqui sempre em discussão a característica física dos espaços, porque embora estejamos a falar sobre o setor, há situações que são diferentes. Vamos imaginar um espaço ao ar livre e com condições de tamanho, da disponibilidade de pôr os equipamentos tipo privados e que as pessoas entrem só para privados, à semelhança que se faz no Dubai, com discotecas que não têm pista de dança e faz a orientação exatamente igual à entrada como restaurante. As pessoas dirigirem-se à porta em grupos máximo de oito pessoas e depois são encaminhados para os privados, e esses privados têm a distância que é exigível dos dois metros. Isso é uma das situações que garante totalmente, e é eficaz, a tal segurança que se pede para uma solução destas. No caso das discotecas fechadas e que têm outras condições físicas, como é óbvio, temos sempre falado em relação à lotação, em relação à maneira como as pessoas na própria pista de dança se comportam, com controle das pessoas por pista de dança. Isso, obviamente, temos tido aqui algumas discussões, porque há uma diferença muito grande entre as características dos espaços. Há uns que, de facto, se conseguem apresentar melhores condições e há outros que existem mais dificuldades, mas se olharmos pra questão da lotação, tudo é possível.

João, mesmo a nível de comunicação, de promoção destes espaços, estamos a falar de discotecas, espaços que promovem o contacto, a celebração e o consumo de álcool. Como é que se consegue garantir que, promovendo tudo isso e também a segurança a nível sanitário, se conseguem garantir essas regras?

Isso é uma questão pertinente e compreensível, que as pessoas olharem para um setor como este, que tem características que nós todos sabemos, nomeadamente o vender álcool, as pessoas estarem em diversão total e de poder haver algum descontrolo, e esse tal controle do distanciamento das pessoas ser posto em causa. Mas deixe-me que lhe diga que, a partir do momento que o próprio governo abre vários setores que nós consideramos que não diferem muito destas características técnicas de poderem garantir realmente o não contágio, eu acho que a partir daqui, nós sabendo que também temos esse risco, vai ter que haver um controle muito eficaz, as seguranças têm que estar muito atentos ao comportamento das pessoas. Há limitações aqui que nós próprios sabemos que podem pôr em risco o próprio negócio, até levar à não abertura, dizer que dado o perfil da característica de animação, isso não se enquadrar e mais vale estar fechado. É verdade, mas também se não começarmos a desenhar aqui uma série de possibilidades e executá-las, também nunca vamos chegar a uma ideia. E o que eu acho é que perante a abertura de outros setores que também oferecem tanto risco como a discoteca, eu acho que merecemos um voto de confiança, muito honestamente, porque essa questão que me colocou, com certeza que vai colocar aos transportes públicos, aos ginásios, a n situações que têm um risco tão elevado como esse. E a questão é que esses setores já estão a funcionar e nós não. Eu acho que o governo tem que começar a pensar em dar esse voto de confiança também a nós. Isso é uma questão que não é descabida. E deixe-me que lhe diga que, se assim não for, nós temos estado a assistir a vários focos, nomeadamente com festas ilegais, com encontros e não, eu passei num parque de estacionamento aqui junto a Cascais e estavam centenas de jovens num botelão. E tenho a certeza absoluta que aqueles pais estavam em casa a pensar que os filhos estavam em uma situação segura e estavam completamente todos a conviverem uns com os outros e sem qualquer tipo de controle. A partir daqui, temos um problema que é pior do que dar um voto de confiança aos empresários que sabem.

E a reabertura dos bares e discotecas podia ser essencial para evitar esse cenário?

É essencial, é vigiado, é no fundo, fazer aqui uma colaboração com os empresários que têm o know-how no setor. Se me fizesse essa pergunta há 15 dias ou um mês, eu se calhar respondia-lhe a dizer: não, acho que há muitos setores que oferecem menos risco e têm que abrir e que têm essa prioridade. Mas ao dia de hoje, eu acho que havendo abertura para outras situações que igualmente oferecem um grau muito elevado de risco, nós temos que ter também um voto de confiança. Essa é a questão de fundo, porque pior que isto tudo, Miguel, é não haver sequer discussão. Vamos ver o seguinte, o que é a indignação do setor?

Incerteza.

Pior que isso. Se não for um jornalista ou o governo que é feito os bares e as discotecas, não há discussão. E mesmo que depois houvesse uma resposta negativa e nos dissessem: "Vocês não têm condições nenhumas para abrir, isto é alto risco." Mas, no momento, e isso é que está a revoltar todas as pessoas do setor, é que nem sequer há discussão, que existe uma mão cheia no ar, não há discussão, não há nada. E as pessoas estão a ficar indignadas, estão se a sentir discriminadas e nós todos. Se pegarmos, por exemplo, o caso dos bares, eu não vejo mal nenhum que os bares voltem à sua forma antiga, que o Irish Pub antigo, como nós conhecemos, é sentado. E acho que tem que se dar ao setor uma oportunidade de abrir e de uma forma como nós conhecemos os bares antigos, como um pub, que nós chamávamos pub, e dar aqui uma oportunidade das pessoas começarem a ver os seus negócios funcionarem. No caso das discotecas, eu vou falar do Bliss, vou falar do Lust, vou falar do Urban, vou falar do Pachá do Alfir, vou falar do Lik, vou falar de vários espaços que têm condições ao ar livre, que podem fazer este sistema dos camarotes como nós demos ideia, as discotecas que existem no Dubai, em Miami, que não têm pista de dança e que o controle que consegue fazer é exatamente o que faz no restaurante e nós aí não vemos diferenças nenhumas. E esse é um caminho totalmente seguro e que não tem discussão, tecnicamente, que não haja a possibilidade de o fazer. E aqui está mesmo o fundo da questão, é que não há discussão. Não há discussão, ninguém nos ouve, ninguém dá uma ideia ou uma orientação. Isso é revoltante.

João, estamos a olhar muito para aquilo que pode vir a acontecer nos próximos dias, próximas semanas, e do plano que têm para essa reabertura. Queria olhar um pouco também para trás. Estes espaços, discotecas e bares noturnos estão encerrados já há mais de três meses. Qual é que é neste momento o impacto, o prejuízo de estar encerrado por tanto tempo?

O impacto é muito grande. Desde todas as empresas que prestam serviço, desde os artistas, todo mundo que gira à volta destes espaços, que é uma mancha muito grande, eu acho que até agora não tem havido uma reflexão sobre este assunto, porque obviamente as discotecas envolvem muita gente, metem o prato de sopa em cima da mesa de muita gente. O grande perfil destes trabalhadores das discotecas, às vezes são jovens universitários que conseguem estar a trabalhar, porque a discoteca tem uma característica de funcionamento que nós sabemos, são três, quatro dias por semana. Isso permite que eles tenham mais tempo para poder estudar. E muitos desses jovens trabalham em discotecas Porque também conseguem, ao mesmo tempo, ir tirando os seus cursos. E o que é uma coisa engraçada é que muitas das pessoas que hoje em dia estão formadas e ocupam cargos importantes nas empresas e também na política, passaram muitas vezes pelas nossas discotecas a trabalhar para poderem tirar os seus cursos. Isto afeta muito mais do que aquelas pessoas estão a querer ver.

No seu caso concreto, tem trabalhadores em lay-off?

Temos trabalhadores em lay-off. Nós, no caso de Lisboa, tínhamos cerca de 50 funcionários. Eu tive que despedir uma parte deles, porque não aguentávamos, era impossível. Outros estão em lay-off, e outros nem em lay-off estão. A equipe que está mais chegada a nós, os gerentes, nós próprios, estão com outras condições. Agora, obviamente, aguenta-se um mês, dois meses, três meses e estamos a entrar num campo de desespero, porque ao fim de quatro, cinco meses, não há negócio nenhum no mundo que consiga aguentar, seja em que escala tiver, é impossível.

E nesse campo de desespero, como é que ouviu as declarações do primeiro-ministro, há umas semanas, a dizer que podemos ter um verão, ou seja, os próximos meses, com estes espaços a continuarem encerrados?

É um pesadelo. Eu quero acreditar que o senhor primeir-ministro vá ponderar sobre isso. Quero acreditar que também nós, em julho, as coisas tenham outro rumo. Também quero acreditar que o senhor primeiro-ministro, uma vez que abriu as fronteiras e que quer chamar turismo de países que tiveram uma contaminação muito mais elevada do que teve Portugal e são bem-vindos. É que isto acaba por ser contraproducente, porque repare, para umas situações vale a pena correr o risco. Para outras situações, vale a pena criticar, massacrar e no fundo, penalizar o setor. E depois eu também não acredito que grande parte desse turismo, que também vem à procura de lazer, vem à procura de diversão, venham para um espaço só para encontrar praia. Eu tenho essas dúvidas. Tenho muitas dúvidas que não venham à procura de restaurantes com perfil de animação, que não venham à procura de espaços de animação. Ou das duas, uma: ou não abrimos e fechamos tudo, ou então estamos aqui a penalizar apenas um setor com a desculpa que esse setor é de alto risco. Desculpe, acho que isso é completamente errado e acho que todos nós achamos isso, porque eu não estou a ver um grupo de ingleses que chegam a uma rua da Hora, ou Albufeira, ou Vilamoura, ou Vila Real, ou Lagos e se viram os bares fechados, que não se vão juntar. Nós todos conhecemos o perfil desse tipo de turista, e dos espanhóis, e que não se vão juntar em restaurantes e fazer a festa de outra maneira. E aqui, sim, é completamente revoltante, porque já estamos a assistir a isso nas bombas de gasolina, nos botelões, e vamos assistir isso com o turismo também. Então, por carga de água, tem que se dar um voto de confiança a quem percebe do assunto e que possa vigiar a situação. Portanto, eu acho que se é para abrir turismo, se é para abrir o que nós estamos a fazer, então temos que nos sentar todos, ver como é que podemos ter medidas de prevenção e todos ter aqui um sentido de responsabilidade muito grande e com a capacidade de podermos vigiar essas situações por perto. Eu acho que o risco é muito menor e acho que todas estas pessoas merecem respeito e quero dizer à senhora Ministra da Cultura, desculpe, já agora deixa-me mandar aqui a mensagem, que sei que fiz um termo de comparação muito grande com as discotecas e acho muito bem, que nós próprios também achamos que os festivais são importantes, mas ela que nunca se esqueça que nós também fazemos parte da cultura. Grandes artistas que hoje pisam os grandes palcos, o primeiro palco pisaram numa discoteca. Ela tenha isso em conta, que eles também são artistas e também merecem ser ajudados.

João Magalhães continua a aguardar por respostas. Até lá, faz contas aos prejuízos e alinha a estratégia para o momento de reabertura das discotecas. Depois de mais de 50 dias sem novos casos de contágio local, Pequim lida agora com um novo surto de Covid-19. Uma mulher que estava infectada, sem saber, visitou o mercado de Xinfadi, na zona sul da capital chinesa. A partir daí criou-se um foco de contágio ativo. Soaram os alarmes das autoridades chinesas. Avançou uma campanha de rastreio de grande escala e neste momento já se contabilizam cerca de 150 casos. Foram aplicadas novas medidas restritivas e as autoridades tentam evitar um novo cenário de propagação do vírus de forma descontrolada. Entretanto, esta semana fica marcada por um sinal de esperança. Um estudo da Universidade de Oxford revelou que foi identificado um anti-inflamatório que reduz para um terço o risco de morte em doentes ventilados e em um quinto em pessoas que estejam a receber oxigênio. Chama-se Dexametasona, é um medicamento de baixo custo e, de acordo com os investigadores britânicos, se tivesse sido utilizado atempadamente para tratar doentes com Covid-19 no Reino Unido, poderia ter salvado mais de 5 mil vidas num país que conta com mais de 40 mil vítimas mortais. É um avanço que pode ser decisivo para evitar a rutura dos serviços de saúde. Uma luz ao fundo do túnel, numa altura em que passam cerca de sete meses desde o início da pandemia. Já morreram quase 500 mil pessoas e mais de 4,3 milhões já conseguiram recuperar da infeção.

A pandemia recordou-nos a nossa identidade genética. Somos frágeis e mortais.

Chamo-me Marcelo Rebelo de Sousa, sou professor de jovens mais velhos que vocês, mas hoje vou matar saudades dos milhares de aulas que dei ao longo da minha vida e venho homenagear esta equipa, Estudo em Casa, e agradecer-lhes.

Nunca dissemos tanto esta palavra, mas são novas regras, novas formas de viver, novas formas de estar.

O atendimento é por agendamento e é por agendamento para a segurança das pessoas e a segurança de quem trabalha. Não é um capricho, é uma necessidade.

Vamos viver uma crise pior do que aquela que neste momento vivemos. E quanto mais tempo durar a pandemia, maior será a crise.