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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Hoje é dia 11 de junho, significa que ontem foi dia 10 de junho. Paulo, alguma novidade?
Costuma ser.
Boas contas. Alguma novidade, Paulo?
Amanhã parece que é 12.
É 12.
Se há alguma novidade? Não, não há nada de novo. As altas entidades oficiais juntaram-se todas, como é costume. Escolheu-se um local fora de Lisboa para dar ares de descentralização e de como até nos preocupamos com territórios que ficam a mais de 50 km do Terreiro do Paço, como é costume também. Falou-se da diáspora e dos imigrantes, como é costume. Fizeram-se paradas militares, como é costume. Disseram-se os discursos eloquentes sobre as glórias do passado. Falou-se muito do mar, como é evidente, já há muito tempo que não se falava do mar em Portugal, de como somos magníficos no presente e de como devemos cuidar do futuro, como é costume. Citaram-se muitos escritores, poetas e outros intelectuais, isso também é costume. E no final, os presidentes cumprimentaram-se, deram os parabéns uns aos outros. "Magnífico, excelência, bom discurso, esteve muito bem". Como é costume também. E depois da festa, desmontou-se a tenda, cada um voltou à sua casa e às suas funções de costume. E também como é costume, o país segue costumeiro, centralizado, sem ligar aos imigrantes. Veja-se, por exemplo, o caso do voto dos imigrantes. Há décadas que se fala daquilo, ninguém liga fora dessas datas. Com as Forças Armadas sem efetivos, a viver um presente estagnado e medíocre e com perspetivas de futuro igualmente sombrias, portanto, tudo como de costume.
Bruno, então lá por fora o Reino Unido volta a estar a ferro e fogo?
Sim, os ânimos já estavam exaltados após ter sido conhecida a sentença do homem que matou Henry Nova, um jovem inglês que foi esfaqueado por um cidadão de origem indiana e que morreu algemado e sob custódia policial. Agora, o caso de um outro ataque, com arma branca e perpetrado por um cidadão sudanês contra um homem branco em Belfast, tentando decapitá-lo, gerou uma nova onda de protestos violentos que se têm centrado na capital da Irlanda do Norte e nos arredores. Grupos vestidos de negro, de caras tapadas, têm incendiado carros e casas, atacam sobretudo negócios pertencentes a estrangeiros e imigrantes, atiram objetos à polícia e nem os apelos de vários políticos e da família da vítima chegaram para acalmar a indignação e a violência. O alvo da fúria popular, como dizia, tem sido sobretudo cidadãos estrangeiros e imigrantes. E a questão agora é saber se o barril de pólvora explode de vez ou se por agora tudo acalma até haver uma nova explosão. E há quem tenha muito interesse em ver tudo arder.
Paulo, a luta de classes agora faz-se nos areais das praias?
É verdade, bem-vindos a Portugal em 2026. A polêmica que não existia, mas que tratámos logo de fazer nascer, aí está. Já há relatos de pessoas que querem, obviamente, exercer o direito, que não sabiam, mas querem agora exercer o direito que ela lhes dá de colocarem o seu chapéu de sol mesmo em frente às áreas concessionadas de toldos e palhotas. Até este ano estava tudo bem, havia pacífica coexistência nas praias portuguesas, com zonas assinaladas. E agora há esta luta de classes entre os ricos que pagam toldos com espreguiçadeiras e tudo, às vezes até pedem bebidas lá para as palhotas, e os pobres coitados têm que levar de casa a sombra a que têm direito também. É um assunto fraturante, como são todos aqueles desta era. E se Karl Marx cá estivesse, já tinha reescrito o seu manifesto para banhistas de todos os países unidos. E já haveria o slogan, certamente: os chapéus de sol unidos jamais serão vencidos.
Bruno, e falando de ricos e pobres, não conseguimos atacar a pobreza?
Já nem é acabar com a pobreza, é mesmo atacar a pobreza. E às vezes parecemos mais preocupados em atacar os pobres do que em combater a pobreza. É que os números dizem que neste último capítulo não somos muito bons. De acordo com o estudo da OCDE, os apoios sociais representam em Portugal apenas 2% dos rendimentos das famílias, quando a média europeia se situa nos 6%. A OCDE critica a baixa cobertura das prestações sociais em Portugal, algo que atribui às regras de acesso restritivas, uma fraca adesão, que resulta também da primeira, e aos níveis limitados de apoio. O sistema, isso já tinha sido apontado, é demasiado complexo e fragmentado, com a existência das 27 prestações diferentes que supostamente agora deveriam ser agregadas na pensão social única. Mas o que temos ouvido mais nos últimos dias não são críticas à complexidade do sistema e à fraca cobertura dos apoios sociais, mas como os malandros dos pobres se aproveitam das falhas do sistema. Na verdade, o que acontece é que há pessoas que poderiam beneficiar dos apoios e por causa da complexa teia burocrática, nem sequer se candidatam a essas prestações. É isso que explica que os apoios sociais em Portugal estejam abaixo da média europeia. Mas parece que combater a pobreza eficazmente dá menos votos do que lançar anátemas sobre os pobres.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.