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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.
A pergunta parte como um perejil garrado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
Muitas perguntas que a comunicação social tem dado a fazer. Será que andamos numa nova fase na análise de rendimentos políticos?
Andamos. Acho que entramos claramente numa nova fase. Há um antes e um depois do caso Spinola Viva, e as notícias sobre rendimentos do passado de Marques Mendes estão para provar isso mesmo. Já não basta saber quanto ganharam, agora queremos saber quem foram os clientes últimos, se quisermos, que pagaram o serviço. E quando se conhecem esses clientes, as perguntas não param e passam a por que se pagou tanto, com que objetivo. É evidente que a legalidade é fundamental, é obrigatória, deve ser escrutinada, mas acho que já estamos também para além disso, e desconfio que este novo patamar não nos vai levar a um melhor lugar daquele em que estamos agora. Mas veremos.
Sim. Bruno, linhas vermelhas, o que é isso?
É uma lenda do passado, uma lenda semimorta. É um mito urbano. Agora vivemos numa nova fase, determinada pelos resultados das últimas eleições legislativas e, em particular, no caso de Lisboa, do resultado das autárquicas. O orçamento da maior câmara do país foi aprovado com os votos dos dois vereadores do CHEGA. E não há escândalo nenhum, porque os munícipes querem é que a autarquia funcione e os partidos têm de agir em função dos votos que lhes foram confiados. Os votos são o que são e o que é, tem mesmo muita força. Este entendimento talvez seja mais fácil a nível local, demonstra também alguma maturidade democrática, de que já tinha dado mostras em campanha do vereador do CHEGA, Bruno Mascarenhas, e as linhas vermelhas, como o papão das histórias infantis, têm uma utilidade: a de preservar a democracia. Quando são um instrumento de limitação da democracia, já está visto, não servem para grande coisa.
Estava a depressar-me sobre isso. Paulo, o número de pessoas em situação de sem-abrigo aumentou. Marcelo falhou o seu objetivo?
Falhou redondamente. Em 2019, o presidente da República tinha assumido o objetivo, em conjunto com o governo, de erradicar o fenômeno de sem-abrigo. Não era pouco.
Com o governo de então.
Exatamente, com o governo de então. E fazer isso até 2023. Ora bem, 2023 já lá vai há dois anos. Não só não acabaram os sem-abrigo, como até aumentaram 10% no último ano, isto é, estão em valores máximos. Por estranho que pareça.
Meteu-se a pandemia.
Mete-se sempre a pandemia.
E o apagão.
O apagão, e depois a guerra da Ucrânia, e antes disso tinha sido a bolha das dotcom, e houve o terramoto de 1755. Enfim, é só tragédias, isto, de facto. Por estranho que pareça, não basta fazer promessas ou enunciar objetivos para que as coisas aconteçam com o estalar de dedos. Por incrível que pareça, é mesmo preciso tomar medidas, encontrar soluções, fazer alguma coisa no terreno. Ou seja, no fundo, é preciso fazer o que ainda não foi feito.
Olá, Pedro Munhoz, bom dia.
Bruno, temos um governo extremamente tolerante.
Profundamente tolerante.
Tão tolerante que dá tolerância de ponto com fartura. Nos dias 24, 26 e 31 de dezembro, os trabalhadores da função pública terão tolerância de ponto. É um dia a mais do que é habitual, isto fruto dos caprichos do calendário e também da sensatez do governo, que sabe que esta não é a altura para fazer inimigos. Longe, muito longe, vão os tempos em que a falta de tolerância de ponto num Carnaval, nós ainda nos lembramos disso, pôs um governo de Cavaco Silva em dificuldades. Isto já para não falar dos cortes de feriados durante o período da Troika. O primeiro-ministro sabe que o caminho que tem pela frente é longo e por isso é bom ir descansando, não sobrecarregar e, sobretudo, como dizem os brasileiros, não forçar a barra.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.
A pergunta parte como um perejil garrado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.