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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Paulo, já começou a grande discussão orçamental. Este ano vai ser mais tranquila?

Esperemos que sim. Não é?

Namaste.

Namaste. Vocês andam no yoga. Não, pelo menos até agora tem sido mais tranquila, espera-se que seja menos intensa também em quantidade a partir de agora. A primeira semana de apresentação de propostas pelas várias bancadas no Parlamento foi bastante calma quando comparamos com aquilo que acontecia nos anos anteriores. Só entraram 97 propostas até agora. Nós no ano passado chegámos às 2 mil.

Só 97?

94.

Sim?

Muito poupadinhos.

Muito poupadinhos. Eu acho que o país vai parar assim, não é? Sem propostas, vai parar.

Onde é que isto vai parar?

Onde é que isto vai parar? Ano passado, recordo, eram cerca de 2 mil no final do prazo. Pois, era uma loucura de maratonas até às tantas da manhã a votar aquilo. Eu acho que já nem os deputados sabiam muito bem o que é que estavam a votar. Os temas destas quase 100 propostas são os do costume. Os deputados propõem, das várias bancadas, da oposição, claro, menos impostos, mais habitação, mais salários. Vamos ver também se aqui e ali há alinhamentos de partidos da oposição que imponham alterações ao governo. Isto é um dos prazos de ferro que pode acontecer. Mas para já, aquilo que era o hipermercado dos últimos anos parece ser agora uma daquelas mercearias de bairro, assim muito pequeninas.

Uma loja de conveniência.

Uma loja de conveniência. Podíamos dizer que de indostânicos, que está muito na moda, mas o do Chega será o do senhor Manuel, seguramente. No caso do Chega é a mercearia do senhor Manuel. Exatamente. Daquelas que têm alguma variedade, desenrasca ali na hora, mas tem pouca quantidade de produtos.

Portanto, muita calminha no orçamento. E nas presidenciais, Bruno, Cotrim quer ser a tartaruga?

Quer, porque não lhe resta grande alternativa. O lugar de lebre já está ocupado por vários. As sondagens têm aqui variado.

Às vezes a lebre é aquela que vai na frente para depois desistir.

Depois distrai-se, acha que já está ganho e depois acaba por perder. O antigo líder da Iniciativa Liberal parte, de acordo com as sondagens, para estas presidenciais em quinto lugar. E o maior problema é que quem está à frente ocupa aquele espaço eleitoral que Cotrim terá de conquistar se quiser passar à segunda volta, e ele já disse que o objetivo é mesmo passar à segunda volta. A tartaruga da fábula não teve de acelerar nos últimos metros, bastou manter o passo e confiar na arrogância da lebre. Já Cotrim não pode ficar só à espera dos erros dos adversários. Vai ter mesmo de sprintar, de acelerar. Só que é um sprint muito longo, porque ainda falta muito para a meta. Ele vai ter de correr muito depressa durante muito tempo se quiser chegar à tal segunda volta.

A ver vamos como é que fica essa questão das presidenciais. Entretanto, explica-me, Paulo, que tipo de relação tem André Ventura com as televisões?

Não é fácil. Não é uma relação linear, é complicado. É assim, à partida, uma relação amor-ódio. Parece que até é uma espécie de síndrome de Estocolmo, porque passa a vida a queixar-se André Ventura, mas ao mesmo tempo parece apaixonado pelas televisões. O líder do Chega sabe que precisa das televisões para falar ao país, para chegar ao maior número possível de cidadãos eleitores, e por isso passa lá a vida. Aliás, não houve seguramente líder político nos últimos dois ou três anos mais entrevistado nas televisões do que André Ventura. Ele vai porque é convidado, obviamente, mas também porque aceita esses convites, ninguém o obriga. E quem está nas redações sabe a quantidade de convites que são rejeitados. No limite, quase todas as redações gostavam de entrevistar frequentemente os líderes políticos. É assim. As agendas deles é que optam muitas vezes pelo doseamento.

Sim, para não saturar também a imagem. Ele não se preocupa com isso.

Não, zero. Antes pelo contrário, porque ninguém o obriga a ir. E isso leva-nos à pergunta. Mas chega lá, a primeira coisa que faz é queixar-se, vitimizar-se. Ainda deve ter acontecido este fim de semana na CNN. E a pergunta é: se não gosta, se é tão mal tratado, por que ele insiste em ir? Por que ele vai?

Porque ganha com isso.

Claro. E a vitimização faz parte do teatro. No sábado, abandonou o programa da CNN, em que estava com Francisco Rodrigues dos Santos e Pedro Costa, taticamente abandonou só no final, quando estava a acabar de responder à última pergunta. E portanto, ameaçou antes, mas não saiu.

E falou em armadilha, até pelos convidados.

A pergunta mais básica e mais simples.

Nós podemos discutir muitas coisas acerca do formato e dos participantes, mas ele sabia quem é que estava lá.

Todo a gente sabe quem são.

Não ficou surpreendido por quem eram os comentadores, não foi de surpresa.

Claro, tudo isto é para se vitimizar perante algumas pessoas que não saibam como é que estas coisas são, mas pronto, olha, cá está. É uma relação muito complicada.

E já que estamos a falar em abandonar, temos nova debandada no PAN.

Temos nova debandada. Agora foram mais de três dezenas de militantes, entre os quais a ex-líder parlamentar Bibiana Cunha, anunciaram anteontem a saída do partido. Os dissidentes tinham alertado para o rumo que o partido estava a seguir, caminhando para o que eles consideram ser uma confusão e um vazio ideológico, e como não tiveram resposta de direção, bateram com a porta. A direção do PAN, entretanto, reagiu como normalmente fazem os partidos nestas ocasiões. Está tudo bem, não há nada aqui para ver, sigam. Saíram 30, mas entraram mais, é o que diz o partido. Quantos? O partido não diz, mas serão muitos. Só que quem sai, e que até ocupou lugares de destaque no partido, é sempre mais importante, até pela experiência dos cargos que ocupou, do que quem entra sem qualquer experiência. Os números até podem ser equivalentes, mas a experiência é completamente diferente. Mas os partidos, já se sabe, são particularmente hábeis a maquilhar estas crises e estas debandadas.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.