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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

E olhamos lá para fora, Bruno, agora é que os russos vêm mesmo aí?

Se entendermos o aí por Europa e Europa de Leste, os sinais são preocupantes. A violação do espaço aéreo polaco por drones russos não é uma brincadeira, tem que ser levada a sério, ainda que haja possíveis justificações para o que aconteceu. E a preocupação dos polacos, sobretudo dos polacos, tem toda a razão de ser. Eles sabem que são um dos países mais vulneráveis, porque estão ali mesmo ao lado da Rússia. E é assim que às vezes os grandes problemas começam com passinhos muito pequenos, com incidentes que são desvalorizados. E Portugal também quis dar um sinal de preocupação. O Ministério dos Negócios Estrangeiros convocou o embaixador russo em Lisboa para lhe pedir explicações. Vale o que vale. Em Moscovo ninguém deve estar a tremer com esta convocação do embaixador, mas sempre é melhor esta atitude do que passar informações sobre manifestantes à embaixada russa.

E nos Estados Unidos, podem estar a caminho de uma guerra civil, Bruno?

Eu acho que, mais do que um diagnóstico, isso é o que algumas pessoas esperam que aconteça. E pessoas dentro dos Estados Unidos. Muitos comentadores de direita não têm dúvidas, estão em guerra, mas não é de agora. Não foi precisa a morte de Charlie Kirk para confirmarem aquilo que no fundo já sabiam. Consideram-se sob ataque da esquerda, e não é um ataque em sentido figurado. É um ataque real. E dizem também que terão de fazer tudo para resistir. De Steve Bannon a Elon Musk, as reações vão no sentido da necessidade de haver uma reação, e uma reação forte. Que forma é que esta reação assumirá? É a pergunta que muitos fazem. Responderão algumas franjas da direita na mesma moeda. Alexandria Ocasio-Cortez, por exemplo, cancelou a participação num debate que estava marcado e ela disse que foi tanto por respeito à família de Kirk como também por receio quanto a questões de segurança. Apesar dos apelos à serenidade dos antigos presidentes norte-americanos, serenidade é aquilo que começa a faltar mais. E como aconteceu agora, do clima inflamado das redes sociais aos atos na vida real, às vezes também aqui vai um pequeno passo.

Pois, e às vezes achamos que são dois mundos muito distintos, muito afastados.

Mas nós às vezes queremos nos convencer disso.

Queremos convencer-nos disso. Há também aqui um saltinho muito parecido. Precisamos de umas aulas de alemão.

André Ventura precisa, sobretudo, de pensar duas vezes antes de falar, em vez de falar duas vezes antes de pensar. Eu estava aqui a pensar que se ele tivesse tido uma boa relação com Rui Rio, talvez fosse a esta hora presidente do PSD e quase de certeza não cometeria a gafe que já entrou para o anedotário da política nacional. Este é o problema da indignação. A indignação é como uma droga. A certa altura, precisamos de estar sempre indignados com qualquer coisa, com razão ou sem razão, por muito absurdos que sejam os motivos. O problema, claro, é que se corre o risco de meter os pés pelas mãos e na ânsia de criticar os gastos do Estado e os abusos dos políticos e as mordomias dos responsáveis políticos, acaba por se confundir tudo, ainda que André Ventura não pareça muito inclinado até para pedir desculpas pela gafe que cometeu.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.