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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Calma, e se calhar chega-se lá, Bruno. Há fumo branco no Bloco Central?
Carla, e nem foi necessário um conclave à moda do Vaticano, com toda a gente fechada, mas foi preciso haver uma eleição falhada no Parlamento para que isto acontecesse. PS e PSD chegaram a um novo acordo para indicar o nome de Luísa Neto como nova Provedora de Justiça, isto depois do falhanço da candidatura anterior de Tiago Antunes, um nome indicado pelo PS, que ficou muito longe dos votos necessários, apesar do entendimento prévio que existia entre os dois partidos. E isto demonstra que, por vezes, os acordos de bastidores por si só não chegam. E também demonstra que, quando quer, o Bloco Central até funciona e consegue nomes mais consensuais. Luísa Neto surge aqui com um perfil bastante clássico para as funções, é constitucionalista, acadêmica, pouco dada a ruído político e é suficientemente transversal para não assustar ninguém, como aconteceu com o anterior nome proposto pelo PS. Portanto, fumo branco para uma escolha aparentemente, e atenção aqui o ponto, aparentemente pacífica.
Paulo, vamos mesmo voltar a ter...
Depois o voto é secreto, não é?
Pois é. Aí é mesmo como no conclave.
Claro.
Paulo, perguntava-te se vamos mesmo voltar a ter déficit como Bruxelas prevê.
Por regra, a Comissão Europeia é mais pessimista do que os governos e as previsões que ontem foram divulgadas não são exceção nessa linha. Os técnicos de Bruxelas preveem déficit para Portugal este ano e para o próximo, e preveem também menos crescimento económico. Sobre o déficit, se isso acontecer este ano, até será a coisa mais natural do mundo das finanças públicas. E por quê? Porque há uma série de despesas avultadas, de grande montante, relacionadas com as tempestades, que obviamente não estavam previstas no orçamento e que têm um impacto nas contas públicas. Ainda assim, a Comissão Europeia prevê um déficit mínimo de 0,1% do PIB para este ano. Para o ano já será mais alto, será de 0,4%. E por que estas previsões, por regra, também falham, ou pelo menos falham muitas vezes? Porque, como aprendemos na última década, o ministro das Finanças tem uma boa margem de manobra ao longo do ano, independentemente daquilo que está no orçamento, para ir controlando a despesa, como com as cativações, com adiamento de investimentos e, portanto, tem grande capacidade para contradizer as previsões de Bruxelas. Se isso é bom ou mau, isso então já é outra história.
E de Bruxelas vamos até Israel. Por vezes estica a corda.
Alguns elementos do governo israelita têm esse comportamento ao ponto de merecerem críticas não só dos aliados tradicionais, mas até do próprio primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Desta vez, a polêmica está à volta do ministro israelita da Segurança Nacional, Ben-Gvir. Ele divulgou os já célebres ou infames vídeos de ativistas da Flotilha para Gaza detidos, algemados, ajoelhados, enquanto ele próprio fazia comentários provocatórios do gênero: "Bem-vindos a Israel". O resultado foi imediato. Houve uma ampla condenação internacional, críticas dentro do próprio governo de Israel e até o primeiro-ministro Netanyahu vir basicamente a dizer: "Calma com isso. Israel tem o direito de interceptar os navios, mas o triste espetáculo do ministro já passa para um outro nível e merece o justo repúdio, até de quem defende Israel até à última". E este é o risco de, nestas circunstâncias muito complicadas, se dar uma lata de gasolina a um pirômano, como parece ser Ben-Gvir.
Não corre bem. Será que é mesmo verdade que vamos ter o registo predial online, Paulo?
Quando li nem queria acreditar, sinceramente, porque para muita gente é daquelas coisas que pode...
Usar a internet.
É usar a internet e não ter que passar horas, ir para filas para se ter uma fotocópia de um documento que está na posse do Estado. Mas é verdade, o anúncio está feito. Ontem à tarde o serviço já estava disponível. O Ministério da Justiça, que tutela o Instituto dos Registos e do Notariado, que gere esta área do Estado, garante que de facto há esse novo serviço digital de pesquisa de imóveis registados. Ele permite obter, por exemplo, as certidões permanentes do registo predial de forma automática em poucos minutos. A plataforma abrange prédios urbanos, prédios rústicos e mistos, possibilita ainda a inclusão, imaginem só, de vários imóveis no mesmo pedido. Isto é, não temos que andar a entrar e sair, só vê vários imóveis, paga-se através de Multibanco ou cartão de crédito e assim que fizermos o pagamento, ficamos com os documentos à distância. É um sonho. Basicamente, não é mais do que isso, é ter uma fotocópia de um documento que está na posse do Estado. Até agora, para obtê-la era preciso ir lá e esperar muitas vezes em longas filas para ter esses documentos. Agora já está disponível, só vamos rezar para que a plataforma funcione mesmo com alguma consistência, que já vai poupar muitas horas de espera.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.